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segunda-feira, 13 de junho de 2011

NAS GARRAS DE UMA MENTIRA

3o. conto da Tetralogia da Crisálida, por Arthur Ferreira Jr.'. e Kinn

(Os personagens Aline Cortez originalmente criada por Arthur Ferreira Jr.'. e Lady Mizune no miniconto Ela Só Queria Dançar; Thiago Podestà e Vanessa originalmente criados por Neith War e Arthur Ferreira Jr.'. no conto Mistérios do Horizonte)

Nota: Embora este conto esteja entrelaçado com os eventos narrados nos contos A Crisálida e a Esfinge e Verdade Seja Dita, você não precisa necessariamente lê-los ANTES! Porém, os links estão aí como referência.



MAL COMEÇARA A MANHÃ EM CRISÁLIDA, e a fumaça já ascendia aos céus. Isto é comum em cidades grandes, especialmente quando essa fumaça é sinal do progresso eternamente em andamento, buscando fazer a cidade crescer nos atos de seus cidadãos. Mas hoje é um dia especial. Caminhões chegam em certos locais de entrega, vindos não se sabe de onde. E ninguém pergunta sua procedência, por que seria falta de etiqueta. E a etiqueta é algo muito importante na sociedade. Todos os grupos oficiais e extraoficiais da sociedade na cidade seguem-na rigidamente.

Dizem que mesmo os monstros e fantasmas – se você acredita neles – seguem essas regras não escritas, que todos conhecem. Não segui-las é atrair a atenção e chamar problemas, de um jeito ou de outro. Tanta rigidez exige compensações. E a cidade, ciente disso, oferece de tudo para satisfazer seus habitantes. Todo tipo de diversão e prazer, lícitos ou ilícitos, podem ser obtidos por um preço, de acordo com o bolso e gosto do freguês.

Gregor viu um desses caminhões chegar no galpão, enquanto se ocultava na ruma do beco, o tonel gerando calor durante a noite esgotava seu combustível. Gregor vivia nas ruas há muito tempo. Suas roupas esgarçadas, sujas, bem como sua barba cheia, mostravam toda sua decadência. A garrafa vazia ao seu lado completava a cena óbvia do imaginário do sem teto que era, mesmo que em seus sonhos, se visse com uma vida de luxo e nobreza de berço.

Aquele era um bairro violento. Mas Gregor sempre estava por lá, vivo, não sofrendo nenhuma das injúrias, nem desaparecendo como muita gente naquela região. Era sempre Gregor, o louco; Gregor Sansa, a barata da sociedade, que tinha ilusões de grandeza e riqueza; Gregor Spinovit, ou seja o sobrenome que ele inventava ter no dia. Igualmente variava a versão da forma teria tido a mão direita amputada. Combatendo piratas ou tentando obter tesouros em masmorras antigas, ele era a diversão dos transeuntes, especialmente mafiosos e bandidos da região. A única coisa que nunca mudava em suas histórias era o vilão, seu arqui-inimigo o Conde Sinuhe, que era responsável de alguma forma pela perda da mão do herói e fugia rindo malevolamente.

Hoje, havia chegado mercadoria nova e alguém teve a ideia de dar um presente para o mendigo mais divertido do bairro. Disseram a ele que ia tornar os sonhos dele realidade...

Ironicamente, não poderiam adivinhar quão perto da verdade estavam...





A CIDADE TEM UM RITMO DIFERENTE, pensou Nyarlathotep, o Esfinge Negra. Estou há tão pouco tempo aqui, e algo me diz que não vou permanecer muito tempo, mas consigo perceber a diferença. Há algo no ar... um pulsar, uma presença, um tanto distinta da presença que senti no ar desde que cheguei a Crisálida, e a nova presença está ao mesmo tempo se opondo e sendo abraçada pela cidade. Algumas pessoas de quem me alimentei parecem estranhas, e como vampiro de sangue, memórias, sentimentos... senti o gosto profundo e alterado em seus sangues, o experiência em suas memórias, o frenesi em suas emoções.

É uma droga. E bem diferente da cocaína, maconha e ecstasy que saboreei em algumas de minhas vítimas. Mas isto veio a calhar: vai apressar o meu plano. As marcas que estou deixando na cidade, as mortes, vão atrair a atenção desse outro vampiro que detecto à distância... e tenho o pressentimento que ainda mais rápido, se as mortes estiverem ligadas a essa droga.

Se há uma coisa que esse Sinuhe tem, é curiosidade.

Vamos ver se ele vai cair na armadilha do diário... hum, devaneios à parte, mais um drogado se aproxima, hora de deixar mais uma marca e deixar o bairro de Raven Lake ainda mais apavorante e sedutor...

“Amigão! Tem fogo?” Às vezes os clichês funcionam melhor que tudo, riu-se Esfinge Negra por dentro.

“Não tenho dinheiro, cara.” O sujeito, de óculos fundo de garrafa, barba por fazer e roupas comuns – camiseta, moletom e calça jeans – cheirava à nova droga. Ele apressou o passo, e nesse passo renovado o Esfinge percebeu que ele levantava os pés de forma mais similar a de um animal do que de um ser humano. Um certo pressentimento, um aviso de imprudência cruzou a mente do vampiro, mas a impressão de perseguir um animal selvagem atropelou o alarme de sua intuição, e tudo que Nyarlathotep quis, naquele momento, foi a sensação da caçada perigosa.

O Vulto Vulpino foi rápido e alcançou sua presa, segurando-a pelo pescoço – só que o rapaz se voltou quase tão ágil, vibrando um chute no estômago de seu perseguidor. Tendo se desvencilhado, deu dois passos para longe do Esfinge e – para espanto e excitação do vampiro – chiou como se fosse um gato, arqueando a postura, seus olhos brilhando na penumbra.

Nyarlathotep sorriu por dentro. Perfeito! Primeira vez que encontro um monstro tangível, de verdade, em Crisálida! E atacou, seus olhos azul-cobalto revelando-se tanto quanto os olhos licantrópicos de sua presa.

Jogo de ganha-ganha! Se ele se provar muito forte, eu fujo deixando a sacola com o diário para trás, e tenho certeza que assim cairá nas mãos do Bibliotecário! Se ele for fraco, mais uma refeição e eu deixo o diário no moletom do cadáver...




TRIM! TRIM!
TRIM! TRIM!

O aparelho não parava de tocar, até que a porta da rua abriu e chegou uma jovem cheia de compras. Ela olha para o lado e vê o dono da casa na mesa olhando uma pilha confusa de papéis.

“Não vai atender, Sinuhe?” perguntou a jovem, enquanto pousava as compras no chão.

“Não. Por que deveria?”

“Nós quase nunca recebemos ligações. Não está nem um pouco curioso em saber quem é?”

“Nem um pouco. Só uma pessoa usa esse aparelho infernal para nos incomodar. E sempre são notícias ruins. Desligue-o, por favor.”

Mas o aparelho continuava a tocar insistente. Quem estava do outro lado mostrava que não desistiria até conseguir ser atendido. A jovem, confusa, parou em frente ao aparelho, na dúvida entre obedecer a ordem e fazer seu mestre sofrer as consequências de desafiar a pessoa do outro lado da linha. Por fim, Sinuhe, vendo a consternação da jovem, se levantou e foi até o aparelho, enquanto disse para a jovem guardar as compras.

Ele observou o aparelho, incomodado tanto pelo barulho que fazia, quanto dissabor de ter de usar um instrumento tão esquisito para ele.

“Eu te odeio, Graham Bell.” disse antes de atender.

A ligação, ao contrário do parecia, não era mais um dos serviços sujos da organização para qual trabalhava. Era um comunicado para convidá-lo a uma festa na alta sociedade. Parecia uma noite de negócios onde uma novidade peculiar seria apresentada. Ele deveria vigiar uma presa: a jovem líder dos italianos e obter detalhes; se pudesse obter uma amostra ou a fórmula, melhor ainda. Informação e o controle dela eram as armas da Organização e os talentos dele seriam úteis nessa operação.

Algum tempo depois estava trajado de forma impecável para a solenidade. A jovem ajudava-o a completar seu bem vestir.

“Pronto, Sinuhe. Está muito bem vestido. Vai para uma festa e ainda assim, não parece de bom humor. Devia aproveitar e se divertir. Um lugar destes para alguém como você deveria ser uma oportunidade de ouro. Quase fico com ciúmes de saber que vai seduzir tantas garotas lá.”

“A festa não me interessa, Fumiko. A moça não me interessa. Nem estas presas que eles estão dizendo que estão cedendo para mim. Eu sei que há algo desagradável nisso tudo, senão aquele homem desprezível não teria me escolhido. Mas eu farei o que foi ordenado e depois que terminar, me esquecerei que este dia existiu.”

“Mas Sinuhe... você quer dizer que, mesmo vivendo para sempre, que vai esquecendo das coisas? Quer dizer que um dia vai me esquecer?”

Ele sorri e ela vê o fulgor de seus olhos verdes que um dia tanto fascinaram e a fizeram abandonar tudo.

“Eu escolho sempre esquecer tudo de ruim e lembrar das coisas boas. Eu sou muito criterioso na escolha de meus servos humanos. E nunca esqueci do tratamento de nenhum deles. É assim que eu sou e assim serei para sempre, enquanto minha vida, que é eterna, subsistir.”

Ele dá um ósculo na testa dela e sai. Sem notar que olhos sinistros não gostaram nada de sua declaração...





OLHOS SINISTROS E ONIPRESENTES OBSERVAVAM cada canto da cidade, porém mesmo um olhar tão ubíquo deixa de notar certas coisas; afinal, não estamos sempre ignorando coisas que acontecem no canto do olho? O que acontece se os cantos desses olhos sinistros estão – oh, não, olhos que são cada esquina de uma cidade que parece viva?”

“Esse sujeito era meio poeta, né, chefe?” Domenico Podestà se irritava um pouco a cada vez que ouvia um desses comentários clichês de Antonello, mas não tinha jeito. Um capanga extremamente fiel, mas um sujeito bronco e de personalidade monocromática. Bem, não se pode ter tudo, pensou Domenico, e com certeza eu prezo mais a fidelidade. Que ele deixe o refinamento para mim. Assim, nem se deu ao trabalho de responder ao braço direito, mas pulou logo para o assunto de interesse mais imediato da noite:

“Mande verificar o carro antes de sairmos. Não quero surpresas hoje, depois que explodiram o carro do Pasini, quero que seja rotina revistarmos o motor, o porta-malas... tudo. Aproveite e selecione um homem de confiança para estar do lado da mocinha...”

