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quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

FRAGMENTOS E ITERAÇÕES

por
Arthur Ferreira Jr.'.




Hello again, friend of a friend, I knew you when
Our common goal was waiting for the world to end
Now that the truth is just a rule that you can bend 
You crack the whip, shapeshift and trick the past again
METRIC, Black Sheep





PRIMEIRA ITERAÇÃO


UM ESTRONDO CORREU PELO CÉU, vozes do além foram ouvidas, relâmpagos traçaram padrões revelando segredos macabros, dois olhos azuis brilharam no escuro, e a humanidade seguia seu rumo, sem notar a diferença.

Belial corria pela avenida, desfrutando do prazer e euforia das fraquezas humanas. Havia ido embora a desorientação das primeiras noites naquele corpo que se chamava André, e o vampiro, um Vulto Vulpino em busca do paradeiro de outros, havia deixado sua nova consorte, Belin, experimentar suas capacidades vulpinas, brincar.

Enquanto isso se deixava correr à toa, às cegas pela cidade decadente dos humanos. Estava quase se acostumando a ser algo entre humano e a entidade quase-imaterial que antes era. Depois da possessão de André. Belial quase deixava suas presas à mostra e revelava sua natureza através dos olhos azuis brilhantes, de tão fora de controle que corria, sem destino.

Ia correndo pela cidade labiríntica, mas escolhendo deixar suas pegadas pelas avenidas mais largas e cheias de carros, arriscando sua nova vida, embora apenas aparentemente. Os pés se movimentavam cada vez mais rápido, mas ainda dentro dos limites humanos. O sol rachava a pele dos transeuntes, inclemente, e limitava as capacidades sobre-humanas de Belial. Passando debaixo de um viaduto, ele sentia suas passadas ganharem novo ritmo. Era cadenciado. Era sincopado. Era insano, aquele ritmo. Cuco, cuco, cuco: como um bater de coração cheio de adrenalina, tonto de dor e prazer. Os olhos de Belial subiram a tempo de enxergar a forma feminina caindo do viaduto. A queda espetacular e rodopiante desafiava as barreiras do próprio tempo, e Belial percebeu que havia seguido as linhas de força certas daquela cidade, chegando no momento exato do chocar de mais um ovo mental, mais uma vampira nascia.

Nascia e morria. Desfigurada, entre a morte e a vida, ela sugou o ar sujo pela primeira vez, pois só agora percebia quem era, quem sempre fora. “Ananke” era o nome que brotava de seus lábios machucados.

Belial e Belin contemplavam a garota quase cega, mutilada, suas medonhas cicatrizes revelando, pouco a pouco, penas afiadas cortando-lhe a carne. Ela era um monstro, mas um monstro útil: Belial a usaria contra Kronos, conseguiria a atenção daquele maldito milenar, e se tornaria o novo Maestro da Morte.



MEIA HORA ANTES …

Belin sempre gostara de ler. Às vezes, em sua pequena cidade natal, enchia a mochila de livros e entrava pelo bosque, para alcançar uma colina específica, onde ela podia se recostar num estranho monumento – um menir, ou outro tipo de pedra ereta – e ler trechos dos vários livros que trazia. O monumento era a razão do tombamento daquela área, tão próxima à vila, mas tão selvagem.

O hábito de ler trechos de livros separados, saltar pedaços como se movida por uma intuição vinda não sabe-se de onde, pouco a pouco fez de Belin alguém capaz de conectar fatos à primeira vista não relacionados … e também de cometer erros quase estúpidos, aos olhos das pessoas de raciocínio mais comum.

Esse raciocínio incomum foi o que trouxe Belin e seu amante – amante? Seu consorte, como ele às vezes a chamava, para aquela cidade grande, suja e labiríntica, cheia de ladeiras, grandes avenidas e viadutos. E agora ela observava da janela escancarada, Belial exercitando-se ao sol. A transformação em Vulto deixara Belin mais pragmática, e ela estava ocupada em escanear os livros que trouxera de sua cidade – aqueles livros de ocultismo que pertenciam a sua mãe, e aqueles livros mais obscuros ainda, que ela conseguiu trazer de Raven Lake além dos portais do paralelo, coisa que nem Belial conseguia fazer. Assim poderia ler os livros com mais conforto pelos lugares onde vagariam no futuro, direto no laptop que roubaram, ou em qualquer outro aparelho ainda menor que roubassem no futuro.

O processo de escaneamento desses livros de Raven Lake era lento e sofrido, porque alguma coisa neles atrapalhava o funcionamento das máquinas eletrônicas, e às vezes, a imagem resultante não era exatamente o que Belin enxergava com seus olhos violetas. Frustrada com mais um fracasso (até então só conseguira escanear um livro completo, e trechos pequenos de cinco outros), a moça – a vampira – contemplava Belial lá embaixo terminar suas séries de abdominais, levantar-se e gritar:

“Desça aqui! Veja se consegue me pegar … ”




UM MÊS E MEIO ANTES …

“O homem não saía de sua mente, tinha certeza de que não era alucinação. O que ele teria feito? O que ele queria dela? Seria um ladrão? Não, definitivamente não podia ser.”

Belin não podia estar mais errada. Agora ela sabia.

Belial era sim, um ladrão. Ladrão de mistérios no estranho lugar de onde veio, ladrão de vidas neste mundo mais sólido onde as escolhas são mais limitadas. Naquele instante, porém, com o sol nascendo por trás das montanhas e seus primeiros raios caindo quentes sobre a pele dos dois amantes na beira do precipício, Belial revelava outra de suas facetas: o de alguém apaixonado (pois se Belial era mesmo um demônio, não são demônios a essência da paixão?).

Os olhos púrpura de Belin arregalavam-se devagar com a chegada do sol, impiedoso e inclemente o sol lhe parecia, mesmo sendo a tênue luz que encerrava a madrugada deliciosa e selvagem que haviam passado. Os dois estavam deitados, seminus e suados e muito próximos da beirada do precipício, e Belin começava lentamente a entrar num estado de pânico que jamais havia sentido antes. Era o sol. Sim, era o sol que estava lhe causando aquilo. Semierguida, ela tentava inutilmente fugir, mas seus músculos um tanto cansados não lhe obedeciam direito. Olhos azuis lhe fitaram preocupados, e a mão de Belial – que um dia Belin conhecera como a mão de André, e que de início Belin pouco teria imaginado percorrendo-lhe todo o corpo como acontecera durante a noite – lhe segurou o ombro com firmeza.

“Calma. Calma. É só o sol. Eu já imaginava que isso ia acontecer, fique calma. Eu devia ter avisado, meu amor. Venha, recoste-se em meu peito, respire fundo, vai passar se você aceitar que agora é outra pessoa. Sua verdadeira natureza se revelou, não consegue sentir?” A moça agarrou-se a Belial com força, os olhos recusando-se a deixar de olhar o sol nascente.  Belial continuou falando, já que Belin a princípio não conseguia responder nada:

“É só um reflexo. Não é real, pelo menos não aqui em seu mundo. Tenha calma, respire fundo, já disse, o sol NÃO PODE TE FERIR! Sua pele é ainda a mesma, minha querida, sua natureza só mudou por dentro, acha que o poder ia te deixar tão desprotegida durante metade do tempo? Vamos, respire fundo, isso, e com mais calma, perceba que seu corpo não está morto como sua mente quer te enganar … a noite que passamos não prova isso mais do que nunca, Belin?”




SEGUNDA ITERAÇÃO


UM ESTRONDO CORREU PELO CÉU,  vozes do além foram ouvidas, relâmpagos traçaram padrões revelando segredos macabros, dois olhos azuis brilharam no escuro, o colapso das realidades, uma explosão, poças de óleo numa pista de carros, um homem andando por um matagal, o mesmo homem cavando um buraco na lama, um carro largado na pista, dor, o desejo de esquecimento, prazer, sono, e a humanidade seguia seu rumo, inquieta em seu sonhos despertos, e ávida de sua própria existência.

Belial corria pela avenida principal da cidade labiríntica, e Belin estava quase o alcançando. Ela ria com a brincadeira que testava suas capacidades vulpinas, e os dois quase expunham suas presas, revelando suas naturezas através dos olhos brilhantes, de tão fora de controle que corriam, sem destino. Os carros engarrafados num entroncamento eram perfeitos para que eles se movimentassem cada vez mais rápido e sem perigo, mas ainda dentro dos limites humanos. O sol rachava a pele dos transeuntes, inclemente, e limitava as capacidades sobre-humanas do casal de vampiros, mas Belin não temia mais o sol como havia acontecido no seu primeiro alvorecer após a transformação vulpina.

Passando perto de um viaduto, eles ouviram uma ambulância correndo a alta velocidade, desviando-se dos carros que lhe dava passagem, e o ruído da sirene parecia diferente, num ritmo bizarro. Era cadenciado. Era sincopado. Era insano. Cuuuuuuco, cuuuuuuuuco, cuuuuuuuuco … como um bater de coração acelerado, tonto de dor e prazer. Os olhos de Belin e Belial enxergaram a tempo para onde a ambulância se dirigia – uma moça havia se jogado do viaduto.

