segunda-feira, 11 de julho de 2011

DESPERTAR BRUTAL

A SAGA DOS PRODÍGIOS continua com seu Episódio 22





AS TRÊS PRODÍGIOS CAMINHAVAM CAUTELOSAMENTE pela ravina, seguindo as indicações deixadas no terreno por Azif: um rastro óbvio ali, um grafito rabiscado no paredão crescente. Charya teve a impressão de que o rapaz encontrava-se nas bordas do alcance de sua telepatia – mas ainda assim o sentia com mais vividez do que podia detectar a presença de Euro.

        Mais cedo, antes de saírem do acampamento contrabandista para a primeira missão designada pelo Grão-Mestre, Charya reuniu a todos e conseguiu estabelecer aquele elo telepático forte – ela ainda não sabia o quanto aquela ligação iria durar, mas seria útil tanto para comunicação quanto para coordenação em caso de batalha.

        A maior dificuldade em estabelecer o elo havia sido com Berya (óbvio, dado que se conheciam há pouco tempo e a natureza um tanto retraída da Prodígio Azul) e – isso a preocupava – com Euro. Natural que sentisse Azif com mais força, já que guardavam dentro de si aquele amor não-concretizado, mas Euro parecia especialmente desfocado, desconectado... deprimido, talvez. Quanto a Dova, bem, a menina tornava tudo mais fácil, era uma catalisadora.

        Charya a princípio imaginou que os acontecimentos durante a semana em coma haviam revelado a Euro mais sobre si mesmo do que ele gostaria de saber. As memórias vagas de ser uma espada – uma espada como a katana que empunhava naquele momento, enquanto as três desviavam-se das rochas que atravancavam o caminho – nas mãos de Dova mostravam a Charya uma luta sem sentido de Euro contra  o próprio meio-irmão, e o murro descomunal que atingira a Prodígio Branca no rosto.

        As cenas haviam acontecido dentro da mente da própria Charya, claro, mas a realidade daquilo tudo era inegável para os três combatentes, e a Prodígio Vermelha saboreava devagar o paradoxo de que, apesar dela também ter estado lá, na forma de espada, e de toda a aventura ter se desenrolado dentro daquele espaço em branco – espaço lethean, como o chamavam os neander – suas memórias eram mais tênues e ela não tinha noção direta do que havia acontecido com Berya e Euro.

        Euro! De repente, aquela presença fraca do meio-neander, na orla extrema de sua percepção telepática, tornou-se vívida e pulsante – Charya enxergava sinestesicamente o ponto amarelo-claro virar um dourado reluzente, e sair apressado do alcance da mente da líder dos Prodígios.

        Rápido! Vamos dar apoio a ele, soou a voz da Prodígio Vermelha na mente de Berya e Dova. Mas logo Charya percebeu que não tinha ideia do que poderiam enfrentar; e que talvez estivessem caindo numa armadilha; mas a ordem já havia sido dada, e não queria parecer indecisa.

        Dova sentiu o cheiro de baunilha que era característico quando Charya tocava sua mente, uma pontada de medo, mas materializou seu armadoxo com facilidade e marchou para a frente na ravina onde antes Azif e Euro haviam se embrenhado. O báculo em sua mão servia não só para desferir golpes, como ajudava a focar sua intuição. Que diferença de quando tinha a “espada de Charya”, percebeu Dova, o descontrole de suas emoções naquela ocasião era evidente quando comparado à estabilidade que o báculo lhe fornecia.

        Percebeu também de imediato que “ele” era Euro e não Azif; e algo também lhe dizia que precisava correr, correr como Euro havia feito – ela não havia visto nem ouvido a investida do meio-neander, mais à frente, mas sabia o que havia acontecido com ele, o elo telepático entre todos estabelecido por Charya aumentava tremendamente a empatia e a ligação que sentia com os outros Prodígios. É como se eles fossem minha verdadeira família, pensou Dova, e logo se arrependeu, lembrando do avô e do irmão Manyu. As cenas de quando fez a “cópia” do irmão em pedacinhos a estavam assombrando desde que despertara do coma.

        Tentou ignorar a recordação e acompanhou as outras pela ravina, já ouvindo a voz de Azif gritar em sua mente, ecoada pelos poderes de Charya: Aranha gigante, demônio do Ermo, fardo que devemos suportar, cicatriz monstruosa dos erros de uma era passada, eu te exorcizo em nome da Rainha Mercúrio, que o Grande Goog me dê sabedoria na batalha, aquilo era uma prece, um mantra proferido em desespero mas solenidade. O tom apavorou Dova e reconfortou Berya – era idêntico ao tom dos sacerdotes da Terra Castanha.

        Na planície negra, a terra fofa pelo húmus não atrapalhou em nada o ímpeto de corrida de Euro em direção à aranha azul – corria poucos centímetros acima do solo, sem ser impedido por nada em seu caminho. Os últimos passos da investida na verdade foram se tornando um grande salto, e de um salto uma voadora direto no grande abdômen do monstro, que recuou ferido e assustado pelo brilho dourado do ataque – era como se estivesse distraído e fosse pego de surpresa.

        Aranhas daath não costumam ser desatentas assim, pensou Azif ao contemplar a cena, não são símbolos da vigilância incansável? O Prodígio Negro não perdeu muito tempo pensando após completar sua prece, e impeliu seu corpo pelo espaço na direção dos dois combatentes, buscando ajudar Euro a não ser trucidado pelo contra-ataque da aranha. O impulso arremeteu Azif para a frente, distorcendo o espaço e jogando-o direto para a planície de húmus.

        Foi então que ali, a cerca de dez metros de Euro, notou o que havia acontecido com seu meio-irmão: besouros e outros insetos dourados enxameavam sobre seu uniforme-paradoxo, e antes que a daath pudesse reagir, Euro vestia novamente placas douradas sobre o uniforme amarelo, formadas a partir dos minúsculos insetos que o paradoxo havia liberado. Novamente, como havia sido no sonho coletivo há tão pouco tempo. Só que agora era tudo real.

        Daquele ponto de vista Azif não conseguia enxergar o terrível terceiro olho na testa do Prodígio Amarelo, mas sabia que ele podia estar ali encimando uma tiara dourada, e alterando o comportamento de Euro como havia feito no espaço mental de Charya. Sacou a cimitarra do uniforme, pronto para intervir contra o próprio irmão se fosse preciso, de novo – mas agora havia a gigantesca aranha prendendo a atenção do “herói da Terra Castanha”, então era melhor ajudá-lo a matar o demônio do Ermo antes que algo pior acontecesse.

        Aproveitando o atordoamento da aranha daath, Euro ergueu as descomunais manoplas douradas que agora cobriam suas mãos, ajustou melhor sua posição em volta do monstro e, de mãos entrelaçadas, golpeou os muitos olhos da aranha, esmagando alguns no processo.

        Aliviado, Azif notou que o terceiro olho estava lá na testa de Euro, mas fechado. Empunhando a cimitarra que lhe serve de armadoxo, o Prodígio Negro sentiu de repente a presença de Dova correndo pela ravina em sua direção, e numa intuição profunda arremessou a cimitarra, girando contra a aranha, como nunca havia feito antes. A armadoxo rodou pelo ar como um bumerangue, cortando afiada uma das pernas articuladas do monstro, mas não retornou às mãos do dono – ao invés disso, foi o dono que se rematerializou com a cimitarra assim que esta fez seu estrago, num teleporte ainda mais espetacular pelo fato de que Azif reapareceu portando a máscara de gás e a musculatura artificial que havia sido característica do sonho compartilhado dentro da mente de Charya.

        Quando virou a cimitarra na mão para dar-lhe balanço, sentiu-a mais pesada: durante o arremesso ela havia de alguma forma aumentado de tamanho, estava mais para um alfanje que uma cimitarra curta – forçando Azif a empunhá-la com as duas mãos.

