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segunda-feira, 13 de junho de 2011

NAS GARRAS DE UMA MENTIRA

3o. conto da Tetralogia da Crisálida, por Arthur Ferreira Jr.'. e Kinn

(Os personagens Aline Cortez originalmente criada por Arthur Ferreira Jr.'. e Lady Mizune no miniconto Ela Só Queria Dançar; Thiago Podestà e Vanessa originalmente criados por Neith War e Arthur Ferreira Jr.'. no conto Mistérios do Horizonte)

Nota: Embora este conto esteja entrelaçado com os eventos narrados nos contos A Crisálida e a Esfinge e Verdade Seja Dita, você não precisa necessariamente lê-los ANTES! Porém, os links estão aí como referência.



MAL COMEÇARA A MANHÃ EM CRISÁLIDA, e a fumaça já ascendia aos céus. Isto é comum em cidades grandes, especialmente quando essa fumaça é sinal do progresso eternamente em andamento, buscando fazer a cidade crescer nos atos de seus cidadãos. Mas hoje é um dia especial. Caminhões chegam em certos locais de entrega, vindos não se sabe de onde. E ninguém pergunta sua procedência, por que seria falta de etiqueta. E a etiqueta é algo muito importante na sociedade. Todos os grupos oficiais e extraoficiais da sociedade na cidade seguem-na rigidamente.

Dizem que mesmo os monstros e fantasmas – se você acredita neles – seguem essas regras não escritas, que todos conhecem. Não segui-las é atrair a atenção e chamar problemas, de um jeito ou de outro. Tanta rigidez exige compensações. E a cidade, ciente disso, oferece de tudo para satisfazer seus habitantes. Todo tipo de diversão e prazer, lícitos ou ilícitos, podem ser obtidos por um preço, de acordo com o bolso e gosto do freguês.

Gregor viu um desses caminhões chegar no galpão, enquanto se ocultava na ruma do beco, o tonel gerando calor durante a noite esgotava seu combustível. Gregor vivia nas ruas há muito tempo. Suas roupas esgarçadas, sujas, bem como sua barba cheia, mostravam toda sua decadência. A garrafa vazia ao seu lado completava a cena óbvia do imaginário do sem teto que era, mesmo que em seus sonhos, se visse com uma vida de luxo e nobreza de berço.

Aquele era um bairro violento. Mas Gregor sempre estava por lá, vivo, não sofrendo nenhuma das injúrias, nem desaparecendo como muita gente naquela região. Era sempre Gregor, o louco; Gregor Sansa, a barata da sociedade, que tinha ilusões de grandeza e riqueza; Gregor Spinovit, ou seja o sobrenome que ele inventava ter no dia. Igualmente variava a versão da forma teria tido a mão direita amputada. Combatendo piratas ou tentando obter tesouros em masmorras antigas, ele era a diversão dos transeuntes, especialmente mafiosos e bandidos da região. A única coisa que nunca mudava em suas histórias era o vilão, seu arqui-inimigo o Conde Sinuhe, que era responsável de alguma forma pela perda da mão do herói e fugia rindo malevolamente.

Hoje, havia chegado mercadoria nova e alguém teve a ideia de dar um presente para o mendigo mais divertido do bairro. Disseram a ele que ia tornar os sonhos dele realidade...

Ironicamente, não poderiam adivinhar quão perto da verdade estavam...





A CIDADE TEM UM RITMO DIFERENTE, pensou Nyarlathotep, o Esfinge Negra. Estou há tão pouco tempo aqui, e algo me diz que não vou permanecer muito tempo, mas consigo perceber a diferença. Há algo no ar... um pulsar, uma presença, um tanto distinta da presença que senti no ar desde que cheguei a Crisálida, e a nova presença está ao mesmo tempo se opondo e sendo abraçada pela cidade. Algumas pessoas de quem me alimentei parecem estranhas, e como vampiro de sangue, memórias, sentimentos... senti o gosto profundo e alterado em seus sangues, o experiência em suas memórias, o frenesi em suas emoções.

É uma droga. E bem diferente da cocaína, maconha e ecstasy que saboreei em algumas de minhas vítimas. Mas isto veio a calhar: vai apressar o meu plano. As marcas que estou deixando na cidade, as mortes, vão atrair a atenção desse outro vampiro que detecto à distância... e tenho o pressentimento que ainda mais rápido, se as mortes estiverem ligadas a essa droga.

Se há uma coisa que esse Sinuhe tem, é curiosidade.

Vamos ver se ele vai cair na armadilha do diário... hum, devaneios à parte, mais um drogado se aproxima, hora de deixar mais uma marca e deixar o bairro de Raven Lake ainda mais apavorante e sedutor...

“Amigão! Tem fogo?” Às vezes os clichês funcionam melhor que tudo, riu-se Esfinge Negra por dentro.

“Não tenho dinheiro, cara.” O sujeito, de óculos fundo de garrafa, barba por fazer e roupas comuns – camiseta, moletom e calça jeans – cheirava à nova droga. Ele apressou o passo, e nesse passo renovado o Esfinge percebeu que ele levantava os pés de forma mais similar a de um animal do que de um ser humano. Um certo pressentimento, um aviso de imprudência cruzou a mente do vampiro, mas a impressão de perseguir um animal selvagem atropelou o alarme de sua intuição, e tudo que Nyarlathotep quis, naquele momento, foi a sensação da caçada perigosa.

O Vulto Vulpino foi rápido e alcançou sua presa, segurando-a pelo pescoço – só que o rapaz se voltou quase tão ágil, vibrando um chute no estômago de seu perseguidor. Tendo se desvencilhado, deu dois passos para longe do Esfinge e – para espanto e excitação do vampiro – chiou como se fosse um gato, arqueando a postura, seus olhos brilhando na penumbra.

Nyarlathotep sorriu por dentro. Perfeito! Primeira vez que encontro um monstro tangível, de verdade, em Crisálida! E atacou, seus olhos azul-cobalto revelando-se tanto quanto os olhos licantrópicos de sua presa.

Jogo de ganha-ganha! Se ele se provar muito forte, eu fujo deixando a sacola com o diário para trás, e tenho certeza que assim cairá nas mãos do Bibliotecário! Se ele for fraco, mais uma refeição e eu deixo o diário no moletom do cadáver...




TRIM! TRIM!
TRIM! TRIM!

O aparelho não parava de tocar, até que a porta da rua abriu e chegou uma jovem cheia de compras. Ela olha para o lado e vê o dono da casa na mesa olhando uma pilha confusa de papéis.

“Não vai atender, Sinuhe?” perguntou a jovem, enquanto pousava as compras no chão.

“Não. Por que deveria?”

“Nós quase nunca recebemos ligações. Não está nem um pouco curioso em saber quem é?”

“Nem um pouco. Só uma pessoa usa esse aparelho infernal para nos incomodar. E sempre são notícias ruins. Desligue-o, por favor.”

Mas o aparelho continuava a tocar insistente. Quem estava do outro lado mostrava que não desistiria até conseguir ser atendido. A jovem, confusa, parou em frente ao aparelho, na dúvida entre obedecer a ordem e fazer seu mestre sofrer as consequências de desafiar a pessoa do outro lado da linha. Por fim, Sinuhe, vendo a consternação da jovem, se levantou e foi até o aparelho, enquanto disse para a jovem guardar as compras.

Ele observou o aparelho, incomodado tanto pelo barulho que fazia, quanto dissabor de ter de usar um instrumento tão esquisito para ele.

“Eu te odeio, Graham Bell.” disse antes de atender.

A ligação, ao contrário do parecia, não era mais um dos serviços sujos da organização para qual trabalhava. Era um comunicado para convidá-lo a uma festa na alta sociedade. Parecia uma noite de negócios onde uma novidade peculiar seria apresentada. Ele deveria vigiar uma presa: a jovem líder dos italianos e obter detalhes; se pudesse obter uma amostra ou a fórmula, melhor ainda. Informação e o controle dela eram as armas da Organização e os talentos dele seriam úteis nessa operação.

Algum tempo depois estava trajado de forma impecável para a solenidade. A jovem ajudava-o a completar seu bem vestir.

“Pronto, Sinuhe. Está muito bem vestido. Vai para uma festa e ainda assim, não parece de bom humor. Devia aproveitar e se divertir. Um lugar destes para alguém como você deveria ser uma oportunidade de ouro. Quase fico com ciúmes de saber que vai seduzir tantas garotas lá.”

“A festa não me interessa, Fumiko. A moça não me interessa. Nem estas presas que eles estão dizendo que estão cedendo para mim. Eu sei que há algo desagradável nisso tudo, senão aquele homem desprezível não teria me escolhido. Mas eu farei o que foi ordenado e depois que terminar, me esquecerei que este dia existiu.”

“Mas Sinuhe... você quer dizer que, mesmo vivendo para sempre, que vai esquecendo das coisas? Quer dizer que um dia vai me esquecer?”

Ele sorri e ela vê o fulgor de seus olhos verdes que um dia tanto fascinaram e a fizeram abandonar tudo.

“Eu escolho sempre esquecer tudo de ruim e lembrar das coisas boas. Eu sou muito criterioso na escolha de meus servos humanos. E nunca esqueci do tratamento de nenhum deles. É assim que eu sou e assim serei para sempre, enquanto minha vida, que é eterna, subsistir.”

Ele dá um ósculo na testa dela e sai. Sem notar que olhos sinistros não gostaram nada de sua declaração...





OLHOS SINISTROS E ONIPRESENTES OBSERVAVAM cada canto da cidade, porém mesmo um olhar tão ubíquo deixa de notar certas coisas; afinal, não estamos sempre ignorando coisas que acontecem no canto do olho? O que acontece se os cantos desses olhos sinistros estão – oh, não, olhos que são cada esquina de uma cidade que parece viva?”

