sexta-feira, 29 de outubro de 2010

ALÉM DAS MURALHAS DO SONO

POR H.P. LOVECRAFT

TRADUÇÃO: ARTHUR FERREIRA JR.'.

Titulo Original: Beyond the Wall of Sleep




Tenho muitas vezes imaginado se a maioria da humanidade alguma vez chega a refletir sobre a muitas vezes titânica relevância dos sonhos, e sobre o obscuro mundo ao qual eles pertencem. Embora a maior parte de nossas visões noturnas talvez não seja mais que reflexos tênues e fantásticos de nossas experiências despertas – Freud fazendo a ênfase com seu simbolismo pueril – existe ainda uma certa lembrança cujo caráter não-mundano e etéreo não permite uma interpretação normal, e cujo efeito vagamente excitante e inquietante sugere possíveis vislumbres temporários de uma esfera da existência mental não menos importante que a vida física, embora separada desta última vida por uma barreira quase impassável. A partir de minha experiência, não posso duvidar que o homem, quando perdido para a consciência terrestre, está de fato jornadeando até uma outra vida incorpórea, de uma natureza bastante diferente daquela que conhecemos, e da qual somente as mais frágeis e indistintas memórias sobrevivem após o despertar. A partir destas memórias borradas e fragmentárias podemos inferir muito, porém nada provar. Podemos adivinhar que nos sonhos, a vida, a matéria e a vitalidade, como a terra reconhece tais coisas, não são necessariamente constantes; e que o tempo e espaço não existem como nossos egos despertos os compreendem. Às vezes creio que esta vida menos material é nossa vida mais verdadeira, e que nossa presença vã no globo terráqueo é em si um fenômeno secundário, ou apenas virtual.




Foi de uma epifania juvenil cheia de especulações deste tipo que emergi uma tarde no inverno de 1900-1901, quando foi trazido para a instituição psiquiátrica estatal na qual eu servia como interno um homem cujo caso até então tem me assombrado sem cessar. Seu nome, conforme dizem os registros, era Joe Slater, ou Slaader, e sua aparência era a de um habitante típico da região das Montanhas Catskill; um dos herdeiros repelentes e estranhos de um extrato camponês colonial e primitivo, cujo isolamento os fez cair num tipo de degeneração barbárica, ao invés de avançar junto a seus parentes mais afortunadamente posicionados dos distritos enxameados. Entre este povo estranho, que correspondia exatamente ao elemento decadente do “lixo branco” no Sul, a lei e a moral eram não-existentes; e seu estado mental geral está provavelmente abaixo de qualquer outra seção do povo nativo-americano.




Joe Slater, que veio à instituição sob a custódia vigilante de quatro policiais estaduais, e que foi descrito como uma figura bastante perigosa, certamente não apresentava evidência alguma de dita disposição quando o observei pela primeira vez. Embora muito acima da estatura média, e de composição um tanto grosseira, ele passava uma impressão absurda de estupidez inofensiva, através do azul sonolento e pálido de seus olhos pequenos e molhados, o desleixo de sua barba amarelada, negligenciada e nunca aparada, e derrubar apático de seu lábio inferior. Sua idade era desconhecida, já que entre o seus, não haviam registros familiares, nem laços familiares permanentes; mas baseado na calvície da frente de sua cabeça, e da condição decaída de seus dentes, o cirurgião cerebral escreveu que tratava-se de um homem de mais ou menos quarenta anos.










A partir dos documentos médicos e legais, aprendemos tudo que podia ser coletado quanto a seu caso: este homem, um vagabundo, caçador de carnes e peles, sempre foi um estranho aos olhos de seus primitivos associados. Ele tinha hábito de dormir à noite por muito além do tempo normal, e ao acordar falava de coisas desconhecidas, de um modo tão bizarro que inspirava medo nos corações do populacho sem imaginação. Não que sua forma de linguagem fosse de fato incomum, pois ele nunca falava em outra língua que não o patuá degenerado de seu ambiente; mas o tom e teor de seus pronunciamentos eram de tal selvageria misteriosa, que ninguém conseguia ouvir sem apreensão. Ele próprio geralmente ficava tão aterrorizado e confuso quanto seus ouvintes, e depois de uma hora após o despertar, esquecia tudo que havia dito, ou pelo menos tudo que o havia feito dizer o que havia dito; voltando a uma normalidade bovina e quase amistosa como a de outros moradores das colinas.