Antonello assentiu com um grunhido e foi resolver as demandas. Mocinha, Podestà mergulhava em pensamentos, com o diário na mão. Não devo mais chamá-la assim, pelo menos não na frente dos outros. É tão bom ser o homem por trás do trono, mas há de se ter atenção para não trair as verdadeiras hierarquias ocultas. Voltou os olhos para o pequeno caderno que segurava, e pensou também nas circunstâncias estranhas em que aquela – obra de arte, assim o mafioso a avaliava, digna talvez de ser vendida ao sr. Leonardi, se aquele comerciante de antiguidades e artigos estranhos, seu amigo de longa data, não tivesse de ter sido discretamente eliminado há quase dois anos antes, por motivos de que Domenico agora se arrependia – aquela peça de literatura, escrita numa caligrafia nervosa mas legível, havia lhe caído nas mãos.

Ainda não havia tido tempo de ler todo, mas o que havia pescado ao folhar o diário já garantia algum retorno do dinheiro do suborno. Propina paga à polícia para ignorar a morte esquisita de um dos usuários da nova droga que sua organização estava agora vendendo... o sujeito havia perdido quase metade do sangue, sabe-se lá como, porque não haviam feridas profundas... e num corolário, o cadáver havia se deformado de jeito quase animalesco. Era um corpo estranho, esquisito, Domenico avaliava. E não era o primeiro a morrer assim um tanto deformado – a princípio o mafioso ligou essas ocorrências a algum tipo bizarro de overdose, mas houveram outras overdoses sem essas reações alérgicas tão peculiares.

Por outro lado, as outras aberrações não haviam perdido metade do sangue ao morrer; nem largado consigo diários de valor literário elevado.

Era um enigma, como o do tal Esfinge Negra que matara gente pela cidade e a máfia não tinha noção de quem seria o assassino. Aliás, Domenico achou que vira a palavra esfinge no meio do texto no diário, mas preferiu verificar isso mais tarde. Já estava meio atrasado.

De qualquer forma, nenhuma das mortes ligadas ao Esfinge envolveu overdose ou deformidades. E estas mortes bizarras, sim, precisavam ficar longe dos tabloides. Domenico Podestà era um homem que primava pelo respeito à discrição. Ele pensava na Bíblia, que dizia que era necessário que houvessem escândalos, mas que, ai dos que provocassem escândalos. Domenico pensava que os mesmos escândalos de sempre, as mesmas mortes de sempre, não eram escândalos de verdade e ninguém sofria com isso. Especialmente ele ou sua organização.

Já aquelas mortes atrairiam uma atenção indesejada. Olhos sinistros e onipresentes, não é assim que diz este livrinho? Melhor me preparar para os olhos sinistros e mais mundanos da festa de logo mais. Pôs o diário no bolso do paletó – era de tamanho reduzido – e, levantando-se, foi para a garagem onde a escolta e o carro revistado já deviam estar lhe esperando.




A FESTA ERA NUMA COBERTURA FAMOSA DA CIDADE. Um dos inúmeros arranha-céus impressionantes que Crisálida gosta de ostentar, para tornar tangível a sensação de pequenez de seus habitantes diante de si. Uma célula social, onde os habitantes eram meras formigas passeando de um lado para o outro, em seu enorme aquário para o entretenimento alheio. E entretenimento era algo muito importante nesta cidade, onde todos precisavam manter as aparências com tanta força.

Assim sendo, Paloma Genaro, a herdeira do clã italiano acabava de chegar, atraindo olhares e atenção de todos com seu magnetismo natural. Por muitos já era considerada a líder da organização mafiosa da família, embora quem comanda de fato ainda não tenha morrido ou oficialmente se aposentado. Assim, a jovem prodígio aproveita seu status e poder inerente para fazer o que bem entende, seja isso constrangedor para sua vítima ou não. Ela adorava contrariar regras e levar todos os participantes de seus jogos ao limite perigoso da intervenção das leis não escritas da cidade.

Ela gostava do perigo. De inverter os papeis nos jogos sociais e deixar a todos desconcertados. Seus protetores tinham trabalho para cuidar dela. Na maioria das vezes o pior inimigo dela era ela mesma. Ela viu ao longe, quase ocultas nas sombras do salão, duas pessoas peculiares conversando. Ela sentiu a sensação de presa perante o caçador e percebeu que poderia se divertir muito esta noite, desafiando-o perigosamente a inverter os papeis. Ela era a filha de uma importante clã mafioso. Ninguém, nem mesmo um monstro predador, poderia ignorar isso, sem desafiar as leis. Como sempre, ela tentaria usar isso ao favor dela para manter o jogo ao seu favor. E se ela, a seduzida, mudasse e seduzisse o sedutor?

Os dois que conversavam tinham outra atenção na sua tensa, porém amigável, conversa. Irritação do lado de um dos interlocutores e sensação de ser traído, além do enfado habitual de eventos sociais como este. O outro era educado, porém rígido em seus avisos. Estes dois pertenciam às sombras da cidade, não existindo oficialmente, embora um deles tivesse uma fachada social plenamente estabelecida.

"Que significa isto, Dalton? Eu pensei que isto era um trabalho. Não imaginei nunca que você usaria de truques sujos comigo."

"Tenha calma, Sinuhe. Estou tão obrigado a participar deste evento quanto você. Minha posição da organização exige estar presente em eventos como esse e socializar com estas pessoas, por muitas das quais não tenho o menor interesse de interação, da mesma forma que você. E eu lhe disse para me chamar de Richard. Quando me chama pelo meu sobrenome, me lembra o que disse tempos atrás."

"Eu mantenho o que eu disse. Se trair minha confiança, eu terei provado que é impossível ter um amigo. Mas você se esforça bastante em cumprir sua parte do trato. Já que este evento não tem a ver comigo e nem é armação sua, o que é?"

"Existem duas coisas que serão tratadas nesta festa. Há uma nova droga na cidade e não sabemos nada sobre ela. Nossa organização não pode não saber nada sobre um assunto. Isto é um tabu."

"Eu sei."

"Ela está em posse dos italianos. Se você puder extraí-la da inconstante jovem líder deles, sua posição na Guilda irá subir vertiginosamente. Isto é em parte um presente meu, um teste e prova de confiança minha, para que a organização veja como um todo que você não deve estar alocado numa posição tão subalterna."

"Eu sabia que você tinha colocado seus dedos em alguma parte deste projeto, Richard. Mas aceito o favor. Se isso me livrar do contato do meu 'superior imediato' atual, eu perdoo sua tentativa de intervir no meu mundo de solidão. Eu lhe deveria outro favor..."

"Só peço que tome cuidado com sua abordagem, pois a menina é explosiva. Ela tentará fazer você trair nossas leis e as deles, criando o caos na cidade. Ela fará de tudo para conseguir isso de você. Suborno, ofertas generosas, promessas que nunca irá cumprir..."

"Hum... agora entendo porque me chamou. Me chamou não porque sou capaz de seduzi-la, mas porque sou imune às tentações dela. Você já sabe disso, então quer mostrar meu valor assim para o resto da organização..."

Sinuhe não teve tempo de concluir seus pensamentos. Paloma já havia se aproximado dos dois e tomado o vampiro para o centro do salão para uma valsa que começou a tocar com a ordem dela. Richard Dalton, presidente da Fraternidade das Sombras, não conseguiu avisar o seu amigo que Paloma Genaro não era uma qualquer. Sua missão seria um verdadeiro desafio e seu sucesso ou fracasso iria resultar em enormes mudanças na conjuntura urbana. Era a cidade se movendo e movendo seus tentáculos, pensava Dalton, enquanto se aproximava de Podestà.

A Fraternidade das Sombras era uma das redes mais bem informadas da cidade. E Dalton ouviu falar de um diário misterioso. Misterioso era uma palavra importante para seu grupo. Eles desejavam obter toda sorte de material misterioso. Mas ele ouviu falar um nome em especial citado no diário. Um nome que tornava imprescindível adquirir este objeto. Era o nome do Sinuhe citado nele. Ele não sabia o porquê disto – e haviam poucas coisas que Richard Dalton não sabia nesta cidade – mas ele iria descobrir com certeza.




ALINE CORTEZ É O SEU NOME?” O bate-estaca da boate era ensurdecedor, e Aline quase não conseguiu ouvir a pergunta, mas pelo menos conseguiu reconhecer o próprio nome e adivinhar o que o rapaz perguntava.

“É isso mesmo.” Não tinha muito ânimo de responder outra coisa, ela nem sabia direito porque estava ali, e também o barulho da boate não ajudava conversas elaboradas.

“Tá muito barulho aqui, né?” comentou o rapaz de fala macia. “Vamos
pra outra festa, lá a coisa é mais elegante, não tava a fim de entrar lá sem uma bela companhia como você.”

Aline remexeu nervosa um cacho solto e fitou pensativa o moço que havia sido lhe apresentado há menos de vinte minutos, por sua nova vizinha. Essa, por sinal, se acabava na pista de dança, completamente doida. Aline sabia que ela estava alta da nova droga, sensação da cidade, pílulas que traziam impulsos além de qualquer limite, e de fato sensações além de qualquer descrição. Pelo menos foram essas as palavras usadas pela vizinha, Vanessa. Aline havia resistido até aquela noite a experimentar a droga, embora a tentação fosse grande: há menos de dois meses havia completado 23 anos (apesar de aparentar pouco mais de dezoito), seu marido havia lhe pedido o divórcio, sua mãe havia morrido e surgira uma oportunidade de um emprego mais estável, embora mais puxado, na Cidade de Crisálida. E Crisálida parecia totalmente diferente de sua cidade natal, era uma outra vida, menos provinciana, ela se sentia ao mesmo tempo mais livre e correndo perigo, lá no fundo de sua mente. Todas estas mudanças faziam Aline se sentir perdida, em vários momentos do dia ou da noite.

Aquele era um desses momentos, e Aline Cortez aceitou o convite.

Seguiu o rapaz recém-apresentado até seu carro estacionado do lado de fora da boate. Ela sabia – tinha absoluta certeza – de que o moço também consumia a nova droga, e que lhe ofereceria uma ou mais pílulas. E também tinha absoluta certeza de que seria muito melhor experimentar a nova droga na companhia daquele rapaz sedutor, de fala macia e monocórdica, olhos verdes penetrantes e toque firme. Toque que ela sentia em suas pernas enquanto o carro acelerava.