“Esse sujeito era meio poeta, né, chefe?” Domenico Podestà se irritava um pouco a cada vez que ouvia um desses comentários clichês de Antonello, mas não tinha jeito. Um capanga extremamente fiel, mas um sujeito bronco e de personalidade monocromática. Bem, não se pode ter tudo, pensou Domenico, e com certeza eu prezo mais a fidelidade. Que ele deixe o refinamento para mim. Assim, nem se deu ao trabalho de responder ao braço direito, mas pulou logo para o assunto de interesse mais imediato da noite:

“Mande verificar o carro antes de sairmos. Não quero surpresas hoje, depois que explodiram o carro do Pasini, quero que seja rotina revistarmos o motor, o porta-malas... tudo. Aproveite e selecione um homem de confiança para estar do lado da mocinha...”

Antonello assentiu com um grunhido e foi resolver as demandas. Mocinha, Podestà mergulhava em pensamentos, com o diário na mão. Não devo mais chamá-la assim, pelo menos não na frente dos outros. É tão bom ser o homem por trás do trono, mas há de se ter atenção para não trair as verdadeiras hierarquias ocultas. Voltou os olhos para o pequeno caderno que segurava, e pensou também nas circunstâncias estranhas em que aquela – obra de arte, assim o mafioso a avaliava, digna talvez de ser vendida ao sr. Leonardi, se aquele comerciante de antiguidades e artigos estranhos, seu amigo de longa data, não tivesse de ter sido discretamente eliminado há quase dois anos antes, por motivos de que Domenico agora se arrependia – aquela peça de literatura, escrita numa caligrafia nervosa mas legível, havia lhe caído nas mãos.

Ainda não havia tido tempo de ler todo, mas o que havia pescado ao folhar o diário já garantia algum retorno do dinheiro do suborno. Propina paga à polícia para ignorar a morte esquisita de um dos usuários da nova droga que sua organização estava agora vendendo... o sujeito havia perdido quase metade do sangue, sabe-se lá como, porque não haviam feridas profundas... e num corolário, o cadáver havia se deformado de jeito quase animalesco. Era um corpo estranho, esquisito, Domenico avaliava. E não era o primeiro a morrer assim um tanto deformado – a princípio o mafioso ligou essas ocorrências a algum tipo bizarro de overdose, mas houveram outras overdoses sem essas reações alérgicas tão peculiares.

Por outro lado, as outras aberrações não haviam perdido metade do sangue ao morrer; nem largado consigo diários de valor literário elevado.

Era um enigma, como o do tal Esfinge Negra que matara gente pela cidade e a máfia não tinha noção de quem seria o assassino. Aliás, Domenico achou que vira a palavra esfinge no meio do texto no diário, mas preferiu verificar isso mais tarde. Já estava meio atrasado.

De qualquer forma, nenhuma das mortes ligadas ao Esfinge envolveu overdose ou deformidades. E estas mortes bizarras, sim, precisavam ficar longe dos tabloides. Domenico Podestà era um homem que primava pelo respeito à discrição. Ele pensava na Bíblia, que dizia que era necessário que houvessem escândalos, mas que, ai dos que provocassem escândalos. Domenico pensava que os mesmos escândalos de sempre, as mesmas mortes de sempre, não eram escândalos de verdade e ninguém sofria com isso. Especialmente ele ou sua organização.

Já aquelas mortes atrairiam uma atenção indesejada. Olhos sinistros e onipresentes, não é assim que diz este livrinho? Melhor me preparar para os olhos sinistros e mais mundanos da festa de logo mais. Pôs o diário no bolso do paletó – era de tamanho reduzido – e, levantando-se, foi para a garagem onde a escolta e o carro revistado já deviam estar lhe esperando.




A FESTA ERA NUMA COBERTURA FAMOSA DA CIDADE. Um dos inúmeros arranha-céus impressionantes que Crisálida gosta de ostentar, para tornar tangível a sensação de pequenez de seus habitantes diante de si. Uma célula social, onde os habitantes eram meras formigas passeando de um lado para o outro, em seu enorme aquário para o entretenimento alheio. E entretenimento era algo muito importante nesta cidade, onde todos precisavam manter as aparências com tanta força.

Assim sendo, Paloma Genaro, a herdeira do clã italiano acabava de chegar, atraindo olhares e atenção de todos com seu magnetismo natural. Por muitos já era considerada a líder da organização mafiosa da família, embora quem comanda de fato ainda não tenha morrido ou oficialmente se aposentado. Assim, a jovem prodígio aproveita seu status e poder inerente para fazer o que bem entende, seja isso constrangedor para sua vítima ou não. Ela adorava contrariar regras e levar todos os participantes de seus jogos ao limite perigoso da intervenção das leis não escritas da cidade.

Ela gostava do perigo. De inverter os papeis nos jogos sociais e deixar a todos desconcertados. Seus protetores tinham trabalho para cuidar dela. Na maioria das vezes o pior inimigo dela era ela mesma. Ela viu ao longe, quase ocultas nas sombras do salão, duas pessoas peculiares conversando. Ela sentiu a sensação de presa perante o caçador e percebeu que poderia se divertir muito esta noite, desafiando-o perigosamente a inverter os papeis. Ela era a filha de uma importante clã mafioso. Ninguém, nem mesmo um monstro predador, poderia ignorar isso, sem desafiar as leis. Como sempre, ela tentaria usar isso ao favor dela para manter o jogo ao seu favor. E se ela, a seduzida, mudasse e seduzisse o sedutor?

Os dois que conversavam tinham outra atenção na sua tensa, porém amigável, conversa. Irritação do lado de um dos interlocutores e sensação de ser traído, além do enfado habitual de eventos sociais como este. O outro era educado, porém rígido em seus avisos. Estes dois pertenciam às sombras da cidade, não existindo oficialmente, embora um deles tivesse uma fachada social plenamente estabelecida.

"Que significa isto, Dalton? Eu pensei que isto era um trabalho. Não imaginei nunca que você usaria de truques sujos comigo."

"Tenha calma, Sinuhe. Estou tão obrigado a participar deste evento quanto você. Minha posição da organização exige estar presente em eventos como esse e socializar com estas pessoas, por muitas das quais não tenho o menor interesse de interação, da mesma forma que você. E eu lhe disse para me chamar de Richard. Quando me chama pelo meu sobrenome, me lembra o que disse tempos atrás."

"Eu mantenho o que eu disse. Se trair minha confiança, eu terei provado que é impossível ter um amigo. Mas você se esforça bastante em cumprir sua parte do trato. Já que este evento não tem a ver comigo e nem é armação sua, o que é?"

"Existem duas coisas que serão tratadas nesta festa. Há uma nova droga na cidade e não sabemos nada sobre ela. Nossa organização não pode não saber nada sobre um assunto. Isto é um tabu."

"Eu sei."

"Ela está em posse dos italianos. Se você puder extraí-la da inconstante jovem líder deles, sua posição na Guilda irá subir vertiginosamente. Isto é em parte um presente meu, um teste e prova de confiança minha, para que a organização veja como um todo que você não deve estar alocado numa posição tão subalterna."

"Eu sabia que você tinha colocado seus dedos em alguma parte deste projeto, Richard. Mas aceito o favor. Se isso me livrar do contato do meu 'superior imediato' atual, eu perdoo sua tentativa de intervir no meu mundo de solidão. Eu lhe deveria outro favor..."

"Só peço que tome cuidado com sua abordagem, pois a menina é explosiva. Ela tentará fazer você trair nossas leis e as deles, criando o caos na cidade. Ela fará de tudo para conseguir isso de você. Suborno, ofertas generosas, promessas que nunca irá cumprir..."

"Hum... agora entendo porque me chamou. Me chamou não porque sou capaz de seduzi-la, mas porque sou imune às tentações dela. Você já sabe disso, então quer mostrar meu valor assim para o resto da organização..."

Sinuhe não teve tempo de concluir seus pensamentos. Paloma já havia se aproximado dos dois e tomado o vampiro para o centro do salão para uma valsa que começou a tocar com a ordem dela. Richard Dalton, presidente da Fraternidade das Sombras, não conseguiu avisar o seu amigo que Paloma Genaro não era uma qualquer. Sua missão seria um verdadeiro desafio e seu sucesso ou fracasso iria resultar em enormes mudanças na conjuntura urbana. Era a cidade se movendo e movendo seus tentáculos, pensava Dalton, enquanto se aproximava de Podestà.

A Fraternidade das Sombras era uma das redes mais bem informadas da cidade. E Dalton ouviu falar de um diário misterioso. Misterioso era uma palavra importante para seu grupo. Eles desejavam obter toda sorte de material misterioso. Mas ele ouviu falar um nome em especial citado no diário. Um nome que tornava imprescindível adquirir este objeto. Era o nome do Sinuhe citado nele. Ele não sabia o porquê disto – e haviam poucas coisas que Richard Dalton não sabia nesta cidade – mas ele iria descobrir com certeza.




ALINE CORTEZ É O SEU NOME?” O bate-estaca da boate era ensurdecedor, e Aline quase não conseguiu ouvir a pergunta, mas pelo menos conseguiu reconhecer o próprio nome e adivinhar o que o rapaz perguntava.

“É isso mesmo.” Não tinha muito ânimo de responder outra coisa, ela nem sabia direito porque estava ali, e também o barulho da boate não ajudava conversas elaboradas.

“Tá muito barulho aqui, né?” comentou o rapaz de fala macia. “Vamos
pra outra festa, lá a coisa é mais elegante, não tava a fim de entrar lá sem uma bela companhia como você.”

Aline remexeu nervosa um cacho solto e fitou pensativa o moço que havia sido lhe apresentado há menos de vinte minutos, por sua nova vizinha. Essa, por sinal, se acabava na pista de dança, completamente doida. Aline sabia que ela estava alta da nova droga, sensação da cidade, pílulas que traziam impulsos além de qualquer limite, e de fato sensações além de qualquer descrição. Pelo menos foram essas as palavras usadas pela vizinha, Vanessa. Aline havia resistido até aquela noite a experimentar a droga, embora a tentação fosse grande: há menos de dois meses havia completado 23 anos (apesar de aparentar pouco mais de dezoito), seu marido havia lhe pedido o divórcio, sua mãe havia morrido e surgira uma oportunidade de um emprego mais estável, embora mais puxado, na Cidade de Crisálida. E Crisálida parecia totalmente diferente de sua cidade natal, era uma outra vida, menos provinciana, ela se sentia ao mesmo tempo mais livre e correndo perigo, lá no fundo de sua mente. Todas estas mudanças faziam Aline se sentir perdida, em vários momentos do dia ou da noite.

