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segunda-feira, 13 de junho de 2011

NAS GARRAS DE UMA MENTIRA

3o. conto da Tetralogia da Crisálida, por Arthur Ferreira Jr.'. e Kinn

(Os personagens Aline Cortez originalmente criada por Arthur Ferreira Jr.'. e Lady Mizune no miniconto Ela Só Queria Dançar; Thiago Podestà e Vanessa originalmente criados por Neith War e Arthur Ferreira Jr.'. no conto Mistérios do Horizonte)

Nota: Embora este conto esteja entrelaçado com os eventos narrados nos contos A Crisálida e a Esfinge e Verdade Seja Dita, você não precisa necessariamente lê-los ANTES! Porém, os links estão aí como referência.



MAL COMEÇARA A MANHÃ EM CRISÁLIDA, e a fumaça já ascendia aos céus. Isto é comum em cidades grandes, especialmente quando essa fumaça é sinal do progresso eternamente em andamento, buscando fazer a cidade crescer nos atos de seus cidadãos. Mas hoje é um dia especial. Caminhões chegam em certos locais de entrega, vindos não se sabe de onde. E ninguém pergunta sua procedência, por que seria falta de etiqueta. E a etiqueta é algo muito importante na sociedade. Todos os grupos oficiais e extraoficiais da sociedade na cidade seguem-na rigidamente.

Dizem que mesmo os monstros e fantasmas – se você acredita neles – seguem essas regras não escritas, que todos conhecem. Não segui-las é atrair a atenção e chamar problemas, de um jeito ou de outro. Tanta rigidez exige compensações. E a cidade, ciente disso, oferece de tudo para satisfazer seus habitantes. Todo tipo de diversão e prazer, lícitos ou ilícitos, podem ser obtidos por um preço, de acordo com o bolso e gosto do freguês.

Gregor viu um desses caminhões chegar no galpão, enquanto se ocultava na ruma do beco, o tonel gerando calor durante a noite esgotava seu combustível. Gregor vivia nas ruas há muito tempo. Suas roupas esgarçadas, sujas, bem como sua barba cheia, mostravam toda sua decadência. A garrafa vazia ao seu lado completava a cena óbvia do imaginário do sem teto que era, mesmo que em seus sonhos, se visse com uma vida de luxo e nobreza de berço.

Aquele era um bairro violento. Mas Gregor sempre estava por lá, vivo, não sofrendo nenhuma das injúrias, nem desaparecendo como muita gente naquela região. Era sempre Gregor, o louco; Gregor Sansa, a barata da sociedade, que tinha ilusões de grandeza e riqueza; Gregor Spinovit, ou seja o sobrenome que ele inventava ter no dia. Igualmente variava a versão da forma teria tido a mão direita amputada. Combatendo piratas ou tentando obter tesouros em masmorras antigas, ele era a diversão dos transeuntes, especialmente mafiosos e bandidos da região. A única coisa que nunca mudava em suas histórias era o vilão, seu arqui-inimigo o Conde Sinuhe, que era responsável de alguma forma pela perda da mão do herói e fugia rindo malevolamente.

Hoje, havia chegado mercadoria nova e alguém teve a ideia de dar um presente para o mendigo mais divertido do bairro. Disseram a ele que ia tornar os sonhos dele realidade...

Ironicamente, não poderiam adivinhar quão perto da verdade estavam...





A CIDADE TEM UM RITMO DIFERENTE, pensou Nyarlathotep, o Esfinge Negra. Estou há tão pouco tempo aqui, e algo me diz que não vou permanecer muito tempo, mas consigo perceber a diferença. Há algo no ar... um pulsar, uma presença, um tanto distinta da presença que senti no ar desde que cheguei a Crisálida, e a nova presença está ao mesmo tempo se opondo e sendo abraçada pela cidade. Algumas pessoas de quem me alimentei parecem estranhas, e como vampiro de sangue, memórias, sentimentos... senti o gosto profundo e alterado em seus sangues, o experiência em suas memórias, o frenesi em suas emoções.

É uma droga. E bem diferente da cocaína, maconha e ecstasy que saboreei em algumas de minhas vítimas. Mas isto veio a calhar: vai apressar o meu plano. As marcas que estou deixando na cidade, as mortes, vão atrair a atenção desse outro vampiro que detecto à distância... e tenho o pressentimento que ainda mais rápido, se as mortes estiverem ligadas a essa droga.

Se há uma coisa que esse Sinuhe tem, é curiosidade.

Vamos ver se ele vai cair na armadilha do diário... hum, devaneios à parte, mais um drogado se aproxima, hora de deixar mais uma marca e deixar o bairro de Raven Lake ainda mais apavorante e sedutor...

“Amigão! Tem fogo?” Às vezes os clichês funcionam melhor que tudo, riu-se Esfinge Negra por dentro.

“Não tenho dinheiro, cara.” O sujeito, de óculos fundo de garrafa, barba por fazer e roupas comuns – camiseta, moletom e calça jeans – cheirava à nova droga. Ele apressou o passo, e nesse passo renovado o Esfinge percebeu que ele levantava os pés de forma mais similar a de um animal do que de um ser humano. Um certo pressentimento, um aviso de imprudência cruzou a mente do vampiro, mas a impressão de perseguir um animal selvagem atropelou o alarme de sua intuição, e tudo que Nyarlathotep quis, naquele momento, foi a sensação da caçada perigosa.

O Vulto Vulpino foi rápido e alcançou sua presa, segurando-a pelo pescoço – só que o rapaz se voltou quase tão ágil, vibrando um chute no estômago de seu perseguidor. Tendo se desvencilhado, deu dois passos para longe do Esfinge e – para espanto e excitação do vampiro – chiou como se fosse um gato, arqueando a postura, seus olhos brilhando na penumbra.

Nyarlathotep sorriu por dentro. Perfeito! Primeira vez que encontro um monstro tangível, de verdade, em Crisálida! E atacou, seus olhos azul-cobalto revelando-se tanto quanto os olhos licantrópicos de sua presa.

Jogo de ganha-ganha! Se ele se provar muito forte, eu fujo deixando a sacola com o diário para trás, e tenho certeza que assim cairá nas mãos do Bibliotecário! Se ele for fraco, mais uma refeição e eu deixo o diário no moletom do cadáver...




TRIM! TRIM!
TRIM! TRIM!

O aparelho não parava de tocar, até que a porta da rua abriu e chegou uma jovem cheia de compras. Ela olha para o lado e vê o dono da casa na mesa olhando uma pilha confusa de papéis.

“Não vai atender, Sinuhe?” perguntou a jovem, enquanto pousava as compras no chão.

“Não. Por que deveria?”

“Nós quase nunca recebemos ligações. Não está nem um pouco curioso em saber quem é?”

“Nem um pouco. Só uma pessoa usa esse aparelho infernal para nos incomodar. E sempre são notícias ruins. Desligue-o, por favor.”

Mas o aparelho continuava a tocar insistente. Quem estava do outro lado mostrava que não desistiria até conseguir ser atendido. A jovem, confusa, parou em frente ao aparelho, na dúvida entre obedecer a ordem e fazer seu mestre sofrer as consequências de desafiar a pessoa do outro lado da linha. Por fim, Sinuhe, vendo a consternação da jovem, se levantou e foi até o aparelho, enquanto disse para a jovem guardar as compras.

Ele observou o aparelho, incomodado tanto pelo barulho que fazia, quanto dissabor de ter de usar um instrumento tão esquisito para ele.

“Eu te odeio, Graham Bell.” disse antes de atender.

A ligação, ao contrário do parecia, não era mais um dos serviços sujos da organização para qual trabalhava. Era um comunicado para convidá-lo a uma festa na alta sociedade. Parecia uma noite de negócios onde uma novidade peculiar seria apresentada. Ele deveria vigiar uma presa: a jovem líder dos italianos e obter detalhes; se pudesse obter uma amostra ou a fórmula, melhor ainda. Informação e o controle dela eram as armas da Organização e os talentos dele seriam úteis nessa operação.

Algum tempo depois estava trajado de forma impecável para a solenidade. A jovem ajudava-o a completar seu bem vestir.

“Pronto, Sinuhe. Está muito bem vestido. Vai para uma festa e ainda assim, não parece de bom humor. Devia aproveitar e se divertir. Um lugar destes para alguém como você deveria ser uma oportunidade de ouro. Quase fico com ciúmes de saber que vai seduzir tantas garotas lá.”

“A festa não me interessa, Fumiko. A moça não me interessa. Nem estas presas que eles estão dizendo que estão cedendo para mim. Eu sei que há algo desagradável nisso tudo, senão aquele homem desprezível não teria me escolhido. Mas eu farei o que foi ordenado e depois que terminar, me esquecerei que este dia existiu.”

“Mas Sinuhe... você quer dizer que, mesmo vivendo para sempre, que vai esquecendo das coisas? Quer dizer que um dia vai me esquecer?”

Ele sorri e ela vê o fulgor de seus olhos verdes que um dia tanto fascinaram e a fizeram abandonar tudo.

“Eu escolho sempre esquecer tudo de ruim e lembrar das coisas boas. Eu sou muito criterioso na escolha de meus servos humanos. E nunca esqueci do tratamento de nenhum deles. É assim que eu sou e assim serei para sempre, enquanto minha vida, que é eterna, subsistir.”

Ele dá um ósculo na testa dela e sai. Sem notar que olhos sinistros não gostaram nada de sua declaração...





OLHOS SINISTROS E ONIPRESENTES OBSERVAVAM cada canto da cidade, porém mesmo um olhar tão ubíquo deixa de notar certas coisas; afinal, não estamos sempre ignorando coisas que acontecem no canto do olho? O que acontece se os cantos desses olhos sinistros estão – oh, não, olhos que são cada esquina de uma cidade que parece viva?”

“Esse sujeito era meio poeta, né, chefe?” Domenico Podestà se irritava um pouco a cada vez que ouvia um desses comentários clichês de Antonello, mas não tinha jeito. Um capanga extremamente fiel, mas um sujeito bronco e de personalidade monocromática. Bem, não se pode ter tudo, pensou Domenico, e com certeza eu prezo mais a fidelidade. Que ele deixe o refinamento para mim. Assim, nem se deu ao trabalho de responder ao braço direito, mas pulou logo para o assunto de interesse mais imediato da noite:

“Mande verificar o carro antes de sairmos. Não quero surpresas hoje, depois que explodiram o carro do Pasini, quero que seja rotina revistarmos o motor, o porta-malas... tudo. Aproveite e selecione um homem de confiança para estar do lado da mocinha...”