        Berya era um pouco mais rápida que as outras duas Prodígios e foi a primeira a chegar onde a ravina desembocava na planície negra.  Uma mistura de excitação e horror tomou a Prodígio Azul; sentia uma energia incomum percorrer todo o seu corpo da cabeça aos pés, deixando seus cabelos  arrepiados. Estacou bem onde o caminho pedregoso da ravina dava lugar ao húmus preto da planície, já com sua espada curta na mão. Quando as outras duas chegaram notaram de imediato como os olhos de Berya haviam se enchido de um azul profundo e de uma determinação intensa – como se ela fosse soberana de si, de tudo e de todos à sua volta.


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segunda-feira, 4 de julho de 2011

TEIAS DE FOGO AZUL

Arthur Ferreira Jr.'. retoma a SAGA DOS PRODÍGIOS em seu Episódio 21:







UMA ENORME ARANHA DE PELOS AZULADOS escalava a parede úmida da cripta, indo em direção a uma teia na junção das paredes com o teto, onde a esperava outra aranha, de tamanho bem menor.

        O olhar de Manyu Daury já tinha a tendência de vagar pelos cantos, exasperando qualquer interlocutor, e aquela aranha azul definitivamente capturava sua atenção enquanto o homem vestido de branco à sua frente tentava impressioná-lo com seu discurso – a aranha estava a um metro e meio de distância dele, calculou Manyu, se o resultado da hipotenusa estiver correto, pensou o rapaz.

        “Entende que você me deve a vida, certo...? Nós os salvamos da morte na mão dos zelotes. Digo nós porque eu sou o líder do grupo que o salvou, e digo que você deve a vida a mim, mais uma vez, porque eu sou o líder.”

        Manyu desfocou sua atenção na aranha, que já ia atingindo a teia, e voltou-a para o homem de branco, que sorria maquiavelicamente. “Isso quer dizer que agora você é meu líder... é isso?” O outro assentiu com ar condescendente.

        “Também quer dizer que faço parte do bando agora?” Distraído, quase fleumático, Manyu Daury não estava acostumado a sentir medo – quase nada quando os zelotes o atacaram, semanas atrás. Mas aquele homem o dava calafrios quando prolongava muito o fim de cada frase ou pergunta.

        “Er... não.” Em algum lugar da cripta, ouviram-se pigarros. Aquele canto estava iluminado por velas dispostas num padrão qualquer, no chão (por que no chão? perguntava-se Manyu), de modo que o outro extremo da extensa cripta estava preenchido de sombras, onde o jovem Daury sabia que ocultavam-se o bando de Lacernos.

        Lacernos era o homem de vestes brancas, que Manyu sabia apenas, até agora, ser líder de um bando de criminosos operante no Nomo das Torres. “Não. Você vai ser meu subordinado direto... vai trabalhar aqui.” A voz de Lacernos era ao mesmo tempo rude e afável.




        “Aqui...? E o que tem demais nessa cripta?” Manyu também sabia estar numa cripta no subterrâneo do Nomo das Torres; mas não sabia exatamente onde, havia sido vendado pelos seus salvadores... ou captores, não fazia mais diferença alguma.

        Também não fazia mais luz alguma, porque as velas haviam apagado de repente.




***

Uma enorme aranha de pelos azulados rastejava pela planície negra. Com mais de três metros de comprimento, uma daath podia ser cavalgada por alguém corajoso o suficiente para domá-la – ou seja, quase ninguém. Azif avistou a monstruosa figura movendo-se logo à frente, e agradeceu silenciosamente aos deuses da Terra Castanha por ela não tê-lo percebido.

        Euro vinha mais atrás e Azif fez-lhe um gesto para que parasse ali mesmo. O meio-neander reagiu com uma cara de enfado, fazendo Azif imaginar por que demônios o seu irmão estava comportando-se daquele jeito desde o princípio da missão.

        Teriam de esperar a aranha sair daquela seção do Ermo, para que pudessem passar. O Prodígio Negro concentrou-se e seu uniforme-paradoxo deformou-se sobre o rosto, criando lentes de metal escuro e resina de tom prateado. Um dos novos truques com conseguia fazer desde a semana em coma. Agora enxergava perfeitamente a aranha, mas perdia noção das coisas logo ao seu redor.

        E foi assim que não percebeu de imediato que Euro passara por ele investindo em grande velocidade, os pés praticamente não tocando o chão pedregoso daquela ravina por onde haviam vindo. E em instantes o Prodígio Amarelo já estava na faixa de planície negra, pronto para lutar contra a gigantesca aranha azul... a mortífera daath.





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quarta-feira, 29 de junho de 2011

VÉU DE ABELHA

por Desdêmona *


Um véu simples,
Uma mão morta balançando na janela.
Um véu simplório,
Um zangão morto pela abelha-rainha.
Um véu solitário,
Um zumbido ausente de meus ouvidos.

Há quanto tempo o zumbido se foi
E não notei o êxodo das abelhas?
Há quanto tempo
As dançarinas não brilham mais ao sol?

Havia um serralho sobre a colina,
E um palanquim deserto à noite.
Lá meu amado aparecia sob o véu das sombras,
E ninguém notava quando ele se ia.

E agora que ele está morto
E a garoa leve dança ruidosa no telhado,
As colmeias ocas são enterradas no jardim,
E o vento frio da estepe me envolve a alma, clamando justiça,
Desvelo os segredos daquele amor cinzento
E retorno ao mundo, sabendo que o matei.






* Desdêmona é um heterônimo feminino de Arthur Ferreira Jr.'.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

ALÉM DA PRESENÇA DA DEUSA

por Neith War e Arthur Ferreira Jr.'.



Como peregrino numa terra faminta
Busco minha deusa e não a encontro
Ponho oferendas no altar, e sinto um intenso aroma
Seria o cheiro excitante de minha deusa a se manifestar?
Oh, não, deve ser só o incenso e sua bruma perfumada.
Vou deixando deserta a sala de ofertas e rituais,
Mas ao passar do umbral, ouço uma risada provocante...

*

Meu querido e sombrio amante!
Seu corpo provocante me chama e atiça
Você pode sentir o meu desejo fluindo através dos poros?
Minha pele queima de prazer ao imaginar-me em teus braços
Minha fome de luxúria é tão intensa que sinto meu sangue ferver
Exalo um cheiro adocicado de prazer e desejo
A divina sensação de êxtase num demoníaco ato de sedução

*

Olho para trás, e sobre o altar, ela jaz tentadora
Seu corpo é um paraíso em forma de mulher,
Suas curvas, as voltas secretas dos deuses na Terra;
Sua pele, como a seda mais sagrada que pende no santuário.
Mas seus seios exibem uma firmeza que revela uma excitação infernal;
Suas pernas entreabertas, aquele caminho estreito
Onde os mortais se perdem para sempre.

*

Venha até mim e faça-me gemer de prazer
Delicie-me com teu hálito fresco e tua pele quente
Você me chamou e eu o desejo
Sacie minha obscura alma com teu toque infernal
Deixe-me envolvê-lo numa teia de desejo
Invada-me e preencha meu corpo com tua deliciosa existência!

*

Não resisto ao sorriso fascinante dela, mostrando os dentes alvos,
Fazendo-me cobiçar sua boca tão ávida.
Tiro meu robe de devoto, e não me importo mais,
Se é deusa ou demônia, a provarei assim mesmo.
Assim me igualo a ela, estamos ambos nus e sós,
Mas agora seremos dois corpos trocando calor e desejo, paixão divina e agonia sensual.

*

Minhas mãos tocam a pele dele
Irresistívelmente quente
Meus lábios entreabertos buscam os seus
Deslizo minha lingua para dentro de sua boca
Um torpor me invade e sinto a energia pulsante correr por minhas veias
Os corpos colados um ao outro
Desejo sua alma...