Aquele era um desses momentos, e Aline Cortez aceitou o convite.

Seguiu o rapaz recém-apresentado até seu carro estacionado do lado de fora da boate. Ela sabia – tinha absoluta certeza – de que o moço também consumia a nova droga, e que lhe ofereceria uma ou mais pílulas. E também tinha absoluta certeza de que seria muito melhor experimentar a nova droga na companhia daquele rapaz sedutor, de fala macia e monocórdica, olhos verdes penetrantes e toque firme. Toque que ela sentia em suas pernas enquanto o carro acelerava.

Como ela esperava, o rapaz – chamava-se Tiago Podestà, um nome que Aline achou charmoso e exótico – ofereceu-lhe um punhado de pílulas. Belknap-14. Ou a Garra, era o nome que rastejava pelas ruas e ecoava pelas boates e inferninhos. Mas ao contrário do que ela esperava, ele não tomou a Avenida da Fundação e entrou por uma ladeira direto num dos bairros mal-afamados de Crisálida, Raven Lake.

Envolvendo as cinco pílulas na mão, Aline perguntou a Tiago, tentando esconder a apreensão, “Não era mais fácil chegar nessa tal festa pela Avenida da Fundação, se é mesmo onde você disse?”

“Não esquenta, gata. Eu soube de uma notícia quente, um mendigo saiu de Raven Lake matando gente. Deve estar agora na Fundação, pelo que ouvi, então é muito mais seguro e rápido passar por esse atalho aqui, onde ele não está mais, do que arriscar a sofrer uma blitz.” Enquanto explicava, as mãos de Tiago exploravam as coxas morenas de Aline, expostas pela minissaia. De alguma forma, aquele toque experiente fazia o argumento ter muito mais força.

As luzes piscantes e estroboscópicas da Crisálida deram lugares aos fachos mortiços de Raven Lake. O carro balançava com mais força, revelando o calçamento precário das ruas do bairro. Das janelas escancaradas vinha um vento que trazia não um cheiro de decadência, como Aline esperava – nunca havia passado por Raven Lake em sua curta estadia na cidade, mas tinha suas expectativas quanto a certos lugares famosos – e sim um odor antisséptico, de éter, como se o carro corresse dentro de um gigantesco hospital a céu aberto. Ou um laboratório. A mão áspera, mas delicada, de Tiago, subia mais em sua coxa, e antes que atingisse sua calcinha, Aline engoliu de vez as cinco pílulas.

Máximo de cinco pílulas, cinco pílulas, amiga! Mais que isso e é overdose na certa, mas esse número limite é que é mais gostoooooso! Aline Cortez quase podia ouvir a voz de Vanessa sussurrando em seus ouvidos, apesar da frase original ter sido berrada no apartamento da vizinha. Em pouco tempo a mão de Tiago alcançou sua calcinha, e Aline se sentia molhada – mas não era só de excitação, sentia água saindo de todos os seus poros, e além da mão do rapaz tocando sua virilha, sentia outros toques pelo corpo. Era como se um outro alguém estivesse ali, invisível, acariciando seu corpo.

Porém esses toques intangíveis eram como um rascar de unhas, praticamente garras maliciosas se insinuando por sua pele, inclusive por dentro da roupa. Uma fagulha de lucidez em Aline lhe disse que esses deviam ser os efeitos da droga, mas ela se surpreendeu com a rapidez. Tudo tão imediato e tão real. Ela praticamente poderia usar o termo ultrarrealidade para descrever aquilo. Parecia mais real do que o toque do seu acompanhante, e ela começou a gemer e arquejar, fazendo com que Tiago achasse que eram os seus toques que provocavam aquele prazer.

Infelizmente para ele, não dava mais para enrolar – ele não queria parar nas ruas mais estranhas de Raven Lake e já havia chegado no edifício chique do bairro elegante onde se dava a festa de seus parentes, ironicamente próximo demais do lúgubre cortiço disfarçado que era Raven Lake, cheio de casas abandonadas tomadas de indigentes. Mas ali não havia indigente algum – só alguns seguranças diante do prédio.

Tiago se deu ao luxo de tentar um amasso com sua nova conquista (era assim que ele a encarava, como uma presa) mas essa pegação não durou muito tempo: em menos de cinco minutos, a moça interrompeu os avanços do rapaz e abriu a porta, pulando vigorosa em direção à entrada do prédio.

Gosta de brincar de gato e rato, pensou o jovem Podestà. A noite promete... e ele tinha toda razão. As promessas que a noite sussurrava no ouvido de Aline seriam todas cumpridas em pouco tempo.




GREGOR SE SENTIA MAIS QUE TUDO NAQUELE DIA, PLENO! Realizado! Vivo! Finalmente podia gritar e berrar seu ódio contra quem decepou sua mão. Tinha a perfeita sensação de que sua mão crescia novamente e podia mover seus dedos como nas suas lembranças. A melhor parte era o mundo multicor onde caminhava agora. Onde ele era um rei, onde seu súditos aplaudiam quando ele perseguia o malévolo Conde Sinuhe e o matava.

Mas o Conde Sinuhe era muito ardiloso e Gregor tinha de matá-lo de novo e de novo. Uma parte de si mesmo lhe dizia que esse talvez não fosse o verdadeiro. Estava muito fácil, mas o prazer... a sensação doce em seus dedos, ao esmagá-lo. Isso Gregor não queria esquecer nem deixar de sentir.

A Garra era conhecida por realizar alterações em certos indivíduos, despertar a fera interior de certas pessoas alinhadas com seu propósito original. Mas o que acontece quando ela entra em contato com alguém que já foi mudado? Ela modifica-o na mesma medida em que ela é modificada de seu propósito original no ser dele.

E Gregor com certeza era diferente, mesmo que ninguém mais soubesse. Nem haveria de ser, afinal, sua mão fora decepada de fato por Sinuhe séculos atrás. Mas agora ele despertava de sua decadência e com seu corpo inflamado de excitação da droga e do prazer, se transformando numa máquina assassina! Virara um monstro. Alguns clamavam que o mendigo havia virado um demônio. Embora fosse um exagero, não estava muito longe da verdade que a droga havia despertado.

E ele iria farejar sua presa e realizar sua vingança. De preferência antes do efeito acabar.

***

Enquanto isso, na festa, a dupla bailava: Sinuhe e Paloma, rodopiando pelo salão de festas. Os dois, com um incrível magnetismo iam atraindo e apaixonando a suscetível audiência, mais e mais, levando-a a segui-los na contradança. Ela adorava a sensação. Já sentia os olhos esmeraldas do vampiro se esforçando para mesmerizá-la. E ela ria, dançando se perguntando quando o contrário surtiria efeito.

Por outro lado, Sinuhe se sentia estranho perto dela. Como sempre gostava de frisar, era um ser vazio, sempre necessitando preencher o seu ser, sem nunca ficar satisfeito. Um desgraçado, eternamente em busca de pequenos prazeres mesquinhos que o fizessem não se sentir solitário, mesmo que por alguns instantes. Essa jovem, Paloma, tão cheia de si, não percebia, mas vazava tanto de si mesma, que sua mera presença era capaz de acalentar e ocupar o buraco no coração dele, sem que ele precisasse tomar sua vida. Ele sentia o calor e o prazer que ela emitia.
Agora ele entendia o porquê do aviso de Dalton. E entendia o que ele podia fazer para vencê-la. Poderia mostrar a ela o vazio infinito de sua solidão e, desequilibrando a confiança dela, conseguiria a informação que mandaram buscar e, desta forma, obteria o respeito de seu pares – sem contar a segurança da negociação entre os grupos que sairiam em paz.

Ou poderia fazer o que sempre fez em situações de conflito onde tem a vantagem: não fazer nada. Deixaria que o prazer destas sensações tão efêmeras tomassem posse de seu ser. Sentiria o prazer e a paixão distantes, como eram desejos secretos do coração de Paloma, um desejo tão forte de ser amada, tão irracional, que fazia ela recusar-se a amar qualquer um que por ela se apaixonasse. Mas, a faria amar quem amasse esse jeito dela de ser, esta química explosiva, da atração proibida que nenhum dos grupos poderiam tolerar.

O resultado disso seria sangue, dissabor e vergonha para qualquer um dos dois. Mas não pareciam se importar. Paloma, exibindo seu prêmio; Sinuhe, vívido, seguia o fluxo, para desespero de alguns ali.

Dalton já sabia de antemão como seu amigo se comportaria. Mesmo querendo dar-lhe esta chance, já sabia que teria de negociar pessoalmente pelo que veio buscar na festa. "Com certeza, isso era armação da cidade, querendo realizar alguma de suas famosas façanhas de mudança em seus habitantes... mas quem?", ele se perguntava. Dalton queria ver para onde a cidade ia se mover, e estes diversos estranhos eventos pareciam mostrar que se tratava de algo grande. Ele decidira apostar alto e entrar no jogo dela, já que não parecia prudente desafiá-la, como seu amigo fazia.

Por isso mesmo, se aproximou de Domenico Podestà e declarou suas ofertas pelo que desejava - por um preço bem maior do que valia, o tão falado diário. Da mesma forma desejava, informações sobre a Belknap 14: produtor, origem, efeitos, fórmula, preço... Richard Dalton era conhecido sob muitas faces na cidade. Todas elas eram igualmente respeitadas, mas sua face sombria era a que mais intimidava as pessoas. Ele parecia saber dos segredos de todo mundo; ou parecia ter meios de descobri-los sem fazer esforço. Por isso, era tão perigoso recusar uma negociação com ele... especialmente se ele oferecesse pelo objeto em questão um valor maior do que qualquer um iria cobrar.
O enorme quebra cabeças que estava sendo montado, usava a cidade toda como palco. Por isso, mesmo Dalton, que era acostumado a jogá-lo, não conseguia ver sua extensão. Mas ele sabia que algumas peças estavam se mexendo nesse exato momento:

Aline acabara de entrar no salão. Seu corpo pulsava e suava num ritmo próprio. Paloma viu imediatamente nela uma rival em potencial e tratou de arrastar Sinuhe para a direção oposta, onde poderiam se desvencilhar de todos que iriam detê-los de sua aventura proibida.