De repente, Belin estacou e segurou o ombro de Belial – percebeu, e mostrou ao companheiro, que eles haviam seguido as linhas de força daquela cidade, chegando logo após o chocar de mais um ovo mental, mais uma vampira havia nascido. Nascia e morria. Desfigurada, entre a morte e a vida, ela sugou o ar sujo pela primeira vez, pois só agora percebia quem era, quem sempre fora. “Ananke” era o nome que brotava de seus lábios machucados; e mesmo a cinquenta metros de distância, os dois Vultos conseguiram ouvir aquele nome terrível.

Os paramédicos e enfermeiros lhe davam assistência, ela lhes parecia muito ferida, e corria risco de vida. Belial sabia que ela era um monstro, mas um monstro útil: Belial a usaria contra Kronos, conseguiria a atenção daquele maldito milenar, e se tornaria o novo Maestro da Morte. Se havia alguma coisa em que era habilidoso, era nas artes da ilusão: agiu rápido, e os dois conseguiam contemplar a  a garota quase cega, mutilada, suas medonhas cicatrizes revelando, pouco a pouco, penas afiadas cortando-lhe a carne; mas os enfermeiros e paramédicos enxergavam apenas o que queriam ver, aquilo que foram socorrer: uma garota muito ferida, correndo risco de vida.

Ao longe, do lado de um dos poucos orelhões que funcionava de fato naquela cidade, uma figura observava a acidentada, seus socorristas e os dois vampiros, sem ser percebida.




MEIA HORA ANTES …

Belin sempre gostara de ler. Às vezes, em sua pequena cidade natal, enchia a mochila de livros e entrava pelo bosque, para alcançar uma certo precipício, de onde conseguia enxergar, lá embaixo, uma colina onde havia um menir, um monumento antigo feito de pedra, provavelmente ereto ali pelos antigos nativos da terra e que era a razão do tombamento do bosque.

O hábito de ler trechos de livros separados, saltar pedaços como se movida por uma intuição vinda não sabe-se de onde, pouco a pouco fez de Belin alguém capaz de conectar fatos à primeira vista não relacionados … e também de cometer erros quase estúpidos, aos olhos das pessoas de raciocínio mais comum.

Talvez o pior desses erros foi aquele que trouxe Belin e seu amante – amante? Ele a chamava de consorte – para a grande cidade labiríntica, tão suja e cheia de viadutos, avenidas intermináveis, encruzilhadas e ladeiras. Aquela cidade a frustrava, mas os tomos de ocultismo que pertenciam a sua mãe, e mais aqueles livros mais obscuros ainda, que ela conseguiu trazer de Raven Lake além dos portais do paralelo, com a ajuda de Belial, lhe davam indicações soltas que, quando unidas, davam a impressão de que a existência dela, Belin, era algo predestinado, e predestinado a revelar seu maior potencial ali, na cidade grande.

Quase o sonho ingênuo de uma adolescente do interior, e na prática era isso mesmo. Estar ao lado de seu amante vampírico, observá-lo exercitar-se ao sol – seus poderes eram menores durante o dia, mas o sol não os machucava, no máximo incomodava e excitava em certos momentos – e terminar de ajeitar a mochila onde guardava um laptop roubado. Na memória daquele computador, todos os livros de sua antiga biblioteca, mais os tomos arcanos de Raven Lake, escaneados sem maiores problemas. A memória do aparelho parecia sedenta daqueles dados. Com certeza, o computadorzinho estava melhor em suas mãos do que nos daquela mulher na beira da estrada, que pedia carona.

Às vezes Belin se arrependia daquilo, como se arrependia de não ter cortado ainda seus cabelos, que a cada noite a incomodavam mais. Os dois arrependimentos tinham o mesmo peso. Se a mãe de Belin, dona da maioria dos originais daqueles livros, soubesse o que andava pela mente e alma de sua filha (será que ela ainda era filha daquela mulher que morrera há tantos anos?), diria que a balança moral de Belin estava totalmente desequilibrada. Belial responderia que Belin estava agora além da moralidade convencional – às vezes o vampiro parecia propenso a uns discursos prontos, que irritavam um pouquinho Belin, mas era só aquilo que a incomodava, tudo o mais a deliciava e a fazia não pensar em perigos, riscos, mudanças, consequências …

Belial terminou sua série de abdominais, levantou-se e pegou Belin nos braços, que havia acabado de pôr a mochila nas costas, beijando-a profundamente e, depois de morder os lábios da vampira, empurrou-a e gritou:

“Vamos lá! Veja se consegue me pegar …”



UM MÊS E MEIO ANTES …

“Quem poderia ter me seguido?  Quem saberia deste lugar?”

Belin acordou tremendo de frio na beira do precipício, o sol nascendo por trás das montanhas e seus primeiros raios começando a cair quentes sobre a pele dos dois amantes. Primeiro, teve aquela impressão paranoica, vinda de algum sonho ou pesadelo, de que alguém a havia seguido até aquele lugar onde costumava ler, e a surpreendera agarrada com aquele estranho, ambos seminus e suados, saídos de uma madrugada deliciosa e selvagem. Belin começou lentamente a entrar num estado de pânico que nunca havia sentido antes.

Belial a observou intrigado, mas não se mexeu. E para piorar as coisas, o sol. Semierguida, ela tentou fugir do sol e daquela presença que os observava, mas seus músculos um tanto cansados não lhe obedeciam direito. Olhos azuis a fitaram, preocupados, e a mão de Belial, que um dia se chamou André, lhe segurou o ombro com firmeza.

“Calma. Calma. É só o sol. Eu já imaginava que isso ia acontecer, fique calma. Eu devia ter avisado. Respire fundo, vai passar se você aceitar que agora é outra pessoa. Não é mais humana, mas o sol não consegue te ferir! Sua verdadeira natureza se revelou, será que não percebe?” A moça agarrou-se a Belial com força, os olhos fugindo do sol nascente.  Belial continuou falando, já que Belin a princípio não conseguia responder nada:

“É só um reflexo. Não é real, pelo menos não aqui em seu mundo. Tenha calma, respire fundo, já disse que o sol NÃO PODE TE FERIR! Sua pele é ainda a mesma, minha querida, sua natureza só mudou por dentro, acha que o poder ia te deixar tão desprotegida durante metade do tempo? Vamos, respire fundo, isso, e com mais calma, perceba que seu corpo não está morto como sua mente quer te enganar … a noite que passamos não prov ...” Belin o interrompeu e cobriu a boca do vampiro com a mão, sussurrando:

“Calaboca, calaboca … shhh … ela vai nos ouvir.”





FRAGMENTO UM

DIONÍSIO AUTRAN ERA UM HOMEM COMO QUALQUER OUTRO. Um dos poucos defeitos que tinha (mas, espere aí, se era um homem comum, então devia ter muitos defeitos! Mas refiro-me a defeitos assumidos diante dos outros) era ser um fumante inveterado.

Mesmo que lhe pedissem para parar de fumar dentro de casa ou do carro, ele continuava. E foi assim que um dia ele corria pela estrada, fumando enquanto dirigia, sozinho porque sua namorada havia se enchido do fedor de nicotina fortíssimo que impregnava o carro. E para piorar, uma dor de cabeça atroz.

Não sei se um dos outros poucos (poucos?) defeitos de Dionísio Autran era ser azarado – mas com certeza aquilo foi um grande azar: enquanto Kronos, o Imortal Maldito, entrava no matagal à beira da estrada e cavava um buraco buscando o esquecimento desta vida, Dionísio passava de carro e jogava um resto de cigarro aceso justamente sobre a poça de óleo que o carro de Kronos, parado no acostamento, derramava com uma certa urgência.

Um estrondo correu pelo céu, vozes do além foram ouvidas, relâmpagos traçaram padrões revelando segredos macabros, dois olhos esverdeados brilharam no escuro, uma tentativa de possessão, poças de óleo numa pista de carros, um homem andando por um matagal, o mesmo homem cavando um buraco na lama, um carro largado na pista, uma dor de cabeça atroz, o desejo de esquecimento, prazer, sono, e a humanidade seguia seu rumo, inquieta em seu sonhos despertos, e ávida de sua própria existência, enquanto mais um ovo de Vulto Vulpino chocava de maneira imprevista, ávida de sua própria existência.

Abrindo a porta da ruína que fora o carro de Dionísio Autran, saiu … apenas Dionísio, pegando fogo, seus olhos esverdeados brilhando mais forte que as chamas da explosão, e junto com a porta do carro abriu-se a porta para o paralelo, expulsando Dionísio, o Andarilho, para uma das autoestradas que corriam por aquela dimensão paralela.

Dionísio sabia que estava ferido, mas também sabia que era um trapaceiro – e sendo filho de Kronos, o Maldito, empurrou seus próprios ferimentos fatais para frente … no próprio tempo … sabendo que tinha que passá-los adiante, gerar mais um Vulto, e esse Vulto que lidasse com as consequências do nascimento dele, Dionísio. Uma cruel aplicação do princípio dos filhos pagando pelo pecado dos pais.