Conforme Slater envelhecia, parecia que suas aberrações matutinas gradualmente aumentavam em frequência e agressividade; até que mais ou menos um mês antes de sua chegada na instituição, ocorreu a chocante tragédia que causou sua prisão pelas autoridades. Uma ocasião, perto do meio-dia, depois de um profundo sono começado numa farra de uísque mais ou menos às cinco horas da tarde anterior, o homem despertou muito subitamente, com ululações tão terríveis e alienígenas, que vários vizinhos vieram à sua cabina – uma pocilga nojenta onde ele vivia com uma família tão indescritível quanto ele mesmo. Investindo pela neve, ele abria os braços e começava uma série de saltos diretamente para cima, no ar; enquanto gritava sua determinação em alcançar alguma “grande, enorme cabine com a claridade no telhado e paredes e chão e a estranha e alta música lá longe”. Assim que dois homens de tamanho moderado buscaram contê-lo, ele lutou com força e fúria maníaca, gritando de seu desejo e necessidade de encontrar e matar uma certa “coisa que brilha e tremula e ri”. Após ter temporariamente derrubado um de seus captores com um golpe repentino, jogou-se sobre o outro num êxtase demoníaco de sede de sangue, berrando de modo atroz, que ele “pularia alto no ar e queimaria sua trilha através de qualquer um que o tentasse parar”.










Família e vizinhos agora fugiam em pânico, e quando o mais corajoso deles retornou, Slater havia sumido, deixando para trás uma mingau irreconhecível que antes havia sido um homem vivo, um hora antes. Nenhum dos montanhistas ousou perseguí-lo, e é provável que eles receberiam bem sua morte por hipotermia; mas quando várias manhãs depois, ouviram seus gritos vindos de uma distante ravina, perceberam que ele de alguma forma conseguira sobreviver, e que sua remoção, de um modo ou de outro, seria necessária. Então foi formada um grupo de busca armado, cujo propósito (qualquer que tenha sido a princípio) tornou-se o mesmo de uma equipe do xerife, após um dos pouco populares policiais militares estaduais ter, por acidente, observado e então questionado, e finalmente se juntado aos perseguidores.


No terceiro dia, Slater foi encontrado inconsciente no oco de uma árvore, e levado à cadeia mais próxima, onde os alienistas de Albany o examinaram tão logo da volta de seus sentidos. Para eles, Slater contou uma história simples. Ele havia, disse, ido dormir numa tarde, por volta do pôr do sol, após beber muito. Ele despertou, achando-se de pé, com as mãos sangrentas, na neve atrás de sua cabina, tendo o cadáver mutilado de seu vizinho Peter aos seus pés. Horrorizado, adentrou os bosques, num vago esforço de escapar da cena daquilo que deveria ter sido seu crime. Além destas coisas, ele não parecia saber mais nada, nem o questionamento perito de seus interrogadores trouxe mais um único fato sequer.




Naquela noite, Slater dormiu quieto, e na manhã seguinte, acordou sem anormalidades, salvo uma certa alteração da expressão. O doutor Barnard, que havia observado o paciente, pensou que notara nos olhos azul-pálido um certo brilho de qualidade peculiar, e nos lábios flácidos, um endurecimento quase imperceptível, como se numa determinação inteligente. Porém quando questionado, Slater caiu na vaguidade habitual de montanhista, e somente reiterou o que disse no dia anterior.




Na terceira manhã, ocorreu o primeiro dos ataques mentais do homem. Após alguma mostra de inquietude durante o sono, ele explodiu num frenesi tão poderoso que os esforços combinados de quatro homens foram necessários para prendê-lo a uma camisa-de-força. Os alienistas escutaram com atenção fervorosa suas palavras, já que sua curiosidade havia sido levada a um alto grau, pelas histórias sugestivas, embora bastante conflitantes, de sua família e vizinhos. Slater algaraviou por mais de quinze minutos, balbuciando em seu dialeto florestal, falando de edifícios verdes de luz, oceanos de espaço, música estranha, e montanhas e vales sombrios. Porém na maior parte do tempo, ele se detinha em alguma entidade misteriosa e flamejante que tremulava e ria e zombava dele. Esta personalidade vasta e vaga parecia ter feito a ele um terrível mal, e matá-la numa vingança triunfante era seu desejo principal. Para alcançá-la, dizia Slater, ele voaria pelos abismos do vazio, queimando cada obstáculo em seu caminho. Assim correu seu discurso, até que com grande súbito, parou. O fogo da loucura morreu em seus olhos, e em fascínio embrutecido, ele perguntou a seus questionadores por que estava preso. O dr. Barnard desfez as presilhas de couro e não as restaurou até a noite, quando conseguiu persuadir Slater a vesti-las por vontade própria, para seu próprio bem. O homem agora já admitia que às vezes falava estranho, embora não soubesse o porquê.