***

Na Avenida Fundação, as pessoas em pânico corriam do monstro que chacinava pessoas a olhos vistos. Ele cantava e cantava algo ininteligível e parecia uma besta selvagem bípede e de cauda. Algumas pessoas acreditavam se tratar de um filme. Outros de um maluco fantasiado. Mas houve quem lembrou da lenda da cidade e disse que fora o espírito que habitava a fundação que havia voltado, cantando que a verdade iria ser mostrada para todos.

Olhos sinistros sorriam e preparavam seu movimento. Logo tudo estaria em seu devido lugar no tabuleiro. Todos os vetores estavam em ação. Aos jogadores, restava participar do jogo.




SEU NOME ERA THIAGO PODESTÀ E ESTAVA VICIADO na nova droga, a Garra, mesmo apesar dos conselhos, advertências e ordens expressas de seu pai, o figurão mafioso – na fachada da alta sociedade, um empresário e mecenas filantropo, quando mais jovem um marchand perito – Domenico Podestà. A família Podestà era uma das três principais famílias (no sentido estrito da palavra) influentes na máfia de origem italiana em Crisálida (e sim, haviam outras máfias: chinesa, russa, cubana e até o bando criminoso originário de um estranho país do Leste Europeu chamado Maelstronia). A cidade das mudanças era de fato uma enorme metrópole, cosmopolita e corrupta o suficiente para receber de braços abertos o novo influxo da sensação do momento.

Thiago sabia que não era muito adequado que ele consumisse o que seu pai distribuía (ainda que indiretamente), e só havia tomado uma única pílula da Garra, ao contrário de sua acompanhante, a cobiçada Aline Cortez, que já se sentia totalmente revirada por dentro.

Bastante cobiçada, pois logo Thiago percebeu que não era só ele que desejava Aline – logo ao entrar no grande salão de festas da cobertura, a mocinha atraiu olhares e interesses como se soltasse feromônios invisíveis no ar. Invisíveis e irresistíveis – embora poucos ali tivessem coragem de abordá-la, porque todos também sabiam de quem Thiago era filho.

Afinal, todos conheciam as regras do jogo.

Ou pelo menos pensavam assim. Infelizmente para a maioria das pessoas naquela festa (e na cidade), algumas regras são escritas em letras tão miúdas que só aqueles mais conhecedores – como Sinuhe, Richard Dalton e uma certa moça ruiva em outra cidade, que naquele exato momento contemplava a própria barriga, grávida, no espelho – acabam notando sua existência. Talvez algumas regras sejam tão disfarçadas que nem mesmo esses luminares notem. E às vezes, por capricho do destino ou manipulação da cidade que escrevia a maior parte das regras, algumas pessoas comuns descobriam essas regra ocultas.

Era o caso de Thiago. Ao entrar no salão, sentiu imediatamente o cheiro de medo e desejo que se entrelaçavam naquele covil de demônios bem-apessoados. Era uma sensação que nunca havia antes experimentado – a Garra muitas vezes lhe ampliava e iluminava os sentidos (embora ele achasse que estava apenas viajando de leve), mas não àquele ponto.

Aline parecia deslumbrada, ou melhor, fascinada pelas pessoas da festa – figurões de fora da cidade, ali para uma noite que mudaria suas vidas; atores e atrizes da badalada Companhia de Teatro Crisálida; novos-ricos que experimentavam a companhia das famílias que sempre foram enxergadas como a aristocracia. E é claro, algumas pessoas assumidamente perigosas – capangas dos Podestà e Genaro, os advogados a serviço da máfia, o rancoroso herdeiro da família Dalmácia, cujo pai havia sido assassinado pelo serial killer Esfinge Negra semanas antes. Pessoas também que eram perigosas embora poucos soubessem disso, como os magos da comitiva secreta da Fraternidade das Sombras, escoltando Richard Dalton em sua “missão diplomática”.

Por dentro, Aline sempre tivera atração pelo perigo, embora nunca houvesse admitido esse fato abertamente. Esse fascínio, elevado à quinta potência pelas cinco doses da Garra, vinha agora acompanhado de uma sensação certeira que apontava exatamente essas pessoas perigosas no meio da pequena multidão.

Em teoria, Thiago sentia a mesma coisa, embora num grau muito menor e por ele não ser predisposto à Garra como era o caso de Aline – detalhe que nenhum dos dois tinha a menor ideia. Exatamente uma dessas pessoas terríveis passou perto do balcão do bar onde Thiago havia se encostado junto com Aline. Ele sentia-se tonto e incapacitado, enquanto Aline sofria de uma agitação que mal era controlada, uma hiperatividade que aflorava à pele. Assim, quando a tal pessoa – Virgo, da comitiva de Dalton, um rapaz de olhar de poucos amigos, apesar da aparência frágil, vestido um blazer elegante – Aline não resistiu e foi abordá-lo, enquanto Thiago mal encontrou forças para impedi-la. A única coisa que fez foi pedir um copo d'água ao barman.

A valsa que Sinuhe e Paloma haviam dançado enquanto se estudavam mutuamente acabou, e a orquestra começou a tocar o Bolero de Ravel. Apesar de sua dedicação à Fraternidade das Sombras, onde servia como – era o nome oficial que Richard havia lhe dado – cartógrafo de sonhos, mapeando os padrões dos sonhos dos habitantes da cidade, Virgo não passava de um rapaz tímido quando se tratava de mulheres. Assim, não conseguiu recusar nem fazer qualquer comentário espirituoso quando a bela morena que se apresentou como Aline Cortez o tirou para dançar ao som da música cadenciada.

Como Paloma havia propositalmente afastado Sinuhe da moça que chamava tanto a atenção, essa mesma moça fez questão de chamar mais atenção ainda. De longe, Aline percebia a presença estranha do vampiro e o reconhecia como um predador – porém não se via como presa, pelo contrário. Sinuhe era-lhe um rival. A moça começou a arfar enquanto dançava mais ousadamente com Virgo, que apertava sua cintura com mais força quando sentia o rosnado – que interpretou como excitação libidinosa – de Aline pertinho do ouvido.

Dentro de si, Aline explodia e todos os seus pensamentos racionais eram submergidos por alguma coisa que se agitava dentro dela. Essa coisa assumia controle – não, controle é uma palavra muito sofisticada, diríamos melhor tomava posse dos membros e movimentos de Aline, que ia conduzindo a dança de forma selvagem, quase como uma dança ritualística e primal de acasalamento. Aquilo já estava começando a chamar de fato a atenção como algo estranho, fora do normal, e não apenas exótico e sedutor.

A pele de Aline estava totalmente suada, mas não encharcada, o suor porejava de modo sensual e seu cheiro parecia avassalador ao parceiro de dança. Virgo sentia-se embrigado de desejo por ela, tanto que permaneceu silencioso durante toda a dança... até que a moça, tendo conduzido a dança até a suntuosa parte aberta da cobertura, mais e mais perto da beirada – onde Paloma e Sinuhe conversavam aos sussurros – não conseguiu mais controlar o último impulso assassino que pouco a pouco a havia tomado, e expôs sua verdadeira forma.

Sua verdadeira forma, que ela jamais havia sequer conhecido, apenas pressentido, exposta pelo consumo Garra.

Cerca de três outras pessoas (incluindo o filho do falecido Dom Magno Dalmácia) viram essa forma se manifestar, mas a confusão toda ocorreu em questão de segundos, e quando pararam para prestar atenção, o pior já havia acontecido.

Virgo, mesmo um novato na Fraternidade das Sombras, tão tímido com as mulheres, era na verdade muito capaz e precavido. Tão precavido que nunca saía para um novo lugar, ou uma situação potencialmente perigosa, sem tecer toda uma trama de encantamentos sobre si – feitiços de proteção, meios mágicos de evitar um ataque, em especial o primeiro ataque de um inimigo, que se for desferido de surpresa pode matar.

O Bolero de Ravel encerrou de modo triunfante, e Aline Cortez exibia suas presas – uma fileira de dentes afiados e animalescos – enquanto seus olhos revelavam-se amarelados como os de uma loba, e os pelinhos de seus braços revelavam-se muito mais espessos e ficavam em pé, arrepiados como um gato no momento do bote. A orquestra, sem saber de nada do que acontecia, emendou com A Noite no Monte Calvo, do atormentado compositor Mussorgsky. E nos primeiros acordes, antes que Aline mordesse selvagemente o rosto de Virgo, sua presa mais próxima, o mago sentiu uma onda de energia em estado bruto subir por sua garganta, reagindo ao perigo. Embora assustado, ele aceitou a onda que queria se liberar, queria resguardá-lo da fera que o atacava – e a onda saiu-lhe dos lábios como uma única sílaba gutural, mal ouvida por Paloma e os outros circunstantes, mas percebida nitidamente por Aline e Sinuhe.

A palavra mística libertada tomou o controle da própria realidade, adestrou os braços de Virgo em milésimos de segundos para reagir ao ataque, e em vez de ser mordido pela lobisomem, o mago bloqueou a investida com um tapa – um gesto tão forte e ressonante que Aline Cortez foi lançada longe, ganindo, caindo exatamente sobre Sinuhe, que estava recostado na balustrada até então.

O impacto da mulher-fera caindo sobre o vampiro foi tão poderoso que os dois despencaram pelo peitoril, e de lá de baixo, um outro monstro muito mais perigoso que os dois percebeu que seu nêmesis, o Conde Sinuhe, caía do topo de seu palácio, estilhaçando os vitrais da torre e lutando na queda para se desvencilhar de uma mulher que Gregor, o Monstro, imaginou ser muito parecida com ele.