Como ela esperava, o rapaz – chamava-se Tiago Podestà, um nome que Aline achou charmoso e exótico – ofereceu-lhe um punhado de pílulas. Belknap-14. Ou a Garra, era o nome que rastejava pelas ruas e ecoava pelas boates e inferninhos. Mas ao contrário do que ela esperava, ele não tomou a Avenida da Fundação e entrou por uma ladeira direto num dos bairros mal-afamados de Crisálida, Raven Lake.

Envolvendo as cinco pílulas na mão, Aline perguntou a Tiago, tentando esconder a apreensão, “Não era mais fácil chegar nessa tal festa pela Avenida da Fundação, se é mesmo onde você disse?”

“Não esquenta, gata. Eu soube de uma notícia quente, um mendigo saiu de Raven Lake matando gente. Deve estar agora na Fundação, pelo que ouvi, então é muito mais seguro e rápido passar por esse atalho aqui, onde ele não está mais, do que arriscar a sofrer uma blitz.” Enquanto explicava, as mãos de Tiago exploravam as coxas morenas de Aline, expostas pela minissaia. De alguma forma, aquele toque experiente fazia o argumento ter muito mais força.

As luzes piscantes e estroboscópicas da Crisálida deram lugares aos fachos mortiços de Raven Lake. O carro balançava com mais força, revelando o calçamento precário das ruas do bairro. Das janelas escancaradas vinha um vento que trazia não um cheiro de decadência, como Aline esperava – nunca havia passado por Raven Lake em sua curta estadia na cidade, mas tinha suas expectativas quanto a certos lugares famosos – e sim um odor antisséptico, de éter, como se o carro corresse dentro de um gigantesco hospital a céu aberto. Ou um laboratório. A mão áspera, mas delicada, de Tiago, subia mais em sua coxa, e antes que atingisse sua calcinha, Aline engoliu de vez as cinco pílulas.

Máximo de cinco pílulas, cinco pílulas, amiga! Mais que isso e é overdose na certa, mas esse número limite é que é mais gostoooooso! Aline Cortez quase podia ouvir a voz de Vanessa sussurrando em seus ouvidos, apesar da frase original ter sido berrada no apartamento da vizinha. Em pouco tempo a mão de Tiago alcançou sua calcinha, e Aline se sentia molhada – mas não era só de excitação, sentia água saindo de todos os seus poros, e além da mão do rapaz tocando sua virilha, sentia outros toques pelo corpo. Era como se um outro alguém estivesse ali, invisível, acariciando seu corpo.

Porém esses toques intangíveis eram como um rascar de unhas, praticamente garras maliciosas se insinuando por sua pele, inclusive por dentro da roupa. Uma fagulha de lucidez em Aline lhe disse que esses deviam ser os efeitos da droga, mas ela se surpreendeu com a rapidez. Tudo tão imediato e tão real. Ela praticamente poderia usar o termo ultrarrealidade para descrever aquilo. Parecia mais real do que o toque do seu acompanhante, e ela começou a gemer e arquejar, fazendo com que Tiago achasse que eram os seus toques que provocavam aquele prazer.

Infelizmente para ele, não dava mais para enrolar – ele não queria parar nas ruas mais estranhas de Raven Lake e já havia chegado no edifício chique do bairro elegante onde se dava a festa de seus parentes, ironicamente próximo demais do lúgubre cortiço disfarçado que era Raven Lake, cheio de casas abandonadas tomadas de indigentes. Mas ali não havia indigente algum – só alguns seguranças diante do prédio.

Tiago se deu ao luxo de tentar um amasso com sua nova conquista (era assim que ele a encarava, como uma presa) mas essa pegação não durou muito tempo: em menos de cinco minutos, a moça interrompeu os avanços do rapaz e abriu a porta, pulando vigorosa em direção à entrada do prédio.

Gosta de brincar de gato e rato, pensou o jovem Podestà. A noite promete... e ele tinha toda razão. As promessas que a noite sussurrava no ouvido de Aline seriam todas cumpridas em pouco tempo.




GREGOR SE SENTIA MAIS QUE TUDO NAQUELE DIA, PLENO! Realizado! Vivo! Finalmente podia gritar e berrar seu ódio contra quem decepou sua mão. Tinha a perfeita sensação de que sua mão crescia novamente e podia mover seus dedos como nas suas lembranças. A melhor parte era o mundo multicor onde caminhava agora. Onde ele era um rei, onde seu súditos aplaudiam quando ele perseguia o malévolo Conde Sinuhe e o matava.

Mas o Conde Sinuhe era muito ardiloso e Gregor tinha de matá-lo de novo e de novo. Uma parte de si mesmo lhe dizia que esse talvez não fosse o verdadeiro. Estava muito fácil, mas o prazer... a sensação doce em seus dedos, ao esmagá-lo. Isso Gregor não queria esquecer nem deixar de sentir.

A Garra era conhecida por realizar alterações em certos indivíduos, despertar a fera interior de certas pessoas alinhadas com seu propósito original. Mas o que acontece quando ela entra em contato com alguém que já foi mudado? Ela modifica-o na mesma medida em que ela é modificada de seu propósito original no ser dele.

E Gregor com certeza era diferente, mesmo que ninguém mais soubesse. Nem haveria de ser, afinal, sua mão fora decepada de fato por Sinuhe séculos atrás. Mas agora ele despertava de sua decadência e com seu corpo inflamado de excitação da droga e do prazer, se transformando numa máquina assassina! Virara um monstro. Alguns clamavam que o mendigo havia virado um demônio. Embora fosse um exagero, não estava muito longe da verdade que a droga havia despertado.

E ele iria farejar sua presa e realizar sua vingança. De preferência antes do efeito acabar.

***

Enquanto isso, na festa, a dupla bailava: Sinuhe e Paloma, rodopiando pelo salão de festas. Os dois, com um incrível magnetismo iam atraindo e apaixonando a suscetível audiência, mais e mais, levando-a a segui-los na contradança. Ela adorava a sensação. Já sentia os olhos esmeraldas do vampiro se esforçando para mesmerizá-la. E ela ria, dançando se perguntando quando o contrário surtiria efeito.

Por outro lado, Sinuhe se sentia estranho perto dela. Como sempre gostava de frisar, era um ser vazio, sempre necessitando preencher o seu ser, sem nunca ficar satisfeito. Um desgraçado, eternamente em busca de pequenos prazeres mesquinhos que o fizessem não se sentir solitário, mesmo que por alguns instantes. Essa jovem, Paloma, tão cheia de si, não percebia, mas vazava tanto de si mesma, que sua mera presença era capaz de acalentar e ocupar o buraco no coração dele, sem que ele precisasse tomar sua vida. Ele sentia o calor e o prazer que ela emitia.
Agora ele entendia o porquê do aviso de Dalton. E entendia o que ele podia fazer para vencê-la. Poderia mostrar a ela o vazio infinito de sua solidão e, desequilibrando a confiança dela, conseguiria a informação que mandaram buscar e, desta forma, obteria o respeito de seu pares – sem contar a segurança da negociação entre os grupos que sairiam em paz.

Ou poderia fazer o que sempre fez em situações de conflito onde tem a vantagem: não fazer nada. Deixaria que o prazer destas sensações tão efêmeras tomassem posse de seu ser. Sentiria o prazer e a paixão distantes, como eram desejos secretos do coração de Paloma, um desejo tão forte de ser amada, tão irracional, que fazia ela recusar-se a amar qualquer um que por ela se apaixonasse. Mas, a faria amar quem amasse esse jeito dela de ser, esta química explosiva, da atração proibida que nenhum dos grupos poderiam tolerar.

O resultado disso seria sangue, dissabor e vergonha para qualquer um dos dois. Mas não pareciam se importar. Paloma, exibindo seu prêmio; Sinuhe, vívido, seguia o fluxo, para desespero de alguns ali.

Dalton já sabia de antemão como seu amigo se comportaria. Mesmo querendo dar-lhe esta chance, já sabia que teria de negociar pessoalmente pelo que veio buscar na festa. "Com certeza, isso era armação da cidade, querendo realizar alguma de suas famosas façanhas de mudança em seus habitantes... mas quem?", ele se perguntava. Dalton queria ver para onde a cidade ia se mover, e estes diversos estranhos eventos pareciam mostrar que se tratava de algo grande. Ele decidira apostar alto e entrar no jogo dela, já que não parecia prudente desafiá-la, como seu amigo fazia.

Por isso mesmo, se aproximou de Domenico Podestà e declarou suas ofertas pelo que desejava - por um preço bem maior do que valia, o tão falado diário. Da mesma forma desejava, informações sobre a Belknap 14: produtor, origem, efeitos, fórmula, preço... Richard Dalton era conhecido sob muitas faces na cidade. Todas elas eram igualmente respeitadas, mas sua face sombria era a que mais intimidava as pessoas. Ele parecia saber dos segredos de todo mundo; ou parecia ter meios de descobri-los sem fazer esforço. Por isso, era tão perigoso recusar uma negociação com ele... especialmente se ele oferecesse pelo objeto em questão um valor maior do que qualquer um iria cobrar.
O enorme quebra cabeças que estava sendo montado, usava a cidade toda como palco. Por isso, mesmo Dalton, que era acostumado a jogá-lo, não conseguia ver sua extensão. Mas ele sabia que algumas peças estavam se mexendo nesse exato momento:

Aline acabara de entrar no salão. Seu corpo pulsava e suava num ritmo próprio. Paloma viu imediatamente nela uma rival em potencial e tratou de arrastar Sinuhe para a direção oposta, onde poderiam se desvencilhar de todos que iriam detê-los de sua aventura proibida.

***

Na Avenida Fundação, as pessoas em pânico corriam do monstro que chacinava pessoas a olhos vistos. Ele cantava e cantava algo ininteligível e parecia uma besta selvagem bípede e de cauda. Algumas pessoas acreditavam se tratar de um filme. Outros de um maluco fantasiado. Mas houve quem lembrou da lenda da cidade e disse que fora o espírito que habitava a fundação que havia voltado, cantando que a verdade iria ser mostrada para todos.

Olhos sinistros sorriam e preparavam seu movimento. Logo tudo estaria em seu devido lugar no tabuleiro. Todos os vetores estavam em ação. Aos jogadores, restava participar do jogo.