*

Um fervor extremo, um misto de veneração e luxúria me toma
Eu desejo devorar a minha deusa, minha demônia.
Sinto sua língua dançar com a minha, mais intensa que a própria dança cósmica;
Sinto sua pele deliciosa encostar-se à minha, a carne divina que eu cobiço.
Mordisco seu pescoço e sinto todos os seus poros arrepiarem-se
Liberando mais da sublime e fatal fragrância que me envenena de prazer.
Com ela ali, o duro altar de mármore parece mais confortável que um dossel de folhas.

*

As velas parecem tochas incandescentes a tornar o ambiente fatalmente mais aconchegante
O incenso se mescla ao cheiro de nossas peles transformando-se numa fragância excitante
Sinto seu corpo sob o meu
Suas mãos acariciando minha pele enquanto me invade provocando-me
Meu corpo o recebe de forma intensa
Nossos gemidos ecoam por todo o ambiente
Música para todos os demônios ali presentes

*

Meu orgasmo explode por todo o universo, sou uno com minha deusa!
Sinto-a sobre meu corpo, tremendo, gritando e fazendo ecoar segredos fatais nas paredes.
Tudo isso parece uma eternidade que vai se comprimindo em poucos segundos de êxtase...
E que se dissipa exatamente como a fumaça do incenso,
Revelando-me nu e só sobre o altar, e atordoado a imaginar:
Foi tudo aquilo um sonho, ou o resto de minha vida apenas será
Um pesadelo banal, uma existência vazia sem a presença de minha deusa?...

segunda-feira, 13 de junho de 2011

NAS GARRAS DE UMA MENTIRA

3o. conto da Tetralogia da Crisálida, por Arthur Ferreira Jr.'. e Kinn

(Os personagens Aline Cortez originalmente criada por Arthur Ferreira Jr.'. e Lady Mizune no miniconto Ela Só Queria Dançar; Thiago Podestà e Vanessa originalmente criados por Neith War e Arthur Ferreira Jr.'. no conto Mistérios do Horizonte)

Nota: Embora este conto esteja entrelaçado com os eventos narrados nos contos A Crisálida e a Esfinge e Verdade Seja Dita, você não precisa necessariamente lê-los ANTES! Porém, os links estão aí como referência.



MAL COMEÇARA A MANHÃ EM CRISÁLIDA, e a fumaça já ascendia aos céus. Isto é comum em cidades grandes, especialmente quando essa fumaça é sinal do progresso eternamente em andamento, buscando fazer a cidade crescer nos atos de seus cidadãos. Mas hoje é um dia especial. Caminhões chegam em certos locais de entrega, vindos não se sabe de onde. E ninguém pergunta sua procedência, por que seria falta de etiqueta. E a etiqueta é algo muito importante na sociedade. Todos os grupos oficiais e extraoficiais da sociedade na cidade seguem-na rigidamente.

Dizem que mesmo os monstros e fantasmas – se você acredita neles – seguem essas regras não escritas, que todos conhecem. Não segui-las é atrair a atenção e chamar problemas, de um jeito ou de outro. Tanta rigidez exige compensações. E a cidade, ciente disso, oferece de tudo para satisfazer seus habitantes. Todo tipo de diversão e prazer, lícitos ou ilícitos, podem ser obtidos por um preço, de acordo com o bolso e gosto do freguês.

Gregor viu um desses caminhões chegar no galpão, enquanto se ocultava na ruma do beco, o tonel gerando calor durante a noite esgotava seu combustível. Gregor vivia nas ruas há muito tempo. Suas roupas esgarçadas, sujas, bem como sua barba cheia, mostravam toda sua decadência. A garrafa vazia ao seu lado completava a cena óbvia do imaginário do sem teto que era, mesmo que em seus sonhos, se visse com uma vida de luxo e nobreza de berço.

Aquele era um bairro violento. Mas Gregor sempre estava por lá, vivo, não sofrendo nenhuma das injúrias, nem desaparecendo como muita gente naquela região. Era sempre Gregor, o louco; Gregor Sansa, a barata da sociedade, que tinha ilusões de grandeza e riqueza; Gregor Spinovit, ou seja o sobrenome que ele inventava ter no dia. Igualmente variava a versão da forma teria tido a mão direita amputada. Combatendo piratas ou tentando obter tesouros em masmorras antigas, ele era a diversão dos transeuntes, especialmente mafiosos e bandidos da região. A única coisa que nunca mudava em suas histórias era o vilão, seu arqui-inimigo o Conde Sinuhe, que era responsável de alguma forma pela perda da mão do herói e fugia rindo malevolamente.

Hoje, havia chegado mercadoria nova e alguém teve a ideia de dar um presente para o mendigo mais divertido do bairro. Disseram a ele que ia tornar os sonhos dele realidade...

Ironicamente, não poderiam adivinhar quão perto da verdade estavam...





A CIDADE TEM UM RITMO DIFERENTE, pensou Nyarlathotep, o Esfinge Negra. Estou há tão pouco tempo aqui, e algo me diz que não vou permanecer muito tempo, mas consigo perceber a diferença. Há algo no ar... um pulsar, uma presença, um tanto distinta da presença que senti no ar desde que cheguei a Crisálida, e a nova presença está ao mesmo tempo se opondo e sendo abraçada pela cidade. Algumas pessoas de quem me alimentei parecem estranhas, e como vampiro de sangue, memórias, sentimentos... senti o gosto profundo e alterado em seus sangues, o experiência em suas memórias, o frenesi em suas emoções.

É uma droga. E bem diferente da cocaína, maconha e ecstasy que saboreei em algumas de minhas vítimas. Mas isto veio a calhar: vai apressar o meu plano. As marcas que estou deixando na cidade, as mortes, vão atrair a atenção desse outro vampiro que detecto à distância... e tenho o pressentimento que ainda mais rápido, se as mortes estiverem ligadas a essa droga.

Se há uma coisa que esse Sinuhe tem, é curiosidade.

Vamos ver se ele vai cair na armadilha do diário... hum, devaneios à parte, mais um drogado se aproxima, hora de deixar mais uma marca e deixar o bairro de Raven Lake ainda mais apavorante e sedutor...

“Amigão! Tem fogo?” Às vezes os clichês funcionam melhor que tudo, riu-se Esfinge Negra por dentro.

“Não tenho dinheiro, cara.” O sujeito, de óculos fundo de garrafa, barba por fazer e roupas comuns – camiseta, moletom e calça jeans – cheirava à nova droga. Ele apressou o passo, e nesse passo renovado o Esfinge percebeu que ele levantava os pés de forma mais similar a de um animal do que de um ser humano. Um certo pressentimento, um aviso de imprudência cruzou a mente do vampiro, mas a impressão de perseguir um animal selvagem atropelou o alarme de sua intuição, e tudo que Nyarlathotep quis, naquele momento, foi a sensação da caçada perigosa.

O Vulto Vulpino foi rápido e alcançou sua presa, segurando-a pelo pescoço – só que o rapaz se voltou quase tão ágil, vibrando um chute no estômago de seu perseguidor. Tendo se desvencilhado, deu dois passos para longe do Esfinge e – para espanto e excitação do vampiro – chiou como se fosse um gato, arqueando a postura, seus olhos brilhando na penumbra.

Nyarlathotep sorriu por dentro. Perfeito! Primeira vez que encontro um monstro tangível, de verdade, em Crisálida! E atacou, seus olhos azul-cobalto revelando-se tanto quanto os olhos licantrópicos de sua presa.

Jogo de ganha-ganha! Se ele se provar muito forte, eu fujo deixando a sacola com o diário para trás, e tenho certeza que assim cairá nas mãos do Bibliotecário! Se ele for fraco, mais uma refeição e eu deixo o diário no moletom do cadáver...




TRIM! TRIM!
TRIM! TRIM!

O aparelho não parava de tocar, até que a porta da rua abriu e chegou uma jovem cheia de compras. Ela olha para o lado e vê o dono da casa na mesa olhando uma pilha confusa de papéis.

“Não vai atender, Sinuhe?” perguntou a jovem, enquanto pousava as compras no chão.

“Não. Por que deveria?”

“Nós quase nunca recebemos ligações. Não está nem um pouco curioso em saber quem é?”