Antonello assentiu com um grunhido e foi resolver as demandas. Mocinha, Podestà mergulhava em pensamentos, com o diário na mão. Não devo mais chamá-la assim, pelo menos não na frente dos outros. É tão bom ser o homem por trás do trono, mas há de se ter atenção para não trair as verdadeiras hierarquias ocultas. Voltou os olhos para o pequeno caderno que segurava, e pensou também nas circunstâncias estranhas em que aquela – obra de arte, assim o mafioso a avaliava, digna talvez de ser vendida ao sr. Leonardi, se aquele comerciante de antiguidades e artigos estranhos, seu amigo de longa data, não tivesse de ter sido discretamente eliminado há quase dois anos antes, por motivos de que Domenico agora se arrependia – aquela peça de literatura, escrita numa caligrafia nervosa mas legível, havia lhe caído nas mãos.

Ainda não havia tido tempo de ler todo, mas o que havia pescado ao folhar o diário já garantia algum retorno do dinheiro do suborno. Propina paga à polícia para ignorar a morte esquisita de um dos usuários da nova droga que sua organização estava agora vendendo... o sujeito havia perdido quase metade do sangue, sabe-se lá como, porque não haviam feridas profundas... e num corolário, o cadáver havia se deformado de jeito quase animalesco. Era um corpo estranho, esquisito, Domenico avaliava. E não era o primeiro a morrer assim um tanto deformado – a princípio o mafioso ligou essas ocorrências a algum tipo bizarro de overdose, mas houveram outras overdoses sem essas reações alérgicas tão peculiares.

Por outro lado, as outras aberrações não haviam perdido metade do sangue ao morrer; nem largado consigo diários de valor literário elevado.

Era um enigma, como o do tal Esfinge Negra que matara gente pela cidade e a máfia não tinha noção de quem seria o assassino. Aliás, Domenico achou que vira a palavra esfinge no meio do texto no diário, mas preferiu verificar isso mais tarde. Já estava meio atrasado.

De qualquer forma, nenhuma das mortes ligadas ao Esfinge envolveu overdose ou deformidades. E estas mortes bizarras, sim, precisavam ficar longe dos tabloides. Domenico Podestà era um homem que primava pelo respeito à discrição. Ele pensava na Bíblia, que dizia que era necessário que houvessem escândalos, mas que, ai dos que provocassem escândalos. Domenico pensava que os mesmos escândalos de sempre, as mesmas mortes de sempre, não eram escândalos de verdade e ninguém sofria com isso. Especialmente ele ou sua organização.

Já aquelas mortes atrairiam uma atenção indesejada. Olhos sinistros e onipresentes, não é assim que diz este livrinho? Melhor me preparar para os olhos sinistros e mais mundanos da festa de logo mais. Pôs o diário no bolso do paletó – era de tamanho reduzido – e, levantando-se, foi para a garagem onde a escolta e o carro revistado já deviam estar lhe esperando.




A FESTA ERA NUMA COBERTURA FAMOSA DA CIDADE. Um dos inúmeros arranha-céus impressionantes que Crisálida gosta de ostentar, para tornar tangível a sensação de pequenez de seus habitantes diante de si. Uma célula social, onde os habitantes eram meras formigas passeando de um lado para o outro, em seu enorme aquário para o entretenimento alheio. E entretenimento era algo muito importante nesta cidade, onde todos precisavam manter as aparências com tanta força.

Assim sendo, Paloma Genaro, a herdeira do clã italiano acabava de chegar, atraindo olhares e atenção de todos com seu magnetismo natural. Por muitos já era considerada a líder da organização mafiosa da família, embora quem comanda de fato ainda não tenha morrido ou oficialmente se aposentado. Assim, a jovem prodígio aproveita seu status e poder inerente para fazer o que bem entende, seja isso constrangedor para sua vítima ou não. Ela adorava contrariar regras e levar todos os participantes de seus jogos ao limite perigoso da intervenção das leis não escritas da cidade.

Ela gostava do perigo. De inverter os papeis nos jogos sociais e deixar a todos desconcertados. Seus protetores tinham trabalho para cuidar dela. Na maioria das vezes o pior inimigo dela era ela mesma. Ela viu ao longe, quase ocultas nas sombras do salão, duas pessoas peculiares conversando. Ela sentiu a sensação de presa perante o caçador e percebeu que poderia se divertir muito esta noite, desafiando-o perigosamente a inverter os papeis. Ela era a filha de uma importante clã mafioso. Ninguém, nem mesmo um monstro predador, poderia ignorar isso, sem desafiar as leis. Como sempre, ela tentaria usar isso ao favor dela para manter o jogo ao seu favor. E se ela, a seduzida, mudasse e seduzisse o sedutor?

Os dois que conversavam tinham outra atenção na sua tensa, porém amigável, conversa. Irritação do lado de um dos interlocutores e sensação de ser traído, além do enfado habitual de eventos sociais como este. O outro era educado, porém rígido em seus avisos. Estes dois pertenciam às sombras da cidade, não existindo oficialmente, embora um deles tivesse uma fachada social plenamente estabelecida.

"Que significa isto, Dalton? Eu pensei que isto era um trabalho. Não imaginei nunca que você usaria de truques sujos comigo."

"Tenha calma, Sinuhe. Estou tão obrigado a participar deste evento quanto você. Minha posição da organização exige estar presente em eventos como esse e socializar com estas pessoas, por muitas das quais não tenho o menor interesse de interação, da mesma forma que você. E eu lhe disse para me chamar de Richard. Quando me chama pelo meu sobrenome, me lembra o que disse tempos atrás."

"Eu mantenho o que eu disse. Se trair minha confiança, eu terei provado que é impossível ter um amigo. Mas você se esforça bastante em cumprir sua parte do trato. Já que este evento não tem a ver comigo e nem é armação sua, o que é?"

"Existem duas coisas que serão tratadas nesta festa. Há uma nova droga na cidade e não sabemos nada sobre ela. Nossa organização não pode não saber nada sobre um assunto. Isto é um tabu."

"Eu sei."

"Ela está em posse dos italianos. Se você puder extraí-la da inconstante jovem líder deles, sua posição na Guilda irá subir vertiginosamente. Isto é em parte um presente meu, um teste e prova de confiança minha, para que a organização veja como um todo que você não deve estar alocado numa posição tão subalterna."

"Eu sabia que você tinha colocado seus dedos em alguma parte deste projeto, Richard. Mas aceito o favor. Se isso me livrar do contato do meu 'superior imediato' atual, eu perdoo sua tentativa de intervir no meu mundo de solidão. Eu lhe deveria outro favor..."

"Só peço que tome cuidado com sua abordagem, pois a menina é explosiva. Ela tentará fazer você trair nossas leis e as deles, criando o caos na cidade. Ela fará de tudo para conseguir isso de você. Suborno, ofertas generosas, promessas que nunca irá cumprir..."

"Hum... agora entendo porque me chamou. Me chamou não porque sou capaz de seduzi-la, mas porque sou imune às tentações dela. Você já sabe disso, então quer mostrar meu valor assim para o resto da organização..."

Sinuhe não teve tempo de concluir seus pensamentos. Paloma já havia se aproximado dos dois e tomado o vampiro para o centro do salão para uma valsa que começou a tocar com a ordem dela. Richard Dalton, presidente da Fraternidade das Sombras, não conseguiu avisar o seu amigo que Paloma Genaro não era uma qualquer. Sua missão seria um verdadeiro desafio e seu sucesso ou fracasso iria resultar em enormes mudanças na conjuntura urbana. Era a cidade se movendo e movendo seus tentáculos, pensava Dalton, enquanto se aproximava de Podestà.

A Fraternidade das Sombras era uma das redes mais bem informadas da cidade. E Dalton ouviu falar de um diário misterioso. Misterioso era uma palavra importante para seu grupo. Eles desejavam obter toda sorte de material misterioso. Mas ele ouviu falar um nome em especial citado no diário. Um nome que tornava imprescindível adquirir este objeto. Era o nome do Sinuhe citado nele. Ele não sabia o porquê disto – e haviam poucas coisas que Richard Dalton não sabia nesta cidade – mas ele iria descobrir com certeza.




ALINE CORTEZ É O SEU NOME?” O bate-estaca da boate era ensurdecedor, e Aline quase não conseguiu ouvir a pergunta, mas pelo menos conseguiu reconhecer o próprio nome e adivinhar o que o rapaz perguntava.

“É isso mesmo.” Não tinha muito ânimo de responder outra coisa, ela nem sabia direito porque estava ali, e também o barulho da boate não ajudava conversas elaboradas.

“Tá muito barulho aqui, né?” comentou o rapaz de fala macia. “Vamos
pra outra festa, lá a coisa é mais elegante, não tava a fim de entrar lá sem uma bela companhia como você.”

Aline remexeu nervosa um cacho solto e fitou pensativa o moço que havia sido lhe apresentado há menos de vinte minutos, por sua nova vizinha. Essa, por sinal, se acabava na pista de dança, completamente doida. Aline sabia que ela estava alta da nova droga, sensação da cidade, pílulas que traziam impulsos além de qualquer limite, e de fato sensações além de qualquer descrição. Pelo menos foram essas as palavras usadas pela vizinha, Vanessa. Aline havia resistido até aquela noite a experimentar a droga, embora a tentação fosse grande: há menos de dois meses havia completado 23 anos (apesar de aparentar pouco mais de dezoito), seu marido havia lhe pedido o divórcio, sua mãe havia morrido e surgira uma oportunidade de um emprego mais estável, embora mais puxado, na Cidade de Crisálida. E Crisálida parecia totalmente diferente de sua cidade natal, era uma outra vida, menos provinciana, ela se sentia ao mesmo tempo mais livre e correndo perigo, lá no fundo de sua mente. Todas estas mudanças faziam Aline se sentir perdida, em vários momentos do dia ou da noite.

