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segunda-feira, 11 de julho de 2011

DESPERTAR BRUTAL

A SAGA DOS PRODÍGIOS continua com seu Episódio 22





AS TRÊS PRODÍGIOS CAMINHAVAM CAUTELOSAMENTE pela ravina, seguindo as indicações deixadas no terreno por Azif: um rastro óbvio ali, um grafito rabiscado no paredão crescente. Charya teve a impressão de que o rapaz encontrava-se nas bordas do alcance de sua telepatia – mas ainda assim o sentia com mais vividez do que podia detectar a presença de Euro.

        Mais cedo, antes de saírem do acampamento contrabandista para a primeira missão designada pelo Grão-Mestre, Charya reuniu a todos e conseguiu estabelecer aquele elo telepático forte – ela ainda não sabia o quanto aquela ligação iria durar, mas seria útil tanto para comunicação quanto para coordenação em caso de batalha.

        A maior dificuldade em estabelecer o elo havia sido com Berya (óbvio, dado que se conheciam há pouco tempo e a natureza um tanto retraída da Prodígio Azul) e – isso a preocupava – com Euro. Natural que sentisse Azif com mais força, já que guardavam dentro de si aquele amor não-concretizado, mas Euro parecia especialmente desfocado, desconectado... deprimido, talvez. Quanto a Dova, bem, a menina tornava tudo mais fácil, era uma catalisadora.

        Charya a princípio imaginou que os acontecimentos durante a semana em coma haviam revelado a Euro mais sobre si mesmo do que ele gostaria de saber. As memórias vagas de ser uma espada – uma espada como a katana que empunhava naquele momento, enquanto as três desviavam-se das rochas que atravancavam o caminho – nas mãos de Dova mostravam a Charya uma luta sem sentido de Euro contra  o próprio meio-irmão, e o murro descomunal que atingira a Prodígio Branca no rosto.

        As cenas haviam acontecido dentro da mente da própria Charya, claro, mas a realidade daquilo tudo era inegável para os três combatentes, e a Prodígio Vermelha saboreava devagar o paradoxo de que, apesar dela também ter estado lá, na forma de espada, e de toda a aventura ter se desenrolado dentro daquele espaço em branco – espaço lethean, como o chamavam os neander – suas memórias eram mais tênues e ela não tinha noção direta do que havia acontecido com Berya e Euro.

        Euro! De repente, aquela presença fraca do meio-neander, na orla extrema de sua percepção telepática, tornou-se vívida e pulsante – Charya enxergava sinestesicamente o ponto amarelo-claro virar um dourado reluzente, e sair apressado do alcance da mente da líder dos Prodígios.

        Rápido! Vamos dar apoio a ele, soou a voz da Prodígio Vermelha na mente de Berya e Dova. Mas logo Charya percebeu que não tinha ideia do que poderiam enfrentar; e que talvez estivessem caindo numa armadilha; mas a ordem já havia sido dada, e não queria parecer indecisa.

        Dova sentiu o cheiro de baunilha que era característico quando Charya tocava sua mente, uma pontada de medo, mas materializou seu armadoxo com facilidade e marchou para a frente na ravina onde antes Azif e Euro haviam se embrenhado. O báculo em sua mão servia não só para desferir golpes, como ajudava a focar sua intuição. Que diferença de quando tinha a “espada de Charya”, percebeu Dova, o descontrole de suas emoções naquela ocasião era evidente quando comparado à estabilidade que o báculo lhe fornecia.

        Percebeu também de imediato que “ele” era Euro e não Azif; e algo também lhe dizia que precisava correr, correr como Euro havia feito – ela não havia visto nem ouvido a investida do meio-neander, mais à frente, mas sabia o que havia acontecido com ele, o elo telepático entre todos estabelecido por Charya aumentava tremendamente a empatia e a ligação que sentia com os outros Prodígios. É como se eles fossem minha verdadeira família, pensou Dova, e logo se arrependeu, lembrando do avô e do irmão Manyu. As cenas de quando fez a “cópia” do irmão em pedacinhos a estavam assombrando desde que despertara do coma.

        Tentou ignorar a recordação e acompanhou as outras pela ravina, já ouvindo a voz de Azif gritar em sua mente, ecoada pelos poderes de Charya: Aranha gigante, demônio do Ermo, fardo que devemos suportar, cicatriz monstruosa dos erros de uma era passada, eu te exorcizo em nome da Rainha Mercúrio, que o Grande Goog me dê sabedoria na batalha, aquilo era uma prece, um mantra proferido em desespero mas solenidade. O tom apavorou Dova e reconfortou Berya – era idêntico ao tom dos sacerdotes da Terra Castanha.

        Na planície negra, a terra fofa pelo húmus não atrapalhou em nada o ímpeto de corrida de Euro em direção à aranha azul – corria poucos centímetros acima do solo, sem ser impedido por nada em seu caminho. Os últimos passos da investida na verdade foram se tornando um grande salto, e de um salto uma voadora direto no grande abdômen do monstro, que recuou ferido e assustado pelo brilho dourado do ataque – era como se estivesse distraído e fosse pego de surpresa.

        Aranhas daath não costumam ser desatentas assim, pensou Azif ao contemplar a cena, não são símbolos da vigilância incansável? O Prodígio Negro não perdeu muito tempo pensando após completar sua prece, e impeliu seu corpo pelo espaço na direção dos dois combatentes, buscando ajudar Euro a não ser trucidado pelo contra-ataque da aranha. O impulso arremeteu Azif para a frente, distorcendo o espaço e jogando-o direto para a planície de húmus.

        Foi então que ali, a cerca de dez metros de Euro, notou o que havia acontecido com seu meio-irmão: besouros e outros insetos dourados enxameavam sobre seu uniforme-paradoxo, e antes que a daath pudesse reagir, Euro vestia novamente placas douradas sobre o uniforme amarelo, formadas a partir dos minúsculos insetos que o paradoxo havia liberado. Novamente, como havia sido no sonho coletivo há tão pouco tempo. Só que agora era tudo real.

        Daquele ponto de vista Azif não conseguia enxergar o terrível terceiro olho na testa do Prodígio Amarelo, mas sabia que ele podia estar ali encimando uma tiara dourada, e alterando o comportamento de Euro como havia feito no espaço mental de Charya. Sacou a cimitarra do uniforme, pronto para intervir contra o próprio irmão se fosse preciso, de novo – mas agora havia a gigantesca aranha prendendo a atenção do “herói da Terra Castanha”, então era melhor ajudá-lo a matar o demônio do Ermo antes que algo pior acontecesse.

        Aproveitando o atordoamento da aranha daath, Euro ergueu as descomunais manoplas douradas que agora cobriam suas mãos, ajustou melhor sua posição em volta do monstro e, de mãos entrelaçadas, golpeou os muitos olhos da aranha, esmagando alguns no processo.

        Aliviado, Azif notou que o terceiro olho estava lá na testa de Euro, mas fechado. Empunhando a cimitarra que lhe serve de armadoxo, o Prodígio Negro sentiu de repente a presença de Dova correndo pela ravina em sua direção, e numa intuição profunda arremessou a cimitarra, girando contra a aranha, como nunca havia feito antes. A armadoxo rodou pelo ar como um bumerangue, cortando afiada uma das pernas articuladas do monstro, mas não retornou às mãos do dono – ao invés disso, foi o dono que se rematerializou com a cimitarra assim que esta fez seu estrago, num teleporte ainda mais espetacular pelo fato de que Azif reapareceu portando a máscara de gás e a musculatura artificial que havia sido característica do sonho compartilhado dentro da mente de Charya.