Dentro de uma semana, mais dois ataques se sucederam, mas deles, os médicos pouco aprenderam. Quanto à fonte das visões de Slater, muito foi especulado, já que ele não podia nem ler nem escrever, e aparentemente jamais ouvira uma única lenda ou conto de fadas, fazendo com que sua imagética extravagante fosse muito pouco explicável. O fato de que não vinha de qualquer mito ou romance conhecido, tornava-se demasiado claro pelo fato do infeliz lunático expressar-se apenas de sua própria maneira simples. Ele algaraviava sobre coisas que não compreendia e nem podia interpretar; coisas que ele clamava ter experimentado, mas que ele não poderia ter aprendido através de nenhuma narração normal ou conexa. Os alienistas logo concordaram que sonhos anormais eram a fundação do problema: sonhos cuja vividez poderia por um tempo dominar de todo a mente desperta deste homem basicamente inferior. Com a devida formalidade, Slater foi julgado por assassinato, inocentado pela alegação de insanidade, e enviado à instituição onde eu mantinha um posto bastante humilde.

Já disse que sou um especulador constante quanto à vida onírica, e a partir disto, vocês podem julgar a avidez com que eu me aplicava ao estudo do novo paciente, tão logo avaliara de todo os fatos de seu caso. Ele parecia sentir uma certa amizade em mim, nascida sem dúvida do interesse que eu não conseguia ocultar, e da maneira gentil com que eu o questionava. Não que ele jamais me reconhecesse durante seus ataques, quando eu ficava sem fôlego com seus retratos verbais cósmicos tão caóticos; mas ele me reconhecia em suas horas quietas, quando ele sentava ao lado de sua janela com grades, fiando cestos de palha e salgueiro, e talvez com nostalgia da liberdade montanhista que jamais poderia de novo desfrutar. Sua família jamais buscou vê-lo; provavelmente ela descobriu outro chefe de família temporário, à maneira do povo decadente das montanhas.

Com o passar do tempo, comecei a sentir um enorme fascínio pelas concepções loucas e fantásticas de Joe Slater. O próprio homem era piedosamente inferior, tanto em mentalidade quanto em linguagem; mas suas visões brilhantes e titânicas, embora descritas num jargão bárbaro e desconexo, certamente falavam de coisas que somente um cérebro superior, ou mesmo excepcional, poderia descrever. Como poderia, muitas vezes me perguntava, a imaginação imperturbável de um degenerado das Catskill conjurar tais vislumbres cuja própria posse demonstrava uma centelha de gênio à espreita? Como algum estúpido da floresta poderia ter conseguido alguma ideia assim dos reinos brilhantes de radiância e espaço supernos dos quais algaraviava Slater em seu delírio furioso? Cada vez mais, inclinava-me à crença de que sob a lamentável personalidade que se encolhia perante mim, estava o núcleo desordenado de alguém além da minha compreensão; algo infinitamente além da compreensão dos meus colegas médicos e científicos mais experientes, embora menos imaginativos.

E ainda assim, não conseguira extrair nada definitivo do homem. A soma de toda a minha investigação foi de que, num tipo de vida onírica semi-corpórea, Slater vagava ou flutuava por vales, prados, jardins, cidades e palácios de luz resplandecentes e prodigiosos, numa região sem limites, desconhecida do homem; que ele não era nenhum camponês ou degenerado, mas uma criatura de importância e vividez, movendo-se orgulhosa e dominantemente, detida apenas por um certo inimigo mortal, que parecia um ser de estrutura visível, embora etérea, e que não parecia ter forma humana, já que Slater jamais referia-se a ele como um homem, mas como uma coisa. Esta coisa fizera a Slater algum mal sem nome, que o maníaco (se é que era um maníaco) buscava vingar.