Dentro de si, da mesma forma que em Kronos, ele SABIA que haviam algumas sementes que, invadindo uma alma humana, poderiam brotar como outros Vultos – e Vultos viriam do além da Espiral Sem Nome, tomariam um novo nome e teriam poder, como acontecera agora mesmo com ele. A necessidade – em grego, ananke – sobrepujou Dionísio e tornou-se desejo, desejo de procriar e gerar. Mas havia também o medo de que o Vulto gerado pudesse se voltar contra ele, e buscar vingança.

E, em sua alma de Vulto, veio a imagem de Lívia, cabelos ruivos e encaracolados envolvendo um rosto belo, sensual e angustiado.

Houve um momento em que o desejo superou o medo, mas esse momento foi embora.  E ali, paralisado no meio da autoestrada, Dionísio se perguntava o que fazer.  Como não confundir aquele instante de paralisia com indecisão?  Mas, se havia um traço de personalidade que pouco habitava a alma de Dionísio, era a indecisão.  O que ele sentia, ali parado como se esperasse a chuva despencar sobre seu corpo e alma, era apreensão.  Ansiedade.  A apreensão do conhecimento.  Ele sabia, conhecia, e conhecendo, tinha poder.  Mas esse poder não lhe dava – ironicamente – o direito de fazer o que até há pouco estava desejando fazer.  Certamente, o arrependimento viria, tão certeiro quanto a flecha de um Cupido.




FRAGMENTO DOIS

COMO ELA QUERIA CORTAR O CABELO, deixá-lo curtinho como o da mulher que pedia carona na estrada. Belin lembrava-se perfeitamente do jeito daquela mulher: devia ter uns vinte e oito anos, ainda não podia ter passado dos trinta … cabelos curtos num penteado excitante, de mechas ousadas e arrepiadas, deixando a nuca exposta. E Belin tinha uma bela nuca, ainda mais excitante que a da mulher que ela e Belial roubaram no meio da estrada … o que significava que ficaria ainda mais excitante que sua vítima.

Desejar o que é dos outros – antigamente, Belin teria considerado isso errado. Mas, de qualquer forma, aquela mulher parecia sorrir quando os dois aceleraram o carro levando a mochila do laptop; e imitar um corte de cabelo não era, na verdade, um roubo. Então, tudo bem. Ela podia empurrar quaisquer arrependimentos para a frente … no próprio tempo.

A'arab Zaraq, uma ninhada de Vultos Vulpinos. Depois de escanear todos os livros, os de Raven Lake e os de sua própria mãe, Belin selecionou vários trechos e diagramas que indicavam a grande, suja e labiríntica cidade onde quatro autoestradas convergiam como numa encruzilhada … ali se daria o Princípio das Sombras, o reunir de uma a'arab zaraq. Assim orientavam os tomos de Raven Lake, seus trechos copiados e colados sobre o mapa da área ao redor da grande cidade.

Um dos tomos também falava de Kronos e Nemesyn, do primeiro casal de vampiros; falava como Kronos baniu Nemesyn para a Espiral Sem Limites após uma briga entre os dois; e de como esse ato abriu as portas para todos os outros Vultos Vulpinos, dispostos a vagar pela terra por algum tempo, exultar em suas novas máscaras e depois retornar à Espiral, para mais tarde serem chocados de novo por outros Vultos, repetindo eternamente esse ciclo … tudo enquanto Kronos não conseguia se livrar de seu corpo hospedeiro, um verdadeiro imortal, um verdadeiro imortal maldito.

Não havia nenhuma profecia naqueles tomos que mostrasse como Kronos poderia ser liberto de sua maldição, nem como seu poder imenso poderia ser roubado – mas Belial achava que havia um maneira.

Belin achava que aquela maneira era como andar pelas bordas de um precipício, mas guardava seus medos dentro de si mesma.





FRAGMENTO TRÊS

ENTÃO ERA TUDO VERDADE. O MISTÉRIO. PARTIDO EM DOIS. Uma parte era aquele Mistério realmente roubado de Astarte, ou Shub-Niggurath, ou Ereshkigal, não importa, era a mesma vampira; a outra parte era algo que já fez parte de um outro vampiro – mas não um vampiro como os Vultos, e que não existia na mesma realidade que Belin.

Ridículo, história ridícula. Foi o que ela pensou a princípio.

Tudo que Belin precisava era se livrar dessa história, e ela só conseguia fazer isso – temporariamente – ao se alimentar. Sangue. Emoções. Segredos.

A estrada se estendia até o horizonte, e do horizonte para aquela cidade grande e suja, e Belin sabia que, se seguisse para o lado oposto, encontraria sua pequena cidade, esperando por ela, a casa fechada como nunca esteve antes. Pelo menos até que começassem a investigar o desaparecimento dela, de André e sua mãe Eleonora. Mas ela preferia deixar esses problemas para depois, empurrá-los para o futuro, porque a estrada exercia um fascínio poderoso – talvez mais poderoso que o que Belial exercia sobre ela.

Postos de parada na estrada, como aquele onde ela estava, eram perfeitos para o que ela pretendia: um hotelzinho mixuruca, um posto de gasolina, um bar. Enquanto Belial terminava de escanear os livros no hotel, ela se alimentaria sem maiores problemas.

Não, não no bar. O posto de gasolina era mais adequado: uma loja de conveniência, rapazes parados com seus carros tocando músicas, vindos de uma cidade próxima para farrear e fazer pegas. Porque tinha sempre que cair naquele esteriótipo de mulher fácil e sensual, quando se é uma vampira? Talvez porque seja mais fácil caçar assim. E talvez também porque ela se sentia extremamente sensual ao agir assim. Às vezes, sentia-se mais excitada do que quando estava com Belial.

O rapaz musculoso não estranhou quando ela pediu que eles fosse para trás do posto, após o primeiro beijo. Lá ela a tomou nos braços, e ela sentiu a força de seus braços … e também sentia, quase que automaticamente, que ela podia ser muito mais forte que ele. Aquele rapaz – Luciano era o nome – levara alguns anos para ganhar aquele físico, malhando muito e tomando alguns esteroides, mas não o suficiente para lhe fazer mal à saúde … tudo para ser mais forte que os outros, e atrair a atenção das mulheres. Um menino rejeitado pelas meninas, e perseguido pelos outros garotos, ainda se escondia dentro dele. Mas aquilo que alimentava Belin era sua força de vontade, sua vontade de ser melhor que os outros, mais forte, um exemplar atraente da espécie humana.

Em Belin, aquilo se traduzia no fato puro e simples de que ela era mais forte que ele, apesar de seus músculos não terem crescido – pelo contrário, ela sentia-se, e era, muito mais feminina que minutos atrás, o cheiro de mulher deixava Luciano louco, aquele cheiro vindo do prazer que ela sentia ao nutrir-se dele, e da própria atratividade que Luciano exalava, que era roubada por Belin. Luciano sentia-se fraco diante da vampira – e pensou que aquela mulher era tão linda que o deixava meio com os pneus arriados, não estranhando aquela sensação de fraqueza ao olhar fundo nos seus olhos (eram quase púrpuras, pensou o rapaz) enquanto se beijavam de olhos abertos.

Aproveitando o fascínio idiota do rapaz por ela, ela segurou forte na cintura de Luciano, e exigiu – aquilo ficou claro por sua linguagem corporal, seus movimentos dominantes e lascivos – que ele ficasse quieto para que ela se aproveitasse dele. E, é claro – era inevitável – ele deixou. Ela praticamente rasgava a camisa de Luciano enquanto lambia o pescoço do moço, a língua correndo com cada vez mais força, até que a excitação do drenar fosse tanta em Belin, que todos os seus dentes tornaram-se afiados, mais afiados, prontos para rasgar aquele pescoço.

Ela nunca havia matado ninguém até aquele dia. E sabia que um dia seria necessário – porque então não treinar com aquele rapaz? Foi o pensamento que lhe correu pela mente. Não seria delicioso sorver sua morte? E o que viria com aquela morte? Que coisas poderiam ser drenadas no momento terrível da agonia final? E que quantidade enorme de sangue ela poderia provar … cinco litros de sangue, não era isso que diziam que era a média numa pessoa? A gula, a sede, quase a sobrepujava.

Mas ela não conseguiu – parou de lamber aquele pescoço, soltou o torso de Luciano, e ele olhou espantado para Belin … e mais espantado ficou, quando ela começou a balbuciar, “Vá embora … rápido …” e percebeu que os dentes da garota tão linda que estava pegando eram afiados como os de um animal, não, afiados como as presas de um monstro!