        Quando virou a cimitarra na mão para dar-lhe balanço, sentiu-a mais pesada: durante o arremesso ela havia de alguma forma aumentado de tamanho, estava mais para um alfanje que uma cimitarra curta – forçando Azif a empunhá-la com as duas mãos.

        Berya era um pouco mais rápida que as outras duas Prodígios e foi a primeira a chegar onde a ravina desembocava na planície negra.  Uma mistura de excitação e horror tomou a Prodígio Azul; sentia uma energia incomum percorrer todo o seu corpo da cabeça aos pés, deixando seus cabelos  arrepiados. Estacou bem onde o caminho pedregoso da ravina dava lugar ao húmus preto da planície, já com sua espada curta na mão. Quando as outras duas chegaram notaram de imediato como os olhos de Berya haviam se enchido de um azul profundo e de uma determinação intensa – como se ela fosse soberana de si, de tudo e de todos à sua volta.


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segunda-feira, 13 de junho de 2011

NO PRINCÍPIO ERA O PARADOXO

Arthur Ferreira Jr.'. apresenta o Episódio Vinte da SAGA DOS PRODÍGIOS, o primeiro da terceira fase, TEOGONIA




AS CHAMAS DOMINAVAM O HORIZONTE E CHARYA pôde enxergar a Torre Vermelha, a Torre Azul, a prisão-elevada e outros edifícios da cidade serem consumidos por trás das muralhas. O que estou fazendo aqui? Deveria ter acordado junto com os outros.

        “Não se assuste, menina,” soou a voz vinda do topo de uma árvore solitária na pradaria onde Charya contemplava o incêndio. “Isto aqui são apenas os últimos instantes das suas próprias criações. No mundo desperto, apenas segundos de diferença.”

        “Minhas criações? E quem é você, afinal?” A mulher no topo da árvore segurava a cabeça do inimigo que os Prodígios haviam acabado de derrotar. Ela usava vestes sacerdotais leves, exibia a Marca da Mãe-Monstro no rosto e sorria condescendente. Charya lembrou-se que ela estava presente na batalha dentro de sua própria mente... e que não havia interferido.

        Pelo menos, não aparentemente.

        “Observe.” A mulher ficou em pé na árvore, sem precisar de nenhum apoio, e apontou para exércitos que atacavam a cidade em chamas. Logo a cidade se desfazia numa nuvem e consumia os soldados.

        A nuvem se aproximava das duas, paradas no meio do nada e da vegetação rasteira. A cabeça de Mordekai abriu os olhos e a boca, “Vai acontecer tudo de novo ou vocês serão diferentes?”

        Charya soube que aquilo era só o material que havia preenchido o espaço vazio de sua mente, dissolvendo, deixando o campo livre e branco para ser o que ela quisesse, se um dia ela aprendesse como dominar mais a própria mente. Mas mesmo assim entrou em quase pânico quando a nuvem se aproximou, milhares de milhões de fragmentos metálicos rodopiando pelo ar e turbilhonando num trovejar sem fim, formando figuras e vultos em meio à escuridão que sua sombra provocava.

        “Nada pessoal,” gritou a voz da mulher por sobre o rugido da nuvem, “se precisar conversar, me procure aqui.” E aquela massa de trevas e metal engolfou Charya, que pouco antes de perder os sentidos – ou seria melhor dizer acordar – enxergou a desconhecida e a cabeça que ela segurava desfazer-se em fragmentos de metal e cristal reluzente e juntar-se a milhões de vozes, trovões, imagens, ícones, figuras, rostos, cheiros de óleo e sal, éter e carne podre, medos, desejos, conhecimento e esquecimento concentrados numa nuvem viva.

        Nada pessoal, nada pessoal, Charya acordou com a frase pulsando e repetindo no fundo da mente.

***


E de fato a frase a perseguiu até mesmo no dia seguinte, quando os cinco Prodígios saíam para sua primeira missão.

        O Ermo da Condenação começava a diminuir seu caráter agreste – o que tornava claro que eles estavam se aproximando das fronteiras da Terra Castanha. Haviam atravessado uma boa faixa de lodo cheio de húmus – Dova percebia a presença nítida das trufas logo abaixo da primeira camada de sedimentos, mas não estavam ali para catar trufas.

        Paradoxalmente, pensou Dova, porque eu fui “contratada” pra isso, não? Resgatada da prisão-elevada pra farejar trufas do Ermo. E ao invés disso, vou andando no meio desse nada com mais quatro pessoas que vestem o mesmo traje vivo que eu. Um de cada cor. E seria tudo mais estranho se o Grão-Mestre não tivesse contado aquelas coisas na noite de ontem.

        Berya andava logo ao lado de Dova e comentou em voz baixa, “Insuportável, não é?”

        “O que é insuportável? Seu uniforme-paradoxo tá coçando ou algo assim? ”

        “Não,” a garota mais alta respondeu, “a umidade das trufas mexe comigo. Eu as sinto lá embaixo, vivas. Quero sair daqui logo.”

        “É só isso mesmo? Você não parece muito bem... desde que acordou notei em você um ar de cansada. Apesar de não te conhecer antes das duas batalhas... nelas você não tinha essa expressão. É difícil não ter como voltar pra casa de seus pais, não é?”

        “Not exactly,” Berya respondeu no dialeto antigo que aprendeu no harém dos Mordekai, “eu vi meu pai morrer duas vezes, e nas duas eu me vi responsável por tudo. Agora eu sei que o Alienígena estava me controlando, e que eu não tenho culpa; e sei que na segunda vez, aquela coisa tinha só a aparência de meu pai. Mas a questão é que eu nunca gostei de meu pai de verdade, e só percebo isso agora. Mesmo quando não sabia que ele me pôs condicionada, a vida inteira com uma coleira dentro da cabeça, eu já sabia que ele não prestava: só não podia reagir.”

        “Eu não me dava muito bem com minha família, também. Só meu avô me entendia direito. Mas sinto falta da fazenda na fronteira, da vida em família... mesmo que vários da família não me fossem muito simpáticos, sabe?”

        “Você era uma dalai tsu como os outros que foram mortos, Dova-zula? Sabe, meu pai não teve nada a ver com aquele massacre. Foram os ortodoxos que te capturaram.”


        “Muito bem, Prodígios,” interrompeu a voz de Charya, soando direto nas mentes de todos, “Azif deu sinal de que já enxerga a Torre Azul. Preparem-se, porque talvez a cidade esteja sofrendo um cerco e seja difícil passar pelos zelotes.”

        “Sabe que eu duvido disso, não é, Charya?” A mente da Prodígio Vermelha funcionava como uma estação repetidora, permitindo que todos os cinco conversassem se estivessem perto o suficiente dela. Azif era o batedor, mas estava próximo o bastante para conseguir entrar em contato e reclamar, “Da última vez que estive aqui, era uma guerra civil desorganizada, e ainda não deu tempo de tropas de outros nomos chegarem por aqui.”

        “De qualquer forma, vamos ter cautela. Euro, vai mais adiantado pra dar cobertura a Azif.”

        O meio-neander olhou para trás – para as duas garotas que estavam até poucos instantes conversando, e mais diretamente para Berya – e, virando a cabeça de volta, avançou marchando, aproveitando que o terreno não era mais lamacento.

        “Então você não se lembra mesmo de ter destruído ou não a tearcubadeira que seu pai montou, Berya? Eu posso ajudar você a lembrar, isso nos pouparia tempo. Porque se não destruiu, é quase certo que ela foi roubada da Torre Azul.”

        A Prodígio Azul respondeu em voz alta, fora do canal telepático: “Desculpe, Charya-zula, mas prefiro que ninguém mexa com minha cabeça agora. Pode dar mais trabalho assim, porém é mais seguro. Sério.”