Pela maneira com que Slater aludia a estes encontros, julguei que ele e a coisa luminosa encontravam-se em termos iguais; que em sua existência onírica, o homem era ele mesmo uma coisa luminosa da mesma raça de seu inimigo. Esta impressão foi sustentada por suas frequentes referências a voar pelo espaço e queimar tudo que impedia seu progresso. Ainda assim, estas concepções eram formuladas em palavras rústicas, totalmente inadequadas à sua transmissão, uma circunstância que me levou à conclusão de que se de fato existia um mundo onírico, a linguagem oral não era o seu meio de transmissão de pensamento. Podia ser que a alma onírica que habitava este corpo inferior estava desesperadamente lutando para falar coisas que a língua simples e restrita da estupidez não conseguia pronunciar? Podia ser o caso que eu estaria para encontrar emanações intelectuais que explicariam o mistério, se apenas pudesse conseguir como descobri-las e lê-las? Não contei aos médicos mais velhos sobre estas coisas, já que a meia-idade é cínica, cética e sem inclinações a aceitar novas ideias. Além disso, o chefe da instituição havia há pouco me advertido, à sua maneira paternal, que eu estava trabalhando demais; que minha mente precisava de um descanso.






Há muito tempo, creio que o pensamento humano consiste basicamente de movimento atômico ou molecular, convertível em ondas ou energia radiante, como o calor, a luz e a eletricidade. Esta crença desde já me havia levado a contemplar a possibilidade da telepatia ou da comunicação mental, através de um aparato adequado, e em meus dias de faculdade preparei um conjunto de instrumentos de transmissão e recepção de certo modo similares aos aparelhos complicados empregados na telegrafia sem fio, naquele período rudimentar anterior ao rádio. Testei aqueles aparelhos com um colega estudante, mas sem alcançar resultado algum, logo os empacotei junto com outros obstáculos e finalidades científicas para possível uso futuro.



Agora, em meu intenso desejo de sondar a vida onírica de Joe Slater, busquei mais uma vez esses instrumentos, e passei vários dias reparando-os para a ação. Quando estiveram mais uma vez completos, não perdi a oportunidade de testes. A cada surto de violência de Slater, ajustaria o transmissor à sua testa e o receptor à minha, constantemente fazendo arranjos para vários comprimentos de onda hipotéticos de energia intelectual. Tinha uma noção mínima de como as impressões de pensamento, caso transmitidas com sucesso, despertariam uma reação inteligente em meu cérebro, mas tinha certeza de que poderia as detectar e interpretar. Portanto, continuei meus experimentos, embora sem informar a ninguém sobre sua natureza.

Foi no dia 21 de fevereiro de 1901 que a coisa aconteceu. Quando olho para trás, com o passar dos anos, percebo o quão irreal a coisa parece, e às vezes imagino se o velho doutor Fenton não estava certo quando creditou tudo à minha imaginação empolgada. Lembro que ele ouviu com grande gentileza e paciência ao que eu lhe dizia, mas depois me receitou uma medicação para os nervos e fez os preparativos para férias de um semestre, para as quais partir na semana seguinte.

Naquela noite fatídica, eu estava altamente agitado e perturbado, porque apesar do excelente cuidado que recebia, Joe Slater sem dúvida estava morrendo. Talvez porque tinha saudade de sua liberdade de montanhista, ou talvez o tumulto em seu cérebro houvesse chegado a um ponto prejudicial em seu físico um tanto inerte; mas em todo caso, a chama da vitalidade começava a diminuir naquela corpo decadente. Ele sentia-se sonolento perto do fim, e conforme a escuridão caía, ele entrava num sono conturbado.

Eu não afixei a camisa-de-força, como era costume quando ele dormia, já que via que o paciente estava muito frágil para ser perigoso, mesmo que acordasse em desordem mental mais uma vez, antes de falecer. Porém pus em sua cabeça e na minha as duas extremidades de meu “rádio” cósmico, esperando, contra todas as probabilidades, que a primeira e última mensagem do mundo onírico viesse, no breve tempo que restava. Conosco na cela estava uma enfermeira, companheira medíocre que não compreendia o propósito do aparato, ou sequer pensava em perguntar do que se tratava. Conforme as horas escoavam, eu via sua cabeça escorregar pateticamente no sono, mas não o perturbei. Eu mesmo, embalado pela respiração rítmica do homem saudável embora moribundo, devo ter cabeceado um pouco depois.