No topo do prédio, um grito feminino e a música da orquestra tocando como se tudo estivesse acontecendo conforme planejado.




DESCONEXÃO. ERA ISSO QUE SINUHE sentia. Apartado de Paloma, voltara a seu ser habitual: letárgico, apesar de enérgico. Sua existência vazia e odiosa, mas ainda assim, existência que buscava preservar enquanto fosse capaz. A criatura feral se recuperara do impacto que a arremessou em direção a ele e agora ela desejava combater seu rival, usando suas garras e presas, num combate épico, deslizando ambos em queda livre pela fachada vítrea do arranha-céu.

Mas agora o vampiro, desperto de seu torpor causado pela energia da vida mortal que o alimentava, sacava suas próprias garras para combater a fera descontrolada. Ele era ágil e administrar essa luta não seria problema. O problema real era lidar com o impacto da queda livre e a outra fera monstruosa que aguardava os dois no solo, que emanava tanto desejo de morte quanto os dois lutadores.

A noite, porém, era a vantagem dos vampiros, ainda mais de alguém associado a Fraternidade. Sinuhe calculou com precisão seu movimento, enquanto dominava Aline, e aproveitava a sombra gerada pelo monstro que fumegava, inflamado pelas próprias chamas, mergulhando de cabeça pelas sombras atrás de Gregor, trespassando a passagem entre mundos e planos.

Estavam agora em transição para outro lugar, o vampiro e a licantropsicodélica.

Para desespero do monstro Gregor, seu desafeto escapara. Um dia, ele teria sua vingança, ele tinha certeza.

* * *

Algum tempo depois, num prédio da Fraternidade, Dalton encontra seu amigo.

"Os membros da câmara de contenção me informaram do prêmio que você trouxe. A noite saiu melhor que o esperado. Você evitou um escândalo com a jovem líder da Cosa Nostra, evitou o alarde na festa e ainda nos arranjou um espécime para estudo. Os italianos contaram que conseguiram a Garra com um intermediário bastante esquivo e bom de negociação. Vendeu a eles um lote muito grande e depois sumiu. Enquanto continuamos no rastro dele, o estudo da jovem usuária – isso também confirmado pelos italianos, ela chegou com o filho de Don Podestà – servirá para nos revelar a natureza dessa droga. Daí teremos dados suficientes para rastrear o intermediário observando compras suspeitas de matéria prima. Bom trabalho."
"Foi pura sorte. Eu não planejei nada disto."

"Eu sei que não. Mas foi tudo tão bem orquestrado que só pode ter sido coisa da cidade."

"De novo com esses contos de fada?"

"Um vampiro que vem me falar disso..."

"Certo, não vou mais insistir no assunto. Há algo mais exigindo minha atenção? Do contrário, voltarei ao conforto de meu lar."

"Na verdade, há. Consegui um diário muito interessante. Seu nome é citado nele. Dê uma olhada. Vai despertar seu interesse, garanto."

"Meu nome? Está bem. Você conseguiu. Ainda não estou tomado pela fadiga, mesmo após o exercício. Isso me chamou a atenção mais que esses monstros - já soube que o outro sumiu, mas preferi aproveitar a sombra dele para evadir-me, do que ficar em desvantagem de enfrentar duas criaturas. Bom, irei verificar o conteúdo deste livrinho... na biblioteca, que é o meu lugar, não é?"

"Sim, é. Mas seu bom trabalho será recompensado. Aguarde e saberá. E Sinuhe...?"

"Sim?"

"Livre-se do cartão que Paloma lhe deu e esqueça que um dia a viu. Evitará problema para todos nós."

"Você não deixa passar nada, não é?"

"Esse é o meu trabalho."

* * *

Pouco tempo depois dali, tendo lido o diário, Sinuhe foi até o local onde enfrentou o Esfinge Negra e o venceu, fazendo mais uma captura para a Fraternidade Sombria para que trabalhava: Erishkigal, a forma presa na parede, que emanava uma onda umbrática num padrão bem peculiar.

Ambos vampiros como ele, Sinuhe, mas vampiros de alguma espécie diferente, jamais vista por ele. Ao chegar na janela do hotel por onde havia caído Esfinge Negra, Sinuhe meditou sobre a aparente fragilidade daquelas criaturas, comparadas a ele, e sobre as estranhas similaridades... não havia há pouco caído de um prédio, e esse assassino Esfinge Negra também fora atirado pela janela por uma magia descontrolada?

Se pelo menos o bibliotecário soubesse que aquela queda também havia permitido ao Esfinge Negra escapar pelas rachaduras entre os mundos, só que sem o corpo que havia lhe servido de hospedeiro... um tanto impressionado, na balustrada Sinuhe permitiu-se sentir um calafrio de antecipação, o primeiro de muitos séculos, e voltou os olhos do cadáver lá embaixo para a forma presa na parede suja.

Seria essa a peça final do grande quebra-cabeça que a cidade montara para realizar seu grande jogo obscuro? E agora ela movia seus tentáculos mais e mais para realizar sua obra-prima, agora que cada peça tinha se reunido no tabuleiro nas posições corretas.

Todos podiam sentir que algo grande estava para acontecer... só não podiam dizer o quê. E Sinuhe não sabia de onde vinha essa sensação, mas algo lhe dizia que passara séculos mentindo para si mesmo.




ERAM DUAS CIDADES.

Uma, cheia de vida, de uma inteligência maliciosa, exultante em provocar a mudança. A outra, vazia e burocrática, seus habitantes governados por uma sinarquia oculta.

Uma, uma entidade enganosa e mefítica, apreciando jogos e propondo desafios sutis. A outra, um receptáculo polido de magia e controle, abominando a mentira mas ocultando verdades essenciais.

Uma, metrópole e nexo de onde ninguém sai sem ter sido modificado de alguma forma, cidade onde todos do mundo sabem onde fica e admiram seus segredos e lendas. A outra, uma cidade provinciana, quase um subúrbio que adquiriu tamanha independência, que num dia está num local, noutro dia, em outra localização totalmente diversa.

SÃO DUAS CIDADES. MAS ESTA SITUAÇÃO NÃO DURARÁ MUITO.



quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

A CRISÁLIDA E A ESFINGE

Por Arthur Ferreira Jr.'. e Kinn


Arthur Ferreira Jr.'. gostaria de dedicar este conto a Neith War e a Julian Assange, pela inspiração; e a Samuel por fornecer o espaço de sua cidade para o estranho desenrolar desta história ...


Kinn diz: “Bom, não sou bom com essas coisas, mas se tiver de agradecer a alguém por fazer renascer este dom do conto e da escrita é o Arthur, por sempre incentivar perseverante, sem nunca desistir de acreditar que um dia voltaria a fazê-lo. E não é que fiz?" 


Ambos os autores gostariam de agradecer a Umberto Eco, pelo labirinto que é O Pêndulo de Foucault. Os trechos na fonte Times foram escritos por Arthur Ferreira Jr.'., todos os outros (Verdana e Courier), por Kinn.






“QUEM SOUBER, MORRE” pichado em letras garrafais, na entrada daquele beco perto do meu escritório, me encheu de calafrios. Não era só o cadáver que eu encontrara logo virando a esquina, não era só o sangue que era visível no chão, logo abaixo do próprio grafite berrante, era o conjunto da obra. Eu sabia, sem a meno sombra de dúvida, que no dia seguinte haveria uma manchete no Diário da Crisálida , em letras também garrafais: “ESFINGE NEGRA FAZ MAIS UMA VÍTIMA”.

Os detentores dos maiores segredos da cidade, mortos um a um. E eu poderia muito bem ser o próximo assassinado, mesmo sendo um forasteiro … se era verdade que todos que passavam pela cidade de Crisálida tinham suas vidas mudadas, minha vida mudaria para morte em muito breve, se eu não fizesse nada!






E assim foi que começou o trecho deste curioso diário, coletado por uma sombra furtiva enquanto caminhava por esta peculiar cidade.
O clima era sempre opressivo, tenso, em contínuo thriller devorador devorador da esperança. A cidade parece viva, rastejando, a cada dia, um centímetro para alguma direção, dando a clara impressão que não consegue ficar parada.


Mas antes é preciso voltar um pouco fazermos algumas explicações, que nosso diarista deixou em suas impressões de forasteiro. Ele apresentou algumas de duas de nossas curiosas peculiaridades sem fazer o claro contexto. Sim, esta é a cidade chamada Crisálida e conta nossa mais famosa lenda, erigida pelo fundador que "Ninguém jamais pode entrar e sair dela, permanecendo o mesmo."


Outro detalhe peculiar é que coisas que vamos chamar de "peculiares" acontecem. Acontecem o tempo todo, embora nem todas as pessoas notem. Por trás das impressões de nosso pequeno autor podemos ver sua preocupação diante um aviso bairrista, e de suas muitas leis não escritas que cada bairro discretamente esconde, com suas feras espreitando e predando conforme seus instintos.


E quem sou eu? Ora, sou o Bibliotecário. 


Minha função é guardar o conhecimento produzido e coletado nesta cidade. Podem me imaginar como um senhor franzino, terno grafite, camisa branca e gravata borboleta, sentando numa mesa, cercado de enciclopédias, crônicas e romances deste peculiar município. Não poderiam estar mais errados sobre mim.

Mas esperem, não sou eu que sou o importante aqui, e sim o nosso pequeno fragmento, o qual retomaremos agora:



EU NÃO CONSEGUIA FUGIR, este era um dos meus principais problemas. Todas as vezes que tentei deixar a cidade antes que esse assassino me encontre, houve algum empecilho, surgiu algum problema, desde uma burocracia incompreensível a acidentes bloqueando o caminho, passando por ameaças de gangues no subúrbio.

Às vezes me vinha a fantasia estúpida de subir num dos arranha-céus de Crisálida, e num lance espetacular e cinematográfico, roubar um helicóptero de um dos megaempresários que exploram a cidade. Mas mesmo essa fantasia não vai muito longe, é só pensar nela que imagino explodir em pleno ar, tão logo chegue aos limites do espaço aéreo da metrópole.