        “Calma, foi só uma sugestão e não uma ordem.” Charya fechou o canal telepático e pensou consigo mesma, nem eu mesma tenho certeza se ia conseguir o que sugeri. Eu não consigo acessar minhas próprias memórias, afinal de contas. Mas não posso parecer fraca demais. O Grão-Mestre me colocou como líder de campo dos Prodígios, esta é a nossa primeira missão e eu quero fazer de tudo pra não decepcionar ninguém. Recuperar a tearcubadeira da Torre Azul. Tirar a capacidade de gerar uniformes-paradoxo das mãos de qualquer sacerdote da Terra Castanha – ortodoxo ou herege.

        Hum. Me irrita um pouco esse hábito dela de nos tratar formalmente. Zul, zula. Tratamento típico dado a gente de fora da própria Família, na Terra Castanha.

        Oh, uma nuvem de fumaça no horizonte. Incêndio na cidade...? Não foi justamente de um incêndio que o Grão-Mestre mencionou em sua história?

        Só coincidência, não pode ser um sinal...

***


DO RELATO DO GRÃO-MESTRE FÍDIAS BENDANTE:

        Numa era anterior, o mundo conhecido se dividia entre duas grandes potências, duas grandes nações, e havia uma grande máquina numa cidade – uma máquina que podia transportar as pessoas para qualquer lugar do mundo, muito além do que você pode fazer agora, Azif. Essa máquina não funcionava direito e era uma relíquia de eras ainda mais remotas; mas era cobiçada, por alguma razão, por pessoas da nação oposta à da cidade.

        Naquela época, a humanidade estava se recuperando de uma praga que causava o esquecimento – todos, ou quase todos, eram como Charya... e o retorno da capacidade de lembrar trouxe consigo poderes incríveis. Um potencial imenso caía nas mãos dos homens, prodígios que vocês mesmos podem realizar, prodígios que vocês SÃO.

        Os humanos da nação que impôs o cerco a essa cidade – vamos chamá-la de Shamballa, assim a chamam em certos registros antigos – tinham o Povo Neander como prisioneiro, e grandes guerreiros e guerreiras do povo foram lançados no esforço de guerra contra Shamballa. Entre estes haviam cinco, que são importantes nesta história que conto agora.

        Um homem dessa nação invasora dotara um esquadrão especial de cinco neander, três homens e duas mulheres, com os primeiros uniformes-paradoxos conhecidos. O que reza a lenda é que ele sabia o que estava fazendo: não criando uma arma de guerra para sua nação, Aggartha, mas libertando todo o Povo Neander. Depois de praticamente incinerar a cidade para tomar a máquina de teleporte, o esquadrão assumiu o controle de Shamballa e voltou-se contra Aggartha. Os líderes humanos das duas nações tinham grandes poderes como os de vocês, mas os uniformes ampliaram tremendamente as capacidades dos neander – não só do esquadrão como do Povo Neander inteiro.

        Apesar dos poderes novos descobertos e das incríveis armas do passado redescobertas, essa guerra só fez desfazer as duas nações em várias outras menores e gerar zonas arrasadas... como o Ermo da Condenação.

        Com o tempo, o Povo se refugiou nas cavernas subterrâneas que um dia fizeram parte do Império de Aggartha, e cada bebê nascido desde esta época era unido a um uniforme-paradoxo. Os paradoxos aceitavam – e aceitam – os  neander com muito mais facilidade do que um humano como eu. O Povo Neander e o Paradoxo tornaram-se uma só espécie. O Paradoxo estruturou a cultura, a tecnologia e até os ritos de acasalamento dos neander – enquanto em uma pessoa como eu, um uniforme se alimenta de certos fluidos vitais, de certas energias, que me impediriam de ter filhos... nos neander essa ligação é suspensa em determinadas épocas do ano, e na prática é como se eles entrassem num cio, acasalassem e voltassem ao normal estéril depois da concepção.

        Uma mulher do Povo, quando grávida, é afetada pelo uniforme-paradoxo que ela veste, e o bebê já nasce com uma semente do Paradoxo em si, que cresce com o tempo, ajustado a ele. Vocês viram um processo parecido acontecer em Dova, vindo do uniforme de Euro, só que muito mais acelerado. Como o próprio Euro não nasceu de uma neander e sim de uma humana-padrão... a mesma mulher que deu a luz a você, Azif, e a você, Berya... o meu filho adotivo aqui não foi preparado para o Paradoxo e correria risco de vida se tentasse se unir a um uniforme.

        O Incêndio de Shamballa marcou o fim de uma era e o início de outra. Os poderes incríveis foram amainando, encontrados cada vez mais apenas em certas linhagens, e as armas estupendas foram ocultas por governantes paranoicos, mantidas nas mãos das elites. Mas se o que foi passado de boca a boca na minha Família for certo, começamos agora uma nova era: a Era dos Prodígios.





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domingo, 24 de abril de 2011

ALÉM DA TORRE VERMELHA

Arthur Ferreira Jr.'. acha que o Episódio Dezenove fala por si mesmo.
E com ele a SAGA DOS PRODÍGIOS chega ao final do segundo arco de histórias: REVOLUÇÃO








PRODÍGIOS! VAMOS RESOLVER ISSO E IR PRA CASA! O pulso telepático de Charya se fez ouvir na mente de Azif, Berya, Dova e Euro, e a Prodígio Vermelha ergueu a katana dupla e começou a girá-la por sobre a cabeça. A nanoconsciência com a forma do Alto Sacerdote Mordekai arregalou os olhos ao perceber que estava tudo perdido. Azif notou que a outra nanoconsciência – a que assumira a forma da Matriarca Kashramael – casualmente encostou-se na parede do salão, braços cruzados e sorridente, como se para assistir um espetáculo.

        Azif... a voz de Charya quase dominava a mente do Prodígio Negro com tamanha força e presença, e o rapaz sentia o amor que ambos sentiam um pelo outro, cada um à sua maneira. Agora, como da última vez! Me lance pelo ar!

        A segurança naquela voz telepática deixava claro que ali eles podiam ir além de seus limites – e Azif limitou-se a brandir sua cimitarra negra na direção de Charya, contrariando toda a fadiga que o exauria. A katana dupla girou mais forte e a Prodígio Vermelha sumiu naquele ponto num estrondo, ressurgindo por trás do Alienígena que havia reassumido parte de sua forma original e atacava Dova, estrangulando-a com seus tentáculos. Depois do teleporte, as lâminas pareciam cortar o próprio espaço. Como um ciclone, Charya girou a espada de dois gumes por sobre a matéria ectoplásmica do monstro, fazendo jorrar parte de sua substância viscosa e algo que parecia sangue sobre Dova, Euro e o falso sacerdote Mordekai. Os tentáculos afrouxaram o aperto e Dova se viu livre de novo, respirando fundo e recobrando a sanidade que havia sumido em parte durante toda aquela aventura.

        A menina soube então que era a fúria de Charya presa na forma da katana que havia empunhado aquele tempo todo. Eu sou uma catalisadora, lembrou Dova, e repetiu mentalmente a litania que seu avô Nehru havia lhe ensinado. Eu me conecto. Eu aprimoro. Eu absorvo. Eu curo.



        Euro olhou para Charya enquanto manietava o falso Mordekai, que resistia bravamente, e lhe ocorreu, letheana transcendente, ela poderia simplesmente escolher acordar agora e encerrar tudo mas prefere nos unir na batalha – é como um simples treinamento, ou essa coisa com o rosto do Alto Sacerdote é responsável por este falso mundo e ela está disputando pelo controle mesmo agora? Este pensamento fez Euro redobrar os esforços em manter Mordekai preso. Tentava lhe aplicar um mata-leão mas o duplo saía-se muito bem resistindo a suas manobras.