Foi o som da bizarra melodia lírica que me despertou. Coros, vibrações e êxtases harmônicos ecoavam passionais, a todo momento, enquanto em minha visão fascinada explodia o estupendo espetáculo da beleza definitiva. Muralhas, colunas, e arquitraves de fogo vivo ardiam refulgentes ao redor do ponto onde eu parecia flutuar no ar, estendendo-se para cima até um domo abobadado infinitamente alto, de esplendor indescritível. Misturando-se a esta demonstração de magnificência palaciana, ou na verdade às vezes suplantando-o na rotação caleidoscópica, mostravam-se vislumbres de planícies amplas e vales graciosos, montanhas altas e grutas convidativos, cobertas de cada atributo amável do cenário que meus olhos deslumbrados poderiam conceber, embora formados totalmente de alguma entidade plástica, etérea e brilhante, que compartilhava da consistência tanto do espírito quanto da matéria. Conforme eu me transfixava, percebia que meu próprio cérebro tinha a chave para estas metamorfoses encantadoras; pois que cada visão que aparecia perante mim era aquela que minha mente mutável mais queria contemplar. Em meio a este reino elísio, eu não vagava como estranho, pois cada visão e som eram a mim familiares; da mesma forma que havia sido por incontáveis éons de eternidade antes, haveria de ser pelas eternidades por vir.

Então a aura resplandecente de meu irmão de luz se aproximou e começou o colóquio comigo, de alma para alma, num intercâmbio silencioso e perfeito de pensamentos. Era a hora do triunfo se aproximando, pois meu ser companheiro não estava escapando por fim de uma prisão periódica; estava escapando para sempre, e preparando-se para seguir o opressor amaldiçoado até os mais longínquos campos de éter, onde sobre ele seria imposta uma vingança cósmica flamejante, capaz de estremecer as esferas? Flutuamos assim por pouco tempo, quando percebi uma leve distorção e desvanecimento dos objetos ao nosso redor, como se alguma força me estivesse chamando da terra – onde eu menos desejava ir. A forma próximo de mim pareceu também sentir uma mudança, e ela mesmo preparou-se para encerrar a cena, sumindo de meu campo de visão numa rapidez um tanto maior que a dos outros objetos. Conforme mais uns poucos pensamentos foram trocados, soube que o ser luminoso e eu estávamos sendo chamados à prisão, embora para meu irmão de luz fosse a última vez. A lamentável casca planetária seria em breve desgastada de vez, e em menos de uma hora meu companheiro estaria livre para perseguir seu opressor pela Via Láctea e além das mais distantes estrelas, até os últimos confins do infinito.




Um choque bem-definido separa minha impressão final da cena de luz fugaz de meu súbito e um tanto envergonhado despertar, e me ajeitei na cadeira quando vi que a figura moribunda no sofá movia-se com hesitação. Joe Slater estava de fato despertando, embora provavelmente pela última vez. Conforme o observava mais de perto, enxerguei em seu rosto macilento o brilho de pontos de cor que jamais havia estado presentes anteriormente. Os lábios, também, pareciam incomuns, comprimidos com força, como se por força de um caráter mais forte do que o normal de Slater. Toda a face finalmente começava a ficar tensa, e a cabeça virava-se inquieta, com os olhos fechados.

Não acordei a enfermeira adormecida, mas reajustei a faixa um tanto desarranjada de meu “rádio” telepático, tentando capturar qualquer mensagem de adeus que o sonhador estava querendo transmitir. E de súbito a cabeça voltou-se direto para mim e os olhos se abriram, fazendo-me fitar em fascínio vazio ao que presenciava. O homem que havia sido Joe Slater, o decadente das Catskill, estava me observava com um par de olhos luminosos e expandidos, cujo azul parecia ter se aprofundado sutilmente. Nem a mania, nem a degeneração eram visíveis neste olhar, e senti, além de toda dúvida, que estava contemplando um rosto sob o qual estava uma mente ativa da mais alta ordem.