Aquele era um desses momentos, e Aline Cortez aceitou o convite.

Seguiu o rapaz recém-apresentado até seu carro estacionado do lado de fora da boate. Ela sabia – tinha absoluta certeza – de que o moço também consumia a nova droga, e que lhe ofereceria uma ou mais pílulas. E também tinha absoluta certeza de que seria muito melhor experimentar a nova droga na companhia daquele rapaz sedutor, de fala macia e monocórdica, olhos verdes penetrantes e toque firme. Toque que ela sentia em suas pernas enquanto o carro acelerava.

Como ela esperava, o rapaz – chamava-se Tiago Podestà, um nome que Aline achou charmoso e exótico – ofereceu-lhe um punhado de pílulas. Belknap-14. Ou a Garra, era o nome que rastejava pelas ruas e ecoava pelas boates e inferninhos. Mas ao contrário do que ela esperava, ele não tomou a Avenida da Fundação e entrou por uma ladeira direto num dos bairros mal-afamados de Crisálida, Raven Lake.

Envolvendo as cinco pílulas na mão, Aline perguntou a Tiago, tentando esconder a apreensão, “Não era mais fácil chegar nessa tal festa pela Avenida da Fundação, se é mesmo onde você disse?”

“Não esquenta, gata. Eu soube de uma notícia quente, um mendigo saiu de Raven Lake matando gente. Deve estar agora na Fundação, pelo que ouvi, então é muito mais seguro e rápido passar por esse atalho aqui, onde ele não está mais, do que arriscar a sofrer uma blitz.” Enquanto explicava, as mãos de Tiago exploravam as coxas morenas de Aline, expostas pela minissaia. De alguma forma, aquele toque experiente fazia o argumento ter muito mais força.

As luzes piscantes e estroboscópicas da Crisálida deram lugares aos fachos mortiços de Raven Lake. O carro balançava com mais força, revelando o calçamento precário das ruas do bairro. Das janelas escancaradas vinha um vento que trazia não um cheiro de decadência, como Aline esperava – nunca havia passado por Raven Lake em sua curta estadia na cidade, mas tinha suas expectativas quanto a certos lugares famosos – e sim um odor antisséptico, de éter, como se o carro corresse dentro de um gigantesco hospital a céu aberto. Ou um laboratório. A mão áspera, mas delicada, de Tiago, subia mais em sua coxa, e antes que atingisse sua calcinha, Aline engoliu de vez as cinco pílulas.

Máximo de cinco pílulas, cinco pílulas, amiga! Mais que isso e é overdose na certa, mas esse número limite é que é mais gostoooooso! Aline Cortez quase podia ouvir a voz de Vanessa sussurrando em seus ouvidos, apesar da frase original ter sido berrada no apartamento da vizinha. Em pouco tempo a mão de Tiago alcançou sua calcinha, e Aline se sentia molhada – mas não era só de excitação, sentia água saindo de todos os seus poros, e além da mão do rapaz tocando sua virilha, sentia outros toques pelo corpo. Era como se um outro alguém estivesse ali, invisível, acariciando seu corpo.

Porém esses toques intangíveis eram como um rascar de unhas, praticamente garras maliciosas se insinuando por sua pele, inclusive por dentro da roupa. Uma fagulha de lucidez em Aline lhe disse que esses deviam ser os efeitos da droga, mas ela se surpreendeu com a rapidez. Tudo tão imediato e tão real. Ela praticamente poderia usar o termo ultrarrealidade para descrever aquilo. Parecia mais real do que o toque do seu acompanhante, e ela começou a gemer e arquejar, fazendo com que Tiago achasse que eram os seus toques que provocavam aquele prazer.

Infelizmente para ele, não dava mais para enrolar – ele não queria parar nas ruas mais estranhas de Raven Lake e já havia chegado no edifício chique do bairro elegante onde se dava a festa de seus parentes, ironicamente próximo demais do lúgubre cortiço disfarçado que era Raven Lake, cheio de casas abandonadas tomadas de indigentes. Mas ali não havia indigente algum – só alguns seguranças diante do prédio.

Tiago se deu ao luxo de tentar um amasso com sua nova conquista (era assim que ele a encarava, como uma presa) mas essa pegação não durou muito tempo: em menos de cinco minutos, a moça interrompeu os avanços do rapaz e abriu a porta, pulando vigorosa em direção à entrada do prédio.

Gosta de brincar de gato e rato, pensou o jovem Podestà. A noite promete... e ele tinha toda razão. As promessas que a noite sussurrava no ouvido de Aline seriam todas cumpridas em pouco tempo.




GREGOR SE SENTIA MAIS QUE TUDO NAQUELE DIA, PLENO! Realizado! Vivo! Finalmente podia gritar e berrar seu ódio contra quem decepou sua mão. Tinha a perfeita sensação de que sua mão crescia novamente e podia mover seus dedos como nas suas lembranças. A melhor parte era o mundo multicor onde caminhava agora. Onde ele era um rei, onde seu súditos aplaudiam quando ele perseguia o malévolo Conde Sinuhe e o matava.

Mas o Conde Sinuhe era muito ardiloso e Gregor tinha de matá-lo de novo e de novo. Uma parte de si mesmo lhe dizia que esse talvez não fosse o verdadeiro. Estava muito fácil, mas o prazer... a sensação doce em seus dedos, ao esmagá-lo. Isso Gregor não queria esquecer nem deixar de sentir.

A Garra era conhecida por realizar alterações em certos indivíduos, despertar a fera interior de certas pessoas alinhadas com seu propósito original. Mas o que acontece quando ela entra em contato com alguém que já foi mudado? Ela modifica-o na mesma medida em que ela é modificada de seu propósito original no ser dele.

E Gregor com certeza era diferente, mesmo que ninguém mais soubesse. Nem haveria de ser, afinal, sua mão fora decepada de fato por Sinuhe séculos atrás. Mas agora ele despertava de sua decadência e com seu corpo inflamado de excitação da droga e do prazer, se transformando numa máquina assassina! Virara um monstro. Alguns clamavam que o mendigo havia virado um demônio. Embora fosse um exagero, não estava muito longe da verdade que a droga havia despertado.

E ele iria farejar sua presa e realizar sua vingança. De preferência antes do efeito acabar.

***

Enquanto isso, na festa, a dupla bailava: Sinuhe e Paloma, rodopiando pelo salão de festas. Os dois, com um incrível magnetismo iam atraindo e apaixonando a suscetível audiência, mais e mais, levando-a a segui-los na contradança. Ela adorava a sensação. Já sentia os olhos esmeraldas do vampiro se esforçando para mesmerizá-la. E ela ria, dançando se perguntando quando o contrário surtiria efeito.

Por outro lado, Sinuhe se sentia estranho perto dela. Como sempre gostava de frisar, era um ser vazio, sempre necessitando preencher o seu ser, sem nunca ficar satisfeito. Um desgraçado, eternamente em busca de pequenos prazeres mesquinhos que o fizessem não se sentir solitário, mesmo que por alguns instantes. Essa jovem, Paloma, tão cheia de si, não percebia, mas vazava tanto de si mesma, que sua mera presença era capaz de acalentar e ocupar o buraco no coração dele, sem que ele precisasse tomar sua vida. Ele sentia o calor e o prazer que ela emitia.
Agora ele entendia o porquê do aviso de Dalton. E entendia o que ele podia fazer para vencê-la. Poderia mostrar a ela o vazio infinito de sua solidão e, desequilibrando a confiança dela, conseguiria a informação que mandaram buscar e, desta forma, obteria o respeito de seu pares – sem contar a segurança da negociação entre os grupos que sairiam em paz.

Ou poderia fazer o que sempre fez em situações de conflito onde tem a vantagem: não fazer nada. Deixaria que o prazer destas sensações tão efêmeras tomassem posse de seu ser. Sentiria o prazer e a paixão distantes, como eram desejos secretos do coração de Paloma, um desejo tão forte de ser amada, tão irracional, que fazia ela recusar-se a amar qualquer um que por ela se apaixonasse. Mas, a faria amar quem amasse esse jeito dela de ser, esta química explosiva, da atração proibida que nenhum dos grupos poderiam tolerar.

O resultado disso seria sangue, dissabor e vergonha para qualquer um dos dois. Mas não pareciam se importar. Paloma, exibindo seu prêmio; Sinuhe, vívido, seguia o fluxo, para desespero de alguns ali.

Dalton já sabia de antemão como seu amigo se comportaria. Mesmo querendo dar-lhe esta chance, já sabia que teria de negociar pessoalmente pelo que veio buscar na festa. "Com certeza, isso era armação da cidade, querendo realizar alguma de suas famosas façanhas de mudança em seus habitantes... mas quem?", ele se perguntava. Dalton queria ver para onde a cidade ia se mover, e estes diversos estranhos eventos pareciam mostrar que se tratava de algo grande. Ele decidira apostar alto e entrar no jogo dela, já que não parecia prudente desafiá-la, como seu amigo fazia.

Por isso mesmo, se aproximou de Domenico Podestà e declarou suas ofertas pelo que desejava - por um preço bem maior do que valia, o tão falado diário. Da mesma forma desejava, informações sobre a Belknap 14: produtor, origem, efeitos, fórmula, preço... Richard Dalton era conhecido sob muitas faces na cidade. Todas elas eram igualmente respeitadas, mas sua face sombria era a que mais intimidava as pessoas. Ele parecia saber dos segredos de todo mundo; ou parecia ter meios de descobri-los sem fazer esforço. Por isso, era tão perigoso recusar uma negociação com ele... especialmente se ele oferecesse pelo objeto em questão um valor maior do que qualquer um iria cobrar.
O enorme quebra cabeças que estava sendo montado, usava a cidade toda como palco. Por isso, mesmo Dalton, que era acostumado a jogá-lo, não conseguia ver sua extensão. Mas ele sabia que algumas peças estavam se mexendo nesse exato momento:

Aline acabara de entrar no salão. Seu corpo pulsava e suava num ritmo próprio. Paloma viu imediatamente nela uma rival em potencial e tratou de arrastar Sinuhe para a direção oposta, onde poderiam se desvencilhar de todos que iriam detê-los de sua aventura proibida.