        Berya fitou fixamente a figura com a forma de sua mãe, que encostada na parede esperava o desfecho da batalha. “Você é a deusa? A Mãe-Monstro?”

        “Devia dar atenção aos seus amigos,” o duplo respondeu com um tom de sarcasmo. “Mas pode-se dizer que sim, sou a Mãe-Monstro, apesar de ser uma entre muitas. Meu nascimento não foi finito, foi infinito, assim diz o Manifesto da Mãe-Monstro. Eu sou uma imagem... e fui programada por sua mãe.”

        “Então o outro...”

        “Inferior, programado por seu pai para suprimir sua rebeldia. E permaneceu com você, dentro do corpo e da mente, mesmo quando foi possuída por aquela criatura. E como seu pai, ele serve àquela coisa. Ia deixar vocês presos aqui para sempre... e Charya em coma.”

        “A criatura está aqui mesmo? Como eu e você?”

        “É só uma projeção da vontade desses novos deuses usurpadores, e está se desfazendo agora graças a Charya. Vai lhe fazer bem se voltar à antiga Fé, minha filha. Pense como uma proteção extra.” E sorriu insinuante, exatamente como a Mãe-Monstro sorria nas antigas esculturas.

        Azif conseguia ouvir este diálogo enquanto corria na direção do falso Mordekai, pensando, talvez Charya tenha unido a mente de todos nós. Se for assim... devemos destruir juntos o verdadeiro inimigo. A cimitarra negra penetrou fundo o corpo do duplo, que não conseguia se mexer direito enquanto lutava contra Euro.

        Dova percebeu que o resquício do Alienígena que havia infiltrado a mente de Charya na batalha do labirinto-penhasco foi se desfazendo como um camaleão-do-meio-dia atingido por Euro. Àquela curta distância, a Prodígio Branca conseguia ouvir a vibração da espada dupla de Charya que havia cortado Alienígena e o próprio espaço ilusório ao redor dele – um perfeito golpe mental. Vendo Azif brandir a cimitarra contra o Alto Sacerdote, Dova notou que o cansaço no rosto de seu amigo se desfazia ao chegar tão perto dela. Sou mesmo uma catalisadora, meu avô estava certo. Com um salto a garota se pôs do lado de Azif e Euro, sua mão esquerda esticada para tocar o ombro do Prodígio Amarelo.

        Berya voltou-se para a batalha e com um gesto duplo, as duas espadas curtas voltaram às suas mãos. É incrível, pensou a Prodígio Azul, todos nós cinco somos paranormais, não só a telepata. E a menina de branco catalisa e aumenta os poderes de todos nós, e mais ainda porque todos usamos uniforme-paradoxo. Deu alguns passos na direção do centro do salão. Percebo com toda clareza meu potencial agora... não apenas farejar trufas, mas dominar o fogo-fátuo do Ermo e a própria energia que define essa maldita duplicata de meu pai... Berya franziu a testa e segurou com mais força as bainhas de suas armadoxos. Eu leio os padrões nesse duplo e leio até como ele define o que estou fazendo com ele: eletrocinese.
        Enquanto eu provoco falhas na estrutura dessa... nanoconsciência... eu roubo os dados que a compõem... antes que Euro a destrua completamente... A Prodígio Azul cruzava as lâminas das espadas como se as amolasse ou cobiçasse um prato que ia ser posto na mesa.

        Euro sentiu um leve calor percorrer seu corpo e sua confiança ser redobrada. Vamos, Euro! A telepatia de Charya soou em sua mente. Deixe que Dova o faça ultrapassar todos os limites... o meio-neander sentiu que a força de suas mãos não era apenas força física mas uma imposição da mente sobre a matéria. Telecinésia tátil, pensou Berya enquanto absorvia o conhecimento do falso Mordekai.

        A azul pouco a pouco fragmentava o impostor em pedacinhos. O negro vibrava sua lâmina dentro dele, despedaçando o espaço que o definia. A branca fazia sua parte retirando as limitações do negro e do amarelo e aprimorando os poderes de todos. A vermelha emitiu mais um comando telepático, dando uma confiança ainda maior ao amarelo e os dois, num só movimento sincronizado, fizeram a cabeça do falso sacerdote rolar com um golpe decapitador e seu corpo explodir por dentro com telecinese.

        A cabeça quicou e foi rodando pelo chão até os pés da Kashramael-simulada. E antes que Berya ou os outros pudessem recobrar o foco e fazer alguma coisa, ela se abaixou, segurou a cabeça degolada e disse antes de desaparecer, “Baibai, filhotes.”

        A cena foi desvanecendo e a visão de todos os cinco foi se tornando turva – até mesmo a de Charya, que não resistiu e... acordou num colchão improvisado do novo acampamento nas cavernas dos contrabandistas.

        Anisha, a mãe adotiva de Euro e Azif, esposa do Grão-Mestre, passava um pano úmido em sua testa quando os olhos da Prodígio Vermelha se arregalaram – o que fez com que a mulher espantada gritasse por seu marido e pelos outros.

        Ao redor dela, outros quatro colchões, dois de cada lado, com os outros Prodígios despertando aos poucos. O Grão-Mestre Bendante veio correndo afobado e se postou diante deles, o sorriso aflito desenhado no rosto envelhecido:

        “É mesmo um Prodígio que estejam vivos! Uma semana desacordados e só vivendo de água e da energia reciclada pelos uniformes.”

        Dova espreguiçou-se e foi a primeira a tentar levantar, notando que era verdade, não haviam lhe tirado o uniforme-paradoxo. E ele – bem como os outros quatro – havia 'voltado ao normal', sem desenhos estranhos ou decotes insinuantes. Passou os dedos no ombro e comentou, ressabiada, enquanto os outros esfregavam os olhos, “A gente nunca tira essas roupas?”

        “Hum, precisamos mesmo conversar. E todos nós, não só você e eu, Dova.” O velho Bendante passou os olhos em sua tropa e pediu, “Antes que façam qualquer pergunta, vou lhes contar uma história. Não quero ser interrompido enquanto não a terminar... pode ser?”







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sábado, 23 de abril de 2011

O RETORNO DA RAINHA

O Capítulo Dezoito da SAGA DOS PRODÍGIOS surpreendeu até ao autor Arthur Ferreira Jr.'.




Prazer em conhecer
Espero que adivinhe meu nome
Oh, sim, pois o que os confunde
É a natureza do meu jogo

Cântico da Simpatia, de um culto dalai tsu à Avalanche


NO CENTRO DO SALÃO DE MÁRMORE RUBRO, um homem de vestes sacerdotais púrpuras sorria para os três Prodígios enquanto tocava a coxa de uma garota pendurada por correntes do teto, trajando um uniforme-paradoxo vermelho. Entre esta figura – Azif a identificou de pronto como o Alto Sacerdote Judaas Mordekai, ou um simulacro da mesma espécie do irmão de Dova – e os três invasores estava a Soberana Berya, as duas mãos erguidas na direção de Dova, que se contorcia no chão com o choque elétrico provocado pelo fogo-fátuo.

        Dessa vez o fogo-fátuo não parece muito a nosso favor, pensou Azif fascinado. Demônios do Ermo, como ela é bonita... mas é minha irmã. Enquanto Euro aparecia na porta para ajudar Dova, Berya ergueu as mãos em gestos precisos e solenes, declarando numa voz autoritária: “Pela honra da Terra Castanha...!”

        Os véus que lhe cobriam o corpo azulado pareceram obedecer a uma compulsão mágica, pois se dissolveram como névoa sobre a pele de Berya e se reformularam como um tipo de exoesqueleto macabro, vagamente biomecânico, acentuando a aparência já alienígena da Soberana. Seu cabelo longo e azul se movia como se houvesse vento forte no salão, e as laterais de seu rosto se cobriram da mesma casca resiliente que lhe protegia o corpo. Toda essa transformação levou pouco mais de dois segundos para acontecer. Os olhos brilhavam com um azul sobre azul, sem distinção de pupila.