“Nem um pouco. Só uma pessoa usa esse aparelho infernal para nos incomodar. E sempre são notícias ruins. Desligue-o, por favor.”

Mas o aparelho continuava a tocar insistente. Quem estava do outro lado mostrava que não desistiria até conseguir ser atendido. A jovem, confusa, parou em frente ao aparelho, na dúvida entre obedecer a ordem e fazer seu mestre sofrer as consequências de desafiar a pessoa do outro lado da linha. Por fim, Sinuhe, vendo a consternação da jovem, se levantou e foi até o aparelho, enquanto disse para a jovem guardar as compras.

Ele observou o aparelho, incomodado tanto pelo barulho que fazia, quanto dissabor de ter de usar um instrumento tão esquisito para ele.

“Eu te odeio, Graham Bell.” disse antes de atender.

A ligação, ao contrário do parecia, não era mais um dos serviços sujos da organização para qual trabalhava. Era um comunicado para convidá-lo a uma festa na alta sociedade. Parecia uma noite de negócios onde uma novidade peculiar seria apresentada. Ele deveria vigiar uma presa: a jovem líder dos italianos e obter detalhes; se pudesse obter uma amostra ou a fórmula, melhor ainda. Informação e o controle dela eram as armas da Organização e os talentos dele seriam úteis nessa operação.

Algum tempo depois estava trajado de forma impecável para a solenidade. A jovem ajudava-o a completar seu bem vestir.

“Pronto, Sinuhe. Está muito bem vestido. Vai para uma festa e ainda assim, não parece de bom humor. Devia aproveitar e se divertir. Um lugar destes para alguém como você deveria ser uma oportunidade de ouro. Quase fico com ciúmes de saber que vai seduzir tantas garotas lá.”

“A festa não me interessa, Fumiko. A moça não me interessa. Nem estas presas que eles estão dizendo que estão cedendo para mim. Eu sei que há algo desagradável nisso tudo, senão aquele homem desprezível não teria me escolhido. Mas eu farei o que foi ordenado e depois que terminar, me esquecerei que este dia existiu.”

“Mas Sinuhe... você quer dizer que, mesmo vivendo para sempre, que vai esquecendo das coisas? Quer dizer que um dia vai me esquecer?”

Ele sorri e ela vê o fulgor de seus olhos verdes que um dia tanto fascinaram e a fizeram abandonar tudo.

“Eu escolho sempre esquecer tudo de ruim e lembrar das coisas boas. Eu sou muito criterioso na escolha de meus servos humanos. E nunca esqueci do tratamento de nenhum deles. É assim que eu sou e assim serei para sempre, enquanto minha vida, que é eterna, subsistir.”

Ele dá um ósculo na testa dela e sai. Sem notar que olhos sinistros não gostaram nada de sua declaração...





OLHOS SINISTROS E ONIPRESENTES OBSERVAVAM cada canto da cidade, porém mesmo um olhar tão ubíquo deixa de notar certas coisas; afinal, não estamos sempre ignorando coisas que acontecem no canto do olho? O que acontece se os cantos desses olhos sinistros estão – oh, não, olhos que são cada esquina de uma cidade que parece viva?”

“Esse sujeito era meio poeta, né, chefe?” Domenico Podestà se irritava um pouco a cada vez que ouvia um desses comentários clichês de Antonello, mas não tinha jeito. Um capanga extremamente fiel, mas um sujeito bronco e de personalidade monocromática. Bem, não se pode ter tudo, pensou Domenico, e com certeza eu prezo mais a fidelidade. Que ele deixe o refinamento para mim. Assim, nem se deu ao trabalho de responder ao braço direito, mas pulou logo para o assunto de interesse mais imediato da noite:

“Mande verificar o carro antes de sairmos. Não quero surpresas hoje, depois que explodiram o carro do Pasini, quero que seja rotina revistarmos o motor, o porta-malas... tudo. Aproveite e selecione um homem de confiança para estar do lado da mocinha...”

Antonello assentiu com um grunhido e foi resolver as demandas. Mocinha, Podestà mergulhava em pensamentos, com o diário na mão. Não devo mais chamá-la assim, pelo menos não na frente dos outros. É tão bom ser o homem por trás do trono, mas há de se ter atenção para não trair as verdadeiras hierarquias ocultas. Voltou os olhos para o pequeno caderno que segurava, e pensou também nas circunstâncias estranhas em que aquela – obra de arte, assim o mafioso a avaliava, digna talvez de ser vendida ao sr. Leonardi, se aquele comerciante de antiguidades e artigos estranhos, seu amigo de longa data, não tivesse de ter sido discretamente eliminado há quase dois anos antes, por motivos de que Domenico agora se arrependia – aquela peça de literatura, escrita numa caligrafia nervosa mas legível, havia lhe caído nas mãos.

Ainda não havia tido tempo de ler todo, mas o que havia pescado ao folhar o diário já garantia algum retorno do dinheiro do suborno. Propina paga à polícia para ignorar a morte esquisita de um dos usuários da nova droga que sua organização estava agora vendendo... o sujeito havia perdido quase metade do sangue, sabe-se lá como, porque não haviam feridas profundas... e num corolário, o cadáver havia se deformado de jeito quase animalesco. Era um corpo estranho, esquisito, Domenico avaliava. E não era o primeiro a morrer assim um tanto deformado – a princípio o mafioso ligou essas ocorrências a algum tipo bizarro de overdose, mas houveram outras overdoses sem essas reações alérgicas tão peculiares.

Por outro lado, as outras aberrações não haviam perdido metade do sangue ao morrer; nem largado consigo diários de valor literário elevado.

Era um enigma, como o do tal Esfinge Negra que matara gente pela cidade e a máfia não tinha noção de quem seria o assassino. Aliás, Domenico achou que vira a palavra esfinge no meio do texto no diário, mas preferiu verificar isso mais tarde. Já estava meio atrasado.

De qualquer forma, nenhuma das mortes ligadas ao Esfinge envolveu overdose ou deformidades. E estas mortes bizarras, sim, precisavam ficar longe dos tabloides. Domenico Podestà era um homem que primava pelo respeito à discrição. Ele pensava na Bíblia, que dizia que era necessário que houvessem escândalos, mas que, ai dos que provocassem escândalos. Domenico pensava que os mesmos escândalos de sempre, as mesmas mortes de sempre, não eram escândalos de verdade e ninguém sofria com isso. Especialmente ele ou sua organização.

Já aquelas mortes atrairiam uma atenção indesejada. Olhos sinistros e onipresentes, não é assim que diz este livrinho? Melhor me preparar para os olhos sinistros e mais mundanos da festa de logo mais. Pôs o diário no bolso do paletó – era de tamanho reduzido – e, levantando-se, foi para a garagem onde a escolta e o carro revistado já deviam estar lhe esperando.




A FESTA ERA NUMA COBERTURA FAMOSA DA CIDADE. Um dos inúmeros arranha-céus impressionantes que Crisálida gosta de ostentar, para tornar tangível a sensação de pequenez de seus habitantes diante de si. Uma célula social, onde os habitantes eram meras formigas passeando de um lado para o outro, em seu enorme aquário para o entretenimento alheio. E entretenimento era algo muito importante nesta cidade, onde todos precisavam manter as aparências com tanta força.

Assim sendo, Paloma Genaro, a herdeira do clã italiano acabava de chegar, atraindo olhares e atenção de todos com seu magnetismo natural. Por muitos já era considerada a líder da organização mafiosa da família, embora quem comanda de fato ainda não tenha morrido ou oficialmente se aposentado. Assim, a jovem prodígio aproveita seu status e poder inerente para fazer o que bem entende, seja isso constrangedor para sua vítima ou não. Ela adorava contrariar regras e levar todos os participantes de seus jogos ao limite perigoso da intervenção das leis não escritas da cidade.