SEU NOME ERA THIAGO PODESTÀ E ESTAVA VICIADO na nova droga, a Garra, mesmo apesar dos conselhos, advertências e ordens expressas de seu pai, o figurão mafioso – na fachada da alta sociedade, um empresário e mecenas filantropo, quando mais jovem um marchand perito – Domenico Podestà. A família Podestà era uma das três principais famílias (no sentido estrito da palavra) influentes na máfia de origem italiana em Crisálida (e sim, haviam outras máfias: chinesa, russa, cubana e até o bando criminoso originário de um estranho país do Leste Europeu chamado Maelstronia). A cidade das mudanças era de fato uma enorme metrópole, cosmopolita e corrupta o suficiente para receber de braços abertos o novo influxo da sensação do momento.

Thiago sabia que não era muito adequado que ele consumisse o que seu pai distribuía (ainda que indiretamente), e só havia tomado uma única pílula da Garra, ao contrário de sua acompanhante, a cobiçada Aline Cortez, que já se sentia totalmente revirada por dentro.

Bastante cobiçada, pois logo Thiago percebeu que não era só ele que desejava Aline – logo ao entrar no grande salão de festas da cobertura, a mocinha atraiu olhares e interesses como se soltasse feromônios invisíveis no ar. Invisíveis e irresistíveis – embora poucos ali tivessem coragem de abordá-la, porque todos também sabiam de quem Thiago era filho.

Afinal, todos conheciam as regras do jogo.

Ou pelo menos pensavam assim. Infelizmente para a maioria das pessoas naquela festa (e na cidade), algumas regras são escritas em letras tão miúdas que só aqueles mais conhecedores – como Sinuhe, Richard Dalton e uma certa moça ruiva em outra cidade, que naquele exato momento contemplava a própria barriga, grávida, no espelho – acabam notando sua existência. Talvez algumas regras sejam tão disfarçadas que nem mesmo esses luminares notem. E às vezes, por capricho do destino ou manipulação da cidade que escrevia a maior parte das regras, algumas pessoas comuns descobriam essas regra ocultas.

Era o caso de Thiago. Ao entrar no salão, sentiu imediatamente o cheiro de medo e desejo que se entrelaçavam naquele covil de demônios bem-apessoados. Era uma sensação que nunca havia antes experimentado – a Garra muitas vezes lhe ampliava e iluminava os sentidos (embora ele achasse que estava apenas viajando de leve), mas não àquele ponto.

Aline parecia deslumbrada, ou melhor, fascinada pelas pessoas da festa – figurões de fora da cidade, ali para uma noite que mudaria suas vidas; atores e atrizes da badalada Companhia de Teatro Crisálida; novos-ricos que experimentavam a companhia das famílias que sempre foram enxergadas como a aristocracia. E é claro, algumas pessoas assumidamente perigosas – capangas dos Podestà e Genaro, os advogados a serviço da máfia, o rancoroso herdeiro da família Dalmácia, cujo pai havia sido assassinado pelo serial killer Esfinge Negra semanas antes. Pessoas também que eram perigosas embora poucos soubessem disso, como os magos da comitiva secreta da Fraternidade das Sombras, escoltando Richard Dalton em sua “missão diplomática”.

Por dentro, Aline sempre tivera atração pelo perigo, embora nunca houvesse admitido esse fato abertamente. Esse fascínio, elevado à quinta potência pelas cinco doses da Garra, vinha agora acompanhado de uma sensação certeira que apontava exatamente essas pessoas perigosas no meio da pequena multidão.

Em teoria, Thiago sentia a mesma coisa, embora num grau muito menor e por ele não ser predisposto à Garra como era o caso de Aline – detalhe que nenhum dos dois tinha a menor ideia. Exatamente uma dessas pessoas terríveis passou perto do balcão do bar onde Thiago havia se encostado junto com Aline. Ele sentia-se tonto e incapacitado, enquanto Aline sofria de uma agitação que mal era controlada, uma hiperatividade que aflorava à pele. Assim, quando a tal pessoa – Virgo, da comitiva de Dalton, um rapaz de olhar de poucos amigos, apesar da aparência frágil, vestido um blazer elegante – Aline não resistiu e foi abordá-lo, enquanto Thiago mal encontrou forças para impedi-la. A única coisa que fez foi pedir um copo d'água ao barman.

A valsa que Sinuhe e Paloma haviam dançado enquanto se estudavam mutuamente acabou, e a orquestra começou a tocar o Bolero de Ravel. Apesar de sua dedicação à Fraternidade das Sombras, onde servia como – era o nome oficial que Richard havia lhe dado – cartógrafo de sonhos, mapeando os padrões dos sonhos dos habitantes da cidade, Virgo não passava de um rapaz tímido quando se tratava de mulheres. Assim, não conseguiu recusar nem fazer qualquer comentário espirituoso quando a bela morena que se apresentou como Aline Cortez o tirou para dançar ao som da música cadenciada.

Como Paloma havia propositalmente afastado Sinuhe da moça que chamava tanto a atenção, essa mesma moça fez questão de chamar mais atenção ainda. De longe, Aline percebia a presença estranha do vampiro e o reconhecia como um predador – porém não se via como presa, pelo contrário. Sinuhe era-lhe um rival. A moça começou a arfar enquanto dançava mais ousadamente com Virgo, que apertava sua cintura com mais força quando sentia o rosnado – que interpretou como excitação libidinosa – de Aline pertinho do ouvido.

Dentro de si, Aline explodia e todos os seus pensamentos racionais eram submergidos por alguma coisa que se agitava dentro dela. Essa coisa assumia controle – não, controle é uma palavra muito sofisticada, diríamos melhor tomava posse dos membros e movimentos de Aline, que ia conduzindo a dança de forma selvagem, quase como uma dança ritualística e primal de acasalamento. Aquilo já estava começando a chamar de fato a atenção como algo estranho, fora do normal, e não apenas exótico e sedutor.

A pele de Aline estava totalmente suada, mas não encharcada, o suor porejava de modo sensual e seu cheiro parecia avassalador ao parceiro de dança. Virgo sentia-se embrigado de desejo por ela, tanto que permaneceu silencioso durante toda a dança... até que a moça, tendo conduzido a dança até a suntuosa parte aberta da cobertura, mais e mais perto da beirada – onde Paloma e Sinuhe conversavam aos sussurros – não conseguiu mais controlar o último impulso assassino que pouco a pouco a havia tomado, e expôs sua verdadeira forma.

Sua verdadeira forma, que ela jamais havia sequer conhecido, apenas pressentido, exposta pelo consumo Garra.

Cerca de três outras pessoas (incluindo o filho do falecido Dom Magno Dalmácia) viram essa forma se manifestar, mas a confusão toda ocorreu em questão de segundos, e quando pararam para prestar atenção, o pior já havia acontecido.

Virgo, mesmo um novato na Fraternidade das Sombras, tão tímido com as mulheres, era na verdade muito capaz e precavido. Tão precavido que nunca saía para um novo lugar, ou uma situação potencialmente perigosa, sem tecer toda uma trama de encantamentos sobre si – feitiços de proteção, meios mágicos de evitar um ataque, em especial o primeiro ataque de um inimigo, que se for desferido de surpresa pode matar.

O Bolero de Ravel encerrou de modo triunfante, e Aline Cortez exibia suas presas – uma fileira de dentes afiados e animalescos – enquanto seus olhos revelavam-se amarelados como os de uma loba, e os pelinhos de seus braços revelavam-se muito mais espessos e ficavam em pé, arrepiados como um gato no momento do bote. A orquestra, sem saber de nada do que acontecia, emendou com A Noite no Monte Calvo, do atormentado compositor Mussorgsky. E nos primeiros acordes, antes que Aline mordesse selvagemente o rosto de Virgo, sua presa mais próxima, o mago sentiu uma onda de energia em estado bruto subir por sua garganta, reagindo ao perigo. Embora assustado, ele aceitou a onda que queria se liberar, queria resguardá-lo da fera que o atacava – e a onda saiu-lhe dos lábios como uma única sílaba gutural, mal ouvida por Paloma e os outros circunstantes, mas percebida nitidamente por Aline e Sinuhe.

A palavra mística libertada tomou o controle da própria realidade, adestrou os braços de Virgo em milésimos de segundos para reagir ao ataque, e em vez de ser mordido pela lobisomem, o mago bloqueou a investida com um tapa – um gesto tão forte e ressonante que Aline Cortez foi lançada longe, ganindo, caindo exatamente sobre Sinuhe, que estava recostado na balustrada até então.

O impacto da mulher-fera caindo sobre o vampiro foi tão poderoso que os dois despencaram pelo peitoril, e de lá de baixo, um outro monstro muito mais perigoso que os dois percebeu que seu nêmesis, o Conde Sinuhe, caía do topo de seu palácio, estilhaçando os vitrais da torre e lutando na queda para se desvencilhar de uma mulher que Gregor, o Monstro, imaginou ser muito parecida com ele.

No topo do prédio, um grito feminino e a música da orquestra tocando como se tudo estivesse acontecendo conforme planejado.




DESCONEXÃO. ERA ISSO QUE SINUHE sentia. Apartado de Paloma, voltara a seu ser habitual: letárgico, apesar de enérgico. Sua existência vazia e odiosa, mas ainda assim, existência que buscava preservar enquanto fosse capaz. A criatura feral se recuperara do impacto que a arremessou em direção a ele e agora ela desejava combater seu rival, usando suas garras e presas, num combate épico, deslizando ambos em queda livre pela fachada vítrea do arranha-céu.

Mas agora o vampiro, desperto de seu torpor causado pela energia da vida mortal que o alimentava, sacava suas próprias garras para combater a fera descontrolada. Ele era ágil e administrar essa luta não seria problema. O problema real era lidar com o impacto da queda livre e a outra fera monstruosa que aguardava os dois no solo, que emanava tanto desejo de morte quanto os dois lutadores.

A noite, porém, era a vantagem dos vampiros, ainda mais de alguém associado a Fraternidade. Sinuhe calculou com precisão seu movimento, enquanto dominava Aline, e aproveitava a sombra gerada pelo monstro que fumegava, inflamado pelas próprias chamas, mergulhando de cabeça pelas sombras atrás de Gregor, trespassando a passagem entre mundos e planos.

Estavam agora em transição para outro lugar, o vampiro e a licantropsicodélica.

Para desespero do monstro Gregor, seu desafeto escapara. Um dia, ele teria sua vingança, ele tinha certeza.

* * *

Algum tempo depois, num prédio da Fraternidade, Dalton encontra seu amigo.