***

Na Avenida Fundação, as pessoas em pânico corriam do monstro que chacinava pessoas a olhos vistos. Ele cantava e cantava algo ininteligível e parecia uma besta selvagem bípede e de cauda. Algumas pessoas acreditavam se tratar de um filme. Outros de um maluco fantasiado. Mas houve quem lembrou da lenda da cidade e disse que fora o espírito que habitava a fundação que havia voltado, cantando que a verdade iria ser mostrada para todos.

Olhos sinistros sorriam e preparavam seu movimento. Logo tudo estaria em seu devido lugar no tabuleiro. Todos os vetores estavam em ação. Aos jogadores, restava participar do jogo.




SEU NOME ERA THIAGO PODESTÀ E ESTAVA VICIADO na nova droga, a Garra, mesmo apesar dos conselhos, advertências e ordens expressas de seu pai, o figurão mafioso – na fachada da alta sociedade, um empresário e mecenas filantropo, quando mais jovem um marchand perito – Domenico Podestà. A família Podestà era uma das três principais famílias (no sentido estrito da palavra) influentes na máfia de origem italiana em Crisálida (e sim, haviam outras máfias: chinesa, russa, cubana e até o bando criminoso originário de um estranho país do Leste Europeu chamado Maelstronia). A cidade das mudanças era de fato uma enorme metrópole, cosmopolita e corrupta o suficiente para receber de braços abertos o novo influxo da sensação do momento.

Thiago sabia que não era muito adequado que ele consumisse o que seu pai distribuía (ainda que indiretamente), e só havia tomado uma única pílula da Garra, ao contrário de sua acompanhante, a cobiçada Aline Cortez, que já se sentia totalmente revirada por dentro.

Bastante cobiçada, pois logo Thiago percebeu que não era só ele que desejava Aline – logo ao entrar no grande salão de festas da cobertura, a mocinha atraiu olhares e interesses como se soltasse feromônios invisíveis no ar. Invisíveis e irresistíveis – embora poucos ali tivessem coragem de abordá-la, porque todos também sabiam de quem Thiago era filho.

Afinal, todos conheciam as regras do jogo.

Ou pelo menos pensavam assim. Infelizmente para a maioria das pessoas naquela festa (e na cidade), algumas regras são escritas em letras tão miúdas que só aqueles mais conhecedores – como Sinuhe, Richard Dalton e uma certa moça ruiva em outra cidade, que naquele exato momento contemplava a própria barriga, grávida, no espelho – acabam notando sua existência. Talvez algumas regras sejam tão disfarçadas que nem mesmo esses luminares notem. E às vezes, por capricho do destino ou manipulação da cidade que escrevia a maior parte das regras, algumas pessoas comuns descobriam essas regra ocultas.

Era o caso de Thiago. Ao entrar no salão, sentiu imediatamente o cheiro de medo e desejo que se entrelaçavam naquele covil de demônios bem-apessoados. Era uma sensação que nunca havia antes experimentado – a Garra muitas vezes lhe ampliava e iluminava os sentidos (embora ele achasse que estava apenas viajando de leve), mas não àquele ponto.

Aline parecia deslumbrada, ou melhor, fascinada pelas pessoas da festa – figurões de fora da cidade, ali para uma noite que mudaria suas vidas; atores e atrizes da badalada Companhia de Teatro Crisálida; novos-ricos que experimentavam a companhia das famílias que sempre foram enxergadas como a aristocracia. E é claro, algumas pessoas assumidamente perigosas – capangas dos Podestà e Genaro, os advogados a serviço da máfia, o rancoroso herdeiro da família Dalmácia, cujo pai havia sido assassinado pelo serial killer Esfinge Negra semanas antes. Pessoas também que eram perigosas embora poucos soubessem disso, como os magos da comitiva secreta da Fraternidade das Sombras, escoltando Richard Dalton em sua “missão diplomática”.

Por dentro, Aline sempre tivera atração pelo perigo, embora nunca houvesse admitido esse fato abertamente. Esse fascínio, elevado à quinta potência pelas cinco doses da Garra, vinha agora acompanhado de uma sensação certeira que apontava exatamente essas pessoas perigosas no meio da pequena multidão.

Em teoria, Thiago sentia a mesma coisa, embora num grau muito menor e por ele não ser predisposto à Garra como era o caso de Aline – detalhe que nenhum dos dois tinha a menor ideia. Exatamente uma dessas pessoas terríveis passou perto do balcão do bar onde Thiago havia se encostado junto com Aline. Ele sentia-se tonto e incapacitado, enquanto Aline sofria de uma agitação que mal era controlada, uma hiperatividade que aflorava à pele. Assim, quando a tal pessoa – Virgo, da comitiva de Dalton, um rapaz de olhar de poucos amigos, apesar da aparência frágil, vestido um blazer elegante – Aline não resistiu e foi abordá-lo, enquanto Thiago mal encontrou forças para impedi-la. A única coisa que fez foi pedir um copo d'água ao barman.

A valsa que Sinuhe e Paloma haviam dançado enquanto se estudavam mutuamente acabou, e a orquestra começou a tocar o Bolero de Ravel. Apesar de sua dedicação à Fraternidade das Sombras, onde servia como – era o nome oficial que Richard havia lhe dado – cartógrafo de sonhos, mapeando os padrões dos sonhos dos habitantes da cidade, Virgo não passava de um rapaz tímido quando se tratava de mulheres. Assim, não conseguiu recusar nem fazer qualquer comentário espirituoso quando a bela morena que se apresentou como Aline Cortez o tirou para dançar ao som da música cadenciada.

Como Paloma havia propositalmente afastado Sinuhe da moça que chamava tanto a atenção, essa mesma moça fez questão de chamar mais atenção ainda. De longe, Aline percebia a presença estranha do vampiro e o reconhecia como um predador – porém não se via como presa, pelo contrário. Sinuhe era-lhe um rival. A moça começou a arfar enquanto dançava mais ousadamente com Virgo, que apertava sua cintura com mais força quando sentia o rosnado – que interpretou como excitação libidinosa – de Aline pertinho do ouvido.

Dentro de si, Aline explodia e todos os seus pensamentos racionais eram submergidos por alguma coisa que se agitava dentro dela. Essa coisa assumia controle – não, controle é uma palavra muito sofisticada, diríamos melhor tomava posse dos membros e movimentos de Aline, que ia conduzindo a dança de forma selvagem, quase como uma dança ritualística e primal de acasalamento. Aquilo já estava começando a chamar de fato a atenção como algo estranho, fora do normal, e não apenas exótico e sedutor.

A pele de Aline estava totalmente suada, mas não encharcada, o suor porejava de modo sensual e seu cheiro parecia avassalador ao parceiro de dança. Virgo sentia-se embrigado de desejo por ela, tanto que permaneceu silencioso durante toda a dança... até que a moça, tendo conduzido a dança até a suntuosa parte aberta da cobertura, mais e mais perto da beirada – onde Paloma e Sinuhe conversavam aos sussurros – não conseguiu mais controlar o último impulso assassino que pouco a pouco a havia tomado, e expôs sua verdadeira forma.

Sua verdadeira forma, que ela jamais havia sequer conhecido, apenas pressentido, exposta pelo consumo Garra.

Cerca de três outras pessoas (incluindo o filho do falecido Dom Magno Dalmácia) viram essa forma se manifestar, mas a confusão toda ocorreu em questão de segundos, e quando pararam para prestar atenção, o pior já havia acontecido.

Virgo, mesmo um novato na Fraternidade das Sombras, tão tímido com as mulheres, era na verdade muito capaz e precavido. Tão precavido que nunca saía para um novo lugar, ou uma situação potencialmente perigosa, sem tecer toda uma trama de encantamentos sobre si – feitiços de proteção, meios mágicos de evitar um ataque, em especial o primeiro ataque de um inimigo, que se for desferido de surpresa pode matar.

O Bolero de Ravel encerrou de modo triunfante, e Aline Cortez exibia suas presas – uma fileira de dentes afiados e animalescos – enquanto seus olhos revelavam-se amarelados como os de uma loba, e os pelinhos de seus braços revelavam-se muito mais espessos e ficavam em pé, arrepiados como um gato no momento do bote. A orquestra, sem saber de nada do que acontecia, emendou com A Noite no Monte Calvo, do atormentado compositor Mussorgsky. E nos primeiros acordes, antes que Aline mordesse selvagemente o rosto de Virgo, sua presa mais próxima, o mago sentiu uma onda de energia em estado bruto subir por sua garganta, reagindo ao perigo. Embora assustado, ele aceitou a onda que queria se liberar, queria resguardá-lo da fera que o atacava – e a onda saiu-lhe dos lábios como uma única sílaba gutural, mal ouvida por Paloma e os outros circunstantes, mas percebida nitidamente por Aline e Sinuhe.

A palavra mística libertada tomou o controle da própria realidade, adestrou os braços de Virgo em milésimos de segundos para reagir ao ataque, e em vez de ser mordido pela lobisomem, o mago bloqueou a investida com um tapa – um gesto tão forte e ressonante que Aline Cortez foi lançada longe, ganindo, caindo exatamente sobre Sinuhe, que estava recostado na balustrada até então.

O impacto da mulher-fera caindo sobre o vampiro foi tão poderoso que os dois despencaram pelo peitoril, e de lá de baixo, um outro monstro muito mais perigoso que os dois percebeu que seu nêmesis, o Conde Sinuhe, caía do topo de seu palácio, estilhaçando os vitrais da torre e lutando na queda para se desvencilhar de uma mulher que Gregor, o Monstro, imaginou ser muito parecida com ele.

No topo do prédio, um grito feminino e a música da orquestra tocando como se tudo estivesse acontecendo conforme planejado.




DESCONEXÃO. ERA ISSO QUE SINUHE sentia. Apartado de Paloma, voltara a seu ser habitual: letárgico, apesar de enérgico. Sua existência vazia e odiosa, mas ainda assim, existência que buscava preservar enquanto fosse capaz. A criatura feral se recuperara do impacto que a arremessou em direção a ele e agora ela desejava combater seu rival, usando suas garras e presas, num combate épico, deslizando ambos em queda livre pela fachada vítrea do arranha-céu.