Nesta junção, meu cérebro ficou ciente de uma influência externa operando sobre ele. Fechei meus olhos para concentrar meus pensamentos com mais profundidade, e fui recompensado com o conhecimento positivo de que minha mensagem mental, há muito buscada, finalmente havia chegado. Cada ideia transmitida era formada com rapidez na mente, e embora nenhuma linguagem atual fosse empregada, minha associação habitual de concepção e hábito era tão grande que parecia receber a mensagem em inglês normal.








“Joe Slater está morto,” veio a voz, capaz de petrificar a alma, de alguém além das muralhas do sono. Meus olhos abertos buscaram o tom da dor, em curioso horror, porém os olhos azuis ainda estavam observando com calma, o semblante ainda estava animado por inteligência. “É melhor que ele esteja morto, pois não era adequado para suportar o intelecto ativo da entidade cósmica. Seu corpo grosseiro não podia aguentar os ajustes necessários entre a vida etérea e a vida planetária. Ele era demasiado animal, e pouco homem; ainda assim, através da deficiência dele, você veio a me descobrir, pois as almas cósmicas e planetárias na verdade jamais deveriam se encontrar. Ele foi meu tormento e prisão diurna por quarenta e dois de seus anos terrestres.

“Eu sou uma entidade como aquela que você mesmo se torna na liberdade do sono sem sonhos. Sou seu irmão de luz, e já flutuei contigo em vales refulgentes. Não me é permitido falar a seu eu desperto da terra sobre seu eu real, mas somos todos errantes dos vastos espaços e viajantes em muitas eras. No ano seguinte, posso estar habitando o Egito que você chama antigo, ou no império cruel de Tsan Chan, que deverá vir daqui a três mil anos. Você e eu já vagamos pelos muindos que rolam ao redor da Arcturus vermelha, e habitamos os corpos de insetos-filósofos que rastejam orgulhosos sobre a quarta lua de Júpiter. Quão pouco este eu terráqueo conhece a vida e sua extensão! Quão pouco, de fato, embora seja para sua própria tranquilidade!

“Quanto ao opressor, não posso dizer nada. Vocês na terra, com certeza, já sentiram sua presença distante – vocês que, sem saber, deram merecidamente ao facho pulsante o nome de Algol, a Estrela-Demônio. É para encontrar e conquistar o opressor que tenho lutado em vão por éons, aprisionado pelos fardos corpóreos. Hoje, irei como nêmesis, impondo a justa, ardente e cataclísmica vingança. Observe-me no céu próximo à Estrela-Demônio.

“Não posso mais falar, pois o corpo de Joe Slater fica cada vez mais frio e rígido, e o cérebro rude cessa de vibrar como eu desejaria. Você foi meu único amigo neste planeta – a única alma que pôde sentir e buscar por mim dentro da forma repelente que jaz neste sofá. Nos encontraremos novamente – talvez nas brumas brilhantes da Espada de Orion, talvez num platô macabro da Ásia pré-histórica, talvez em sonhos desta noite que você não conseguirá lembrar, talvez em outra forma daqui a um éon, quando o sistema solar já haverá sido varrido para longe.”









Neste ponto as ondas de pensamento cessaram abruptamente, os olhos pálidos do sonhador – ou devo dizer do cadáver? – começaram a ficar vítreos, aquosos. Em meio a um quase estupor, fui até o sofá e avaliei o pulso, mas o achei frio, rígido, sem ritmo. O rosto macilento ficava mais pálido, e os lábios grossos caíam abertos, mostrando as presas repulsivamente podres do degenerado Joe Slater. Senti um calafrio, puxei um cobertor sobre a face horrenda, e acordei a enfermeira. Então deixei a cela e fui em silêncio até minha sala. Senti um ímpeto instantâneo e inexplicável de dormir, num sono cujos sonhos não conseguiria lembrar.