Belin levou a mão aos lábios, instintivamente, ao perceber o terror tomando conta de Luciano – e sabia que agora não tinha jeito. Teria de matá-lo, ou ele poderia dar a língua nos dentes. O moço tentou sair correndo, mas o braço aparentemente delicado, mas terrivelmente forte, de Belin cortou sua fuga. Antes que conseguisse gritar, sua garganta foi dilacerada por presas, sim, por presas afiadas como as de um monstro …

O gorgolejar do sangue em sua garganta, sangue roubado do qual ela não precisava para sobreviver, era tão intenso, tão visceral, que Belin esqueceu qualquer culpa por aquela morte, pelo menos naquele instante. E embora fosse prudente que o moço não fosse drenado até o fim (porque cadáveres exangues chamam bastante atenção!), todos aqueles cobiçados cinco litros foram sugados com força, aquela força também roubada, e quando o cadáver de Luciano desabou no chão, Belial sentia como se tivesse tomado um porre e uma feijoada, tudo na maior pressa do mundo.

A sorte – aquela sorte incomum que sempre protegera Belin e que parecia aumentada desde sua transformação – fez com que ninguém fosse atrás do rapaz naquele momento, nem naquela noite. E a sorte foi grande, porque se poucos aceitariam um monstro em forma feminina, lambendo os lábios correndo sangue, lábios entreabertos exibindo dentes afiadíssimos, e um cadáver recém-assassinado jogado no chão do lado da garota ajoelhada, atrás de um posto de gasolina de beira de estrada, menos pessoas ainda aceitaram em são consciência que o cadáver – aquele óbvio cadáver de garganta dilacerada – sorrisse, começasse a falar e declamar poesia …

E se Belin começava a sentir horror pelo que tinha feito, um horror ainda maior a tomou quando ouviu o que o cadáver dizia, lhe fez perguntas de volta e as respostas – segredos – vinham diretas como os raios do sol … e em meio àquilo tudo, a vampira sentia como se caminhasse pela beira de um precipício …





TERCEIRA ITERAÇÃO

UM ESTRONDO CORREU PELO CÉU, vozes do além foram ouvidas, relâmpagos traçaram padrões revelando segredos macabros, mas os padrões foram interpretados de forma errada, as vozes foram mal ouvidas e o estrondo soou à toa. Dois olhos vermelhos brilharam no escuro, a união de duas realidades, duas explosões, poças de óleo numa pista de carros, dois acidentes, dois homens andando pelo matagal, um homem cavando um buraco de lama, o outro se aproveitando da terra fofa para cavar menos, vários carros achatados largados pela pista, o desejo de esquecimento, prazer, sono, e a humanidade desperta no meio de seu sono, levanta para esvaziar a bexiga, e logo volta a dormir apesar da noite tão tempestuosa …

Belin corria pela avenida principal da cidade labiríntica, e Belial estava quase a alcançando. Ela expunha suas presas sem medo, porque ninguém as enxergaria, naquela velocidade com que corria. Nem ninguém enxergaria seus olhos brilhando tão púrpuras, e ela sentia-se fora do controle, mas como quem corre seguindo trilhos. O sol rachava a pele dos transeuntes, inclemente, e limitava suas capacidades sobre-humanas, mas Belin acolhia o sol, o calor, a sensação de queimadura na pele, aquela quase-dor, quase-prazer …

Então, aconteceu. Ela corria tão rápido que o tempo parecia parar. O tempo parecia ter um gosto, um sabor, porque ela sentia o sabor do tempo em sua língua e presas. Não era mais o vento que ela cortava em sua corrida: era o tempo e o espaço. Belial ficou para trás e do grande viaduto à frente, caiu uma forma … como uma menina, uma mulher caindo para a morte. Era um vislumbre translúcido … uma possibilidade não-concretizada … e tão necessária. Belin, seguindo um puro instinto, saltou no ar e agarrou aquela forma como se sua vida dependesse disso.

Os olhos da aparição feminina brilharam púrpuras, e Belin sentiu toda aquela energia carregada e acumulada na forma invadir seu corpo, cair por dentro de sua garganta, queimando, e deixando aquele sabor do próprio tempo a penetrar.

Em seus ouvidos, latejava aquela voz que um dia Belin ouvira da boca de uma de suas vítimas mortas: “Eu sou Nemesyn, eu sou Annanke, eu sou Astarte, eu sou Belin, eu sou você e sou o Todo.” A sensação, a descarga orgásmica daquela essência a se reunir a dela, era como da vez em que Belial implantara em Belin uma parte de Astarte – mas bilhões de vezes mais forte. Era cadenciada. Era sincopada.  Era insana, cuco, cuco, cuco … como um coração acelerado, tonto de dor e prazer, que cantava uma canção com seus batimentos.

Mesmo a apenas cinquenta metros de distância, Belial não conseguiu perceber nada – apenas viu Belin se jogar no ar e cair no chão.

A cacofonia nos ouvidos de Belin começou a diminuir, e se esvaiu com uma última frase, “Adormecerei dentro de você, até o momento certo chegar …” Belial estendeu a mão para sua consorte e a ajudou a se levantar, perguntando:  “Que é que aconteceu?”

Mas Belin não conseguia responder.




MEIA HORA ANTES …

Belin sempre gostara de ler. Às vezes, em sua pequena cidade natal, enchia a mochila de livros e entrava pelo bosque, para alcançar uma colina específica, onde ela podia se recostar num estranho monumento – um menir, ou outro tipo de pedra ereta – e ler trechos dos vários livros que trazia. O monumento era a razão do tombamento daquela área, tão próxima à vila, mas tão selvagem. Quase tão selvagem quanto ela.

Aquela intuição selvagem que a tomava quando lia os trechos dos tomos de Raven Lake a assaltou de novo.  Era uma intuição que ela sabia que vinha de certos segredos que ela havia roubado, e de segredos que haviam sido roubados para ela. O poder de Astarte. As palavras de Nemesyn, saídas de um cadáver e numa visão de beira da estrada. Quando ela cometeria um erro? O que diferencia um erro numa tomada de decisões? Só o prazer da vida pode julgar … e ela estava tendo muito prazer.

Lá embaixo, na frente do hotel onde estavam hospedados, Belial se exercitava como se os dois não tivessem acabado de fazer sexo durante seis horas. Belin também não sentia nenhum cansaço, nada que anuviasse sua mente frenética, que quase ia além dos portais do paralelo. As letras dispersas nos trechos dos livros a impressionavam … e em algum momento ela conseguiu novos dados, ao escanear de novo um dos tomos obscuros que resistia bravamente à digitalização. Ali estava, o próprio nome da cidade ou bairro no mudno paralelo: Raven Lake.

As letras se embaralharam diante de Belin e ela enxergou algumas letras a mais …  em vez de RAVEN LAKE, leu CRAVEN CLARKE.

Não havia um bar com esse nome na cidade?

Belin fechou o laptop, desligou o scanner, e resoluta desceu as escadas, gritando para Belial e passando correndo por ele:

“Vamos lá! Veja se consegue me pegar …”



UM MÊS E MEIO ANTES …

“Essa Belin.  Onde está ela?  Não foi ela que sangrou teu lindo pulso, coisa que só eu poderia ter feito?  Ahhh  … não me responda.  Só me leve até ela.  Não sei porquê, mas desconfio que ela não é tão fraca como você … e deve estar com aquele que vim buscar, o fugitivo.”

A voz feminina soou em meio aos sonhos de Belin, que acordou assustada, tremendo de frio na beira do precipício, o sol nascendo por trás das montanhas e seus raios começando a cair quentes sobre a pele dos dois amantes – Belin e Belial, ou se esta cena ocorresse um dia antes, Belin e André. Belin começou lentamente a entrar num estado de pânico que nunca havia sentido antes. Levantou-se de súbito, nua na beira do abismo.

“Calma! Calma!” gritou Belial. “É só o sol. Eu já imaginava que isso ia acontecer, fique cal …” Mas gritar não adiantou muita coisa. Belial era rápido, mas Belin era – para sua surpresa – mais rápida ainda. E sim, ela se jogou do penhasco.

Belial lutou contra as emoções humanas que o tentavam paralisar e presenciar aquela queda sem fazer nada, só entrar em desespero; e correu depressa, dando a volta pela colina, para chegar até o corpo caído de Belin o mais rápido possível. E lá estava ela, o corpo nu lacerado pelas pedras e pelo impacto, levantando-se devagar … bem mais devagar que os ferimentos, que se fechavam numa celeridade inacreditável.

Belial estendeu a mão para sua consorte e a ajudou a se levantar, perguntando:  “Que é que aconteceu?”

Mas Belin não conseguia responder.





FRAGMENTO QUATRO (SUPOSTAMENTE, O FINAL)

“Maldito assassino! Nós vamos te pegar.”

Craven Clarke, um bar à beira da estrada. Belin e Belial esperavam algum sinal, uma movimentação, numa curva da rodovia, a uns duzentos metros daquele bar e boate, onde já haviam estado algumas vezes, preparando o terreno. E lá vinha Dionísio, acelerando num carro negro – provavelmente roubado. Atrás dele, os amigos da moça que ele havia assassinado – corressem as coisas de modo um pouco diferente, e ela se chamaria Ananke; mas agora era apenas Lívia, morta no chão da boate.