Mas agora o vampiro, desperto de seu torpor causado pela energia da vida mortal que o alimentava, sacava suas próprias garras para combater a fera descontrolada. Ele era ágil e administrar essa luta não seria problema. O problema real era lidar com o impacto da queda livre e a outra fera monstruosa que aguardava os dois no solo, que emanava tanto desejo de morte quanto os dois lutadores.

A noite, porém, era a vantagem dos vampiros, ainda mais de alguém associado a Fraternidade. Sinuhe calculou com precisão seu movimento, enquanto dominava Aline, e aproveitava a sombra gerada pelo monstro que fumegava, inflamado pelas próprias chamas, mergulhando de cabeça pelas sombras atrás de Gregor, trespassando a passagem entre mundos e planos.

Estavam agora em transição para outro lugar, o vampiro e a licantropsicodélica.

Para desespero do monstro Gregor, seu desafeto escapara. Um dia, ele teria sua vingança, ele tinha certeza.

* * *

Algum tempo depois, num prédio da Fraternidade, Dalton encontra seu amigo.

"Os membros da câmara de contenção me informaram do prêmio que você trouxe. A noite saiu melhor que o esperado. Você evitou um escândalo com a jovem líder da Cosa Nostra, evitou o alarde na festa e ainda nos arranjou um espécime para estudo. Os italianos contaram que conseguiram a Garra com um intermediário bastante esquivo e bom de negociação. Vendeu a eles um lote muito grande e depois sumiu. Enquanto continuamos no rastro dele, o estudo da jovem usuária – isso também confirmado pelos italianos, ela chegou com o filho de Don Podestà – servirá para nos revelar a natureza dessa droga. Daí teremos dados suficientes para rastrear o intermediário observando compras suspeitas de matéria prima. Bom trabalho."
"Foi pura sorte. Eu não planejei nada disto."

"Eu sei que não. Mas foi tudo tão bem orquestrado que só pode ter sido coisa da cidade."

"De novo com esses contos de fada?"

"Um vampiro que vem me falar disso..."

"Certo, não vou mais insistir no assunto. Há algo mais exigindo minha atenção? Do contrário, voltarei ao conforto de meu lar."

"Na verdade, há. Consegui um diário muito interessante. Seu nome é citado nele. Dê uma olhada. Vai despertar seu interesse, garanto."

"Meu nome? Está bem. Você conseguiu. Ainda não estou tomado pela fadiga, mesmo após o exercício. Isso me chamou a atenção mais que esses monstros - já soube que o outro sumiu, mas preferi aproveitar a sombra dele para evadir-me, do que ficar em desvantagem de enfrentar duas criaturas. Bom, irei verificar o conteúdo deste livrinho... na biblioteca, que é o meu lugar, não é?"

"Sim, é. Mas seu bom trabalho será recompensado. Aguarde e saberá. E Sinuhe...?"

"Sim?"

"Livre-se do cartão que Paloma lhe deu e esqueça que um dia a viu. Evitará problema para todos nós."

"Você não deixa passar nada, não é?"

"Esse é o meu trabalho."

* * *

Pouco tempo depois dali, tendo lido o diário, Sinuhe foi até o local onde enfrentou o Esfinge Negra e o venceu, fazendo mais uma captura para a Fraternidade Sombria para que trabalhava: Erishkigal, a forma presa na parede, que emanava uma onda umbrática num padrão bem peculiar.

Ambos vampiros como ele, Sinuhe, mas vampiros de alguma espécie diferente, jamais vista por ele. Ao chegar na janela do hotel por onde havia caído Esfinge Negra, Sinuhe meditou sobre a aparente fragilidade daquelas criaturas, comparadas a ele, e sobre as estranhas similaridades... não havia há pouco caído de um prédio, e esse assassino Esfinge Negra também fora atirado pela janela por uma magia descontrolada?

Se pelo menos o bibliotecário soubesse que aquela queda também havia permitido ao Esfinge Negra escapar pelas rachaduras entre os mundos, só que sem o corpo que havia lhe servido de hospedeiro... um tanto impressionado, na balustrada Sinuhe permitiu-se sentir um calafrio de antecipação, o primeiro de muitos séculos, e voltou os olhos do cadáver lá embaixo para a forma presa na parede suja.

Seria essa a peça final do grande quebra-cabeça que a cidade montara para realizar seu grande jogo obscuro? E agora ela movia seus tentáculos mais e mais para realizar sua obra-prima, agora que cada peça tinha se reunido no tabuleiro nas posições corretas.

Todos podiam sentir que algo grande estava para acontecer... só não podiam dizer o quê. E Sinuhe não sabia de onde vinha essa sensação, mas algo lhe dizia que passara séculos mentindo para si mesmo.




ERAM DUAS CIDADES.

Uma, cheia de vida, de uma inteligência maliciosa, exultante em provocar a mudança. A outra, vazia e burocrática, seus habitantes governados por uma sinarquia oculta.

Uma, uma entidade enganosa e mefítica, apreciando jogos e propondo desafios sutis. A outra, um receptáculo polido de magia e controle, abominando a mentira mas ocultando verdades essenciais.

Uma, metrópole e nexo de onde ninguém sai sem ter sido modificado de alguma forma, cidade onde todos do mundo sabem onde fica e admiram seus segredos e lendas. A outra, uma cidade provinciana, quase um subúrbio que adquiriu tamanha independência, que num dia está num local, noutro dia, em outra localização totalmente diversa.

SÃO DUAS CIDADES. MAS ESTA SITUAÇÃO NÃO DURARÁ MUITO.



sábado, 5 de março de 2011

VERDADE SEJA DITA

Um conto de Kinn e Arthur Ferreira Jr.'.




Acordei assustado no ônibus intermunicipal. Já estava na cidade. Assustado, desci apressadamente do ônibus, até que notei que não era a metrópole dotada de arranha-céus que deveria ir, para realizar um grande negócio. Tinha comprado um bilhete para ir até Crisálida, onde uma excelente proposta de negócio imobiliário aparecera, mas no susto, desci uma cidade antes. Isso parece constrangedor, mas, felizmente, o encontro está marcado para a segunda. Deixei para viajar no sábado porque queria conhecer a cidade. Crisálida é tão famosa que merecia um turismo antes do trabalho.

Como o próximo ônibus só sai amanhã, o jeito é passear por aqui mesmo. Parece uma cidadezinha bem comum, exceto pelo tipo de conversa que ouvi entre os nativos:

"E então gata, quer que eu te seduza para te levar no motel dar uma rapidinha e depois eu lhe esquecer completamente, exceto para me vangloriar com meus amigos?"
"Você precisa pelo menos me dar falsas esperanças de uma próxima vez, senão vou bancar a difícil."
"Por mim tudo bem."
"Me convenceu."
"Então, vamos."

Eu realmente não acredito que ouvi uma conversa tão inusitada assim. Depois andando pelos arredores e ouvindo mais e mais conversações, pude perceber que todos se comportavam da mesma forma. Percebi que havia parado, por engano, na Cidade Onde Todos Falam a Verdade!





Andei prestando atenção a esse e outros diálogos, o suficiente para me convencer da estranheza daquela cidade. A princípio pensei que devia ser o dia, quem sabe um Dia dos Tolos invertido, em que todos falassem a verdade. Bem, existem comemorações e costumes ainda mais estranhos, não é mesmo?
A cidade não continha muitos prédios altos, sendo que casas eram mais comuns que prédios, em determinados bairros. O hotel onde me hospedei não fugia à regra: era bizarramente raso, muito largo, apenas três andares com dezenas de quartos em cada um deles. Felizmente, o mesmo motivo que me fizera chegar à cidade, me permitira pagar aquele hotel bastante caro: eu só havia me deslocado de ônibus porque meu carro havia sido quase totalmente destruído num acidente, e a indenização polpuda me deixou com dinheiro de sobra ... só que eu achei melhor comprar um carro na própria Crisálida, ia me poupar certos aborrecimentos e eu sabia que lá conseguiria encontrar certos modelos que em minha cidade natal não eram achados com facilidade.

Considerando que devia ser um costume do dia, entrei na dança. Em Roma, como os romanos. Fui logo imitando o rapaz ávido de perto da estação rodoviária, ao virar para a recepcionista do hotel: "Você tem olhos lindos, que curvas maravilhosas. Não quer passar no meu quarto depois do expediente? "Ela me olhou estranho e perguntou, "Tenha paciência, senhor! Não me ofenda! Aqui está sua chave."

Como assim? Eu não havia feito a mesma coisa, o que é que estava errado? Atarantado, me preparei para subir as escadas rolantes quando o carregador de malas falou baixinho: "O senhor está passando bem? Não é normal dizer uma coisa daquelas a Sílvia."

"Mas hoje não é o Dia da Verdade de vocês?" perguntei, meio irritado. O carregador sorriu amarelo, meio confuso, e respondeu, "Dia da Verdade? Do que está falando, senhor? Quis dizer que os olhos dela são pequenos demais, estranhos, o senhor a ofendeu dizendo que ela tinha olhos lindos." Conforme essa conversa se procedia, uma bela mulher de cabelos ruivos, esta sim de olhos lindos, vestindo um corpete sobre uma calça jeans apertada, passou descendo pelas escadas opostas, me observando, como se estivesse me inquirindo, analisando, e parecia prestar atenção à conversa, sem a menor cerimônia.

Quando ela sumiu de vista, resolvi de novo me aproveitar dos hábitos da cidade e pressionei o carregador, já na porta do meu quarto, o 333: "Quem era a moça ruiva? Hóspede?" Tinha agora certeza de que, se ele soubesse, me diria.

O rapaz estacou e disse, parecendo mais confuso do que antes, "Moça ruiva? ... Não vi moça ruiva alguma, não senhor."

Assim, eu ia acabar mais confuso do que ele. O rapaz deixou as malas na porta do quarto e ficou esperando a gorjeta. "Não vai deixar as malas lá dentro?", perguntei. "Não é praxe do hotel, desculpe. O senhor mesmo deverá levá-las para dentro, nós não entramos nos quartos, só as arrumadeiras o fazem, de preferência quando o senhor não está dentro, sendo que toda entrega de comida se dá por aquela portinhola ali."