No dia seguinte, depois de ter me escondido num hotel barato, desci para comprar jornal e lá estava a manchete que eu temia. O tabloide arrolava as vítimas anteriores do Esfinge Negra, esse nome ao mesmo tempo brega e amedrontador, que lhe foi dado pelo editor – ou sugerido pela secretária anônima, quem sabe. Um político que fez denúncias das corrupções de seus colegas. Uma prostituta que ouviu uma conversa sigilosa de um de seus clientes. O jornalista de um site, que revelou documentos confidenciais do governo. Um ex-padre que ia publicar suas memórias. Um fotógrafo de incidentes estranhos. Um alcaguete do submundo do crime. E eu. Não, eu não estava ali ainda. Mas quem sabe no dia seguinte.

Sou investidor da bolsa de valores, me mudei recentemente para Crisálida e planejava pôr meu dinheiro num empreendimento imobiliário cuja principal linha de propaganda era expor o passado histórico da cidade. Já havia me comprometido bastante, quando a obra foi embargada pela prefeitura. Depois de uma discussão calorosa com um subsecretário, voltei para meu flat e encontrei vários documentos remexidos, coisas fora do lugar. Antes de mexer em nada, desci correndo o elevador, e procurei saber com o porteiro se alguém fora visto entrando no meu apartamento. Ele disse que isso era impossível, pelo registro do circuito interno.

Transido de paranoia e medo, subi os catorze andares e abri a porta. Tudo estava como sempre costumava estar, naquelas últimas semanas. Aquilo me assustou ainda mais, porque, será que eu estava ficando maluco?

Fui relaxar e tomar um banho. Depois da ducha, estava limpo, mas longe de relaxado. Ao verificar os papéis em busca de certos argumentos na negociação com a prefeitura, percebi que … entre eles estavam alguns documentos que nunca havia visto antes.

Eu segurava um panfleto que dizia: CRISÁLIDA, COMO VOCÊ NUNCA DEIXARÁ ESTA CIDADE SEM SER TRANSFORMADO POR ELA …






Veem? ele ficou vidrado no assunto. Mas o curioso é que mesmo eu não sei ao certo de como essa história começou. A referência mais próxima que a maioria dos estudiosos acreditam e que está ligado ao mito da origem da cidade, embora não seja mencionado nele nem uma só vez. Mas há quem acredite que nessa história está claramente expresso que foi a primeira vez onde isso aconteceu.


O problema é esta sempre foi uma história que circulou na tradição oral, sendo compilada apenas muito depois. Existem dezenas de versões dela e mais surgem, conforme o sabor do narrador nos dias de hoje. Eu tenho um manuscrito aqui, datado de dois séculos atrás e mesmo ele já menciona que esta é uma versão, sem que o autor sabia se é a versão original ou não.


O que se sabe é que um grupo de desbravadores veio para estas terras e num terrível confronto com os nativos, conseguiu expulsá-los e clamar o direito de uso e de posse da daquilo que os derrotados consideravam sagrada. Ou amaldiçoada: não dá para saber ao certo, pois o manuscrito já está meio gasto. Um versão bastante pitoresca informa que a culpa de tudo foi terem derrubado ou comido de uma árvore sagrada para os nativos, o que os tornava impuros para habitar aquele lugar.


O fato é que no território onde um dia se tornou o marco central da cidade era o local onde o deus ou o demônio dos nativos costumava transitar na terra, devendo por isso, o local viver desocupado. Obviamente, colonizadores sempre ignoram tais assertivas e prosseguiram montando acampamento até toda sorte de eventos, acidentes e doenças começarem a acometer os colonos. Alguns diziam ter visto o demônio. Outros, animais marinhos em terra firme e muitos mostravam sinais de loucura, afirmando ter visto e/ou ouvido coisas além da imaginação.


Os medos da maldição e vingança dos silvícolas tomaram conta do coração da maioria, que foi se retirando do acampamento pouco a pouco.  Todos desacreditaram de seu líder, que embora fosse combatente competente, não tinha forças para lidar com algo como uma maldição.


Temos outro trecho faltando, mas em seguida a ele, vemos que o escárnio e humilhação são o tratamento dado ao nosso ilustre Fundador, como se ele fosse o culpado por toda sorte de desdém que estavam sofrendo. Como se ele tivesse lutado sozinho e expulsado os nativos? Às vezes a forma como as pessoas simplificam as coisas é bem desagradável.


De qualquer forma, o último aviso e ultimato para que o Fundador deixasse de lado sua teimosia e se retirasse com os colonos restantes, veio com o prenúncio de espessas nuvens de tempestade. Ele disse que se refugiaria na sua cabana e que só sairia de lá quando a chuva passasse, pois nenhuma chuva, deus ou demônio o tiraria daquele lugar que ele chamaria de lar!


É nesse momento que começa a mágica. Meditando dia a após dia, sem sair do lugar, sua única companhia era uma lagarta que tinha acabado de fazer a pupa dentro da choupana que ambos dividiam. Ele ficou impressionado com isto e decidiu adicionar o jejum à sua espera. A versões de quantos dias ele ficou sob a chuva variam muito. Mesmo nesse conto, mencionam algumas variantes costumeiramente ditas:


3 dias e 3 noites de chuva. 5 dias de tempestade. 6 dias de precipitação onde o céu lavava o inferno. 7 dias onde a chuva se tornava mágica e se movia por vontade própria. 11 dias de chuva, onde metade deles ela vinha do céu para a terra e na outra metade chovia do solo para o céu. 40 dias de chuva para tentar demovê-lo de continuar ali, já o dilúvio havia matado os homens sem fé nem virtude (o que nos dá o que pensar, já que nem mesmo essa teve força para movê-lo do lugar). Por fim, a versão de maior tempo de duração diz que ele passou lá O Tempo Necessário em que a pequena lagarta levou para se transformar numa borboleta.


Neste dia fatídico, o Fundador viu a pequena criaturinha saindo de sua moradia numa bela manhã ensolarada. A chuva havia terminado!
Com nova determinação e uma fabulosa aura de autoconfiança, ele conseguiu reunir os colonos novamente no marco zero, onde havia vivido com a pequena companheira e decidira batizar a cidade de Crisálida.


Espero que este pequeno entreato não os tenha distraído de nossa verdadeira história. Mas ao menos, serviu para deixá-los cientes dos medos e crenças que afligiam nosso pequeno diarista.



CRISÁLIDA, COMO VOCÊ NUNCA DEIXARÁ ESTA CIDADE SEM SER TRANSFORMADO POR ELA …

Mas que grande bobagem, pensei naquele momento. Amassei o panfleto com aquela história sobre um fundador mítico e árvores da vida e sei mais lá o quê; acho que aquele gesto foi o meu erro, pelo qual talvez pague muito caro.

Nos dias seguintes ocorreram outras invasões inexplicáveis no meu apartamento, sempre deixando para trás outros panfletos do mesmo gênero – depois da segunda vez, procurei rastrear de onde vinham, mas não havia sinal de que gráfica os havia produzido. Pareciam contar uma história maior que a do primeiro panfleto, na segunda vez; e na terceira vez, haviam várias cópias do primeiro panfleto, dispostas num bolo de quinhentas cópias. Deixadas ali, como se eu fosse um menino que distribui propaganda nas esquinas.

Ora, o slogan da Crisálida poderia ser atraente para minha campanha, mas não aquela história de vingança de espíritos cativos, libertos antes do tempo da árvore do sacrifício … então, peguei só o que me convinha, e usei na campanha publicitária do empreendimento; vejam que poupei bastante dinheiro, porque não foi necessário contratar nenhuma agência publicitária … havia até um logo no panfleto, pronto para que eu o copiasse, descaradamente.

Nem tão descaradamente, eu pensava; se alguém deixava aquilo na minha casa temporária, de maneira tão misteriosa, era porque queria que eu utilizasse o material de algum modo. E que outro modo um investidor poderia encontrar, senão o mais lucrativo?

A campanha seria muito bem-sucedida, as pessoas pareciam fascinadas pelo slogan e pelo logo; seria coroada de êxito, se não fosse um incidente inesperado. Duas mortes de operários na construção não iriam nos impedir, por mais estranhos que fossem os acidentes das primeiras semanas, mas quando um tremor de terra sacudiu o local da obra, e praticamente engoliu os alicerces tão cuidadosamente dispostos – era como se a terra houvesse se tornado lama – a construção foi paralisada.

Não teríamos dificuldades de retomar a obra, se não surgissem inúmeros entraves burocráticos, campanhas de ativistas contra o empreendimento (diziam que aquele era um local onde morreu o Fundador de Crisálida, e que a área deveria conter um monumento, e não um condomínio fechado), e até uns fanáticos religiosos que protestavam por sei lá que motivo, dizendo que o logo era um símbolo demoníaco e que o tremor que fulminou as fundações do condomínio era um sinal de castigo divino – ou na verdade, um aviso divino.

Em resumo, acabei perdendo dinheiro suficiente para me encalacrar aqui em Crisálida. Em menos de um mês, comecei a entrar em depressão. E depois, vieram os pesadelos. O terrível logo da árvore com crisálidas nos ramos, no lugar de frutos … os casulos se rompiam, e deles saíam não borboletas, mas pássaros macabros, vorazes, que se dispersavam pela planície onde eu estava … um deles me bicava, sôfrego, e no final desse sonho – desses sonhos, porque repetia-se todas as noites – eu morria e acordava em desespero.

E, tão logo esses pesadelos começaram, também surgiram pela primeira vez as notícias da Esfinge Negra. Eu me sentia perplexo, e depois de tanto sofrimento e dificuldades, tinha toda a certeza de que não podia ser uma coincidência!

Eu sabia demais. E ia morrer por isso.




Eu lembro dessa campanha. Foi o maior sucesso, em termos de propaganda, já contado na cidade. E também foi considerado polêmico, porque o slogan da cidade havia sido usado, numa frase feita, e algumas pessoas ficaram se perguntando se havia sido pago os direitos autorais da lenda. Bom, que eu saiba, lendas não costumam ter autores e, quando tem, são tão antigos que isso não se aplica.