        Azif não sabia bem o que dizer e tentou argumentar, “Nós só estamos aqui para ver Charya, não queremos machucá-los...” O olhar que Berya lhe retornou era indiferente e frio. Era como se estivesse em transe. Ela o respondeu sacando do exoesqueleto azul-quase-negro que cobria seus braços, duas espadas curtas de metal também azul, só que de outro tom, leve e reluzente – era a primeira vez que Azif via alguém manifestar dois armadoxos de uma só vez. É um pesadelo, e eu quero acordar, gemia no fundo de sua mente.

        Dova abriu os olhos meio atordoada e viu a situação toda num átimo. Alguma coisa dentro de si – mais forte que suas intuições, mais forte que o sussurrar de seu uniforme-paradoxo – a moveu para a frente, e ela sabia que era o único ato certo a fazer: deu um chute preciso no meio das costas de Azif, tirando seu fôlego e fazendo-o cuspir um jato de cristal como aquele que havia antes se desprendido no lodaçal... a nuvem de cristal anão que se formava rodopiou e distraiu Berya, e isso foi a deixa para Euro investir correndo sobre o sacerdote Mordekai.

        Berya tentou ignorar a nuvem e atacar Azif e Dova com suas espadas, mas o próprio cristal a impediu – assumiu uma forma feminina, a mesma que mais cedo Azif havia confundido com sua mãe, Kashramael. “E então, menina? Vai ferir sua própria mãe?”

        Enquanto isso Dova se arremessava por cima do campo de batalha que o salão da Torre havia se tornado, empunhando báculo e katana na ânsia de ajudar Euro a derrotar Mordekai, que havia recebido um soco poderosíssimo no rosto, sem piscar. “Não sou tão frágil quanto vocês imaginam – e que ótimo, a garotinha veio trazer a espada da Adversária para mim...”

        Azif estremeceu ao ver a figura de cristal sair de dentro de si e assumir de novo aquela forma, mas sua surpresa paralisante durou pouco.  Teleportou-se para trás de Berya e pôs a cimitarra em seu pescoço, “Renda-se, eu já disse, não quero ter que te machucar, irmã...” Falo a verdade, pensou Azif entrando numa espécie de desespero, mesmo sendo aqui só um sonho muito real.

        “Esta não é minha mãe, mortal.” Mortal? Ela pensa que é uma deusa?

        “Exatamente, filha. Você não é sábia e onisciente? Então,” interrompeu a criatura com a forma de Kashramael, sorrindo e exibindo dentes afiados, “use sua visão profunda e enxergue o que eu sou – o que todos nós somos!”


        Uma semente de dúvida brotou na mente rígida de Berya e ela fez o que a coisa pedia. Sua percepção se expandiu, tocando toda a Torre Vermelha... e a presença próxima dos outros quatro estimulou algo que ela não tinha experimentado antes: toda a área ao seu redor era branca, um nada informe, uma aparência ilusória... e só ela e os outro três Prodígios eram reais. Até mesmo os guardas mortos nos corredores não passavam de decoração... exceto duas criaturas cristalinas que enxameavam assumindo formas humanas, a forma de sua mãe diante de si e a forma de seu pai lutando contra Euro e Dova. O padrão dos cristais era o mesmo dos ídolos de cristal anão que ela guardava em um nicho na Torre Azul, durante sua infância. Restos de uma era anterior, depósitos de informação, objetos de veneração – os cristais anões também eram usados pela elite da Terra Castanha para condicionar os jovens mais problemáticos de sua própria casta. Aquilo se tornou evidente às percepções profundas de Berya. Era como brincar com fogo, porque aqueles dois cristais haviam assumido vida própria, mas ela ainda não saiba o porquê.

        Dova ergueu a katana de Charya e percebeu que havia cometido um erro – ao saltar ansiosa para combater o Alto Sacerdote, não havia deixado uma mão livre para fazer o gesto de bênção e liberar a Prodígio Vermelha de seu sono forçado. Mas percebeu que podia usar a espada para dispersar Mordekai em pedacinhos como havia feito com a falsa Kashramael – os dois pareciam ser feitos da mesma substância, distinta tanto da dos zelotes derrotados quanto da substância dela, de Euro, Azif e Berya. Apenas não conseguiu fazer isso, porque Mordekai vibrou um golpe de mãos nuas sobre o pulso de Dova, desarmando-a e fazendo a katana cair longe, quase aos pés de Berya e Azif.

        “Filha!” gritou o falso sacerdote enquanto tentava se desvencilhar de Euro que o tentava imobilizar, “Eletrocute esse desgraçado e pegue a espada!”

        “Não...” Berya jogou as próprias espadas longe e Azif imediatamente retirou sua cimitarra do pescoço da irmã. A Kashramael-simulada deu três passos para trás como se quisesse assistir melhor a cena, ainda sorrindo, divertida.

        Dova aproveitou que Euro deixava o sacerdote ocupado e usou sua mão livre para tocar o corpo da Adversária – parte da sua raiva havia se esvaído ao ser desarmada, Charya deveria acordar naquele instante e tudo estaria acabado, o sonho teria um fim.

        Mas não foi isto que aconteceu.

        A Adversária abriu os olhos e Berya imediatamente sentiu que aquela massa inerte com a forma de Charya despertava e diferenciava-se da massa branca e ilusória, era na verdade – Berya sentia isso com sua segunda visão profunda – um rodopio multicolorido, como a aurora boreal do Ermo. Como o Alienígena que a havia possuído, ela agora lembrava. Algo está faltando, algo está faltando, alguém... E lembrando tentou um ato inesperado – estendeu a mão para a espada e ela veio para suas mãos, por um instante parecia que empunharia a katana de Charya numa batalha mítica contra o Alienígena e a criatura cristalina que havia assumido ali a forma de seu pai...

        Mais uma vez, não foi isto que aconteceu.

        A Adversária atacou Dova estendendo tentáculos cor de aurora que saíam do corpo idêntico ao de Charya, os olhos multicoloridos como Dova havia presenciado em Berya na batalha no labirinto-penhasco. Euro se engalfinhava com o sacerdote que parecia muito mais forte do que sua forma franzina aparentava. Azif avaliava a situação e preparou-se para teleportar para o lado da Adversária e defender Dova.

        Berya partiu a katana com as duas mãos – parecia mais fácil do que quebrar a casca de um ovo – e o ar diante da Prodígio Azul se distorceu, dando lugar a uma garota de cerca de seus dezessete anos, cabelos loiros presos num rabo de cavalo, olhos atentos e boca carnuda, envergando um uniforme-paradoxo vermelho – quase uma armadura feita de casca de crustáceo perfeitamente adaptada aos contornos de seu corpo, cheia de espinhos rubros – e uma espada de dois gumes nas mãos, na verdade uma katana de dois gumes.

        Charya, a Prodígio Vermelha.

LEIA O EPISÓDIO ANTERIOR
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terça-feira, 5 de abril de 2011

ESCARLATE E RUBRO

Arthur Ferreira Jr.'. conjura do Ermo da Condenação o Nono Episódio da SAGA DOS PRODÍGIOS





CHARYA QUASE ENTRAVA EM DESESPERO ao ver que, apesar de ter sido abalada pelos primeiros golpes, a criatura que saíra dos olhos da Prodígio de azul havia se recuperado muito rapidamente e um de seus tentáculos havia conseguido agarrar Dova de jeito; ela agora se debatia a vários metros de altura.