Mais irritado, fui puxando as malas para dentro do quarto, e fiz menção de bater a porta, quando ele pigarreou e disse: "A gorjeta, senhor. Se não pagar, vou espalhar para os outros funcionários que o senhor é um pão-duro. O senhor não vai querer isso, vai?" Mas que merda. Meti a mão no bolso e dei uma quantia mais que suficiente para ele manter bem fechada aquela boca cheia de verdades.

Bati a porta, agora de verdade, me encostei nela e respirei fundo ... pelo menos o quarto era razoável, luxuoso e bem decorado, e tinha uma excelente vista. Precisava tomar um ar, fui até a enorme janela, o vento estava frio e salgado ... o mar, azul e tranquilizador, podia ser visto no horizonte que engolia o sol se pondo.

Espere aí, o mar? Mas aquela região não era litorânea!





Isso estava começando a ficar confuso. Primeiro vejo as pessoas falando e agindo de jeito esquisito sem nunca mentir. Agora consigo ver o mar de uma cidade que é no interior? Ainda em dúvida, esfreguei os olhos com força e continuei a ver o mar, à direita, através da janela do quarto. Ao fundo via ao longe os arranha-céus de Crisálida, o que indicava que ainda não estava tão perdido quanto pensava. Mas tinha certeza que não havia mar nessa rota e nem sabia que Crisálida era tão perto do litoral.

Confuso, tirei o resto do dia no quarto para tentar o que estava acontecendo. Tinha que colocar a cabeça no lugar, e não seria esse povo confuso que fala de forma pitoresca que ia tirar meu feriado aqui e me estressar antes de um negócio tão importante quanto o que tenho para fechar na segunda. É óbvio que tudo tem uma explicação.

Sim, é óbvio. Com certeza, o ônibus deve ter feito um desvio para alguma cidade litorânea. Como dormi não vi o trajeto e acabei aqui, na cidade errada, mas perto de meu objetivo.

E com a moça, entendi o que aconteceu. Como a brincadeira é sempre falar a verdade, dizer que ela tinha olhos lindos quando não tinha pareceu sarcasmo. Com certeza foi por isso que ela se sentiu ofendida. Realmente, pensando assim, até eu me sentiria ofendido se usassem um defeito meu de forma irônica.

Com melhor humor, liguei para o serviço de quarto e pedi a refeição e um jornal. Já tinha ideia de como era o jogo que eles brincavam aqui e desta vez tinha certeza que faria dar certo. Logo o meu pedido chegou pela portinhola. Era espantoso mesmo que eles dispensavam o contato com o hóspede o máximo possível. Me perguntava qual seria o porquê.

O jornal era a pista que procurava para ter certeza de como funcionava essa cidade, e com ele em mãos, fui direto à parte de classificados. Para a minha surpresa, nas notas do jornal, em muitos anúncios, as "profissionais" se declaravam prostitutas deliberadamente. Em alguns casos, diziam na nota quais tipos de programas topavam, como se estivessem vendendo um produto.

Estava meio decepcionado comigo mesmo por não ter sido como imaginei, mas resolvi testar a teoria assim mesmo. E contratei uma que se dizia massagista para ver como ela se comportaria. Era um jogo de ganha-ganha. Se ela se mostrasse uma puta, eu teria acertado minha tese. Mas se ela quisesse insistir no jogo, já sabia o que dizer para conseguir o que eu queria.





"Senhor Victor Leonardi?" soou a voz no telefone interno do hotel. "A senhorita Aline Cortez está aqui, a seu pedido."

"Pode subir," respondi, meio nervoso. Então iríamos ver do que era feito aquela cidade. Se a brincadeira era tão crua assim a ponto de ser estúpida, ou se tinha outras nuances ... tudo ficaria óbvio assim que a dita massagista entrasse no quarto. Pelo jeito eu perceberia se era uma garota de programa ou não, e não estou sendo machista ao pensar assim. Essas mulheres mudam de jeito quando entram nessa vida.

Mas, aquela cidade poderia se mostrar mais do que eu estava preparado, logo eu sempre me gabei de entender a natureza humana, de fechar bons negócios por causa disso. A uma aposta comigo mesmo, então. Eu não tinha conseguido recuperar a fortuna de meu pai, que me deixara um certo dinheiro mas com ele várias dívidas, mas pelo menos saldara tudo e tinha uma carreira; e um homem com uma carreira não ia deixar uma cidadezinha como aquela o confundir; ele vai adiante, e conquista.

Soou a campainha e eu apertei o botão que abria a porta, remotamente, e falei alto, da cama: "Entre!"

E ela entrou. Uma morena de pele chocolate, cabelos cacheados presos num coque discreto mas elegante e sedutor. Especialmente pelo pescoço em evidência. Ela parecia ter mais ou menos vinte anos, ou talvez dezoito, quem sabe vinte e dois ... ficava difícil avaliar. Seu olhar não era recatado, mas sóbrio.

"Boa noite, senhor. Quer a massagem padrão, ou há algum incômodo que eu possa resolver?" Uma voz macia, que tentava ser firme.

"Há, sim, um incômodo ... faz uma massagem com óleo nas minhas costas que eu te conto." Bom, depois dessa, ela deveria ir em frente; eu não estava mentindo, só omitindo e abrindo caminho. Pelo jeito, não era mesmo uma prostituta. Ela subiu na cama, sentou-se do meu lado, me fez expor as costas e começou a espalhar o óleo de massagem que havia trazido. O óleo tinha um cheiro diferente que era tranquilizador, mas ao mesmo tempo me fazia parecer que estava no meio do mato, numa praia perto da floresta ... era aquela tranquilidade fornecida por um paraíso natural.

Fui até me deixando envolver pela suavidade das mãos da moça, e fiquei um bom tempo calado, mas resolvi agir. Relaxado que fosse, os dedos da mocinha haviam me deixado excitado, inclusive pela situação armada e pela expectativa. Comentei, "Suas mãos são deliciosas, experientes. Podem me ajudar a resolver esse incômodo que eu tenho aqui embaixo ... e, de quebra, você ainda passa um fim de semana agradável comigo, que sou um empreendedor de passagem, e poderia te levar a vários lugares interessantes, te tendo como cicerone ... que tal?"

As palavras foram indo porque ela não respondeu. Ficou calada, e as mãos pararam. Virei minha cabeça na direção dela quando ela retirou as mãos e ... levei um tapa.



"Acho que o senhor chamou o serviço errado," ela disse, com um tom de raiva contida. "Os anúncios são bem claros, acho que o senhor não está entendendo a nossa cidade. Agradeço a sua sinceridade, e também é de praxe eu ser sincera: não havia necessidade de dizer porque o meu serviço é de massagem apenas, mas eu sou casada. O senhor não viu a aliança, porque uma massagista não usa uma aliança na hora de dar uma massagem."

Levantou-se, limpando as mãos, foi até a bolsinha que havia trazido e deixado sobre o criado-mudo, e retirou uma aliança de prata: "Está vendo? Dá até raiva ter de mostrar isso a um forasteiro. Porque qualquer pessoa acreditaria, só por eu ter dito que eu sou casada."

"Mas ... eu não estou te desmentindo, mocinha! Alice, não é?" Ela parecia estar na defensiva, e quando falei a palavra "desmentindo", ela pareceu estremecer. Tentei uma última cartada: "Tenho certeza de que deve estar muito restrita nesse seu casamento, para ter uma reação dessas. Porque não começamos de novo, saímos para jantar, e aí ..."

Ela imediatamente se encaminhou para a porta, e antes de a abrir, falou firme na minha direção: "Eu NUNCA continuaria num casamento se não tivesse intenção de me manter fiel aos meus votos. Fidelidade, senhor Leonardi. Se quisesse ficar com outro homem, me divorciaria na mesma hora e entrava num contrato de casamento aberto." Contrato de casamento aberto??? Fiquei surpreso, e ela continuou, "Meu marido com certeza não se ofenderia de eu ser sincera com ele. E o senhor daqui por diante tome cuidado."

Disse essas últimas palavras com um certo automatismo, como se estivesse declamando algo programado, e saiu.

Fiquei muito irritado com aquilo e fui me refrescar na janela. O ar marinho me ajudaria ... exceto que não havia mar algum.

Será que estava ficando louco?





 Fui até a cobertura do hotel, para ter melhor vista dos arredores. Tinha certeza de ter visto o mar a oeste de Crisálida. Ou teria sido a leste. De repente parece difícil lembrar. Mas meu silêncio e solidão não duram muito, quando um grupo distinto se aproxima com ar ameaçador. No princípio, pensei que eram seguranças do hotel, vindo me buscar por causa de meu comportamento com a massagista.

Mas isso não faria sentido, porque não fiz nada demais com ela e ainda que fizesse, exceto por estupro, não seriam eles que iriam lidar comigo, mas a polícia. No fim das contas, estava certo que tinha a ver com a garota, mas não que eram seguranças, nem o motivo de sua vinda.

O grupo composto era de 4 pessoas. Apesar de não estar à frente, a primeira que vi foi a ruiva de antes, com seu corpete e jeans. O líder usava roupas pretas, careca skinhead, embora chamasse a atenção as profundas olheiras e orelhas pontudas. Estaria fantasiado? O outro estava de casaco de couro e óculos escuros no estilo de lentes flutuantes que prendem no nariz. A quarta pessoa do grupo parecia encoberta por um neblina e não conseguia identificá-la de modo algum, embora parecesse uma senhora idosa …

O líder se aproximou e falou.

"Não costumamos receber muitas visitas, sr. Victor Leonardi. Ainda assim, tentamos ser hospitaleiros e claros quanto à nossos costumes."

"Eu sinto muito quanto à garota. Eu não sabia que ela era casada." Fui começando a me desculpar, mas ele não me deixou falar.

"A garota não importa. Você entendeu rapidamente nosso costume. Percebeu que todos, aqui, falam invariavelmente a verdade. Pensam nela e vivem nela, sem sequer notar que fazem isso, da mesma forma que os peixes não notam que estão na água ou os animais, cercados pelo ar."

"Sim, eu entendi..."

"Não, não entendeu. Tentou cantar a recepcionista mentindo sobre a aparência dela. Um engano perdoável, para quem não está acostumado a pensar e agir somente com a verdade."