Da mesma forma que os elementos que nosso diarista vem mencionando, desde que começou o relato. O Esfinge Negra realmente apareceu nos jornais e, em meus trabalhos, já compilei uma obra que citava uma árvore monstruosa, cujos frutos eram cabeças humanas, dos corpos que ela devorava. Mas uma árvore de crisálidas é realmente novidade.


Nossa história até o momento mostra as impressões e digressões de nosso autor. Talvez não faça sentido em alguns momentos, como por exemplo, não parece ter ainda conexão com o Esfinge negra, citado no início. Mas isso acontece porque estamos vendo os fatos fora de ordem. Quando tudo o mais estiver disposto, fará sentido - pelo menos fez sentido para mim na primeira vez que li.


O fato é que muitas vezes vemos ou ouvimos relatos assim, de conhecidos de conhecidos, que supostamente aconteceu com alguém que eles conhecem. Todos sabem o que são lendas urbanas. Mas aqui isso parece ser mais forte, como uma cidade que adora fabricar suas próprias lendas. Posso afirmar com propriedade, já que compilei muitas delas, e lhes garanto que não são como as lendas vistas em qualquer outro lugar, embora existam muitos elementos em comum.


Aliás, isso acontece o tempo todo, como na lenda de fundação e sua miríade de versões, tendo fruto proibido, árvore-mundo, maldição indígena e dezenas de outras misturas, oriundas de toda sorte de lugar. Parece-me que há um motivo especial para todas as fontes se repitam tanto. Um motivo, deliberado ou não, mas que toca o coração dos leitores de um modo ou de outro, dando força ao elemento narrado. Isso reflete, por exemplo, no nosso misterioso personagem, o Esfinge Negra. Por que ele foi batizado assim? O motivo disto e outros fatos, vocês saberão agora:



“O ESFINGE NEGRA ATACA NOVAMENTE” nas manchetes dos jornais, e um deles ficou enrolado na minha mão por um longo tempo, crispada de medo, enquanto eu tentava me livrar do ataque de pânico que sobreveio, tão logo eu voltei da rua para o quarto de hotel.

Consegui me controlar, mas uma dor de cabeça me prendeu à cama. Fiquei ali, na semiobscuridade, sorvendo minha paranoia. As bordas de meu campo visual começaram a enegrecer, a se encher de bolhas translúcidas, fazendo o medo voltar. O jornal estava largado no chão do quarto sujo e barato. Parecia que as cinzas largadas pelo meu cigarro de uma hora atrás haviam se disperso por toda a atmosfera do quartinho. Pela primeira vez, meus pesadelos me perseguiam enquanto eu ainda estava acordado.

“Se é um pesadelo,” pensei com força naquele momento, “vai passar, e eu vou acordar.” Tentei relaxar pensando na certeza do mundo real, da cidade lá fora, tão estranha, grandiosa e cinzenta. Foi quando minha paranoia desferiu um golpe certeiro: e se, naquele momento de fraqueza, aparecesse o Esfinge Negra?

Foi só pensar nesse nome terrível, nesse nome nefando, que o logo da campanha, a árvore cheia de crisálidas, penduradas como frutos vivos e trêmulos, surgiu em vislumbres súbitos, como num filme de terror antigo. A árvore se avolumou diante de mim, parecia ocupar todo o aposento, e ao mesmo tempo só estava na minha cabeça … estava dentro de mim. O tempo todo. Esse tempo todo.

Uma das crisálidas arrebentou, perto da minha orelha. Uma estalo se fez ouvir, e as borbulhas inomináveis em minha visão periférica remexeram-se com avidez. Do casulo descartado, surgiu uma escuridão. Era uma escuridão palpável, uma coisa, uma entidade, mas eu só conseguia discernir a sombra que assomava sobre meu pescoço, e o brilho cáustico de dois olhos púrpura …

“MORTAL,” bradou a voz num sussurro – o que era aquilo, aquele paradoxo na forma de voz humana?  – “Mortal, estás errado, tão errado. Não sabes de tudo, não sabes de nada …”

Me levantei, minhas pernas ganharam um vigor repentino. Da cama eu pudia enxergar o espelho na penteadeira – um espelho grande e fosco, mas que mostrava minha imagem como sempre a enxerguei, exceto pelos olhos púrpura chamejantes. Então, EU SOU O ESFINGE NEGRA, sou NYARLATHOTEP, e do meu casulo nasci. MIL NOMES TENHO, MIL NOMES TIVE, MIL NOMES TEREI. Pronunciar essas palavras obsedantes fez as cinzas sumirem da minha frente, a árvore foi se desvanecendo, e as borbulhas, sumindo; meus olhos mudaram de púrpura para um azul-cobalto profundo e brilhante.

E daquele cenário infernal, só restavam esses olhos azuis e uma sombra tênue, mas tentando desesperadamente agarrar-se à materialidade, uma sombra de formas femininas e olhos púrpuras. Como num transe, como um movimento automático, virei-me para minha criadora – criadora? Mas se sempre existi, sempre e para sempre – peguei-a pelo pescoço (uma sombra tem pescoço?) e com uma força tremenda, a arremessei contra a parede.

Um estrondo ecoou pelo hotel, mesmo que nada houvesse de fato atingido a parede. E esse nada se preparou para revidar, furiosa, e eu estava pronto para continuar a agredir a sombra, se a parede não a tragasse, deixando apenas parte de seu torso para fora, os ombros se mexendo em desespero. Agora era mais visível como uma coisa quase humana, umbrática, de olhos púrpuras, orelhas pontudas e caninos afiados, um duende de sombras vivas. A massa de escuridão que passava por seu cabelo parecia mais um amontoado de penas, do que fios de cabelo humano.

Movido por um instinto – eu me sentia como se fosse uma gralha que voasse na direção de um objeto brilhante – passei meus dedos pelas chamas púrpuras de seus olhos, fazendo com que ela gritasse de dor: “VOCÊ! VOCÊ não pode fazer isso comigo, eu te NUTRI, estive contigo A CADA PASSO desses dias ruins, te confortando A CADA ASSASSINATO que cometias … e agora você CHOCOU, é um igual a mim!” Ela praticamente grasnava de raiva, indignação e súplica misturadas.

Em minhas mãos, uma chama púrpura cintilava, e meu instinto mais uma vez me dominou – eu a engoli, como num espetáculo circense do além. Alguma coisa em minha sentia tudo aquilo tão familiar, como se repassado mil vezes, o mesmo número perante a mesma plateia. Outra parte em mim, aquele âmago humano que sempre esteve comigo, se revoltava diante daquela insanidade. Eu só podia estar sonhando – mas enquanto sonhava, era impossível interferir no desenrolar daquele pesadelo.

De alguma forma, eu também sabia que a força que a mantinha presa à parede podia também me encarcerar ali, tinha algo a ver com a cidade, a cidade viva, Crisálida. Decidi sair dali o mais rápido possível e deixar o monstro – mas ela era minha Mãe, monstro como eu, aquela vampira feita de sombras e segredos roubados – preso ali, exaurida, até conseguir se soltar, sabe-se lá quando.

Lá embaixo, empurrei longe o gerente que vinha me fazer cobranças, assustado ao me ver correndo pelas escadas, depois daquele baque vindo do meu quarto, e saí à luz do dia. Era incômoda, mas suportável. Saí vagando pelas ruas, fazendo coisas que nunca fiz, dentre elas roubar os óculos escuros de um transeunte, e roubar o sangue e a mente de outro.

Eu era um monstro e andava por um dos piores bairros da cidade, Raven Lake. No topo de um edifício de seis andares, eu contemplava a Crisálida, e sentia que ela de alguma forma me rejeitava. Tirei meu diário da mochila, e, provocando uma espécie de escrita automática, delineei meus últimos pensamentos antes de verdadeiramente me tornar o monstro que sou, escrevendo sob minha identidade anterior, o investidor cujo nome não preciso citar … mas que quem ler isto, saberá com certeza.

Eu sou Nyarlathotep, um Vulto Vulpino, um vampiro vagante. Sei que esse diário vai cair nas mãos erradas, e depois acabar nas mãos certas … você que me lê, sei que vai querer me encontrar, cara a cara. Não vai conseguir resistir ao chamado de outro imortal, tão parecido, e tão diferente de você mesmo … Bibliotecário Sinuhe.

Eu sou um fluxo imortal, indetível, e vivo, tanto quanto você está morto e é estagnado. E então? Vai permanecer intocado, imutável pela Crisálida? Ou vai vir me procurar e tentar pegar o segredo, o Mistério, a chama viva que eu roubei?







E assim termina o relato de nosso diarista. Espero que não tenham ficados decepcionados com o final. Ele não segue um fluxo linear, como o é na maioria das histórias, mas é assim mesmo, já que se trata de um diário, o que o leva costumeiramente a ser desregulado, desregrado, sem estrutura ou sentido começo-meio-fim.


Rogo, igualmente, para que não se desagradem com o "plot twist" da revelação na palavras finais desta missiva. O que é um vulto vulpino? Quem é o diarista e porque ele quer se encontrar com o bibliotecário que narra nossa história? Todas estas são perguntas justas e têm vocês todo o direito de querer elas respondidas. Mas nada disso vai acontecer. Não agora, pelo menos.


Nosso diarista comete uma infração ao brincar com nossa Biblioteca e com quem cuida dela. Bibliotecários não devem escrever textos, muito menos participar de histórias, no máximo contá-las. Mas como este lugar é uma central de compilação de muitas histórias, com certeza deve haver histórias sobre bibliotecários e até algumas histórias sobre mim.


Quem sabe se não conto elas algum dia para vocês? Afinal, são todas parte destes Contos da Crisálida que compilo.
Este conto acabou e até a próxima vez.


Sinuhe Takashima, Bibliotecário
Compilado primeira vez em "Contos da Crisálida", Editora Genaro, ano 432 10³ da Era A.