Ela gostava do perigo. De inverter os papeis nos jogos sociais e deixar a todos desconcertados. Seus protetores tinham trabalho para cuidar dela. Na maioria das vezes o pior inimigo dela era ela mesma. Ela viu ao longe, quase ocultas nas sombras do salão, duas pessoas peculiares conversando. Ela sentiu a sensação de presa perante o caçador e percebeu que poderia se divertir muito esta noite, desafiando-o perigosamente a inverter os papeis. Ela era a filha de uma importante clã mafioso. Ninguém, nem mesmo um monstro predador, poderia ignorar isso, sem desafiar as leis. Como sempre, ela tentaria usar isso ao favor dela para manter o jogo ao seu favor. E se ela, a seduzida, mudasse e seduzisse o sedutor?

Os dois que conversavam tinham outra atenção na sua tensa, porém amigável, conversa. Irritação do lado de um dos interlocutores e sensação de ser traído, além do enfado habitual de eventos sociais como este. O outro era educado, porém rígido em seus avisos. Estes dois pertenciam às sombras da cidade, não existindo oficialmente, embora um deles tivesse uma fachada social plenamente estabelecida.

"Que significa isto, Dalton? Eu pensei que isto era um trabalho. Não imaginei nunca que você usaria de truques sujos comigo."

"Tenha calma, Sinuhe. Estou tão obrigado a participar deste evento quanto você. Minha posição da organização exige estar presente em eventos como esse e socializar com estas pessoas, por muitas das quais não tenho o menor interesse de interação, da mesma forma que você. E eu lhe disse para me chamar de Richard. Quando me chama pelo meu sobrenome, me lembra o que disse tempos atrás."

"Eu mantenho o que eu disse. Se trair minha confiança, eu terei provado que é impossível ter um amigo. Mas você se esforça bastante em cumprir sua parte do trato. Já que este evento não tem a ver comigo e nem é armação sua, o que é?"

"Existem duas coisas que serão tratadas nesta festa. Há uma nova droga na cidade e não sabemos nada sobre ela. Nossa organização não pode não saber nada sobre um assunto. Isto é um tabu."

"Eu sei."

"Ela está em posse dos italianos. Se você puder extraí-la da inconstante jovem líder deles, sua posição na Guilda irá subir vertiginosamente. Isto é em parte um presente meu, um teste e prova de confiança minha, para que a organização veja como um todo que você não deve estar alocado numa posição tão subalterna."

"Eu sabia que você tinha colocado seus dedos em alguma parte deste projeto, Richard. Mas aceito o favor. Se isso me livrar do contato do meu 'superior imediato' atual, eu perdoo sua tentativa de intervir no meu mundo de solidão. Eu lhe deveria outro favor..."

"Só peço que tome cuidado com sua abordagem, pois a menina é explosiva. Ela tentará fazer você trair nossas leis e as deles, criando o caos na cidade. Ela fará de tudo para conseguir isso de você. Suborno, ofertas generosas, promessas que nunca irá cumprir..."

"Hum... agora entendo porque me chamou. Me chamou não porque sou capaz de seduzi-la, mas porque sou imune às tentações dela. Você já sabe disso, então quer mostrar meu valor assim para o resto da organização..."

Sinuhe não teve tempo de concluir seus pensamentos. Paloma já havia se aproximado dos dois e tomado o vampiro para o centro do salão para uma valsa que começou a tocar com a ordem dela. Richard Dalton, presidente da Fraternidade das Sombras, não conseguiu avisar o seu amigo que Paloma Genaro não era uma qualquer. Sua missão seria um verdadeiro desafio e seu sucesso ou fracasso iria resultar em enormes mudanças na conjuntura urbana. Era a cidade se movendo e movendo seus tentáculos, pensava Dalton, enquanto se aproximava de Podestà.

A Fraternidade das Sombras era uma das redes mais bem informadas da cidade. E Dalton ouviu falar de um diário misterioso. Misterioso era uma palavra importante para seu grupo. Eles desejavam obter toda sorte de material misterioso. Mas ele ouviu falar um nome em especial citado no diário. Um nome que tornava imprescindível adquirir este objeto. Era o nome do Sinuhe citado nele. Ele não sabia o porquê disto – e haviam poucas coisas que Richard Dalton não sabia nesta cidade – mas ele iria descobrir com certeza.




ALINE CORTEZ É O SEU NOME?” O bate-estaca da boate era ensurdecedor, e Aline quase não conseguiu ouvir a pergunta, mas pelo menos conseguiu reconhecer o próprio nome e adivinhar o que o rapaz perguntava.

“É isso mesmo.” Não tinha muito ânimo de responder outra coisa, ela nem sabia direito porque estava ali, e também o barulho da boate não ajudava conversas elaboradas.

“Tá muito barulho aqui, né?” comentou o rapaz de fala macia. “Vamos
pra outra festa, lá a coisa é mais elegante, não tava a fim de entrar lá sem uma bela companhia como você.”

Aline remexeu nervosa um cacho solto e fitou pensativa o moço que havia sido lhe apresentado há menos de vinte minutos, por sua nova vizinha. Essa, por sinal, se acabava na pista de dança, completamente doida. Aline sabia que ela estava alta da nova droga, sensação da cidade, pílulas que traziam impulsos além de qualquer limite, e de fato sensações além de qualquer descrição. Pelo menos foram essas as palavras usadas pela vizinha, Vanessa. Aline havia resistido até aquela noite a experimentar a droga, embora a tentação fosse grande: há menos de dois meses havia completado 23 anos (apesar de aparentar pouco mais de dezoito), seu marido havia lhe pedido o divórcio, sua mãe havia morrido e surgira uma oportunidade de um emprego mais estável, embora mais puxado, na Cidade de Crisálida. E Crisálida parecia totalmente diferente de sua cidade natal, era uma outra vida, menos provinciana, ela se sentia ao mesmo tempo mais livre e correndo perigo, lá no fundo de sua mente. Todas estas mudanças faziam Aline se sentir perdida, em vários momentos do dia ou da noite.

Aquele era um desses momentos, e Aline Cortez aceitou o convite.

Seguiu o rapaz recém-apresentado até seu carro estacionado do lado de fora da boate. Ela sabia – tinha absoluta certeza – de que o moço também consumia a nova droga, e que lhe ofereceria uma ou mais pílulas. E também tinha absoluta certeza de que seria muito melhor experimentar a nova droga na companhia daquele rapaz sedutor, de fala macia e monocórdica, olhos verdes penetrantes e toque firme. Toque que ela sentia em suas pernas enquanto o carro acelerava.

Como ela esperava, o rapaz – chamava-se Tiago Podestà, um nome que Aline achou charmoso e exótico – ofereceu-lhe um punhado de pílulas. Belknap-14. Ou a Garra, era o nome que rastejava pelas ruas e ecoava pelas boates e inferninhos. Mas ao contrário do que ela esperava, ele não tomou a Avenida da Fundação e entrou por uma ladeira direto num dos bairros mal-afamados de Crisálida, Raven Lake.

Envolvendo as cinco pílulas na mão, Aline perguntou a Tiago, tentando esconder a apreensão, “Não era mais fácil chegar nessa tal festa pela Avenida da Fundação, se é mesmo onde você disse?”

“Não esquenta, gata. Eu soube de uma notícia quente, um mendigo saiu de Raven Lake matando gente. Deve estar agora na Fundação, pelo que ouvi, então é muito mais seguro e rápido passar por esse atalho aqui, onde ele não está mais, do que arriscar a sofrer uma blitz.” Enquanto explicava, as mãos de Tiago exploravam as coxas morenas de Aline, expostas pela minissaia. De alguma forma, aquele toque experiente fazia o argumento ter muito mais força.

As luzes piscantes e estroboscópicas da Crisálida deram lugares aos fachos mortiços de Raven Lake. O carro balançava com mais força, revelando o calçamento precário das ruas do bairro. Das janelas escancaradas vinha um vento que trazia não um cheiro de decadência, como Aline esperava – nunca havia passado por Raven Lake em sua curta estadia na cidade, mas tinha suas expectativas quanto a certos lugares famosos – e sim um odor antisséptico, de éter, como se o carro corresse dentro de um gigantesco hospital a céu aberto. Ou um laboratório. A mão áspera, mas delicada, de Tiago, subia mais em sua coxa, e antes que atingisse sua calcinha, Aline engoliu de vez as cinco pílulas.