O clímax? Que história plana da ciência pode exibir tal efeito retórico? Eu apenas registrei certas coisas que me pareceram fatos, permitindo a vocês construí-los como desejar. Como já admiti, meu superior, o velho doutor Fenton, nega a realidade de tudo que relatei. Ele jura que eu fui alquebrado pelo estresse nervoso, e que estava muito necessitado de férias longas, totalmente remuneradas, que ele, generoso, me concedeu. Ele me assegura, por sua honra profissional, que Joe Slater não passava de um paranoico de baixo grau, cujas noções fantásticas deviam provir de histórias folclóricas rudimentares e hereditárias, circulando até nas mais decadentes das comunidades. Tudo isto ele me disse – embora eu não possa esquecer o que vi na noite depois da morte de Slater. Antes que pensem que sou uma testemunha tendenciosa, outra caneta deve terminar este testemunho final, que talvez possa proporcionar o clímax que esperam. Citarei o seguinte registro da estrela Nova Persei, exatamente como está nas páginas daquela eminente autoridade astronômica, o professor Garrett P. Serviss:

“Em 22 de fevereiro de 1901, uma nova e maravilhosa estrela foi descoberta pelo doutor Anderson, de Edinburgo, não muito longe de Algol. Nenhuma estrela era visível ali, até aquele dia. Dentro de vinte e quatro horas, a estrela estranha brilhou tão forte que superou Capela. Numa semana ou duas, havia visivelmente diminuído, e no decorrer de uns poucos meses era pouco discernível pelo olho nu.”






quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Noite Clara: UM BLOCO DE PEDRA


 Capítulo IV



UM BLOCO DE PEDRA desprotegido ante a erosão do tempo.

Era assim que me sentia naquela noite chuvosa: as dúvidas corroíam meus pensamentos, e dentre estas, a mais dolorosa era a dúvida de como fazer meu relatório para a chefe. Tâmara Diegues era uma mulher exigente, meticulosa, perfeccionista, muitas vezes ríspida. Acima de tudo era a rispidez que me causava o medo, medo da humilhação frente a meus colegas patrulheiros.
Era quase possível vislumbrar a pele bronzeada, vívida, da Coronel Diegues contrastando com as luzes indiferentes e profissionais da Base 17; postura levemente curvada para frente, dedo estendido na minha direção, olhos franzidos num cenho de desaprovação, as pupilas negras brilhando de raiva. Suponho que era mais humilhante receber um sermão gritado, em público, dela, do que de todos os velha-guarda do antigo Exército. Ela era uma mulher, afinal de contas – as coisas não haviam mudado tanto assim, pelo menos no íntimo das pessoas. Em seu verdadeiro centro, elas ainda eram preconceituosas; e assim eram meus colegas.

É claro que o tal preconceito contra mulheres em cargos de alta patente militar não teria mais como se aplicar de verdade ... se havia uma palavra para definir as novas políticas, essa palavra era o pragmatismo. Haviam poucos velha-guarda deixados vivos, simplesmente porque velha-guardas tendem a ser mais velhos que recrutas, e os mais velhos, por mais durões que fossem, tinham menos resistência física e poucos sobreviveram ao choque e impacto da Noite Clara.

A Noite Clara ... não só esta data marcou o mundo, treze anos atrás, como era de fato a razão tanto para eu encarar a Coronel Diegues, quanto para a pobreza do relatório que eu teria que apresentar a ela. Treze anos atrás, 17 de agosto de 2012, marquem bem esta data, quem quer que esteja lendo este diário interno (quem sabe o diário registra a outro cataclisma como aquele e esta seja a primeira referência sobre a Noite Clara que você esteja lendo!). Além da fonte de meus deveres, meus problemas e meus ... poderes, a Noite Clara também é a razão pela qual nossa atual população mundial é de 23 milhões de pessoas.

Sim, muito pouco comparado aos bilhões que antes havia. Nada de ruas abarrotadas, nem de engarrafamentos, nem mesmo falta de moradia ... nada destes incômodos que eu bem sofria quando era adolescente. Eu tinha 14 anos e talvez seja o único de minha grande e (certo, sentimento de culpa básico ao dizer isso) chata família que sobreviveu. Um mundo numa perpétua crise, um estado de tensões que foi quebrado por um clarão, um flash no escuro da noite de 17 de agosto.

Meu relatório, embora necessariamente pobre, já está pronto (inclusive para ser chamado de prova de incompetência, apesar de eu saber bem a causa das minhas omissões) e só devo ir à Base daqui a cerca de duas horas e meia. Sendo assim, umas poucas lembranças devem me distrair da ansiedade. De fato, é para isso que serve o diário interno: um dos programas mais amigáveis dos nano-computadores em meu organismo serve para registrar meus pensamentos e permitir uma análise posterior, mas recitar mentalmente uma narrativa com certeza serve para me aliviar de angústias quando penso no futuro ... por mais doloroso que tenha sido o passado.