Anexo I.


Tsc, Tsc. Sempre com chavões e frases feitas. "Tudo muda exceto a mudança"; "Eu mudei porque eu quis"; "É só uma lenda". É quase divertido ver como estas pequenas criaturinhas se debatem enquanto eu brinco com elas e as troco de lugar e faço experiências com eles. Alguns são divertidos, outros sofredores, mas nunca deixei ninguém escapar. Então virou um hobby divertido, compulsivo e, algumas vezes, letal …


Desde o início – e digo desde o início mesmo – nunca encontrei ninguém que não fosse interessante de brincar. Alguns são teimosos. Outros voluntários. Temos os descrentes e os fervorosos  - um grupo, por sinal que dá muito gosto transformar. Só tem um tipo que trato como ofensa: aqueles que me desafiam! A estes e estas, uso de todos os mecanismos para atingir meu objetivo, mas nunca, nunca precisei agir diretamente. E quase pensei ser o caso desta vez.


Se tratava de um tipo bem escorregadio, esse Sinuhe Takashima, com seus dizeres de ser sempre solitário; de se isolar de tudo e todos. Era como um tigre; um predador solitário, que sai da toca, pega a sua presa e retorna para o esconderijo sem que possamos detectar os seus rastros. Sendo imortal, podia deixar para demorar em meu jogo, no laboratório onde faria dele um rato bem divertido. Mas ele não tinha graça e se recusava a brincar. Eu não conseguia tocá-lo - pelo menos não sem quebrá-lo e as suas convicções - ele me desafiou, lembram? Não se tratava mais do hobby. Era pessoal.


Mas então encontrei outros, peculiares como ele. De outras terras igualmente, e com as armas que eu desejava, para forçá-lo a participar da brincadeira. O jogo é: estão todos trancados em casa. Quem consegue ficar acordado mais tempo até ver quando a chuva vai passar? Uma dica: da outra vez não foi o Fundador que venceu.


Anexo II


"Admito. O truque com o diário foi divertido. Com ele pude encontrar sua amiga presa na parede. Foi bem instrutivo."


"Você é bem esquisito. Não consigo senti-lo como senti a sua amiga e apesar de que ela dizer que são ainda iguais. Na verdade não me interessa. Ela me disse que você roubou algo dela e que roubou algo de mim. Somos todos um bando de ladrões. Já vi meus parentes e irmãos roubarem todo tipo de coisa alheia para prolongar a vida e aumentar seus poderes, mas nunca vi ladrões esquisitos como vocês."


"Já examinei minhas memórias. Não falta nada, nem o conhecimento de nenhuma pessoa com quem convivi; todas as memórias de eventos não possuem nenhuma falta, então tenho certeza que não esqueci nada que saiba. Também já vi que não perdi nenhum de meus poderes, naturais ou adquiridos. Da mesma forma, nenhuma de minhas posses em casa desapareceu. Então, apesar de ter sido roubado, não consigo detectar que tipo de coisa pode ter tirado de mim sem que eu perceba - e observe que não há tantas coisas que possa tomar de mim sem que eu permita."


"Sendo direto. Devolva o que roubou, seja lá o que for, e poderá seguir adiante – até para roubar outra pessoa."


"O que me diz, Esfinge Negra?"



Anexo III

CHUVA.  TORRENCIAL, VENTOS que me atingem o corpo e gotas d'água que me açoitam o rosto. Não sei o que é, mas estou começando a gostar dessa cidade, mesmo que ela não goste muito de mim. A sensação da água correndo me agrada. Parece muito melhor do que as cinzas que choviam sobre o mundo anterior – aquele de onde escapei, para vim reformar uma identidade dentro da mente temerosa de um homem, cujo corpo também visto.

Não tenho condições de avaliar se esse homem está, ou não, morto. As memórias dele pouco a pouco vão diminuindo, e eu sei que a queima delas, dentro de mim, é o que me mantém nutrido. Pouco a pouco perco a consciência de que ele era um investidor, de que alimentava temores secretos, e que tinha medo de reler as poesias que escrevia quando era adolescente. Se não quiser me tornar um idiota balbuciante, preso dentro de uma casca humana, tenho de tomar outras memórias, outros segredos, outros Mistérios.

Um Mistério como nenhum outro, pois veio daquela que agora é minha mãe – um espírito vulpino como eu, que talvez agora chame-se Ereshkigal, talvez Shub-Niggurath, ou mesmo um nome pouco feminino como Benoth. Talvez esse vampiro que se chama de Sinuhe possa muitas coisas, mas usá-la para me espionar não é uma delas – quando roubei o Mistério que nela brilhava, ironicamente a deixei cega como uma toupeira.

Ela só pode ter adotado o nome de Ereshkigal, então. Segundo as memórias de um professor que drenei, depois de um sarau requintado na cidade, esse é o nome de uma deusa antiga do subterrâneo e da morte … uma toupeira sensível à luz, de fato.

A cegueira dela contagia. Estou ignorando coisas básicas, cometendo erros. Um deles foi tentar me aproveitar da cegueira dela. É por isso que meu corpo moribundo – aquele que por um tempo foi meu corpo – jaz entregue à chuva, aos ventos e à tempestade.

Alguma coisa mais forte que eu me impeliu – só posso achar que seja um desses arquétipos que me compõem, na verdade, resíduos de mundos destruídos, restos de mentes e almas destroçadas por apocalipses – e deixei a armadilha pronta para o bibliotecário. Ele entrou no hotel, e foi conversar com Ereshkigal. Sei ser naturalmente sutil – um ladrão furtivo – e dei um tempo do lado de fora do hotel, entrando depois; e depois pelas escadas; era o tempo, eu calculava, para que a cegueira daquela demônia o afetasse, e eu pudesse atacá-lo como fiz com ela, roubando o que eu precisava.

E consegui: ele estava distraído com ela. Cego, sem foco. O quarto estava bastante escuro, mas isso não fazia muita diferença. A figura de costas, falando com aquele espírito preso à parede, coagindo-a de alguma forma. Ele me dava as costas, e a feria com sua conversa melíflua. E não sei porque, ali senti uma certa raiva. Como um orgulho ferido … e ataquei com ferocidade, descuidado, em vez de dele extrair o que queria, com precisão cirúrgica, como eu desejava, e não fiz.

Minhas garras trespassaram o torso de meu inimigo (porquê mesmo ele era meu inimigo? Não tinha mais noção) e ele reagiu como um raio. O vampiro de carne se voltou em minha direção, seus olhos à primeira vista impassíveis, frios, mas eu sabia que ele estava surpreso e que havia sido ferido. Eu não devia ter muitas esperanças de vencê-lo, mas tentei. É o que nos define, nós vultos, desde que a primeira de nós saiu da Espiral Sem Limites, aquele turbilhão no além, milênios – não, milhões de anos atrás: o ímpeto, a violência, a sede de ser, de existir.

E para isso roubamos parte do que define outros seres, em diferentes cosmos, diferentes mundos, diferentes realidades. Aquela verdade me atingiu em pleno coração – vinda na forma de um soco impulsionado por uma força física extrema, e carregado de estranhas sombras que envolviam a mão de Sinuhe, sombras não muito diferentes daquelas que me definem.

O impacto foi tão poderoso, que meu corpo foi jogado pela janela, estilhaçando o vidro e me derrubando pela balaustrada. Caí com velocidade extrema, anormal – algo havia me atingido, mais do que o punho do vampiro que fora minha vítima.

As sombras. As sombras separam, a escuridão oculta, o abismo divide. Meu corpo, caído no asfalto diante do hotel barato, estava muito ferido, pela queda e pelo murro, mas ainda estava vivo – e eu tentava recuperá-lo, regenerar os ferimentos, sem sucesso. As sombras que Sinuhe empunhava, numa feitiçaria desconhecida, agiam como um veneno – elas separavam meu próprio eu de escuridão do resto de centelha do investidor mortal, o forasteiro em Crisálida, e tornavam inútil qualquer tentativa de me curar.

Sinuhe não veio atrás de mim. Pelo menos enquanto eu ainda me retorcia no asfalto, ainda vivo. Apenas três mendigos me observavam chocados, a uns cinco passos de distância. Eu arquejo dentro de mim mesmo, sabendo que, mesmo morrendo, havia vencido – eu ia me reformar em algum outro universo, e levaria comigo duas coisas de uma importância extrema, que eu não sabia mais qual era – o Mistério de Ereshkigal, e o muro de solidão de Sinuhe, aquilo que impedia de … que impedia … não sei mais. Roubamos segredos, mas nada sabemos de verdade. Bebemos o sangue da vida, mas não estamos vivos de verdade … não sei de mais nada, não sinto quase nada …

Só consigo sentir a chuva caindo sobre mim.
Forte. Cada vez mais forte.
A chuva me lava, e a tempestade me leva.





Anexo IV


"Definitivamente, estranhos.”


“Por que ele era tão frágil e vulnerável e se dizia um vampiro? Minha raça possui variação de força entre seus membros, mas nunca encontrei alguém tão frágil para se partir em dois com apenas um golpe."


"Seria porque vocês são particularmente vulneráveis aos dons umbráticos, Erishkigal? Se assim, for, você será um excelente espécime de estudo. Rogue para seus deuses para morrer nas minhas mãos quando eu extraí-la dessa parede, porque puserem as mãos em você, sofrerá um destino muito pior do que a morte."


"Eu já sofro e imagine que trabalho para ELES. São demônios muito piores do que eu. Ficaram felizes ao saber da sua presença aqui. Embora tenham me repreendido pela perda do Esfinge Negra, ficam satisfeitos com um prêmio de consolação. Isso até rendeu uma graduação e um trabalho de maior responsabilidade. Não é nada pessoal, você só está no lugar e hora errada."


"Fico levemente curioso com o que teria sido roubado de mim, já que nada me falta, que já não faltasse antes..."





Nexo 0


Hssssssssssss Sssssssshhh Hssssssssssss
He he he he, sua imunidade, meu caro Sinuhe … 
Sssssssshhh
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