        Pelo menos, parecia que o fogo azul que cobria o monstro, vindo da espada curta da novata de azul, tornava a criatura mais fácil de atingir e, toda vez que Charya conseguia atingir a substância viscosa que o compunha de jeito, um frenesi se apoderava dela e seus golpes ficavam mais potentes, ela esquecia o cansaço e os ferimentos. O que era aquele misterioso fogo-fátuo, depois que tudo acabasse, Charya sentia obrigação de descobrir.

        O problema é que o monstro parecia não cair com muita facilidade, ao contrário dos camaleões-do-meio-dia que comandava e que estavam sendo dizimados por Euro, Azif e pelos contrabandistas.

        “DROGA!” Charya ouviu o grito do meio-neander chegando mais perto, correndo e berrando, “Temos que libertar Dova!”

        “Eu acho que não dá, irmão...” soou a voz de Azif perto do ouvido esquerdo de Charya. Como ele havia chegado ali tão rápido, não estava do outro lado do campo de batalha há poucos segundos? “Se eu entendi direito o que você me disse, Euro, eu vou tentar algo ainda mais arriscado!”

        Do que estão falando? A força telepática de Charya, potente como a força dos golpes de katana que ela aplicava no monstro, soou na mente dos dois Prodígios. “Você vai ver agora, prima” sussurrou Azif no ouvido da Prodígio Vermelha, e agarrou a cintura da moça.

        Charya só não se surpreendeu mais do que o fato de que, um instante depois, estava suspensa no ar perto de Dova, havia se desmaterializado e recomposto em pleno ar... e ouviu os brados de Euro logo abaixo, “Use seu toque mágico nela, Dova!” e Azif gritando, “Uma bênção como a que você nos deu!” Charya ainda sentia um formigamento na cintura onde Azif a tinha agarrado, quando os dedos de Dova conseguiram tocar em sua cabeça, justo antes da inércia espacial do teleporte de Azif se quebrar e a Prodígio Vermelha começar a cair.

        Enquanto Charya caía, uma voz gritava em sua cabeça, “EU! EU! EU! EU! EU!...” e ela percebeu que o tempo se desacelerava, sua mente ardia e a voz que ouvia era a sua própria...

É estranho... onde caí? No chão é que não foi.

        Deuses, me sinto tão atordoada como naquele dia... quatro anos atrás. Só vejo algumas formas na minha frente... cinco formas... e um clarão!





       É como se tivesse voltado àquele dia, preciso controlar minha mente... que está acontecendo... o Ermo está quente como nunca, o sol a pino... só pontos avermelhados diante de mim... rastejando como uma coisa pelo Ermo... e sou só uma coisa: nem nome tenho, nem sei quem sou.

        Fome.

        Sede.

        Calor.

        Quem me abandonou aqui? Logo esta pergunta deixa de fazer sentido, vejo um homem se aproximando de mim... e com ele outras pessoas. Dois garotos, e algumas outras pessoas que se mantém à distância.

        Só consigo enxergar seu bigode grisalho e as vestes de nômade chegando perto, me apavoro, mas ele me segura com gentileza e pede ajuda aos dois meninos. Um deles tem uma cara estranha e deve ter menos de dez anos; o outro deve ser mais ou menos da minha idade... mas que idade tenho?

        Disso tenho certeza: tenho treze anos. Ou tinha naquele momento, por quê o estou revivendo?

        “Papai,” ouço a voz do ruivinho, “o que é essa voz dentro da minha cabeça? Ela tá perguntando por que tá revivendo este momento...”

        “Ah!” a voz do velho se faz ouvir em meus ouvidos cansados, enquanto ele me carrega, “Telepatia! Isto é tão raro, tão útil, que ela merece ser salva mesmo que eu não tivesse um pingo de compaixão nas veias!”

        O rapaz da minha idade me dá água de um cantil. A expressão dele é tanto de fascínio quanto de medo.

        Mas eles me acolheram. E naquele momento me senti especial, eu que não era ninguém. Sentia-me conectada às mentes deles... e talvez eles não houvessem percebido nada, apesar do rapaz de cabelos negros não tirar os olhos de mim.

        E aquela sensação nunca se repetiu.

        Fui treinada como sentinela pelo Grão-Mestre, e ele determinou que eu só podia transmitir mensagens telepáticas – nem imagens, nem conceitos, nem sondar mentes, só falar, falar e falar.

        “Azif,” dizia o Grão-Mestre, “pelo próprio dom de sua mente, Charya é um Prodígio. E se é um Prodígio como você, os dois receberão o paradoxo no mesmo dia. Não é isso que você queria? Que ela recebesse um uniforme?”

        No dia em que Azif fez quinze anos e eu dezesseis, recebemos dois uniformes idênticos. Tinham a cor da terra do Ermo, como um coágulo. Só que enquanto Azif ficou muito tonto e ajoelhava-se no chão pedindo perdão, seu paradoxo enegreceu e espinhos metálicos dele brotaram, eu o empurrei na cerimônia de oferta e saí correndo, vestida de vermelho, escarlate e rubro, e me perdi nos cânions porque ninguém conseguiu me achar até o dia seguinte.

        E estou perdida de novo. No escuro, as cinco formas se tornam mais visíveis: são cinco garotas iguais a mim, em cada detalhe, exceto que não portam armadoxo algum e, cada uma delas tem uma cor diferente de traje: azul, amarelo, branco, negro... e vermelho como eu.

        Elas me atacam, e é uma luta desigual num corredor indefinido. As portas estão trancadas e não consigo escapar delas. Mato a cópia de negro, mas ela volta a viver... e acontece o mesmo com a de branco... e eu não consigo atacar a que é igual a mim.

        Essa maldita!






        Onde eu estava antes? Deve ser isso, deve ser isso, antes que eu morra, é melhor que eu morra!

        Paradoxo...

        Agarro a cópia vermelha pela garganta e a sufoco até que ela morra; as outras observam caladas, como se esperassem... o duplo se esvai, desaparecendo, e tudo explode num grande clarão...

        E eu solto um grito de pura satisfação de conseguir me libertar...


    “Continuem atacando!” gritava Euro, com Charya nos braços. “Ela vai voltar a si!” Lá em cima, Dova estava quase sufocada pelos tentáculos do monstro. Tocar em Charya havia sido um esforço que a deixou vulnerável ao aperto da criatura.

        E quando parecia que não havia mais jeito, Azif girando sua cimitarra sobre a substância bizarra do Mensageiro, Berya tentando desequilibrá-lo com sua espada, sem efeito algum... os contrabandistas atacando com suas armas de choque... a Prodígio de vermelho abre os olhos acordando, grita empunhando sua katana, e Euro é o primeiro a sentir o impacto, a conexão em sua mente, algo que havia sentido apenas uma vez, quatro anos antes.

        Azif também percebe, e sua lembrança é ainda mais real; Berya sente na mente um contato que não é invasivo como foi o do monstro a possuindo, e Dova, quase desfalecendo, ganha vida nova e consegue desvencilhar seu báculo do tentáculo do Mensageiro.

        A força de todos os quatro é canalizada para Charya e o grito continua, só que desta vez, com potência telepática total, direcionada contra o monstro gigante; Charya salta para a frente e acompanha o grito com uma perfuração funda na substância da criatura, fazendo com que ela trema freneticamente, largando Dova.

        A Prodígio de branco cai no chão como se fosse uma pluma, com um giro acrobático, e o Mensageiro explode como se fosse um mero camaleão-do-meio-dia atingido por Charya.

        Os contrabandistas suspendem o ataque e o Grão-Mestre corre em direção dos garotos, “Muito bem, Charya! Sabia que vocês conseguiriam! É um Prodígio!”