"Mas no dia que cheguei aqui vi um cara falando que ia dar falsas esperanças à moça com quem ia sair. Isso não é mentir?"

"Lucas, diga a ele que falsas esperanças o rapaz deu a moça no dia seguinte." O de óculos se aproximou e falou:

"Ela deu o telefone dela e pediu que ele ligasse para ela para se verem novamente. E ele respondeu que ligaria de volta quando chovesse em frente ao mar – algo muito difícil de acontecer aqui."

Então já sem entender mais nada e como eles sabiam dessas coisas, apenas ouvi o líder reportar novamente.

"A pior parte foi você usar a palavra mentira. Essa palavra é tabu. Se todos falam sempre a verdade e vivem a verdade, não precisam ser desmentidos! Se perceberem que sempre falam a verdade ou que as pessoas podem mentir para elas, começarão a mentir também e nossa cidade cairá em ruínas. Esteja avisado, senhor Leonardi. Se insistir na sua prática viciosa, será severamente punido, de acordo com as leis de nossa cidade. Este é seu primeiro e último aviso."

Imediatamente, de lugar algum começaram a ecoar vozes clamando "lobotomia, lobotomia". Em pânico, saí correndo, atravessando o grupo e trombei de lado com a ruiva. Ela sorriu pra mim como se soubesse que eu ou ela tivéssemos feito isso de propósito. Corri para o meu quarto mas, dei por mim que estava sem minha chave ou carteira.

Teria caído quando trombei com ela, ou ela tomou de mim na confusão? Não quis parar para testar a teoria de vê-los me interceptar na porta de meu quarto. Desci e sai do hotel pelos fundos e procurei um bar ou qualquer lugar para espairecer desta loucura que aconteceu.





A verdade não gosta de visitantes, dizia uma frase muito repetida por meu pai. O velho Vicente Leonardi usava essa frase em vários contextos, mas um deles – o mais frequente – era o de uma auditoria. Todo mundo sabia o que estava acontecendo de fato na empresa, todo mundo convivia normalmente com aquelas coisas, mesmo que por dentro às vezes se revoltasse, e a verdade sobrevivia bem, e o oculta dos forasteiros – no caso, os auditores seriam os forasteiros, os visitantes enxeridos que teimavam em desnudar a verdade e, como o menino que gritou “O rei está nu!”, anunciar o óbvio e gerar consequências irreversíveis.

Faço uma careta no bar, não só por lembrar dessa frase tão adequada, como pelo gosto insatisfatório da bebida. O barman sorri e comenta, ironia e servilismo num só tom: “Pelo preço, tem de ser batizada, são as regras …”

Regras. As regras da cidade. Quem diabos as criou? Aquele grupinho? Não é possível, nunca acreditei em conspirações … mas parece que era o caso agora. Daria tudo por uma boa trepada, que me fizesse esquecer tudo isso e no outro dia pegar o ônibus para Crisálida.

“Pensando em desejos ou medos?” A voz veio da minha esquerda, mas quando eu virei, a mão esquerda dela tocou meu braço direito – e ela se sentou no banquinho ao lado. A ruiva. Sorria perfeita, dessa vez usando um tailleur. Fiquei sem saber o que dizer.

“Fiz uma aposta comigo mesma,” ela começou, “se eu bem lhe conheço, você viria afogar sua cabeça confusa num bar, e este aqui era mais a sua cara.”

“Não foi uma boa escolha, a bebida é batizada. Mas quem é você? Eu não te conheço e, interprete como uma cantada se quiser, mas eu me lembraria de uma mulher charmosa como você.” A minha insegurança usava as palavras como escudo.

“George,” ela virou-se para o barman, “um dos seus quartos preferenciais está disponível? O VIP, espero?”

Mas o que era isso … pelo jeito, apesar de toda essa confusão, eu conseguiria o que vinha procurando na cidade, desde o começo, até com uma certa facilidade que me fazia esquecer as dificuldades anteriores.

“Não se anime muito,” ela voltou o rosto para mim, e ajeitou os cabelos ruivos num rabo de cavalo, meio que suspirando, “se você quer saber quem eu sou, de verdade, eu vou te dizer, porque afinal regras são regras,” falou isso olhando, meio irônica, para o barman que havia se distanciado para buscar a chave do quarto, “mas a verdade não gosta de visitantes, você pode se arrepender.”

Pasmei. “Onde ouviu essa frase?”

“De um senhor que se achava íntegro apesar dos esquemas que armava, era um pouquinho careca, tinha Parkinson e não se parecia muito com você, apesar de ser seu pai.” O meu queixo começou a cair, mas fechei logo a boca, para a abrir de novo, dizendo, “Você deve ter checado algum perfil meu na internet, só pode ser isso.”

“Seus perfis em sites de encontros, Victor? Não, você não ia pôr fotos de seu pai por lá. Olha só, vou te contar desde já uma verdade, desde que venha me seguindo,” recebeu na mão aberta e estendida, a chave do barman, e concluiu, “estamos combinados?”

Assenti com um movimento de cabeça, meio nervoso. Fomos andando pelo bar, com suas cores sóbrias e iluminação discreta, até chegar numa parte realmente discreta: e haviam portas que pareciam da administração, com placas do tipo “SOMENTE PESSOAL AUTORIZADO”; uma delas foi aberta com a chave na mão de Anna – foi esse o nome que ela me deu no caminho até aquele cantinho oculto.

“Quando você tinha mais ou menos cinco anos … deve ter ouvido essa história talvez da boca do seu próprio pai … ele teve um caso com uma moça chamada Olívia Duarte, e desse caso sucedeu que a tal moça ficou grávida.”

“Como é que ...” Ela me interrompeu com um olhar furioso e me empurrou para dentro do quarto, dizendo, “Você quer ouvir a verdade ou não? Que te importam minhas fontes?”

“Pois bem, o que você provavelmente sabe, que seu pai deve ter lhe contado meio arrependido, é que ele pagou para que Olívia fizesse um aborto e depois sumisse. Bom, a segunda parte aconteceu, a primeira, não. Seu pai não se importou em verificar se o aborto tinha feito porque achava que Olívia também queria se livrar da criança, mas no último momento ela se arrependeu e a teve assim mesmo. A criança, sua meia-irmã, cresceu filha de mãe solteira, criada aqui mesmo nesta cidade, onde Olívia veio parar depois de saltar de um certo ônibus errado … está entendendo?”

“Então ...” Me sentei na cama redonda do quarto, de arquitetura muito similar a um quarto de hotel de centro, mas bastante limpo, arrumado e requintado.

Ela sentou do meu lado e continuou, “A filha de Olívia teve dificuldades para completar seus estudos e levou uns três anos a mais por conta de um distúrbio de atenção, que ela fazia questão de deixar claro que tinha, para todas as pessoas que encontrava. Tinha uma vida medíocre, sempre sentiu que estava faltando alguma coisa, e também comentava isso com todas as pessoas que encontrava … só que mais ou menos um ano atrás, isso tudo mudou. As pessoas notaram essa mudança mas ela não comentou nada sobre ela, mentia sobre essa mudança interior.”

“Mentia? Mas como?”

“Tudo que eu te disse até agora é mentira.”

“Hã? Você é maluca? Você e aqueles seus amigos devem ser malucos, e …”

“Calma, apressadinho.” Ela agarrou meu pulso e sua boca chegou muito próxima da minha; ela me empurrou de modo que eu deitasse na cama. Mas não prosseguiu com a movimentação, apenas começou calmamente a tirar as botas, enquanto eu me recostava melhor nos travesseiros e tirava meus próprios sapatos.

“A filha de Olívia se chamava Anna; e tudo isso é mentira, PARA MIM, que sou Anna.”

“Continuo sem entender porra nenhuma.” Mas ela realmente se parecia com um retrato da tal Olívia, que eu achei no meio das coisas de papai, depois do enterro. Ela ia desabotoando a calça preta.

“As minhas lembranças são bem claras, eu nasci em berço de ouro; filha adotiva de um megainvestidor e comerciante de livros raros … Vicente Leonardi era o nome de meu pai …” Mas que história ainda mais louca era aquela? “Depois que eu fiz dezessete anos aconteceu uma coisa muito traumática, meu pai foi assassinado por uma das empregadas da casa. Talvez ele fosse mulherengo mesmo, talvez a empregada estivesse drogada, ninguém sabe direito. Morto com um caco de espelho.”

“Espere aí, meu pai não morreu assim. Vicente Leonardi morreu de infarto … depois de uma série de aborrecimentos com …”

“Deixe eu terminar a história e depois nos divertiremos muito; afinal, eu NÃO SOU sua meia-irmã … eu sou filha adotiva de Vicente Leonardi, repetindo …” riu, com um sorriso meio estranho, os brincos muito dourados, balançando de jeito ritmado. Tirou o tailleur. “Enfim, fui pra faculdade no exterior, mais tarde, mandada pelo meu irmão adotivo, que assumiu as finanças de papai, e que sempre me protegeu a vida inteira.”

Essa mulher é louca, eu pensava, mas era melhor aproveitar o quanto podia. Eu começava a me divertir com aquela história. Ela estava tirando mesmo a roupa e eu fazia a mesma coisa. A verdade nua, ri consigo mesmo.

“Eu obriguei o meu irmão a manter o comércio de livros, e comprava dele, com minha parte da herança, uma série de itens que me interessavam. Enquanto estive na Universidade Miskatonic …”

“Miska o quê?”

“Para você, a Miskatonic é uma mentira, uma invenção. Você vai entender, já, já.” Ela usava um corpete muito parecido com o que estava antes, por debaixo daquele tailleur. Só que com a maior facilidade ela ia tirando a parte destacável, que lhe cobria os seios.

“Pensei que a palavra mentira fosse tabu, moça.” Eu sorria, já meio bêbado. E olha que a bebida estava batizada.

“Fiz umas pesquisas e consegui uma série de contatos e coisas que precisava. Infelizmente só fiquei metade do curso por lá, porque meu irmão morreu num acidente, que por ironia também envolveu uma empregada …” Falou aquilo de um jeito que me deu um calafrio. E continuou: “Eu estava de férias nessa época, perto dele, e depois dessa infelicidade decidi pedir transferência para uma nova faculdade, onde eu já estava. Na cidade de ________________________.”