Dionísio acelerou e entrou na pista, Caio e Tiago pegaram o carro e começaram a persegui-lo, estavam muito rápidos, de vez em quando precisavam frear bruscamente por causa de algum carro que vinha na pista contrária, logo à frente, numa curva fechada, um caminhão que vinha na outra pista não conseguiu frear a tempo, o carro em que Caio e Tiago estavam rodopiou várias vezes, batendo na traseira do carro de Dionísio, que foi jogado contra uma árvore, logo em seguida o outro carro também bateu na mesma árvore e uma enorme explosão iluminou toda aquela área, na pista o caminhão tombava se arrastando por vários metros, deixando uma imensa mancha de óleo.

Era o sinal que o casal de vampiros esperava.

Dionísio saiu do meio das chamas, sua pele levemente queimada, andou alguns metros no matagal e então encontrou uma enorme poça de lama onde cavou e satisfeito por ter conseguido o que queria, se enterrou profundamente, fechou os olhos num misto de dor e prazer, era hora de descansar, havia muito o que fazer ainda naquela cidade.

Belin e Belial puseram-se parados a poucos metros de onde o acidente havia acontecido, ela olhou para Belial num tom meio desconfiado:

“Você acha que ele percebeu algo?”

“Não creio. Mas só teremos certeza quando chegar a hora certa.”

Dentro do matagal, o silêncio, prestes a ser quebrado. Belin abraçou-se à Belial, sentia-se protegida junto dele, mas tinha medo do que ele era capaz para ter o que queria. E dentro de sua cabeça, ressoavam várias vozes femininas, falando da queda de Kronos, do fim da maldição, e da falha no plano de Belial …

As duas sombras Vulpinas sumiram em meio a uma densa neblina. E se Belial não tomasse cuidado, muito em breve teria muito medo do que Belin também seria capaz …

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

A CRISÁLIDA E A ESFINGE

Por Arthur Ferreira Jr.'. e Kinn


Arthur Ferreira Jr.'. gostaria de dedicar este conto a Neith War e a Julian Assange, pela inspiração; e a Samuel por fornecer o espaço de sua cidade para o estranho desenrolar desta história ...


Kinn diz: “Bom, não sou bom com essas coisas, mas se tiver de agradecer a alguém por fazer renascer este dom do conto e da escrita é o Arthur, por sempre incentivar perseverante, sem nunca desistir de acreditar que um dia voltaria a fazê-lo. E não é que fiz?" 


Ambos os autores gostariam de agradecer a Umberto Eco, pelo labirinto que é O Pêndulo de Foucault. Os trechos na fonte Times foram escritos por Arthur Ferreira Jr.'., todos os outros (Verdana e Courier), por Kinn.






“QUEM SOUBER, MORRE” pichado em letras garrafais, na entrada daquele beco perto do meu escritório, me encheu de calafrios. Não era só o cadáver que eu encontrara logo virando a esquina, não era só o sangue que era visível no chão, logo abaixo do próprio grafite berrante, era o conjunto da obra. Eu sabia, sem a meno sombra de dúvida, que no dia seguinte haveria uma manchete no Diário da Crisálida , em letras também garrafais: “ESFINGE NEGRA FAZ MAIS UMA VÍTIMA”.

Os detentores dos maiores segredos da cidade, mortos um a um. E eu poderia muito bem ser o próximo assassinado, mesmo sendo um forasteiro … se era verdade que todos que passavam pela cidade de Crisálida tinham suas vidas mudadas, minha vida mudaria para morte em muito breve, se eu não fizesse nada!






E assim foi que começou o trecho deste curioso diário, coletado por uma sombra furtiva enquanto caminhava por esta peculiar cidade.
O clima era sempre opressivo, tenso, em contínuo thriller devorador devorador da esperança. A cidade parece viva, rastejando, a cada dia, um centímetro para alguma direção, dando a clara impressão que não consegue ficar parada.


Mas antes é preciso voltar um pouco fazermos algumas explicações, que nosso diarista deixou em suas impressões de forasteiro. Ele apresentou algumas de duas de nossas curiosas peculiaridades sem fazer o claro contexto. Sim, esta é a cidade chamada Crisálida e conta nossa mais famosa lenda, erigida pelo fundador que "Ninguém jamais pode entrar e sair dela, permanecendo o mesmo."


Outro detalhe peculiar é que coisas que vamos chamar de "peculiares" acontecem. Acontecem o tempo todo, embora nem todas as pessoas notem. Por trás das impressões de nosso pequeno autor podemos ver sua preocupação diante um aviso bairrista, e de suas muitas leis não escritas que cada bairro discretamente esconde, com suas feras espreitando e predando conforme seus instintos.


E quem sou eu? Ora, sou o Bibliotecário. 


Minha função é guardar o conhecimento produzido e coletado nesta cidade. Podem me imaginar como um senhor franzino, terno grafite, camisa branca e gravata borboleta, sentando numa mesa, cercado de enciclopédias, crônicas e romances deste peculiar município. Não poderiam estar mais errados sobre mim.

Mas esperem, não sou eu que sou o importante aqui, e sim o nosso pequeno fragmento, o qual retomaremos agora:



EU NÃO CONSEGUIA FUGIR, este era um dos meus principais problemas. Todas as vezes que tentei deixar a cidade antes que esse assassino me encontre, houve algum empecilho, surgiu algum problema, desde uma burocracia incompreensível a acidentes bloqueando o caminho, passando por ameaças de gangues no subúrbio.

Às vezes me vinha a fantasia estúpida de subir num dos arranha-céus de Crisálida, e num lance espetacular e cinematográfico, roubar um helicóptero de um dos megaempresários que exploram a cidade. Mas mesmo essa fantasia não vai muito longe, é só pensar nela que imagino explodir em pleno ar, tão logo chegue aos limites do espaço aéreo da metrópole.

No dia seguinte, depois de ter me escondido num hotel barato, desci para comprar jornal e lá estava a manchete que eu temia. O tabloide arrolava as vítimas anteriores do Esfinge Negra, esse nome ao mesmo tempo brega e amedrontador, que lhe foi dado pelo editor – ou sugerido pela secretária anônima, quem sabe. Um político que fez denúncias das corrupções de seus colegas. Uma prostituta que ouviu uma conversa sigilosa de um de seus clientes. O jornalista de um site, que revelou documentos confidenciais do governo. Um ex-padre que ia publicar suas memórias. Um fotógrafo de incidentes estranhos. Um alcaguete do submundo do crime. E eu. Não, eu não estava ali ainda. Mas quem sabe no dia seguinte.

Sou investidor da bolsa de valores, me mudei recentemente para Crisálida e planejava pôr meu dinheiro num empreendimento imobiliário cuja principal linha de propaganda era expor o passado histórico da cidade. Já havia me comprometido bastante, quando a obra foi embargada pela prefeitura. Depois de uma discussão calorosa com um subsecretário, voltei para meu flat e encontrei vários documentos remexidos, coisas fora do lugar. Antes de mexer em nada, desci correndo o elevador, e procurei saber com o porteiro se alguém fora visto entrando no meu apartamento. Ele disse que isso era impossível, pelo registro do circuito interno.

Transido de paranoia e medo, subi os catorze andares e abri a porta. Tudo estava como sempre costumava estar, naquelas últimas semanas. Aquilo me assustou ainda mais, porque, será que eu estava ficando maluco?

Fui relaxar e tomar um banho. Depois da ducha, estava limpo, mas longe de relaxado. Ao verificar os papéis em busca de certos argumentos na negociação com a prefeitura, percebi que … entre eles estavam alguns documentos que nunca havia visto antes.

Eu segurava um panfleto que dizia: CRISÁLIDA, COMO VOCÊ NUNCA DEIXARÁ ESTA CIDADE SEM SER TRANSFORMADO POR ELA …






Veem? ele ficou vidrado no assunto. Mas o curioso é que mesmo eu não sei ao certo de como essa história começou. A referência mais próxima que a maioria dos estudiosos acreditam e que está ligado ao mito da origem da cidade, embora não seja mencionado nele nem uma só vez. Mas há quem acredite que nessa história está claramente expresso que foi a primeira vez onde isso aconteceu.


O problema é esta sempre foi uma história que circulou na tradição oral, sendo compilada apenas muito depois. Existem dezenas de versões dela e mais surgem, conforme o sabor do narrador nos dias de hoje. Eu tenho um manuscrito aqui, datado de dois séculos atrás e mesmo ele já menciona que esta é uma versão, sem que o autor sabia se é a versão original ou não.


O que se sabe é que um grupo de desbravadores veio para estas terras e num terrível confronto com os nativos, conseguiu expulsá-los e clamar o direito de uso e de posse da daquilo que os derrotados consideravam sagrada. Ou amaldiçoada: não dá para saber ao certo, pois o manuscrito já está meio gasto. Um versão bastante pitoresca informa que a culpa de tudo foi terem derrubado ou comido de uma árvore sagrada para os nativos, o que os tornava impuros para habitar aquele lugar.