        Mas ela não aguenta nem dez segundos em pé, e ao cair também desabam, como em sincronia, os outros quatro Prodígios. Antes de desmaiar, só teve forças de dizer:

        “Eu nasci assim.”




segunda-feira, 4 de abril de 2011

ORIALCO E ÂMBAR

Arthur Ferreira Jr.'. ouviu as lendas dos Neander e traz para você o Oitavo Episódio da SAGA DOS PRODÍGIOS!





EURO VIU O MONSTRO QUE NÃO PERTENCIA a este mundo girar seus tentáculos, cada vez mais sólidos, sobre Dova, Charya e a desconhecida de azul. Aquela coisa era muito maior que os camaleões-do-meio-dia que o meio-neander conseguira dissipar com tanta facilidade, e parecia muito mais perigosa. Exalava um cheiro quase idêntico às boreais que infestavam o Ermo da Condenação, e isso o irritava mais do que tudo.

        Com um movimento amplo, o Prodígio Amarelo desintegrou três ou quatro camaleões que o cercavam – nem mesmo uma fumacinha deixavam para trás, e isso assombrava Azif, do outro lado do campo de batalha – abrindo espaço para que saltasse quase por sobre a altura dos paredões do labirinto-penhasco, e descesse rodando os punhos com força e brutalidade.

        A desconhecida de azul-cobalto – Berya Mordekai – havia saído de seu torpor e sua espada curta agora se envolvia numa chama também azul, golpeando o monstro com ímpeto: o fogo-fátuo se espalhou da lâmina para o corpo da criatura, que ficou irradiada por uma aura no mesmo padrão daquele fogo. As cores terríveis que dançavam naquele ser não faziam mais sentido então, irritavam menos a Euro, mas isso não o impediu de atingir o monstro em cheio. Por um momento fugaz Euro esteve dentro da massa do Mensageiro, seu uniforme-paradoxo rasgando a essência do invasor, seus punhos dilacerando a substância viscosa que cobria a tal essência. Ao sair girando, deslocando areia e pedras, e assumindo a três passos de distância uma posição de batalha, perto de Azif, Euro se sentiu queimado e ao mesmo tempo revigorado pelo fogo-fátuo que Berya havia infundido no inimigo: sentia sua energia se renovar e os poucos ferimentos que havia sofrido, começarem a cicatrizar.

        O monstro estava abalado com esses dois ataques formidáveis, mas longe de estar derrotado. Euro viu Charya e Dova preparem-se para atacar o Mensageiro e ouviu o Grão-Mestre gritar alguma coisa atrás de si, mas não compreendeu o que era, pois sua pose de batalha era um instante de meditação, o retrospectar neander...


Euro, filho da Matriarca Kashramael, filho adotivo do Grão-Mestre Fídias Bendante, filho de um neander do clã Adonai da tribo Quadmon; o clã faz parte da tribo, e a tribo está no clã.

        O tempo nada significa e só a união importa; a união aviva minha memória. Lembro de ter onze anos e descer a cavernália junto com meu pai Fídias; lembro de encontramos o clã Adonai e nele não reconheço quem é meu pai neander, mas sei que ali ele estava. Todos de paradoxo amarronzado, como se feitos de argila a lhes cobrir os corpos robustos, e uma neander se aproxima de Fídias, lhe entregando um grande carregamento de fio para as tearcubadeiras do acampamento. Em troca desse material essencial para gerar mais uniformes-paradoxo, Fídias lhes oferece um grande carregamento de moedas de latão da Terra Castanha. O que o clã Adonai fará com essas moedas estrangeiras, eu não sei nem me é explicado, nem me importa: pois eu invejo os paradoxos, e quero um para mim.

        A mulher me explica que são poucos os meicroma, híbridos como eu, que podem usar o paradoxo. Muitos morrem no momento da união, e a razão por trás disso é um segredo da tribo Quadmon. Ela não quer que eu morra, quer que eu fique com meu pai Fídias e o ajude, porque o ajudar é ajudar o Povo Neander.

        Enquanto ela me conta uma parábola sobre a origem de meu povo, presto pouca atenção, porque um dos jovens Adonai treina junto com outros do clã e executa uma manobra incrível com seu uniforme-paradoxo: gira socando, os pés numa movimentação exata, salta vários metros até quase o forro da gruta, e cai sobre o grupo que com ele treina, derrubando todos eles com socos e chutes quase impossíveis... impossíveis se eu não tivesse visto.
 
         Visto e executado. Visto e lembrado que todos eles estariam mortos um ano depois, saqueados pela guarda do Alto Sacerdote da Terra Castanha... Euro, filho da Matriarca Kashramael, filho adotivo do Grão-Mestre Fídias Bendante, filho de um neander do extinto clã Adonai da eterna tribo Quadmon; o clã faz parte da tribo, e a tribo está no clã.


Há um faiscar de armas de choque por trás dele, e Euro parece fitar impiedoso o monstro que é atacado por Dova e Charya, os cabelos ruivos e revoltos, agitados pelo vento que uivava no cânion. Azif grita para ele, ocupado com os camaleões que atacam tanto a ele quanto ao próprio Euro: “Rapaz, que é que está fazendo aí parado? Me ajude aqui!”

        “A união, Azif!” grita Euro de volta, desintegrando um camaleão enquanto se volta para o Prodígio Negro, memórias de incontáveis batalhas do Povo Neander ainda firmes em sua mente, “Vamos acabar com estes aqui logo, porque só há uma maneira de...” e abateu mais uma massa amorfa, “... derrotar esse monstro, e eu acabei de retrospectar essa maneira!”

        Essas táticas neander, pensou Azif e olhou para o pai, que atirava com a armachoque e fazia um sinal afirmativo com a cabeça. Não haviam me dito que às vezes esses truques não dão certo?

        “E se falhar, irmão?” bradou Azif enquanto se esforçava para eliminar os últimos camaleões-do-meio-dia, com a ajuda também dos contrabandistas que os atacavam com coragem embora às vezes pouca eficácia.

        “Se falharmos...” gritava Euro, destruindo mais dois camaleões enquanto, por trás dele, as três Prodígios lutavam contra o Mensageiro, e olhou para os nômades, bradando: “... teremos todos uma bela morte. PREPAREM-SE PARA A GLÓRIA!”




sábado, 2 de abril de 2011

COBALTO E TURQUESA

Arthur Ferreira Jr.'. revela o SÉTIMO EPISÓDIO da SAGA DOS PRODÍGIOS



ANDANDO EM CÍRCULOS. VOANDO EM CÍRCULOS. Eu sempre volto a essa cena... e não consigo sair.

        É o topo da Torre Azul, a noite cai e eu sou chamada por meu pai. Não adiantou nada tentar refletir, pensar... é uma decisão pra vida inteira, e não consigo me decidir; melhor deixar isso nas mãos de meu pai. Sim, ele sempre quis o melhor pra mim... por quinze anos ele cuidou de mim e de minha mãe, a Matriarca Kashramael.
         Meu pai é o Alto Sacerdote da Terra Castanha e ele sempre cuida bem de todas as suas mulheres. Esposas, filhas, a Matriarca... não importa.

        Mas agora as coisas mudaram. Um terço dos sacerdotes e sátrapas diz ter contatado os VERDADEIROS DEUSES. Então, tudo muda, se sempre acreditamos em falsos deuses. Especialmente porque meu pai faz parte desse terço e foi expelido de seu cargo por sua... heresia.

        Somos todos hereges agora, a cidade está em chamas, alguém pôs uma bomba na Prisão-Elevada, dá pra enxergar o incêndio daqui de cima. Os guardas enxameiam diante da Torre Azul, porque os zelotes do novo Alto Sacerdote podem atacar a qualquer momento; talvez o bombardeio tenha sido uma distração.