Máximo de cinco pílulas, cinco pílulas, amiga! Mais que isso e é overdose na certa, mas esse número limite é que é mais gostoooooso! Aline Cortez quase podia ouvir a voz de Vanessa sussurrando em seus ouvidos, apesar da frase original ter sido berrada no apartamento da vizinha. Em pouco tempo a mão de Tiago alcançou sua calcinha, e Aline se sentia molhada – mas não era só de excitação, sentia água saindo de todos os seus poros, e além da mão do rapaz tocando sua virilha, sentia outros toques pelo corpo. Era como se um outro alguém estivesse ali, invisível, acariciando seu corpo.

Porém esses toques intangíveis eram como um rascar de unhas, praticamente garras maliciosas se insinuando por sua pele, inclusive por dentro da roupa. Uma fagulha de lucidez em Aline lhe disse que esses deviam ser os efeitos da droga, mas ela se surpreendeu com a rapidez. Tudo tão imediato e tão real. Ela praticamente poderia usar o termo ultrarrealidade para descrever aquilo. Parecia mais real do que o toque do seu acompanhante, e ela começou a gemer e arquejar, fazendo com que Tiago achasse que eram os seus toques que provocavam aquele prazer.

Infelizmente para ele, não dava mais para enrolar – ele não queria parar nas ruas mais estranhas de Raven Lake e já havia chegado no edifício chique do bairro elegante onde se dava a festa de seus parentes, ironicamente próximo demais do lúgubre cortiço disfarçado que era Raven Lake, cheio de casas abandonadas tomadas de indigentes. Mas ali não havia indigente algum – só alguns seguranças diante do prédio.

Tiago se deu ao luxo de tentar um amasso com sua nova conquista (era assim que ele a encarava, como uma presa) mas essa pegação não durou muito tempo: em menos de cinco minutos, a moça interrompeu os avanços do rapaz e abriu a porta, pulando vigorosa em direção à entrada do prédio.

Gosta de brincar de gato e rato, pensou o jovem Podestà. A noite promete... e ele tinha toda razão. As promessas que a noite sussurrava no ouvido de Aline seriam todas cumpridas em pouco tempo.




GREGOR SE SENTIA MAIS QUE TUDO NAQUELE DIA, PLENO! Realizado! Vivo! Finalmente podia gritar e berrar seu ódio contra quem decepou sua mão. Tinha a perfeita sensação de que sua mão crescia novamente e podia mover seus dedos como nas suas lembranças. A melhor parte era o mundo multicor onde caminhava agora. Onde ele era um rei, onde seu súditos aplaudiam quando ele perseguia o malévolo Conde Sinuhe e o matava.

Mas o Conde Sinuhe era muito ardiloso e Gregor tinha de matá-lo de novo e de novo. Uma parte de si mesmo lhe dizia que esse talvez não fosse o verdadeiro. Estava muito fácil, mas o prazer... a sensação doce em seus dedos, ao esmagá-lo. Isso Gregor não queria esquecer nem deixar de sentir.

A Garra era conhecida por realizar alterações em certos indivíduos, despertar a fera interior de certas pessoas alinhadas com seu propósito original. Mas o que acontece quando ela entra em contato com alguém que já foi mudado? Ela modifica-o na mesma medida em que ela é modificada de seu propósito original no ser dele.

E Gregor com certeza era diferente, mesmo que ninguém mais soubesse. Nem haveria de ser, afinal, sua mão fora decepada de fato por Sinuhe séculos atrás. Mas agora ele despertava de sua decadência e com seu corpo inflamado de excitação da droga e do prazer, se transformando numa máquina assassina! Virara um monstro. Alguns clamavam que o mendigo havia virado um demônio. Embora fosse um exagero, não estava muito longe da verdade que a droga havia despertado.

E ele iria farejar sua presa e realizar sua vingança. De preferência antes do efeito acabar.

***

Enquanto isso, na festa, a dupla bailava: Sinuhe e Paloma, rodopiando pelo salão de festas. Os dois, com um incrível magnetismo iam atraindo e apaixonando a suscetível audiência, mais e mais, levando-a a segui-los na contradança. Ela adorava a sensação. Já sentia os olhos esmeraldas do vampiro se esforçando para mesmerizá-la. E ela ria, dançando se perguntando quando o contrário surtiria efeito.

Por outro lado, Sinuhe se sentia estranho perto dela. Como sempre gostava de frisar, era um ser vazio, sempre necessitando preencher o seu ser, sem nunca ficar satisfeito. Um desgraçado, eternamente em busca de pequenos prazeres mesquinhos que o fizessem não se sentir solitário, mesmo que por alguns instantes. Essa jovem, Paloma, tão cheia de si, não percebia, mas vazava tanto de si mesma, que sua mera presença era capaz de acalentar e ocupar o buraco no coração dele, sem que ele precisasse tomar sua vida. Ele sentia o calor e o prazer que ela emitia.
Agora ele entendia o porquê do aviso de Dalton. E entendia o que ele podia fazer para vencê-la. Poderia mostrar a ela o vazio infinito de sua solidão e, desequilibrando a confiança dela, conseguiria a informação que mandaram buscar e, desta forma, obteria o respeito de seu pares – sem contar a segurança da negociação entre os grupos que sairiam em paz.

Ou poderia fazer o que sempre fez em situações de conflito onde tem a vantagem: não fazer nada. Deixaria que o prazer destas sensações tão efêmeras tomassem posse de seu ser. Sentiria o prazer e a paixão distantes, como eram desejos secretos do coração de Paloma, um desejo tão forte de ser amada, tão irracional, que fazia ela recusar-se a amar qualquer um que por ela se apaixonasse. Mas, a faria amar quem amasse esse jeito dela de ser, esta química explosiva, da atração proibida que nenhum dos grupos poderiam tolerar.

O resultado disso seria sangue, dissabor e vergonha para qualquer um dos dois. Mas não pareciam se importar. Paloma, exibindo seu prêmio; Sinuhe, vívido, seguia o fluxo, para desespero de alguns ali.

Dalton já sabia de antemão como seu amigo se comportaria. Mesmo querendo dar-lhe esta chance, já sabia que teria de negociar pessoalmente pelo que veio buscar na festa. "Com certeza, isso era armação da cidade, querendo realizar alguma de suas famosas façanhas de mudança em seus habitantes... mas quem?", ele se perguntava. Dalton queria ver para onde a cidade ia se mover, e estes diversos estranhos eventos pareciam mostrar que se tratava de algo grande. Ele decidira apostar alto e entrar no jogo dela, já que não parecia prudente desafiá-la, como seu amigo fazia.

Por isso mesmo, se aproximou de Domenico Podestà e declarou suas ofertas pelo que desejava - por um preço bem maior do que valia, o tão falado diário. Da mesma forma desejava, informações sobre a Belknap 14: produtor, origem, efeitos, fórmula, preço... Richard Dalton era conhecido sob muitas faces na cidade. Todas elas eram igualmente respeitadas, mas sua face sombria era a que mais intimidava as pessoas. Ele parecia saber dos segredos de todo mundo; ou parecia ter meios de descobri-los sem fazer esforço. Por isso, era tão perigoso recusar uma negociação com ele... especialmente se ele oferecesse pelo objeto em questão um valor maior do que qualquer um iria cobrar.
O enorme quebra cabeças que estava sendo montado, usava a cidade toda como palco. Por isso, mesmo Dalton, que era acostumado a jogá-lo, não conseguia ver sua extensão. Mas ele sabia que algumas peças estavam se mexendo nesse exato momento:

Aline acabara de entrar no salão. Seu corpo pulsava e suava num ritmo próprio. Paloma viu imediatamente nela uma rival em potencial e tratou de arrastar Sinuhe para a direção oposta, onde poderiam se desvencilhar de todos que iriam detê-los de sua aventura proibida.