"Os membros da câmara de contenção me informaram do prêmio que você trouxe. A noite saiu melhor que o esperado. Você evitou um escândalo com a jovem líder da Cosa Nostra, evitou o alarde na festa e ainda nos arranjou um espécime para estudo. Os italianos contaram que conseguiram a Garra com um intermediário bastante esquivo e bom de negociação. Vendeu a eles um lote muito grande e depois sumiu. Enquanto continuamos no rastro dele, o estudo da jovem usuária – isso também confirmado pelos italianos, ela chegou com o filho de Don Podestà – servirá para nos revelar a natureza dessa droga. Daí teremos dados suficientes para rastrear o intermediário observando compras suspeitas de matéria prima. Bom trabalho."
"Foi pura sorte. Eu não planejei nada disto."

"Eu sei que não. Mas foi tudo tão bem orquestrado que só pode ter sido coisa da cidade."

"De novo com esses contos de fada?"

"Um vampiro que vem me falar disso..."

"Certo, não vou mais insistir no assunto. Há algo mais exigindo minha atenção? Do contrário, voltarei ao conforto de meu lar."

"Na verdade, há. Consegui um diário muito interessante. Seu nome é citado nele. Dê uma olhada. Vai despertar seu interesse, garanto."

"Meu nome? Está bem. Você conseguiu. Ainda não estou tomado pela fadiga, mesmo após o exercício. Isso me chamou a atenção mais que esses monstros - já soube que o outro sumiu, mas preferi aproveitar a sombra dele para evadir-me, do que ficar em desvantagem de enfrentar duas criaturas. Bom, irei verificar o conteúdo deste livrinho... na biblioteca, que é o meu lugar, não é?"

"Sim, é. Mas seu bom trabalho será recompensado. Aguarde e saberá. E Sinuhe...?"

"Sim?"

"Livre-se do cartão que Paloma lhe deu e esqueça que um dia a viu. Evitará problema para todos nós."

"Você não deixa passar nada, não é?"

"Esse é o meu trabalho."

* * *

Pouco tempo depois dali, tendo lido o diário, Sinuhe foi até o local onde enfrentou o Esfinge Negra e o venceu, fazendo mais uma captura para a Fraternidade Sombria para que trabalhava: Erishkigal, a forma presa na parede, que emanava uma onda umbrática num padrão bem peculiar.

Ambos vampiros como ele, Sinuhe, mas vampiros de alguma espécie diferente, jamais vista por ele. Ao chegar na janela do hotel por onde havia caído Esfinge Negra, Sinuhe meditou sobre a aparente fragilidade daquelas criaturas, comparadas a ele, e sobre as estranhas similaridades... não havia há pouco caído de um prédio, e esse assassino Esfinge Negra também fora atirado pela janela por uma magia descontrolada?

Se pelo menos o bibliotecário soubesse que aquela queda também havia permitido ao Esfinge Negra escapar pelas rachaduras entre os mundos, só que sem o corpo que havia lhe servido de hospedeiro... um tanto impressionado, na balustrada Sinuhe permitiu-se sentir um calafrio de antecipação, o primeiro de muitos séculos, e voltou os olhos do cadáver lá embaixo para a forma presa na parede suja.

Seria essa a peça final do grande quebra-cabeça que a cidade montara para realizar seu grande jogo obscuro? E agora ela movia seus tentáculos mais e mais para realizar sua obra-prima, agora que cada peça tinha se reunido no tabuleiro nas posições corretas.

Todos podiam sentir que algo grande estava para acontecer... só não podiam dizer o quê. E Sinuhe não sabia de onde vinha essa sensação, mas algo lhe dizia que passara séculos mentindo para si mesmo.




ERAM DUAS CIDADES.

Uma, cheia de vida, de uma inteligência maliciosa, exultante em provocar a mudança. A outra, vazia e burocrática, seus habitantes governados por uma sinarquia oculta.

Uma, uma entidade enganosa e mefítica, apreciando jogos e propondo desafios sutis. A outra, um receptáculo polido de magia e controle, abominando a mentira mas ocultando verdades essenciais.

Uma, metrópole e nexo de onde ninguém sai sem ter sido modificado de alguma forma, cidade onde todos do mundo sabem onde fica e admiram seus segredos e lendas. A outra, uma cidade provinciana, quase um subúrbio que adquiriu tamanha independência, que num dia está num local, noutro dia, em outra localização totalmente diversa.

SÃO DUAS CIDADES. MAS ESTA SITUAÇÃO NÃO DURARÁ MUITO.



domingo, 27 de fevereiro de 2011

LIBERTAÇÃO

Arthur Ferreira Jr.'.



How much deception can you take?
How many lies will you create?
How much longer until you break?
Your mind's about to fall
And they are breaking through
They are breaking through
They are breaking through
Now we're falling, we are losing control

Muse, MK-Ultra




O BURBURINHO VAI AUMENTANDO NA IGREJA, conforme eu vou me espremendo pela multidão. Muita gente vestida de terno e gravata, saias compridas, roupas de mangas e golas mais envergonhadas, até mesmo crianças vestidas desse modo, presas em sua ânsia de brincar naquele lugar sagrado. Já era meu costume usar gravata no dia a dia, apesar de ninguém jamais me ver assim durante a noite – a verdadeira noite, quero dizer, não essa que se sente lá fora, no sereno úmido e na lua redonda. Súbito, o alvoroço da multidão cessa, e ouço retumbar nos alto-falantes uma bateção nervosa feita com os dedos, aquele praxe para checar o áudio e ao mesmo tempo avisar aos devotos que o pastor começará seu sermão. E aquela voz. Vibrante, impetuosa, quase furiosa: “IRMÃOS!”

        E nesse momento, eu sei, com toda certeza e verdade: estou na Igreja da Libertação de Deus.

        O pastor começa a vociferar aleluias e prometer dádivas divinas aos fiéis, castigo aos impuros e, mais importante, a libertação aos aflitos. Contrariando o que eu em parte esperava – já havia estado em algumas igrejas evangélicas, embora, ao entrar ali, eu já soubesse que não se tratava exatamente uma igreja normal de crentes – o pregador não pediu dízimos nem ofertas, não exaltou a necessidade da Igreja de ser sustentada pelos frequentadores, nem ordenou a passagem de saquinho de doações, nem mesmo usou de expedientes visíveis para forçar a culpa na garganta dos presentes, que poderiam se sentir mal se não contribuíssem. Se eu esperasse um local normal de pregação, estranharia também a falta de culpa nas noções do pastor, já que, embora eles raramente falem essa palavra (lidar com a palavra culpa é algo largado mais na mão dos católicos), a culpa seja algo de que a maioria desses cristãos buscam se livrar – mas que sempre os perseguem. O pastor não falou de culpa, nem pediu dinheiro. Não fez nada disso, e pareceu aproveitar o tempo que essa omissão lhe dava para exemplificar a libertação dos angustiados: chamou a primeira pessoa a ser liberta.




VAMOS RETORNAR ALGUNS MESES. Minha filha ainda estava viva. Cátia era uma garota esperta, cheia de vida, como canta o clichê. Uma moça que eu gostava de acreditar ser inocente (não no sentido de virgindade, mas sim de pureza de caráter, de ideias), de andar nos trilhos da normalidade. Algo lá no fundo me alertava que essa e outras crenças que eu mantinha não passavam de ilusões. Como sempre, não prestei a atenção a essa sensação, até que fosse muito tarde.

        Catuxa (era o apelido que minha mulher lhe dera) começou a sair muito à noite, e voltava estranha, seu comportamento alterado. Discutia com a mãe, me xingava, e depois se trancava no quarto. Eu e minha esposa discutimos sobre a possibilidade da menina estar consumindo drogas. Pois bem, estávamos certos, mas aquilo era só a ponta do iceberg, estávamos apenas … arranhando a carne da verdade.


   

FUI ARRANCADO DO DEVANEIO pelo berro da moça no tablado onde o pastor se movimentava, microfone em punho. Ela chorava, dizia sentir algo dentro de si que a atormentava dia e noite, queixava-se de dores, calafrios, e culpava o diabo. O pastor a agarrou pelos braços, deu cinco sacudidelas bem fortes, gritando nomes estrambóticos, que meses atrás me pareceriam ridículos. Eram palavras arrastadas, diria mesmo guturais, mais surpreendentes e assustadoras que o costumeiro espetáculo do religioso manifestando o pretenso dom de línguas.

        Nada daquilo parecia forjado – pelo contrário, a sensação de verdade, de autenticidade, permeava o ambiente. Não havia nada de hipócrita no comportamento do pastor, e eu tinha total certeza disso. Nos últimos tempos, eu desenvolvera um bom juízo de caráter, estando completamente certo de que aquele homem – chamava-se Pastor Neemias – acreditava piamente em tudo que fazia. Mesmo um tanto chocado com a violência do ritual e com as vociferações de Neemias, o estranho era que eu simpatizava com ele.

        Mas não com a moça escorrendo baba e convulsionando diante do pastor; ela merecia morrer.




A MOÇA SE PARECIA MUITO com minha filha Cátia. Olhos amendoados, grandes, pele bronzeada, cabelos lisos de índia, os contornos jovens de seu corpo tornados evidentes pela roupa um tanto apertada. Minha filha, tão esperta e cheia de vida. Minha filha, escorrendo baba e convulsionando diante de mim, há cinco meses atrás.

        Eu não sabia bem o que fazer. Era uma overdose. Ela não chegara em casa muito bem, trocando pernas, dizendo que enxergava coisas pela casa, reclamava do cheiro forte do lixo que ainda não fora trocado … trancou-se no quarto depois de um breve escândalo, coisa a que já estávamos acostumados.

        O que não estávamos acostumados era ao silêncio que se formou na casa, com ela dentro do quarto: normalmente, ela colocaria o som a altos brados, ou então resmungaria coisas estranhas que eram ouvidas no corredor. Forcei a porta, agoniado, e lá estava ela, num estado muito parecido com o da moça sendo curada pelo pastor …




O PASTOR SACUDIA OS BRAÇOS da moça, e num momento julguei enxergar que as unhas do pastor haviam se tornado garras afiadas, e rasgado a carne da menina convulsa. Mas essa impressão não durou menos de quatro segundos; talvez tenha mesmo acontecido.

        A moça praticamente desmaiou e foi retirada do palanque por um assistente. Quando passou perto de mim, carregada, eu enxerguei uma marca – praticamente um desenho – um arranhão profundo em seu braço, e ao vê-lo a sensação de que a moça deveria morrer aumentou.