O fato é que no território onde um dia se tornou o marco central da cidade era o local onde o deus ou o demônio dos nativos costumava transitar na terra, devendo por isso, o local viver desocupado. Obviamente, colonizadores sempre ignoram tais assertivas e prosseguiram montando acampamento até toda sorte de eventos, acidentes e doenças começarem a acometer os colonos. Alguns diziam ter visto o demônio. Outros, animais marinhos em terra firme e muitos mostravam sinais de loucura, afirmando ter visto e/ou ouvido coisas além da imaginação.


Os medos da maldição e vingança dos silvícolas tomaram conta do coração da maioria, que foi se retirando do acampamento pouco a pouco.  Todos desacreditaram de seu líder, que embora fosse combatente competente, não tinha forças para lidar com algo como uma maldição.


Temos outro trecho faltando, mas em seguida a ele, vemos que o escárnio e humilhação são o tratamento dado ao nosso ilustre Fundador, como se ele fosse o culpado por toda sorte de desdém que estavam sofrendo. Como se ele tivesse lutado sozinho e expulsado os nativos? Às vezes a forma como as pessoas simplificam as coisas é bem desagradável.


De qualquer forma, o último aviso e ultimato para que o Fundador deixasse de lado sua teimosia e se retirasse com os colonos restantes, veio com o prenúncio de espessas nuvens de tempestade. Ele disse que se refugiaria na sua cabana e que só sairia de lá quando a chuva passasse, pois nenhuma chuva, deus ou demônio o tiraria daquele lugar que ele chamaria de lar!


É nesse momento que começa a mágica. Meditando dia a após dia, sem sair do lugar, sua única companhia era uma lagarta que tinha acabado de fazer a pupa dentro da choupana que ambos dividiam. Ele ficou impressionado com isto e decidiu adicionar o jejum à sua espera. A versões de quantos dias ele ficou sob a chuva variam muito. Mesmo nesse conto, mencionam algumas variantes costumeiramente ditas:


3 dias e 3 noites de chuva. 5 dias de tempestade. 6 dias de precipitação onde o céu lavava o inferno. 7 dias onde a chuva se tornava mágica e se movia por vontade própria. 11 dias de chuva, onde metade deles ela vinha do céu para a terra e na outra metade chovia do solo para o céu. 40 dias de chuva para tentar demovê-lo de continuar ali, já o dilúvio havia matado os homens sem fé nem virtude (o que nos dá o que pensar, já que nem mesmo essa teve força para movê-lo do lugar). Por fim, a versão de maior tempo de duração diz que ele passou lá O Tempo Necessário em que a pequena lagarta levou para se transformar numa borboleta.


Neste dia fatídico, o Fundador viu a pequena criaturinha saindo de sua moradia numa bela manhã ensolarada. A chuva havia terminado!
Com nova determinação e uma fabulosa aura de autoconfiança, ele conseguiu reunir os colonos novamente no marco zero, onde havia vivido com a pequena companheira e decidira batizar a cidade de Crisálida.


Espero que este pequeno entreato não os tenha distraído de nossa verdadeira história. Mas ao menos, serviu para deixá-los cientes dos medos e crenças que afligiam nosso pequeno diarista.



CRISÁLIDA, COMO VOCÊ NUNCA DEIXARÁ ESTA CIDADE SEM SER TRANSFORMADO POR ELA …

Mas que grande bobagem, pensei naquele momento. Amassei o panfleto com aquela história sobre um fundador mítico e árvores da vida e sei mais lá o quê; acho que aquele gesto foi o meu erro, pelo qual talvez pague muito caro.

Nos dias seguintes ocorreram outras invasões inexplicáveis no meu apartamento, sempre deixando para trás outros panfletos do mesmo gênero – depois da segunda vez, procurei rastrear de onde vinham, mas não havia sinal de que gráfica os havia produzido. Pareciam contar uma história maior que a do primeiro panfleto, na segunda vez; e na terceira vez, haviam várias cópias do primeiro panfleto, dispostas num bolo de quinhentas cópias. Deixadas ali, como se eu fosse um menino que distribui propaganda nas esquinas.

Ora, o slogan da Crisálida poderia ser atraente para minha campanha, mas não aquela história de vingança de espíritos cativos, libertos antes do tempo da árvore do sacrifício … então, peguei só o que me convinha, e usei na campanha publicitária do empreendimento; vejam que poupei bastante dinheiro, porque não foi necessário contratar nenhuma agência publicitária … havia até um logo no panfleto, pronto para que eu o copiasse, descaradamente.

Nem tão descaradamente, eu pensava; se alguém deixava aquilo na minha casa temporária, de maneira tão misteriosa, era porque queria que eu utilizasse o material de algum modo. E que outro modo um investidor poderia encontrar, senão o mais lucrativo?

A campanha seria muito bem-sucedida, as pessoas pareciam fascinadas pelo slogan e pelo logo; seria coroada de êxito, se não fosse um incidente inesperado. Duas mortes de operários na construção não iriam nos impedir, por mais estranhos que fossem os acidentes das primeiras semanas, mas quando um tremor de terra sacudiu o local da obra, e praticamente engoliu os alicerces tão cuidadosamente dispostos – era como se a terra houvesse se tornado lama – a construção foi paralisada.

Não teríamos dificuldades de retomar a obra, se não surgissem inúmeros entraves burocráticos, campanhas de ativistas contra o empreendimento (diziam que aquele era um local onde morreu o Fundador de Crisálida, e que a área deveria conter um monumento, e não um condomínio fechado), e até uns fanáticos religiosos que protestavam por sei lá que motivo, dizendo que o logo era um símbolo demoníaco e que o tremor que fulminou as fundações do condomínio era um sinal de castigo divino – ou na verdade, um aviso divino.

Em resumo, acabei perdendo dinheiro suficiente para me encalacrar aqui em Crisálida. Em menos de um mês, comecei a entrar em depressão. E depois, vieram os pesadelos. O terrível logo da árvore com crisálidas nos ramos, no lugar de frutos … os casulos se rompiam, e deles saíam não borboletas, mas pássaros macabros, vorazes, que se dispersavam pela planície onde eu estava … um deles me bicava, sôfrego, e no final desse sonho – desses sonhos, porque repetia-se todas as noites – eu morria e acordava em desespero.

E, tão logo esses pesadelos começaram, também surgiram pela primeira vez as notícias da Esfinge Negra. Eu me sentia perplexo, e depois de tanto sofrimento e dificuldades, tinha toda a certeza de que não podia ser uma coincidência!

Eu sabia demais. E ia morrer por isso.




Eu lembro dessa campanha. Foi o maior sucesso, em termos de propaganda, já contado na cidade. E também foi considerado polêmico, porque o slogan da cidade havia sido usado, numa frase feita, e algumas pessoas ficaram se perguntando se havia sido pago os direitos autorais da lenda. Bom, que eu saiba, lendas não costumam ter autores e, quando tem, são tão antigos que isso não se aplica.


Da mesma forma que os elementos que nosso diarista vem mencionando, desde que começou o relato. O Esfinge Negra realmente apareceu nos jornais e, em meus trabalhos, já compilei uma obra que citava uma árvore monstruosa, cujos frutos eram cabeças humanas, dos corpos que ela devorava. Mas uma árvore de crisálidas é realmente novidade.


Nossa história até o momento mostra as impressões e digressões de nosso autor. Talvez não faça sentido em alguns momentos, como por exemplo, não parece ter ainda conexão com o Esfinge negra, citado no início. Mas isso acontece porque estamos vendo os fatos fora de ordem. Quando tudo o mais estiver disposto, fará sentido - pelo menos fez sentido para mim na primeira vez que li.


O fato é que muitas vezes vemos ou ouvimos relatos assim, de conhecidos de conhecidos, que supostamente aconteceu com alguém que eles conhecem. Todos sabem o que são lendas urbanas. Mas aqui isso parece ser mais forte, como uma cidade que adora fabricar suas próprias lendas. Posso afirmar com propriedade, já que compilei muitas delas, e lhes garanto que não são como as lendas vistas em qualquer outro lugar, embora existam muitos elementos em comum.


Aliás, isso acontece o tempo todo, como na lenda de fundação e sua miríade de versões, tendo fruto proibido, árvore-mundo, maldição indígena e dezenas de outras misturas, oriundas de toda sorte de lugar. Parece-me que há um motivo especial para todas as fontes se repitam tanto. Um motivo, deliberado ou não, mas que toca o coração dos leitores de um modo ou de outro, dando força ao elemento narrado. Isso reflete, por exemplo, no nosso misterioso personagem, o Esfinge Negra. Por que ele foi batizado assim? O motivo disto e outros fatos, vocês saberão agora:



“O ESFINGE NEGRA ATACA NOVAMENTE” nas manchetes dos jornais, e um deles ficou enrolado na minha mão por um longo tempo, crispada de medo, enquanto eu tentava me livrar do ataque de pânico que sobreveio, tão logo eu voltei da rua para o quarto de hotel.