“Bom, eu moro lá.” Já estava só de cueca.

“Não, não mora, na verdade. Não NESSA cidade que estou mencionando. Bom, aí aconteceram uns probleminhas, mas pelo menos eu consegui o que eu queria: EU MORRI E CONTINUEI VIVA.”

“Hã?” O meu espanto depois dessa frase foi calado por um beijo e pelo contato de seus seios no meu peito nu. Nos agarramos com sofreguidão depois de tanta bobagem que ela havia dito, e as memórias das frustrações do dia se misturavam com as informações estranhas que vieram da boca dela e do seu grupinho estranho; e logo, nada aquilo tinha a menor importância.

“Que tal o gosto da verdade, hein?” Ela falava com a voz entrecortada, enquanto subia e descia em cima de mim, os seios balançando, firmes. “Você vai conhecer o gosto dela com muita força, antes de esquecer tudo e ir embora … vai me deixar uma lembrança e eu te deixo outra … porque … ninguém nunca tem só … uma trepada comigo … é muito … mais … do que ...” Os olhos esverdeados de Anna abriam e fechavam num esgar intenso, e ela se debruçou sobre mim, agarrando minha testa.

Seu toque queimava. Queimava!

Iä! Iä! Yog-Sothoth!” Ela bradava, na ânsia do orgasmo; e o orgasmo também atingiu meu cérebro, que queimava com toda força; e de repente visões se sucederam em minha mente, uma menina ruiva crescendo, perturbada, andando pelas ruas da cidade que me confundia; os óculos que ela usava mesmo sem ter necessidade alguma; o desemprego, o desleixo de seu jeito de vestir e a noite em que ela pediu que algo diferente quebrasse aquilo em sua vida; e como o meu pedido mental no banco do bar, ela também foi atendida; Anna Feiticeira lhe atendeu, uma presença estranha, uma ruiva idêntica a Anna, seu corpo nu envolto em chamas verdes, estilhaçando uma parede feita de espelhos, que separava os mundos, agarrando a apavorada Anna pela testa, rindo desesperada, e batendo testa com testa, com toda força, o sangue espirrava, com toda força, um som reverberante ecoava no quarto da garota, com muita força, Anna gritava muito, até que ela … e a presença … eram uma só. Anna não existia mais, nunca havia existido, nem merecia existir, mesmo; em seu lugar ficou Anna Feiticeira, escapando da morte, vinda de sua realidade paralela.


Eu estava em choque. Não conseguia falar, nem me mexer direito, a boca entreaberta, enquanto Anna ria nervosa em cima de mim, segurando meus ombros, ainda com meu pênis enterrado em sua vagina.

“Depois disso,” ela ria e falava com a voz rouca, “ELES me acharam e me incluíram no seu conselhinho de Arcontes, a Sinarquia da Verdade … é tudo um experimento de magia, e agora você acredita em feitiçaria, não é? NÃO ACREDITA? É A VERDADE!!!”

“O … que é a verdade?” só conseguia balbuciar aquilo.

“Se preocupa muito com isso, no fundo, não é?” Balançava de leve a cabeça, a testa muito suada. “Deve ser por isso que percebeu que aqui era diferente, e deve ter parado aqui, no fim das contas, por minha causa. Então eu tinha de resolver tudo. Só que eu vou matar dois coelhos de uma cajadada só … já fiz isso tantas vezes.”

O suor de sua testa pingava sobre a minha, ela se debruçava sobre mim novamente.

“Eu fiz um acordo com uma … coisa … que vive nessa realidade de vocês. Ela vive na cidade onde você deveria estar agora, e você vai levar uma outra coisa pra essa coisa – ah, estou sendo confusa, não é? Normal. É o prazer …” Da testa de Anna Feiticeira pingava o suor; dava para enxergar os poros, e eu continuava sem me mexer direito, só tremer como meu pai fazia. Um dos poros – eu conseguia enxergar com uma nitidez incrível, era lindo e ao mesmo tempo horrendo – estava se abrindo mais que os outros, bem no meio da testa.

 E da testa … começou a gotejar um suor mais espesso, e daquele poro aberto, saía uma espécie … de lagarta, ou de verme. Era muito vermelho e tinha um aspecto repulsivo e ao mesmo tempo atraente, fascinante; cheio de minúsculas perninhas, se mexendo com rapidez, muita rapidez.

Anna entreabria a boca como se estivesse sentindo mesmo muito prazer; e meu coração estava gelado de medo, mas não sei como, minha ereção continuava como antes. Como eu temia, a lagarta … caiu … sobre meu rosto. Era gelado e quente ao mesmo tempo, as perninhas eram como uma espécie de franja ou pseudópodes, ela mudava de formas mas permanecia muito rubra, passou por cima de meus olhos, que não consegui fechar por mais que me esforçasse … e … entrou na minha testa, da mesma forma que saiu da testa de Anna.

“Ufa!” Ela respirou com alívio. “Essa lagartinha se grudou em mim quando eu passei de onde vim para cá, e só consegui me livrar dela agora … irmão. Ela vive numa escuridão entre os mundos … parece que ela gostou de você.” Meu cérebro esfriava lentamente. “O nome dela, agora, é Shub-Niggurath – guarde bem isso, é o que vai fazer você esquecer os últimos dias e … por acaso, é a encomenda que vai levar para a Crisálida. Afinal, que melhor lugar para uma … lagarta, do que uma crisálida. Num é?” Riu desesperada.

Saiu de cima de mim e foi se vestindo, cobrindo o corpo suado com as roupas, sem se preocupar com nada.

“No dia seguinte você acorda sem lembrar que aqui é um lugar perfeito que você ameaçou estragar … que descrição mais bonitinha, típica daqueles hipócritas … e vai direto pra Crisálida. A sua chave, estou deixando aqui no bolso da sua calça … aí você busca tudo no hotel amanhã … mas você não vai lembrar dessas minhas palavras, então só me resta te dar ...” Foi se aproximando do meu corpo inerte, o ar começava a me faltar, o cérebro borbulhava e ficava frio.

“... um beijo de adeus.” Me beijou a bochecha, e não sei por que, senti menos dor depois daquele momento.

Saiu, sem não antes recitar, na porta do quarto: “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará. Foi bom te rever.” Fez uma espécie de gesto – não dava mais para enxergar direito, ainda mais daquele ângulo – e tudo ficou mais escuro, e acho que dormi.





Acordei assustado no ônibus intermunicipal. Já estava na cidade. Sobressaltado, desci apressadamente do ônibus, até que notei que não era a metrópole dotada de arranha-céus que deveria ir, para realizar um grande negócio. Tinha comprado um bilhete para ir até Crisálida, onde uma excelente proposta de negócio imobiliário aparecera, mas no susto, desci uma cidade antes. Isso parece constrangedor, mas, felizmente, o encontro é só na próxima segunda. Tinha pensado em passar o fim de semana conhecendo Crisálida, mas como o próximo intermunicipal para meu destino só sai amanhã, então iria ficar de castigo até lá.

Então ouvi uma conversa peculiar entre os nativos, que me causou uma sensação de déjà-vu:

"Tou afim de uma rapidinha com você, gata. Topa?"
"Mas só saio com caras que não vão me tratar como uma puta. Eles precisam me ligar e procurar uma outra vez, senão banco a difícil e não durmo com eles na primeira vez."
"E se eu lhe der falsas esperanças desse segundo encontro, rola? Tipo, ligar pra você quando chover no mar?"
"Ai tudo bem. Eu topo."

Percebi que por engano havia parado na cidade onde todos falam a verdade!Vasculhando no bolso, achei a chave de um quarto de hotel. Havia me hospedado e nem havia notado. Eu fui ao hotel no automático. Não sabia dizer o porquê, mas estava morrendo de sono ainda. Lá fui ao hotel e conferi minhas malas. Estava escuro cedo. Parecia que vinha uma tempestade sem tamanho e uma estranha neblina adentrava pela janela.

Junto com o som dos trovões, ouvia um ruído contínuo. Primeiro parecia um chiado. Depois parecia uma voz baixa repetindo ou recitando algo. Aos poucos foi ficando mais e mais alto, clamando "
lobotomia, lobotomia!" Meu corpo tremia de assombro, mesmo que não soubesse o motivo. Figuras sinistras que lembravam o Nosferatu ou personagens da Matrix, lutando, correndo e me perseguindo, como se eu tivesse cometido algum crime terrível, com massagistas me estapeando a cara e caminhos desembocarem dentro da boca de senhoras, como em monstros de desenhos animado.

As coisas iam ficando mais e mais sem sentido, confusas e difíceis de lembrar, conforme via uma lesma gigante devorando um cérebro e um neandertal perguntando quando a tortura iria acabar. Meu coração acelerado praticamente saltou do lugar, quando um solavanco do ônibus me moveu do meu lugar e acordei perto da rodoviária. Estava chegando a Crisálida. Tinha sonhado tudo? Deve ser, porque as lembranças dos eventos desvaneciam rapidamente.

Se não fosse meu hábito de anotar tudo que acontece comigo num diário, nada disso poderia ter acontecido. Poderia conferir se estes eventos tinham sido reais ou oníricos. Mas, não agora. Agora era hora de turismo pela cidade.

Havia chegado, e bem em frente, numa relojoaria antiga, vários cucos gritavam, dizendo que eram 5 horas. Algo em mim estalou. O que será que essa referência queria dizer? Não lembrava de nenhum filme ou história. Se fosse importante, depois me lembraria.

Saí e fui me divertir …





Verdade seja dita,” sussurrou Anna Feiticeira em outro canto do mundo, “não existem verdades nem mentiras. Só o que você escolhe para si mesmo.”






***
Os trechos de Kinn estão em Arial e os de Arthur, em Georgia.
Este conto acontece, cronologicamente, ANTES de A Crisálida e a Esfinge, dos mesmos autores. Ambos os contos são parte de um tetralogia que estamos elaborando! Você pode ler os quatro separadamente, mas vai desfrutar muito mais se conhecer todos os fragmentos ... todos eles estarão classificados com o marcador Crisálida.
E por falar em Crisálida, http://contosdacrisalida.blogspot.com/