        Essas ideias estranhas, esses impulsos mórbidos e imperativos, me perseguiram nos últimos meses. Não sei mais o que fazer, e vim aqui na igreja buscar alívio. Será que vim ao lugar certo?




CÁTIA ESTAVA INTERNADA num hospital, recuperando-se da overdose da qual sobreviveu. Foi nessa época que ouvi falar pela primeira vez da Igreja da Libertação de Deus, pela boca de uma prima.

        Ela falava dos milagres realizados pelos Pastores Simão e Neemias, que traziam alívio a endemoniados e viciados. E haviam vários viciados naquela comunidade onde ficava a sede da igreja. Os pastores chegaram até a atrair a atenção dos traficantes da região, mas depois de uma conversa a sós – assim corria o boato – o “dono” do morro deixou de interferir com a Igreja. Talvez tenha notado que essas “curas” não afetavam seu comércio; na verdade, um número cada vez maior de consumidores surgia, e as curas também aumentavam.

        Essa última opinião, cheirando a teoria da conspiração, emitida pelo sogro de meu vizinho, não era ouvida nem considerada pelos simpatizantes e defensores da Igreja da Libertação. Meu vizinho mesmo dizia que, no mínimo, a Igreja deveria ter algum valor ou caráter, porque não via as explorações que enxergava em outras igrejas do mesmo gênero. O sogro, seu Raimundo, argumentava que nem toda igreja evangélica explorava, que a Igreja da Libertação de Deus nem mesmo era evangélica de verdade, e que achava que as pessoas que iam lá sofriam uma lavagem cerebral.

        Só essa palavrinha desmoronava todo o crédito que eu poderia dar a seu Raimundo. Todos caíam na gargalhada, na rodinha de cerveja em frente ao botequim onde eu me reunia com os amigos, e a coisa ficava por aí, seu Raimundo envergonhado e seu genro acabava balançando a cabeça numa ironia muda, virava mais um copo e todos o imitavam, e o assunto mudava para outro qualquer.

        Eu estava frequentando demais aquele botequim, porque o problema de minha filha me angustiava sobremaneira. Os amigos já evitavam tocar nessa questão, e pouco a pouco eu já ia lá sem os amigos – afogava as mágoas na cachaça, sozinho, em plena madrugada, quando a insônia e os pensamentos recorrentes não me deixavam dormir.

        Uma culpa, principalmente, não me deixava dormir. Aquilo só podia ser culpa minha, porque minha mulher era tão cuidadosa, e eu, tão distraído. Eu deveria ter sido o pulso firme dentro da casa, ser mais homem, mais pai de família, enfim. Eu estava com quarenta e um anos, mas me sentia uma criança diante daquilo tudo, isso sim.

        Queria me livrar da culpa; me libertar.




O PASTOR NEEMIAS SE RETIROU do palanque e era a vez do Pastor Simão falar. A voz de Simão era bem mais suave, mais melíflua, quase tentadora. O pastor se enchia de piedade pelos escravos do mundo, dizia. Satanás tinha este mundo preso em suas garras, repetia pela terceira vez. “Irmão,” continuava o pastor de traços magros e tez pálida, olhos muito vívidos mirando a congregação, “sim, estou falando com você que veio hoje pela primeira vez. Não sei quem você é, mas não está mais sozinho. Porque o diabo – o diabo … – o diabo o tinha em suas garras e o afastava do caminho certo, mas você conseguiu fugir dele. Está aqui agora como os outros pintinhos, aninhados pelas asas da galinha, salmo 91, versículo 4. Ficai conosco, irmão! Essa angústia que sentires a será exterminada pela espada do anjo vingador!”

        Quando se empolgava, Pastor Simão misturava os tempos verbais e as citações bíblicas, mas ninguém ali estava ligando para isso – só a possibilidade, o aceno da libertação importava. Na verdade, ninguém se importava com a espada do anjo vingador, por mais próxima que ela na verdade estivesse …

        O que eles queriam era o êxtase, a glória do Senhor, e isso, ou algum sucedâneo ainda mais viciante que o sentido em outras igrejas, era o que Simão ia lhes dar. Depois de algum tempo falando, e se enrolando, Pastor Simão começava a jorrar bênçãos sobre a assistência, falando em línguas sussurrantes, quase orientais e pseudo-semíticas, um sussurro híbrido, tão alto que era ouvido de um canto a outro da igreja.

        Eu não me refiro só à amplificação do alto-falante. Havia algo naqueles sibilos que preenchia a sala, hipnotizava, e as pessoas começavam a também gritar em línguas, dançar frenéticas, rodopiar, pôr as mãos nas cabeças umas das outras, em nome do Senhor … a princípio não parecia nada muito diferente do que eu poderia presenciar em outros lugares assim, mas se numa outra ocasião eu ria daquilo tudo, agora me sentia tocado. A glória me invadia, e queria expulsar a angústia em meu coração.
   
        Não era só isso que era diferente de outras igrejas – enquanto eu dançava ritmado em meio ao povo, vi várias pessoas se beijando compulsivamente, e pessoas que eu pensava que eram estranhas umas às outras. Outras pessoas não eram tão estranhas assim – logo percebi, quando vi duas irmãs se beijando num abraço nada fraterno.

        Mas era a glória de Deus, a libertação de Deus. Nada de culpa, nada que me faria lembrar de minha filha … oh, não, mas uma das duas irmãs se parecia tanto que aquela amiga de Cátia que me procurou um dia …



CHAMAVA-SE VANESSA. Lábios finos, um sorriso tímido, cabelos cacheados e castanhos, pálida, baixinha e de óculos, mas muito graciosa. Atenciosa. Depois de um tempo ela largou os óculos e passou a usar lentes de contato de cores estranhas. Às vezes essas lentes brilhavam no escuro, era o que eu percebia quando ela vinha pedir notícias de minha filha, vinda da rua em sua iluminação defeituosa. Parecia estar se vestindo do mesmo jeito que minha filha, mas seu comportamento não era tão preocupante.

        Eu me preocupava mais com essas vindas quase à meia-noite, o bairro estava se tornando perigoso naquelas noites, talvez fosse a proximidade da favela, mas por outro lado, aqueles assassinatos que apareciam nos noticiários não pareciam coisa dos traficantes. Os especialistas no jornal diziam ser latrocínios perpetrados por alguma gangue, e não queima de arquivo ou coisa do tipo.

        A última vez que vi Vanessa não havia muito escuro lá fora, porque a lua estava bem cheia no céu. Dava para enxergar um halo bem forte ao redor do satélite, suas cores estavam quase psicodélicas, quando as formas e o rosto da menina ficaram visíveis diante da janela do segundo andar – eu estava arrumando meu armário e quase tomei um susto quando ouvi o “psiu” da amiga de minha filha.

        “Vanessa! Que diabo é que está fazendo aí na árvore?”

        “Tio,” falou a mocinha a coisa de um metro de distância, “o senhor precisa me ajudar. Deixa eu entrar, escancara a janela pra mim.”

        Minha mulher tinha saído naquela noite, visitando uma amiga. Foi uma coisa que de imediato me causou vergonha, mas estar daquele jeito com uma jovem assim, ainda mais amiga da minha filha, me excitou um pouco. Abri a janela.

        O que se seguiu foi estranho.

        Ela pulou da árvore para dentro do quarto e caiu perfeitamente em pé, a cinco centímetros de mim; seus olhos brilhavam e aquela minha excitação que havia sido tingida de vergonha, se converteu em medo do desconhecido … até que percebi que os olhos brilhavam pela incidência da luz da lua sobre suas lágrimas: ela estivera chorando!

        “Tio, ela está morrendo … e eu não pude fazer nada pra evitar!” Desesperada (assim parecia), me abraçou com força. Não tive jeito de reagir ou de a recusar.

        A pele dela era quente, o abraço, forte. Mais forte do que deveria ser o abraço de uma menina daquele tamanho. E ela parecia tão cheia de vida … a minha excitação voltou, superando a pena e a confusão. E ela reagiu, rápida, à minha excitação. Já estava agarrando meu torso, o apertou com mais força e me beijou na boca.

        Sua saliva era quente e de um gosto bem mais forte do que qualquer boca que já beijei; sua carne, deliciosa ao toque e seu cheiro de mulher, que ficava mais forte, avassalador. Eu poderia me perder naquelas sensações. Mas algo me ocorreu e segurei-lhe os braços, impedindo que aquilo continuasse: “Que é isso? E quem está morrendo, Vanessa?”

        “Cátia. Me perdoe … eu … eu fiz besteira ...” mas balançou a cabeça como se estivesse dizendo bobagens, e consertou: “quer dizer, eu acho que ela está muito mal, eu sonhei com isso.”

        “Não quer dizer nada. Ela está no hospital, e bem. Senão eu teria sido avisado. E, Vanessa …”

        “Mas eu não suporto. E será que fiz errado em passar aqui? Preciso de apoio. E também, não consigo me concentrar com …” interrompeu o próprio discurso de novo. “Me traz um copo d'água? Não tou muito bem.”

        Assenti, meio aliviado de ter alguns instantes para avaliar a situação, enquanto descia para pegar a água. “Traga dois copos!” gritou ela do quarto enquanto eu descia as escadas.

        Peguei logo uma jarra e subi de volta, rápido; nem consegui, também, me concentrar no que estava de fato acontecendo. Era como se eu fosse um hiperativo.

        “Minha família é espírita,” ela foi explicando assim que entrei de volta no quarto, “e eles dizem que beber água fluidificada faz bem quando a gente está assim, abalada. Então vamos nos concentrar um pouquinho, eu não quero rezar, nem sei rezar direito, dizem que a água se energiza e se bebemos, faz bem, acalma, sei lá.”

        Achava aquilo uma tolice, mas concordei por talvez poder acalmá-la. Por outro lado, a situação era meio … broxante, para usar a palavra exata. Eu havia estado extremamente excitado poucos minutos atrás e agora ia “fluidificar” água junto com aquela garota.

        Ficamos um tempo parados, sentados no chão do quarto, a luz da lua caindo sobre o aposento mergulhado em penumbra. Até fechei os olhos, entrando na onda dela, para melhor me “concentrar”. Logo depois que fiz isso, ela disse, “Vamos beber, então.”

        Tomei a bebida a goles sôfregos, queria acabar logo com aquilo. Ela também bebeu o copo dela bem rápido, e não contou conversa, me agarrando de novo. Ela não saiba o que queria, afinal de contas!