***

Na Avenida Fundação, as pessoas em pânico corriam do monstro que chacinava pessoas a olhos vistos. Ele cantava e cantava algo ininteligível e parecia uma besta selvagem bípede e de cauda. Algumas pessoas acreditavam se tratar de um filme. Outros de um maluco fantasiado. Mas houve quem lembrou da lenda da cidade e disse que fora o espírito que habitava a fundação que havia voltado, cantando que a verdade iria ser mostrada para todos.

Olhos sinistros sorriam e preparavam seu movimento. Logo tudo estaria em seu devido lugar no tabuleiro. Todos os vetores estavam em ação. Aos jogadores, restava participar do jogo.




SEU NOME ERA THIAGO PODESTÀ E ESTAVA VICIADO na nova droga, a Garra, mesmo apesar dos conselhos, advertências e ordens expressas de seu pai, o figurão mafioso – na fachada da alta sociedade, um empresário e mecenas filantropo, quando mais jovem um marchand perito – Domenico Podestà. A família Podestà era uma das três principais famílias (no sentido estrito da palavra) influentes na máfia de origem italiana em Crisálida (e sim, haviam outras máfias: chinesa, russa, cubana e até o bando criminoso originário de um estranho país do Leste Europeu chamado Maelstronia). A cidade das mudanças era de fato uma enorme metrópole, cosmopolita e corrupta o suficiente para receber de braços abertos o novo influxo da sensação do momento.

Thiago sabia que não era muito adequado que ele consumisse o que seu pai distribuía (ainda que indiretamente), e só havia tomado uma única pílula da Garra, ao contrário de sua acompanhante, a cobiçada Aline Cortez, que já se sentia totalmente revirada por dentro.

Bastante cobiçada, pois logo Thiago percebeu que não era só ele que desejava Aline – logo ao entrar no grande salão de festas da cobertura, a mocinha atraiu olhares e interesses como se soltasse feromônios invisíveis no ar. Invisíveis e irresistíveis – embora poucos ali tivessem coragem de abordá-la, porque todos também sabiam de quem Thiago era filho.

Afinal, todos conheciam as regras do jogo.

Ou pelo menos pensavam assim. Infelizmente para a maioria das pessoas naquela festa (e na cidade), algumas regras são escritas em letras tão miúdas que só aqueles mais conhecedores – como Sinuhe, Richard Dalton e uma certa moça ruiva em outra cidade, que naquele exato momento contemplava a própria barriga, grávida, no espelho – acabam notando sua existência. Talvez algumas regras sejam tão disfarçadas que nem mesmo esses luminares notem. E às vezes, por capricho do destino ou manipulação da cidade que escrevia a maior parte das regras, algumas pessoas comuns descobriam essas regra ocultas.

Era o caso de Thiago. Ao entrar no salão, sentiu imediatamente o cheiro de medo e desejo que se entrelaçavam naquele covil de demônios bem-apessoados. Era uma sensação que nunca havia antes experimentado – a Garra muitas vezes lhe ampliava e iluminava os sentidos (embora ele achasse que estava apenas viajando de leve), mas não àquele ponto.

Aline parecia deslumbrada, ou melhor, fascinada pelas pessoas da festa – figurões de fora da cidade, ali para uma noite que mudaria suas vidas; atores e atrizes da badalada Companhia de Teatro Crisálida; novos-ricos que experimentavam a companhia das famílias que sempre foram enxergadas como a aristocracia. E é claro, algumas pessoas assumidamente perigosas – capangas dos Podestà e Genaro, os advogados a serviço da máfia, o rancoroso herdeiro da família Dalmácia, cujo pai havia sido assassinado pelo serial killer Esfinge Negra semanas antes. Pessoas também que eram perigosas embora poucos soubessem disso, como os magos da comitiva secreta da Fraternidade das Sombras, escoltando Richard Dalton em sua “missão diplomática”.

Por dentro, Aline sempre tivera atração pelo perigo, embora nunca houvesse admitido esse fato abertamente. Esse fascínio, elevado à quinta potência pelas cinco doses da Garra, vinha agora acompanhado de uma sensação certeira que apontava exatamente essas pessoas perigosas no meio da pequena multidão.

Em teoria, Thiago sentia a mesma coisa, embora num grau muito menor e por ele não ser predisposto à Garra como era o caso de Aline – detalhe que nenhum dos dois tinha a menor ideia. Exatamente uma dessas pessoas terríveis passou perto do balcão do bar onde Thiago havia se encostado junto com Aline. Ele sentia-se tonto e incapacitado, enquanto Aline sofria de uma agitação que mal era controlada, uma hiperatividade que aflorava à pele. Assim, quando a tal pessoa – Virgo, da comitiva de Dalton, um rapaz de olhar de poucos amigos, apesar da aparência frágil, vestido um blazer elegante – Aline não resistiu e foi abordá-lo, enquanto Thiago mal encontrou forças para impedi-la. A única coisa que fez foi pedir um copo d'água ao barman.

A valsa que Sinuhe e Paloma haviam dançado enquanto se estudavam mutuamente acabou, e a orquestra começou a tocar o Bolero de Ravel. Apesar de sua dedicação à Fraternidade das Sombras, onde servia como – era o nome oficial que Richard havia lhe dado – cartógrafo de sonhos, mapeando os padrões dos sonhos dos habitantes da cidade, Virgo não passava de um rapaz tímido quando se tratava de mulheres. Assim, não conseguiu recusar nem fazer qualquer comentário espirituoso quando a bela morena que se apresentou como Aline Cortez o tirou para dançar ao som da música cadenciada.

Como Paloma havia propositalmente afastado Sinuhe da moça que chamava tanto a atenção, essa mesma moça fez questão de chamar mais atenção ainda. De longe, Aline percebia a presença estranha do vampiro e o reconhecia como um predador – porém não se via como presa, pelo contrário. Sinuhe era-lhe um rival. A moça começou a arfar enquanto dançava mais ousadamente com Virgo, que apertava sua cintura com mais força quando sentia o rosnado – que interpretou como excitação libidinosa – de Aline pertinho do ouvido.

Dentro de si, Aline explodia e todos os seus pensamentos racionais eram submergidos por alguma coisa que se agitava dentro dela. Essa coisa assumia controle – não, controle é uma palavra muito sofisticada, diríamos melhor tomava posse dos membros e movimentos de Aline, que ia conduzindo a dança de forma selvagem, quase como uma dança ritualística e primal de acasalamento. Aquilo já estava começando a chamar de fato a atenção como algo estranho, fora do normal, e não apenas exótico e sedutor.

A pele de Aline estava totalmente suada, mas não encharcada, o suor porejava de modo sensual e seu cheiro parecia avassalador ao parceiro de dança. Virgo sentia-se embrigado de desejo por ela, tanto que permaneceu silencioso durante toda a dança... até que a moça, tendo conduzido a dança até a suntuosa parte aberta da cobertura, mais e mais perto da beirada – onde Paloma e Sinuhe conversavam aos sussurros – não conseguiu mais controlar o último impulso assassino que pouco a pouco a havia tomado, e expôs sua verdadeira forma.

Sua verdadeira forma, que ela jamais havia sequer conhecido, apenas pressentido, exposta pelo consumo Garra.

Cerca de três outras pessoas (incluindo o filho do falecido Dom Magno Dalmácia) viram essa forma se manifestar, mas a confusão toda ocorreu em questão de segundos, e quando pararam para prestar atenção, o pior já havia acontecido.

Virgo, mesmo um novato na Fraternidade das Sombras, tão tímido com as mulheres, era na verdade muito capaz e precavido. Tão precavido que nunca saía para um novo lugar, ou uma situação potencialmente perigosa, sem tecer toda uma trama de encantamentos sobre si – feitiços de proteção, meios mágicos de evitar um ataque, em especial o primeiro ataque de um inimigo, que se for desferido de surpresa pode matar.