        É uma cidade linda à noite, mas eu pouco vou poder aproveitar, porque meu pai já decidiu que os novos deuses têm planos para mim. A servocrata me espera na porta da escadaria, silenciosa, eu engulo em seco e a sigo.

        Eu esperava estudar para ser uma das sátrapas: uma administradora de um dos nomos da Terra Castanha. Mas isso nunca acontecerá, porque meu pai me chamou de Prodígio e porque eu nunca provei das trufas propiciadoras de transe... as mulheres só poderiam experimentar o transe de comunhão com os deuses aos dezessete anos; faltavam dois anos, portanto, para que eu saísse de casa e aprendesse os truques e ritos de uma sátrapa.

        Mas eu sou um Prodígio, sinto as trufas debaixo da terra do Ermo. E isso me torna perfeita para os planos dos novos deuses, assim diz meu pai e assim aprova minha mãe. Às vezes me sinto cansada de obedecer e é esse cansaço que sinto ao descer as escadas, mas algo me impede de desobedecer, continuo na indecisão e na indecisão deixo a escolha nas mãos de meus pais.

        Estou num dos salões da Torre. Sei que isto é uma memória, e sei que se repetirá de novo, exatamente como foi das últimas vezes... quantas, não sei. Já perdi a noção de tempo, o tempo se tornou um uroboros, a cada volta corroído por sombras mexendo no canto do olho. Meu pai usa as vestimentas azuis de seu antigo posto, sei que devo guardar silêncio, e no centro do salão ele aponta uma grande máquina... como as que só a elite da Terra Castanha tem acesso, mas diferente.

        Ela é como uma ampulheta gigante, e dentro daquela forma retorcida vejo um rodopiar de forças e cores na parte superior, relâmpagos agitando aquela matéria estranha. E eu sinto medo. E sinto mais medo porque sei que aquilo é meu destino. É inevitável; passei por isso tantas vezes.

        Eu quase agradeço quando ele para de explicar aos seus seguidores mais próximos, que aquele é um tearcuba do povo neander; um aparato demoníaco, assim dizia a sabedoria dos sacerdotes ortodoxos. Mas ele não era mais ortodoxo, e rasgava as vestes azuis para mostrar sua nova devoção. Eu ficaria com medo, pois nunca vi meu pai assim, nu; e qualquer excitação que eu sentisse por ver um homem nu, mesmo sendo meu pai, guardo nessas memórias que se repetem porque algo me diz que nunca mais sentirei algo diferente.

        Mas era apenas um gesto ritual; e aquela máquina, nunca antes operada pelos sacerdotes fiéis, porque os uniformes-paradoxo são coisa de demônios neander, havia se tornado sagrada para os novos deuses. E estes diziam na mente embriagada pela carne da trufa gigante... aquela embriaguez persistente lhe dizia as fórmulas para construir a máquina a partir dos materiais roubados da tribo neander dizimada, três anos antes.

        Os antigos deuses podiam ter existido no passado da Terra Castanha, e ter transcendido e viver numa terra prometida além da morte, mas os novos deuses, dizia meu pai, nunca haviam sido humanos, e viviam além do céu. Muito mais dignos de ser venerados e em troca, ensinavam segredos como os daquele tearcuba especial.

        Daquela máquina sairia um uniforme-paradoxo como nenhum outro antes, superior a todos os outros usados pelos povo neander e, diziam os rumores, por alguns contrabandistas do Ermo da Condenação. Eu, Berya, filha do Alto Sacerdote Mordekai, seria a primeira das escolhidas para envergar o paradoxo e ser parte de uma elite dentro da elite, assim que os hereges derrubassem as sátrapas locais... em parte com minha ajuda e de outras que também usariam o uniforme.

        Seria uma elite superior à das sátrapas, bradava meu pai: e também menos numerosa, porque essas guerreiras não poderiam se casar, como é obrigatório às burocratas. O uniforme seria para sempre meu esposo, um esposo ciumento... e o uniforme que era gerado ali diante de mim, na tearcuba, vinha com uma centelha especial dos novos deuses, enviada ao Alto Sacerdote por sua devoção fervorosa.

        E então, a coisa ficou pronta.

        A parte inferior da tearcuba se abriu, e a superior derramou a massa pulsante, azul-cobalto, do uniforme-paradoxo. Minha mãe beijou minha testa numa bênção e eu toquei aquela coisa viva.

        Minha mente se desfaz a cada vez que revivo as sensações de ser coberta por um tecido vivo, pelos metais turquesa que formavam fibras e padrões ao redor do meu corpo nu, pela união tão avassaladora que dobrava e desdobrava minha mente... a coisa cobria até meus cabelos antes loiros, e no espelho do salão eu me via, o uniforme-paradoxo e eu éramos um, forte, rápida, presciente, a mente girando e processando dados, informações, gostos, memórias... os cabelos azuis, azuis... a espada curta azul que saía sozinha da minha coxa esquerda e eu segurava na mão direita! Dados, informações, gostos, memórias... memórias... e havia algo a mais ali, algo multicolorido, era como a aurora boreal do Ermo, mas estava só em minha mente, ela rodava dentro de mim e me deixava louca.

        Louca. E eu tomei da espada e fiz o que era exigido de mim.

        Todos mortos?

        Não sei, antes que o massacre terminasse, aquele sangue derramado por mim escorresse de fato, as memórias voltavam ao topo da Torre Azul e a minha indecisão. E eu devo escolher, e escolho o uniforme. Escolho o paradoxo. O que escolho? O que devo escolher?

        Paradoxo?

        Prodígio?

        Paradoxo... e pela enésima vez as cenas se repetem, mas quando eu estava para matar minha própria mãe, meus olhos doem, doem muito como se o sol quisesse me matar pelos meus próprios olhos, mil dias contemplando o sol, a aurora... e a aurora sai de mim.

        E eu estou livre!

        O turbilhão energético rodopia diante das três Prodígios e a moça de azul-cobalto e espada curta na mão pisca os olhos repetidas vezes, não acreditando no que vê: aquela coisa horrenda, tentáculos formados de cor pura e alienígena, e duas garotas muito próximas: uma bem novinha, cabelos castanho-claros orvalhados pelos fios de um uniforme-paradoxo branco, segurando um báculo igualzinho ao da mãe de Berya; e a outra de paradoxo vermelho, cheio de coágulos rubros que começavam a refletir a luz do sol, empunhando uma katana.

        Haviam outras pessoas próximas mas Berya sabia que não devia lhes dar atenção naquele momento; havia uma ameaça e ela tinha de cuidar daquilo, dentro de si, um sentimento forte e inexplicado de gratidão surgia pela menininha de branco. Uma voz firme se fez ouvir na mente de Berya, mas não era algo invasivo, era como um toque de uma mão preocupada, dizendo: Você está bem? Saia de perto dele, deixe a gente cuidar disso... e Berya teve certeza que a voz vinha da moça mais velha, de vermelho, embora esta não mexesse os lábios crispados.

        Berya ergueu sua espada curta cor de azul metálico, percebeu mais coisas como o fato de que estava num dos cânions do Ermo, mas não vacilou pensando em como havia parado ali. A coisa turbilhonante girou seus tentáculos por sobre as outras duas garotas, e o golpe iria atingir também Berya, mas antes que isso acontecesse, a menina aproveitou o movimento que enxergava em câmera lenta e passou o fio de sua armadoxo pelo próprio braço esquerdo, do corte surgindo uma energia azulada e flamejante, que envolveu a lâmina empunhada por Berya.

        Quando os tentáculos vibraram golpe sobre ela, a Prodígio Azul revidou com sua espada de fogo-fátuo, gritando – e a frase do grito, em dialeto antigo, vinha sabe-se lá de onde na confusão de suas memórias – “DIE, MONSTER! YOU DON'T BELONG IN THIS WORLD!”