        Nos abraçamos e ela ficou por cima de mim, ávida, feroz. Acabamos tirando a roupa e começamos a fazer sexo ali mesmo, no chão. Parecia tudo muito bem (eu havia esquecido completamente a existência de minha mulher e de minha filha hospitalada), o cheiro dela invadia todo o quarto, era como se fosse uma nuvem invisível me afetando, me atiçando … até que ela começou a se empolgar demais.

        Os dois sentados um diante do outro, as pernas em tesoura na penetração, ela arranhava minhas costas com uma força além de qualquer outra mulher que havia me arranhado antes. Era dolorido e as unhas pareciam mais garras que outra coisa. Além disso, eu estava começando a me sentir esquisito: me mexia dentro dela com uma velocidade anormal, como se fosse um animal selvagem, e minha vista começava a … borbulhar na minha frente, distorcendo o que eu enxergava. Os cheiros começavam a ficar mais fortes, além do cheiro dela, eu sentia o cheiro de madeira da chuva da tarde, que havia subido pelas casas há várias horas; o cheiro do perfume de minha mulher, que estava bem longe dela, mas ficou parada pondo perfume na porta do meu quarto, enquanto conversava comigo, umas duas horas antes; o cheiro de comida vindo da geladeira fechada. O cheiro da luz da lua entrando no quarto. O cheiro de minha mente estalando, o cheiro da fome de Vanessa.

        Ela me derrubou no chão, grunhindo: “Sente o sangue ferver? Sente tudo mais forte? MAIS VIVO?” Suas formas pareciam animalescas, diante de mim. O que eu enxergava era uma mulher e um bicho ao mesmo tempo, sua vagina era quente e apertada, apertava demais, ela tinha escamas por todo o corpo e seus olhos brilhavam com uma luz muito amarela, vívida. A língua (parecia bífida) vibrava para fora da boca, que se escancarava ao gritar, gemer, num ângulo impossível para uma mandíbula humana; como se ela fosse uma cobra prestes a engolir um touro.

        E eu me sentia sendo engolido.

        Logo, isso se provou literal. Ela avançou sobre meu ombro, me segurando com toda força, e eu não conseguia reagir, ainda preso sob ela e entre suas pernas. Me sentia como se estivesse drogado. E ela me mordeu o ombro; não só mordeu, mastigou e arrancou pedaços do meu ombro. Senti-me devorado vivo e desfaleci de dor, não sem antes as alucinações piorarem e eu enxergar Vanessa tornando-se uma serpente gigante, enroscando-se em volta de meu corpo, me estrangulando …

        Acordei no chão, com uma dor de cabeça incrível. Já era de manhã e a luz do sol entrava, iluminando tudo de modo tênue. A porta do quarto estava fechada e dava para enxergar a chave virada nela, deixando-a trancada. Droga, a minha mulher … onde será que ela havia dormido?

        Com a cabeça rodando, examinei meu corpo e vi que havia, sim, uma marca no ombro – mas podia ser muito bem uma marca de uma queda, eu poderia ter caído da cama … parecia uma mordida, e ao mesmo tempo não parecia. O ferimento ardia e eu sentia quase como se ele estivesse se fechando.




ME PEGUEI BEIJANDO A MOÇA que parecia Vanessa. Bom, agora eu não tinha satisfações para dar à minha mulher: ela havia me deixado, depois da morte de Cátia. Sim, porque Cátia havia, sim, morrido no hospital naquela mesma noite; e minha esposa havia esmurrado a porta do nosso quarto, tentando me avisar, mas eu juro que não ouvi nada, naquele sonho estranho com Vanessa.

        O salão havia se convertido em uma quase orgia. Ainda bem que a igreja não era do tipo de portas abertas, aceitando os fiéis ou curiosos que passam pela rua. Não, a igreja – aquela filial da igreja – ficava num antigo cinema, mas a assembleia acontecia mais para dentro, na sala de cinema propriamente dita. Não vi cenas de sexo propriamente dito, mas era tudo como uma bacanália, em vez de bacanal: uma celebração dionisíaca, vários cantavam hinos em meio à liberação.

        Então, de maneira quase orquestrada, simultânea, todos começaram a louvar a Deus num hino, pulando e erguendo os braços. O pastor Neemias reapareceu no palco e voltou a bradar em línguas … só que, desta vez – e eu já estava bastante alto, como se estivesse alcoolizado, e olha que fazia uns dois dias que não bebia – “entendi” o que ele gritava, era também um hino, mais ou menos assim (aquelas palavras ficaram gravadas a fogo em minha mente, e era só em minha própria mente que as compreendia):

        Ave, Senhor Tsathoggua, Pai da Noite!
        Glória, ó Antigo, Primogênito da Entidade Exterior!
        Salve, Aquele Que Já Era Antigo Além do Imemorável
        Quando as Estrelas Geraram o Grande Cthulhu!
        Todo Poder ao Rastejante Ancestral, sobre os lugares podres de Mu!
        Iä! Iä! G'noth-ykagga-ha!
        Iä, Iä, Tsathoggua!



        Depois que pronunciou aquelas frases (algumas das palavras eram percebidas como pura insensatez, como esse “Tsathoggua”), os fiéis foram se dispersando em fileiras mais ou menos organizadas, saindo do salão de assembleia e dirigindo-se às saídas; mas nem todos.

        Fiquei meio sem jeito com tudo aquilo (sei que andava mal da cabeça e do coração, nos últimos tempos, mas aquilo superava muito, em estranheza, o que eu esperava) e já ia dando mostras de também ir embora, sem chegar a falar de fato com ninguém, quando senti uma mão no meu ombro.



        Era o Pastor Simão.

        Ele tinha um pouco de mau hálito, disfarçado pelo uso de balas de canela (dava para perceber com nitidez). “Você parece não pertencer ao rebanho, irmão” disse o pastor.

        “É a primeira vez que venho aqui, e …”

        Ele riu. “Não era disso que eu estava falando.” Seus olhos brilhavam, intensos, meio que me sondando. Ficou alguns segundos esperando que eu disse algo, talvez, e completou: “O Pastor Neemias quer falar com você.”

        Como assim? Não estava entendendo nada, será que alguém do bar falara dos problemas com esse pastor? Só fiz assentir e Neemias fez um gesto para que o seguisse. No meio do caminho, algumas pessoas desativavam os aparelhos de som, enquanto outras, bem menos numerosas, se encaminhavam para a parte ainda mais interna da igreja.

        E foi para lá que nos dirigimos. Chegando numa sala mais ou menos ampla, embora bem menor que o salão, cheia de cadeiras e (o que era estranho para uma igreja) divãs, ou sofás de reclinar, parecidos com aqueles dos filmes romanos. Havia ali também uma espécie de púlpito.

        E, recostado sobre ele, de jeito quase displicente, o Pastor Neemias, cofiando a barba grisalha. Era um homem robusto, apesar da idade talvez já acima da casa dos cinquenta.

        “De onde veio, você, irmão?” perguntou ele, ríspido, entrando em choque com a simpatia que senti por ele, que viera ali quase disposto a contar tudo dos últimos meses, como se ali fosse um confessionário católico. Da morte da minha filha, dos sonhos estranhos, das ideias despropositadas, da fim do meu casamento, do sumiço de Vanessa. Talvez eu viera no lugar errado. Talvez não.

        “Me recomendaram esta igreja, eu ando meio angustiado, e …”

        “Corta essa conversa de crente. Dá pra sentir o seu cheiro, você achava que não?” Despegou-se do púlpito e veio avançando na minha direção.

        “Do que é que você está falando?” Apreensivo, olhei para os lados: eu, os dois pastores e mais umas três pessoas, incluindo aí duas mulheres. Vestidos do jeito padrão para um grupo de crentes, mas com uma postura corporal totalmente distinta. Diabos, um deles parecia estar mostrando os dentes para mim!


        Aquilo, mais Neemias se aproximando como se fosse fazer círculos ao meu redor, me despertou uma espécie de reação automática. Minha postura ficou um pouco mais curvada, os membros, tensos, pronto para responder com violência, se fosse necessário.

        “Isso aqui é nosso território,” sussurrou estranhamente aquele que se dizia Pastor Simão. “Não acha que fez mal ir entrando sem ter avisado antes?”

        “Não faço ideia do que estão falando,” repeti. “Para mim, isto aqui era apenas uma igreja … normal.” Esta última palavra demorou um pouco para sair; eu mesmo sabia que estava mentindo, nunca ouvira falar da Igreja da Libertação de Deus como igual às outras. Apesar de nunca ter me chegado notícia de orgias, antes.

        A cara que Neemias fazia era de raiva e confusão. E eu, se não estava totalmente assustado, estava muito apreensivo. “Que é isso de território?” perguntei, dando um passo em direção à porta por onde havia entrado.

        Mas fui impedido de me movimentar com mais liberdade, porque o homem que mostrava os dentes para mim, nos cantos da sala, avançou também e cortou minha saída. Talvez tivesse agido contra mim, se uma das mulheres não segurasse seu pulso, vindo rápida na direção dele, e falasse alto, para todos:

        “Esperem! Ele pode ser um apagado … um novato que não sabe o que é. A Garra anda provocando muitos desses, ouvi dizer.”

        “Mas o cheiro dele é diferente,” interrompeu Simão. “Tem alguma coisa diferente nele, é como se fosse um licantropo há anos!” Licantropo? Aquela palavra estranha me deixou mais confuso, onde já a houvia encontrado …?

        “Não importa” falou o homem de dentes expostos – o cheiro dele também era forte, como de um cachorro que não tomava banho; olhando também para a mulher que havia intercedido, percebi que ela tinha um cheiro insinuante e forte, e que, na verdade, a linguagem corporal de todos eles se parecia com a de animais. “Se é um novato, vai ter que se submeter a nós.”

        Submeter? Eu começava a ficar ainda mais nervoso.

        “Calma,” interveio Neemias, agora um pouco menos tenso. “Vamos lá, irmão. Faça o que veio fazer aqui, ou o que disse que veio fazer aqui. Conte seus problemas.”

        Os outros relaxaram um pouco a postura de alarma, era como se Neemias fosse o chefe deles, incondicional. Então desabafei, contei tudo que esperava contar, dos sonhos, da minha filha, de Vanessa (esquisito que quando mencionei esse nome e o incidente, alguns deles ergueram as sobrancelhas), das alucinações … nesse ponto, perguntei, “Quem é Tsathoggua?”