O Bolero de Ravel encerrou de modo triunfante, e Aline Cortez exibia suas presas – uma fileira de dentes afiados e animalescos – enquanto seus olhos revelavam-se amarelados como os de uma loba, e os pelinhos de seus braços revelavam-se muito mais espessos e ficavam em pé, arrepiados como um gato no momento do bote. A orquestra, sem saber de nada do que acontecia, emendou com A Noite no Monte Calvo, do atormentado compositor Mussorgsky. E nos primeiros acordes, antes que Aline mordesse selvagemente o rosto de Virgo, sua presa mais próxima, o mago sentiu uma onda de energia em estado bruto subir por sua garganta, reagindo ao perigo. Embora assustado, ele aceitou a onda que queria se liberar, queria resguardá-lo da fera que o atacava – e a onda saiu-lhe dos lábios como uma única sílaba gutural, mal ouvida por Paloma e os outros circunstantes, mas percebida nitidamente por Aline e Sinuhe.

A palavra mística libertada tomou o controle da própria realidade, adestrou os braços de Virgo em milésimos de segundos para reagir ao ataque, e em vez de ser mordido pela lobisomem, o mago bloqueou a investida com um tapa – um gesto tão forte e ressonante que Aline Cortez foi lançada longe, ganindo, caindo exatamente sobre Sinuhe, que estava recostado na balustrada até então.

O impacto da mulher-fera caindo sobre o vampiro foi tão poderoso que os dois despencaram pelo peitoril, e de lá de baixo, um outro monstro muito mais perigoso que os dois percebeu que seu nêmesis, o Conde Sinuhe, caía do topo de seu palácio, estilhaçando os vitrais da torre e lutando na queda para se desvencilhar de uma mulher que Gregor, o Monstro, imaginou ser muito parecida com ele.

No topo do prédio, um grito feminino e a música da orquestra tocando como se tudo estivesse acontecendo conforme planejado.




DESCONEXÃO. ERA ISSO QUE SINUHE sentia. Apartado de Paloma, voltara a seu ser habitual: letárgico, apesar de enérgico. Sua existência vazia e odiosa, mas ainda assim, existência que buscava preservar enquanto fosse capaz. A criatura feral se recuperara do impacto que a arremessou em direção a ele e agora ela desejava combater seu rival, usando suas garras e presas, num combate épico, deslizando ambos em queda livre pela fachada vítrea do arranha-céu.

Mas agora o vampiro, desperto de seu torpor causado pela energia da vida mortal que o alimentava, sacava suas próprias garras para combater a fera descontrolada. Ele era ágil e administrar essa luta não seria problema. O problema real era lidar com o impacto da queda livre e a outra fera monstruosa que aguardava os dois no solo, que emanava tanto desejo de morte quanto os dois lutadores.

A noite, porém, era a vantagem dos vampiros, ainda mais de alguém associado a Fraternidade. Sinuhe calculou com precisão seu movimento, enquanto dominava Aline, e aproveitava a sombra gerada pelo monstro que fumegava, inflamado pelas próprias chamas, mergulhando de cabeça pelas sombras atrás de Gregor, trespassando a passagem entre mundos e planos.

Estavam agora em transição para outro lugar, o vampiro e a licantropsicodélica.

Para desespero do monstro Gregor, seu desafeto escapara. Um dia, ele teria sua vingança, ele tinha certeza.

* * *

Algum tempo depois, num prédio da Fraternidade, Dalton encontra seu amigo.

"Os membros da câmara de contenção me informaram do prêmio que você trouxe. A noite saiu melhor que o esperado. Você evitou um escândalo com a jovem líder da Cosa Nostra, evitou o alarde na festa e ainda nos arranjou um espécime para estudo. Os italianos contaram que conseguiram a Garra com um intermediário bastante esquivo e bom de negociação. Vendeu a eles um lote muito grande e depois sumiu. Enquanto continuamos no rastro dele, o estudo da jovem usuária – isso também confirmado pelos italianos, ela chegou com o filho de Don Podestà – servirá para nos revelar a natureza dessa droga. Daí teremos dados suficientes para rastrear o intermediário observando compras suspeitas de matéria prima. Bom trabalho."
"Foi pura sorte. Eu não planejei nada disto."

"Eu sei que não. Mas foi tudo tão bem orquestrado que só pode ter sido coisa da cidade."

"De novo com esses contos de fada?"

"Um vampiro que vem me falar disso..."

"Certo, não vou mais insistir no assunto. Há algo mais exigindo minha atenção? Do contrário, voltarei ao conforto de meu lar."

"Na verdade, há. Consegui um diário muito interessante. Seu nome é citado nele. Dê uma olhada. Vai despertar seu interesse, garanto."

"Meu nome? Está bem. Você conseguiu. Ainda não estou tomado pela fadiga, mesmo após o exercício. Isso me chamou a atenção mais que esses monstros - já soube que o outro sumiu, mas preferi aproveitar a sombra dele para evadir-me, do que ficar em desvantagem de enfrentar duas criaturas. Bom, irei verificar o conteúdo deste livrinho... na biblioteca, que é o meu lugar, não é?"

"Sim, é. Mas seu bom trabalho será recompensado. Aguarde e saberá. E Sinuhe...?"

"Sim?"

"Livre-se do cartão que Paloma lhe deu e esqueça que um dia a viu. Evitará problema para todos nós."

"Você não deixa passar nada, não é?"

"Esse é o meu trabalho."

* * *

Pouco tempo depois dali, tendo lido o diário, Sinuhe foi até o local onde enfrentou o Esfinge Negra e o venceu, fazendo mais uma captura para a Fraternidade Sombria para que trabalhava: Erishkigal, a forma presa na parede, que emanava uma onda umbrática num padrão bem peculiar.

Ambos vampiros como ele, Sinuhe, mas vampiros de alguma espécie diferente, jamais vista por ele. Ao chegar na janela do hotel por onde havia caído Esfinge Negra, Sinuhe meditou sobre a aparente fragilidade daquelas criaturas, comparadas a ele, e sobre as estranhas similaridades... não havia há pouco caído de um prédio, e esse assassino Esfinge Negra também fora atirado pela janela por uma magia descontrolada?

Se pelo menos o bibliotecário soubesse que aquela queda também havia permitido ao Esfinge Negra escapar pelas rachaduras entre os mundos, só que sem o corpo que havia lhe servido de hospedeiro... um tanto impressionado, na balustrada Sinuhe permitiu-se sentir um calafrio de antecipação, o primeiro de muitos séculos, e voltou os olhos do cadáver lá embaixo para a forma presa na parede suja.

Seria essa a peça final do grande quebra-cabeça que a cidade montara para realizar seu grande jogo obscuro? E agora ela movia seus tentáculos mais e mais para realizar sua obra-prima, agora que cada peça tinha se reunido no tabuleiro nas posições corretas.

Todos podiam sentir que algo grande estava para acontecer... só não podiam dizer o quê. E Sinuhe não sabia de onde vinha essa sensação, mas algo lhe dizia que passara séculos mentindo para si mesmo.




ERAM DUAS CIDADES.

Uma, cheia de vida, de uma inteligência maliciosa, exultante em provocar a mudança. A outra, vazia e burocrática, seus habitantes governados por uma sinarquia oculta.

Uma, uma entidade enganosa e mefítica, apreciando jogos e propondo desafios sutis. A outra, um receptáculo polido de magia e controle, abominando a mentira mas ocultando verdades essenciais.

Uma, metrópole e nexo de onde ninguém sai sem ter sido modificado de alguma forma, cidade onde todos do mundo sabem onde fica e admiram seus segredos e lendas. A outra, uma cidade provinciana, quase um subúrbio que adquiriu tamanha independência, que num dia está num local, noutro dia, em outra localização totalmente diversa.

SÃO DUAS CIDADES. MAS ESTA SITUAÇÃO NÃO DURARÁ MUITO.