Consegui me controlar, mas uma dor de cabeça me prendeu à cama. Fiquei ali, na semiobscuridade, sorvendo minha paranoia. As bordas de meu campo visual começaram a enegrecer, a se encher de bolhas translúcidas, fazendo o medo voltar. O jornal estava largado no chão do quarto sujo e barato. Parecia que as cinzas largadas pelo meu cigarro de uma hora atrás haviam se disperso por toda a atmosfera do quartinho. Pela primeira vez, meus pesadelos me perseguiam enquanto eu ainda estava acordado.

“Se é um pesadelo,” pensei com força naquele momento, “vai passar, e eu vou acordar.” Tentei relaxar pensando na certeza do mundo real, da cidade lá fora, tão estranha, grandiosa e cinzenta. Foi quando minha paranoia desferiu um golpe certeiro: e se, naquele momento de fraqueza, aparecesse o Esfinge Negra?

Foi só pensar nesse nome terrível, nesse nome nefando, que o logo da campanha, a árvore cheia de crisálidas, penduradas como frutos vivos e trêmulos, surgiu em vislumbres súbitos, como num filme de terror antigo. A árvore se avolumou diante de mim, parecia ocupar todo o aposento, e ao mesmo tempo só estava na minha cabeça … estava dentro de mim. O tempo todo. Esse tempo todo.

Uma das crisálidas arrebentou, perto da minha orelha. Uma estalo se fez ouvir, e as borbulhas inomináveis em minha visão periférica remexeram-se com avidez. Do casulo descartado, surgiu uma escuridão. Era uma escuridão palpável, uma coisa, uma entidade, mas eu só conseguia discernir a sombra que assomava sobre meu pescoço, e o brilho cáustico de dois olhos púrpura …

“MORTAL,” bradou a voz num sussurro – o que era aquilo, aquele paradoxo na forma de voz humana?  – “Mortal, estás errado, tão errado. Não sabes de tudo, não sabes de nada …”

Me levantei, minhas pernas ganharam um vigor repentino. Da cama eu pudia enxergar o espelho na penteadeira – um espelho grande e fosco, mas que mostrava minha imagem como sempre a enxerguei, exceto pelos olhos púrpura chamejantes. Então, EU SOU O ESFINGE NEGRA, sou NYARLATHOTEP, e do meu casulo nasci. MIL NOMES TENHO, MIL NOMES TIVE, MIL NOMES TEREI. Pronunciar essas palavras obsedantes fez as cinzas sumirem da minha frente, a árvore foi se desvanecendo, e as borbulhas, sumindo; meus olhos mudaram de púrpura para um azul-cobalto profundo e brilhante.

E daquele cenário infernal, só restavam esses olhos azuis e uma sombra tênue, mas tentando desesperadamente agarrar-se à materialidade, uma sombra de formas femininas e olhos púrpuras. Como num transe, como um movimento automático, virei-me para minha criadora – criadora? Mas se sempre existi, sempre e para sempre – peguei-a pelo pescoço (uma sombra tem pescoço?) e com uma força tremenda, a arremessei contra a parede.

Um estrondo ecoou pelo hotel, mesmo que nada houvesse de fato atingido a parede. E esse nada se preparou para revidar, furiosa, e eu estava pronto para continuar a agredir a sombra, se a parede não a tragasse, deixando apenas parte de seu torso para fora, os ombros se mexendo em desespero. Agora era mais visível como uma coisa quase humana, umbrática, de olhos púrpuras, orelhas pontudas e caninos afiados, um duende de sombras vivas. A massa de escuridão que passava por seu cabelo parecia mais um amontoado de penas, do que fios de cabelo humano.

Movido por um instinto – eu me sentia como se fosse uma gralha que voasse na direção de um objeto brilhante – passei meus dedos pelas chamas púrpuras de seus olhos, fazendo com que ela gritasse de dor: “VOCÊ! VOCÊ não pode fazer isso comigo, eu te NUTRI, estive contigo A CADA PASSO desses dias ruins, te confortando A CADA ASSASSINATO que cometias … e agora você CHOCOU, é um igual a mim!” Ela praticamente grasnava de raiva, indignação e súplica misturadas.

Em minhas mãos, uma chama púrpura cintilava, e meu instinto mais uma vez me dominou – eu a engoli, como num espetáculo circense do além. Alguma coisa em minha sentia tudo aquilo tão familiar, como se repassado mil vezes, o mesmo número perante a mesma plateia. Outra parte em mim, aquele âmago humano que sempre esteve comigo, se revoltava diante daquela insanidade. Eu só podia estar sonhando – mas enquanto sonhava, era impossível interferir no desenrolar daquele pesadelo.

De alguma forma, eu também sabia que a força que a mantinha presa à parede podia também me encarcerar ali, tinha algo a ver com a cidade, a cidade viva, Crisálida. Decidi sair dali o mais rápido possível e deixar o monstro – mas ela era minha Mãe, monstro como eu, aquela vampira feita de sombras e segredos roubados – preso ali, exaurida, até conseguir se soltar, sabe-se lá quando.

Lá embaixo, empurrei longe o gerente que vinha me fazer cobranças, assustado ao me ver correndo pelas escadas, depois daquele baque vindo do meu quarto, e saí à luz do dia. Era incômoda, mas suportável. Saí vagando pelas ruas, fazendo coisas que nunca fiz, dentre elas roubar os óculos escuros de um transeunte, e roubar o sangue e a mente de outro.

Eu era um monstro e andava por um dos piores bairros da cidade, Raven Lake. No topo de um edifício de seis andares, eu contemplava a Crisálida, e sentia que ela de alguma forma me rejeitava. Tirei meu diário da mochila, e, provocando uma espécie de escrita automática, delineei meus últimos pensamentos antes de verdadeiramente me tornar o monstro que sou, escrevendo sob minha identidade anterior, o investidor cujo nome não preciso citar … mas que quem ler isto, saberá com certeza.

Eu sou Nyarlathotep, um Vulto Vulpino, um vampiro vagante. Sei que esse diário vai cair nas mãos erradas, e depois acabar nas mãos certas … você que me lê, sei que vai querer me encontrar, cara a cara. Não vai conseguir resistir ao chamado de outro imortal, tão parecido, e tão diferente de você mesmo … Bibliotecário Sinuhe.

Eu sou um fluxo imortal, indetível, e vivo, tanto quanto você está morto e é estagnado. E então? Vai permanecer intocado, imutável pela Crisálida? Ou vai vir me procurar e tentar pegar o segredo, o Mistério, a chama viva que eu roubei?







E assim termina o relato de nosso diarista. Espero que não tenham ficados decepcionados com o final. Ele não segue um fluxo linear, como o é na maioria das histórias, mas é assim mesmo, já que se trata de um diário, o que o leva costumeiramente a ser desregulado, desregrado, sem estrutura ou sentido começo-meio-fim.


Rogo, igualmente, para que não se desagradem com o "plot twist" da revelação na palavras finais desta missiva. O que é um vulto vulpino? Quem é o diarista e porque ele quer se encontrar com o bibliotecário que narra nossa história? Todas estas são perguntas justas e têm vocês todo o direito de querer elas respondidas. Mas nada disso vai acontecer. Não agora, pelo menos.


Nosso diarista comete uma infração ao brincar com nossa Biblioteca e com quem cuida dela. Bibliotecários não devem escrever textos, muito menos participar de histórias, no máximo contá-las. Mas como este lugar é uma central de compilação de muitas histórias, com certeza deve haver histórias sobre bibliotecários e até algumas histórias sobre mim.


Quem sabe se não conto elas algum dia para vocês? Afinal, são todas parte destes Contos da Crisálida que compilo.
Este conto acabou e até a próxima vez.


Sinuhe Takashima, Bibliotecário
Compilado primeira vez em "Contos da Crisálida", Editora Genaro, ano 432 10³ da Era A.







Anexo I.


Tsc, Tsc. Sempre com chavões e frases feitas. "Tudo muda exceto a mudança"; "Eu mudei porque eu quis"; "É só uma lenda". É quase divertido ver como estas pequenas criaturinhas se debatem enquanto eu brinco com elas e as troco de lugar e faço experiências com eles. Alguns são divertidos, outros sofredores, mas nunca deixei ninguém escapar. Então virou um hobby divertido, compulsivo e, algumas vezes, letal …


Desde o início – e digo desde o início mesmo – nunca encontrei ninguém que não fosse interessante de brincar. Alguns são teimosos. Outros voluntários. Temos os descrentes e os fervorosos  - um grupo, por sinal que dá muito gosto transformar. Só tem um tipo que trato como ofensa: aqueles que me desafiam! A estes e estas, uso de todos os mecanismos para atingir meu objetivo, mas nunca, nunca precisei agir diretamente. E quase pensei ser o caso desta vez.