        “Ah, irmão!” reagiu Neemias. “Então você é digno de saber a verdade do nome de nossa igreja. É um duplo sentido, sabe … a Libertação é a Libertação de Deus, você veio aqui se libertar do próprio Deus, porque o Deus que aqui cultuamos não é esse deus fraco que se faz de forte, que os homens conhecem mal e por medo, o procuram; veneramos um deus como nós. Como eu e você. Ele é um guia, Tsathoggua. Um ser amorfo, divino, como você e eu.”

        “Como eu e você?!?”

        “Sim, mas acho que uma imagem vale mais que mil palavras. Chegue aqui, vamos até o porão. Vai ter que confiar em mim, e sabe que não tem muita escolha. Mas não te desejo mal, e você sabe disso, também. Não é?” De novo, aquela aura de simpatia e confiança, mesmo no meio de estranhas conversas e algaravias em línguas desconhecidas.



        DESCEMOS AS ESCADAS SUJAS que se escondiam atrás de uma porta discreta. Eu ia ao lado de Neemias, enquanto Simão e os outros (que disseram se chamar Teodoro, Liziane e Marluce) vinham logo atrás. Por um instante pensei que ia encontrar um tipo de calabouço iluminado por tochas, ou então um local ritualizado, cheio de velas, mas não era nada disso; no caminho alguém apertou uma tecla e luzes fluorescentes encheram o pavimento inferior. Foi então, ainda no alto da escada, que a vi.

        Aquela coisa. O cheiro dela era ainda mais forte que o dos outros, extremamente familiar e ao mesmo tempo surpreendente. Uma mulher (via-se pelo contorno dos seios, de bicos muito pontudos, e pelos quadris arredondados) coberta de escamas muito grossas, negras … e a cabeça era totalmente ofídia, com um capelo de naja, no lugar dos cabelos. Ela estava nua, acorrentada a uma das paredes daquele … deveria chamar de dormitório? Estava cheio de camas de campanha.

        Ao nos ver, o monstro começou a se debater e berrar. “A porta lá em cima está bem fechada?” perguntou Simão a uma das mulheres, que assentiu afirmativa.

        “O … o que é isso? Será que estou sonhando, de novo?”

        Neemias foi me empurrando pelas escadas e falou, na voz uma seriedade forçada contrastando com o rosto alegre e excitado: “Não a reconhece? É ela. Aquela que matou sua filha.”

        “Matou minha filha, como assim? Minha filha morreu de infecção hospitalar!”

        “Não exatamente. Sua filha só estava naquelas condições, para começar, por causa de … Vanessa.” Aquela era Vanessa? Percebi então como aquele ser se parecia com as formas do corpo da moça que eu só havia visto nua uma vez, em sonho; e que parecia não muito sonho, agora; e foi então que me lembrei de como o sonho terminou …

        “Nós sabíamos da sua história, indiretamente,” falou Simão, mais uma vez num sussurro, mais um sibilo agora, “por ela, que era parte do bando. Agora está aí, de castigo. Foi ela que apresentou a droga Garra para sua filha; foi ela que tentou reanimar sua filha no hospital, e falhou; foi ela que, depois de falhar, foi se consolar com você, e acabou fazendo de você … um aperitivo. Já fez isso antes, matou um tal Caio, melhor amigo dela … Mas ela não imaginava que ao … temperar você, acabasse te despertando.”

        “Bando? Tempero?” Então, me veio o choque. Ela havia me drogado, posto algo na água, enquanto eu me concentrava, naquela noite terrível. “Mas porque ela fez isso???” perguntei desesperado.

        “Porque ela gosta do tempero da droga na carne humana … a GARRA que desperta ALGO naqueles destinados, a Garra na carne humana … coisa que você também vai aprender a gostar,” respondeu exultante Neemias, me segurando pelo braço, “porque você é um de nós!”


        A coisa serpentina diante de nós começou a se debater quando Neemias se transformou, seu agarrão no meu braço tornando-se cinco garras me prendendo com força. Era um monstro peludo, que ao crescer rasgou o paletó de Neemias, postura curvada e cabeça como a de um gigantesco chacal ou lobo.

        “ENTÃO,” grunhiu Neemias, “JÁ SABE AGORA O QUE VOCÊ É?”



        Os sonhos. Os sonhos que eu havia tido naqueles últimos meses, me vieram como um baque sobre a cabeça. A vontade de matar era genuína, porque eu era um monstro. Não sabia se tinha mesmo estripado inocentes daquela forma que me lembrava, nos sonhos, mas era tudo vividamente real. Eu corria pelas ruas da cidade, livre, caçava e matava e devorava.

        Os outros assumiam formas animalescas menos evidentes, mas mesmo assim assustadoras: Simão exibia escamas de um mosqueado verde-amarelado, e olhos tão serpentinos quanto o de Vanessa acorrentada; Teodoro tinha os braços muito peludos e dentes muito afiados, e estava barbado como não era poucos minutos antes; Marluce exibia olhos azuis, de um azul que não era humano, e garras como as de um gato; enquanto Liziane era de todos a mais assustadora, com a pele viscosa coberta de ventosas, os braços flexíveis como tentáculos.

        E o mais estranho, para mim, era que eu sentia muito medo, mas o medo não me dominava. Era como se eu já estivesse acostumado com aquilo – e com todas aquelas metamorfoses, eu seria o único humano ali no porão … se não fosse a reação que me possuiu: minha pele coçava como se estivesse alérgica a alguma coisa no ar, e aquilo piorou chegando a arder, a queimar; o tempo parecia parar enquanto aqueles animais me rodeavam e eu me aproximava da acorrentada, presa a grilhões de cor muito prateada.

        Então vieram as alucinações – os cheiros muito mais fortes, a umidade do ar parecia mais espessa, e se mexer, reagindo aos movimentos do bando de monstros; haviam zumbidos, silvos e estalos por toda parte; um ruído surdo preenchia minha cabeça … e naquele instante interminável, vi a luminescência, aquele halo hediondo e psicodélico que havia enxergado na lua, na noite em que Vanessa me havia visitado.

        O halo envolvia as correntes de prata que prendiam a moça, monstro, parente, fêmea, consorte, estranha e familiar, favorita e odiada, prostituta e santa, deusa monstro. E eu sabia que as devia tocar: para tocar na pele da minha deusa e amante, devia estraçalhar os grilhões … era a mensagem que me vinha à mente, tão verdadeira quanto o cântico em línguas, declamado por Neemias.

        “É A SUA CHANCE, “bradou Neemias, “PODE SE VINGAR DELA, VOU TER O MAIOR PRAZER DE ASSISTIR, É UMA PUTA TRAIDORA.”

        “BANDO … PORRA NENHUMA!!!” Num só movimento, agarrei as correntes de prata e as puxei, quebrando o pino que as prendia na parede, e sacudi aquele excesso de grilhões sobre o rosto – não, o focinho – de Neemias. Meus músculos pulsavam com uma sensação de poder nunca antes sentida, e punir o pastor só aumentava o prazer daquela sensação de poder. Eu não tinha mais nada a perder na vida, a não ser Vanessa.

        “Como assim ele é imune à prata???” gritou apavorada, aquela coisa cheia de ventosas e tentáculos. Tinha muita razão para estar assustada; eu mesmo me aterrorizava ao perceber que minha pele era agora um couro espesso, cheio de escamas e espinhos, rasgando minha camisa.

        Os três mais fracos estavam como que paralisados frente à cena. A prata, me veio a ideia no fundo da mente. Estilhacei o anel do braço direito de Vanessa, lhe dando mais liberdade de ação e a libertando, também, da dor da prata. Enquanto eu vibrava novamente o emaranhado de correntes na pele do lobisomem – sim, era isto que ele era, sem a menor dúvida, agora – dei tempo suficiente para que Vanessa superasse, um esforço tremendo, a dor e quebrasse o anel de prata do outro pulso. Coisa que nunca mais conseguirá repetir na vida.

        A cabeça animalesca de Neemias estava banhada de sangue e suas feridas eram graves. Ele ainda tentou me atingir com suas garras, mas consegui me esquivar da maioria dos golpes e só um deles me acertou – e o ferimento pouco me atrapalhou, começando a sarar quase que no mesmo instante.

        Aproveitei um momento em que Neemias se contorceu de dor, e o instinto de fuga assumiu: empurrei Vanessa na direção da escada, e corremos. Eles não ousaram nos seguir, os três devem ter tentado cuidar de seu … líder, pastor, o que seja. E que o tal deus amorfo deles se fodesse.

        Quando ultrapassamos a porta que separava o porão do fundo da igreja no nível térreo, consegui ouvir a voz sussurrante de Simão, “É o Dragão … o monstro que devora a lua ... estamos acabados …”

        Na câmara onde haviam aqueles divãs todos se encontrava também um grande espelho na parede, como numa sala de dança ou ensaio teatral. E eu me vi. Um monstro reptiliano, de garras malignas empunhando correntes de prata, cheio de escamas e espinhos de cor azulada, a cabeça deformada, draconiana, os olhos de uma cor mortal e prateada.

        As formas de Vanessa começaram a suavizar e seu rosto assumiu as feições femininas que eu conhecia, “Rápido! Não temos tempo pra ficar se olhando no espelho, tio!” Puxou o lençol que cobria um dos sofás e cobriu sua nudez. Minha vontade era de a possuir ali, de novo, como naquela noite, dessa vez, seria tão mais pleno …

        Os olhos de Vanessa se estreitaram e percebi a serpente nela se manifestando, sibilando: “NÃO. AGORA NÃO É O MOMENTO. Vamos sair daqui,” sua voz foi voltando ao normal.

        Naquela noite corremos pelas ruas como dois malucos perdidos num labirinto, depois de ter quebrado uma janela dos fundos da igreja. Em um certo momento paramos e ficamos abraçados como se fôssemos dois indigentes na noite fria e enluarada, marido e mulher, suados e ofegantes, ela muito pior que eu, as minhas roupas rasgadas e ela envolta num cobertor.

        Passou um anônimo na rua, sentiu pena, meteu a mão no bolso e foi tirando umas moedas, dizendo, “Tá precisando de uma pratinha pra alimentar sua esposa, amigão?”

        “Prata?" respondi, finalmente rindo depois de tanto tempo, assustando o transeunte. “Não, pode deixar … já tenho toda a prata que preciso ...”

        No meu sorriso brilhava a luz da lua; nos meus olhos prateados, a certeza da libertação.