Se tratava de um tipo bem escorregadio, esse Sinuhe Takashima, com seus dizeres de ser sempre solitário; de se isolar de tudo e todos. Era como um tigre; um predador solitário, que sai da toca, pega a sua presa e retorna para o esconderijo sem que possamos detectar os seus rastros. Sendo imortal, podia deixar para demorar em meu jogo, no laboratório onde faria dele um rato bem divertido. Mas ele não tinha graça e se recusava a brincar. Eu não conseguia tocá-lo - pelo menos não sem quebrá-lo e as suas convicções - ele me desafiou, lembram? Não se tratava mais do hobby. Era pessoal.


Mas então encontrei outros, peculiares como ele. De outras terras igualmente, e com as armas que eu desejava, para forçá-lo a participar da brincadeira. O jogo é: estão todos trancados em casa. Quem consegue ficar acordado mais tempo até ver quando a chuva vai passar? Uma dica: da outra vez não foi o Fundador que venceu.


Anexo II


"Admito. O truque com o diário foi divertido. Com ele pude encontrar sua amiga presa na parede. Foi bem instrutivo."


"Você é bem esquisito. Não consigo senti-lo como senti a sua amiga e apesar de que ela dizer que são ainda iguais. Na verdade não me interessa. Ela me disse que você roubou algo dela e que roubou algo de mim. Somos todos um bando de ladrões. Já vi meus parentes e irmãos roubarem todo tipo de coisa alheia para prolongar a vida e aumentar seus poderes, mas nunca vi ladrões esquisitos como vocês."


"Já examinei minhas memórias. Não falta nada, nem o conhecimento de nenhuma pessoa com quem convivi; todas as memórias de eventos não possuem nenhuma falta, então tenho certeza que não esqueci nada que saiba. Também já vi que não perdi nenhum de meus poderes, naturais ou adquiridos. Da mesma forma, nenhuma de minhas posses em casa desapareceu. Então, apesar de ter sido roubado, não consigo detectar que tipo de coisa pode ter tirado de mim sem que eu perceba - e observe que não há tantas coisas que possa tomar de mim sem que eu permita."


"Sendo direto. Devolva o que roubou, seja lá o que for, e poderá seguir adiante – até para roubar outra pessoa."


"O que me diz, Esfinge Negra?"



Anexo III

CHUVA.  TORRENCIAL, VENTOS que me atingem o corpo e gotas d'água que me açoitam o rosto. Não sei o que é, mas estou começando a gostar dessa cidade, mesmo que ela não goste muito de mim. A sensação da água correndo me agrada. Parece muito melhor do que as cinzas que choviam sobre o mundo anterior – aquele de onde escapei, para vim reformar uma identidade dentro da mente temerosa de um homem, cujo corpo também visto.

Não tenho condições de avaliar se esse homem está, ou não, morto. As memórias dele pouco a pouco vão diminuindo, e eu sei que a queima delas, dentro de mim, é o que me mantém nutrido. Pouco a pouco perco a consciência de que ele era um investidor, de que alimentava temores secretos, e que tinha medo de reler as poesias que escrevia quando era adolescente. Se não quiser me tornar um idiota balbuciante, preso dentro de uma casca humana, tenho de tomar outras memórias, outros segredos, outros Mistérios.

Um Mistério como nenhum outro, pois veio daquela que agora é minha mãe – um espírito vulpino como eu, que talvez agora chame-se Ereshkigal, talvez Shub-Niggurath, ou mesmo um nome pouco feminino como Benoth. Talvez esse vampiro que se chama de Sinuhe possa muitas coisas, mas usá-la para me espionar não é uma delas – quando roubei o Mistério que nela brilhava, ironicamente a deixei cega como uma toupeira.

Ela só pode ter adotado o nome de Ereshkigal, então. Segundo as memórias de um professor que drenei, depois de um sarau requintado na cidade, esse é o nome de uma deusa antiga do subterrâneo e da morte … uma toupeira sensível à luz, de fato.

A cegueira dela contagia. Estou ignorando coisas básicas, cometendo erros. Um deles foi tentar me aproveitar da cegueira dela. É por isso que meu corpo moribundo – aquele que por um tempo foi meu corpo – jaz entregue à chuva, aos ventos e à tempestade.

Alguma coisa mais forte que eu me impeliu – só posso achar que seja um desses arquétipos que me compõem, na verdade, resíduos de mundos destruídos, restos de mentes e almas destroçadas por apocalipses – e deixei a armadilha pronta para o bibliotecário. Ele entrou no hotel, e foi conversar com Ereshkigal. Sei ser naturalmente sutil – um ladrão furtivo – e dei um tempo do lado de fora do hotel, entrando depois; e depois pelas escadas; era o tempo, eu calculava, para que a cegueira daquela demônia o afetasse, e eu pudesse atacá-lo como fiz com ela, roubando o que eu precisava.

E consegui: ele estava distraído com ela. Cego, sem foco. O quarto estava bastante escuro, mas isso não fazia muita diferença. A figura de costas, falando com aquele espírito preso à parede, coagindo-a de alguma forma. Ele me dava as costas, e a feria com sua conversa melíflua. E não sei porque, ali senti uma certa raiva. Como um orgulho ferido … e ataquei com ferocidade, descuidado, em vez de dele extrair o que queria, com precisão cirúrgica, como eu desejava, e não fiz.

Minhas garras trespassaram o torso de meu inimigo (porquê mesmo ele era meu inimigo? Não tinha mais noção) e ele reagiu como um raio. O vampiro de carne se voltou em minha direção, seus olhos à primeira vista impassíveis, frios, mas eu sabia que ele estava surpreso e que havia sido ferido. Eu não devia ter muitas esperanças de vencê-lo, mas tentei. É o que nos define, nós vultos, desde que a primeira de nós saiu da Espiral Sem Limites, aquele turbilhão no além, milênios – não, milhões de anos atrás: o ímpeto, a violência, a sede de ser, de existir.

E para isso roubamos parte do que define outros seres, em diferentes cosmos, diferentes mundos, diferentes realidades. Aquela verdade me atingiu em pleno coração – vinda na forma de um soco impulsionado por uma força física extrema, e carregado de estranhas sombras que envolviam a mão de Sinuhe, sombras não muito diferentes daquelas que me definem.

O impacto foi tão poderoso, que meu corpo foi jogado pela janela, estilhaçando o vidro e me derrubando pela balaustrada. Caí com velocidade extrema, anormal – algo havia me atingido, mais do que o punho do vampiro que fora minha vítima.

As sombras. As sombras separam, a escuridão oculta, o abismo divide. Meu corpo, caído no asfalto diante do hotel barato, estava muito ferido, pela queda e pelo murro, mas ainda estava vivo – e eu tentava recuperá-lo, regenerar os ferimentos, sem sucesso. As sombras que Sinuhe empunhava, numa feitiçaria desconhecida, agiam como um veneno – elas separavam meu próprio eu de escuridão do resto de centelha do investidor mortal, o forasteiro em Crisálida, e tornavam inútil qualquer tentativa de me curar.

Sinuhe não veio atrás de mim. Pelo menos enquanto eu ainda me retorcia no asfalto, ainda vivo. Apenas três mendigos me observavam chocados, a uns cinco passos de distância. Eu arquejo dentro de mim mesmo, sabendo que, mesmo morrendo, havia vencido – eu ia me reformar em algum outro universo, e levaria comigo duas coisas de uma importância extrema, que eu não sabia mais qual era – o Mistério de Ereshkigal, e o muro de solidão de Sinuhe, aquilo que impedia de … que impedia … não sei mais. Roubamos segredos, mas nada sabemos de verdade. Bebemos o sangue da vida, mas não estamos vivos de verdade … não sei de mais nada, não sinto quase nada …

Só consigo sentir a chuva caindo sobre mim.
Forte. Cada vez mais forte.
A chuva me lava, e a tempestade me leva.





Anexo IV


"Definitivamente, estranhos.”


“Por que ele era tão frágil e vulnerável e se dizia um vampiro? Minha raça possui variação de força entre seus membros, mas nunca encontrei alguém tão frágil para se partir em dois com apenas um golpe."


"Seria porque vocês são particularmente vulneráveis aos dons umbráticos, Erishkigal? Se assim, for, você será um excelente espécime de estudo. Rogue para seus deuses para morrer nas minhas mãos quando eu extraí-la dessa parede, porque puserem as mãos em você, sofrerá um destino muito pior do que a morte."


"Eu já sofro e imagine que trabalho para ELES. São demônios muito piores do que eu. Ficaram felizes ao saber da sua presença aqui. Embora tenham me repreendido pela perda do Esfinge Negra, ficam satisfeitos com um prêmio de consolação. Isso até rendeu uma graduação e um trabalho de maior responsabilidade. Não é nada pessoal, você só está no lugar e hora errada."


"Fico levemente curioso com o que teria sido roubado de mim, já que nada me falta, que já não faltasse antes..."





Nexo 0


Hssssssssssss Sssssssshhh Hssssssssssss
He he he he, sua imunidade, meu caro Sinuhe … 
Sssssssshhh
Hssssssssssss Sssssssshhh