Bem, pelo menos é uma dor já conhecida. Vamos relembrá-la, então … a Noite Clara.



Eu estava correndo pelo quarteirão, dando a terceira volta. Eram cerca de oito e meia da noite, e o quarteirão que eu circulava ficava dentro do condomínio de minha família. De todas as características marcantes desse condomínio, a segurança era a mais agradável … pelo menos para quem estava dentro. Para quem estava fora, e queria entrar por alguma razão, normalmente encarada como criminosa, o choque nos muros eletrificados ou o espancamento nas mãos dos guardas de segurança eram uma punição adequada, embora não seja esta ameaça de punição o que tornava meu condomínio mais eficiente em termos de segurança: era sua vigilância – vigilância interna, inclusive: eu sabia que, ao dobrar aquela esquina, pelo menos dez câmeras pequenas e camufladas estariam filmando meu desempenho esportivo.

Ninguém estaria apreciando meus recordes pessoais de velocidade, é claro. A preocupação era outra. Não com ele, morador registrado, filho de proprietária, mas com prováveis intrusos. O sentimento de paranoia era, ali, algo institucional, e portanto, algo tolerado, tido como necessário e facilmente subestimado … absorvido.

Pouco antes que eu começasse a sentir um frêmito estranho em meus músculos, e imaginasse que era o cansaço prematuro (eu era considerado um futuro atleta), com certeza os eventuais vigias que observavam das câmaras estavam sendo absorvidos por sua paranoia interna. Depois de um tempo soube que nenhum deles sobreviveu à Noite. Um esplendor na mente, o juízo queimado por esse clarão, a razão toldada e maculada de forma tão lancinante e total que não era possível nem se mexer, para expressar a loucura que a Noite trouxe. Morte cerebral instantânea.

Muitos, muitos morreram. Alguns conseguiram de alguma forma não ter sua mobilidade roubada e saíram num louco frenesi destruindo tudo como se estivessem possuídos, numa insana fúria contra a substância do mundo material, que só terminou com uma horrenda morte por puro esgotamento do sistema nervoso. Ainda outros penetraram num longo sono até hoje não terminado, e uns poucos que foram atendidos mais tarde e a tempo estão em hospitais especiais com o diagnóstico de coma sobre seus leitos. E uma quantidade ainda menor do que os que caíram em coma naquela Noite abriu os olhos com a mente tomada em chamas e percebeu que nenhum deles era mais como era antes.

O Dom da Noite Clara havia sido forçado sobre esses sobreviventes.






Eu fui um desses sobreviventes, e dentro dessa nata faço parte de outra elite – aqueles cujo Dom é forte, mas não tão forte a ponto de enlouquecer … muito. Eu mesmo tenho sonhos perturbadores, e uma fortíssima sensação de desassociação muitas vezes toma conta de mim, como se eu fosse um bonequinho controlado a distância pelo meu verdadeiro eu. Em compensação, consigo ler mentes e objetos. Me dê tempo para concentração suficiente, concentração firme como um bloco de pedra, e eu posso ler – sim, ler, não consigo ouvir pensamentos – o que acontece dentro da sua cabeça. Leio a história de objetos e locais como se fossem linhas de dados criptografados.

Todos os sobreviventes são assim: a diferença está no grau do poder e no grau de loucura: e esse grau é sempre o mesmo. A mesma proporção irônica. É como se um mordaz senso de equilíbrio sugerisse: o poder corrompe, e o poder absoluto corrompe absolutamente. Esta frase é muito mais verdadeira quando se observa aqueles que meu dever militar impõe como alvos: as abominações de poder e loucura extremos. Como Nicholas Frost, famoso americano capaz de incendiar uma cidade pequena quando fica enraivecido; ou a Cipoal, alcunha de uma mulher que estende tentáculos telepáticos de insanidade pelos sonhos de um centésimo da população.

A população … a grande maioria da população não é nem como eles, nem como eu e meus colegas. A capacidade antes extraordinária de torcer o metal de uma colher, acompanhada de tiques nervosos quase constantes – este é um exemplo do Dom da Noite Clara agindo sobre uma pessoa comum, um daqueles que as patrulhas protegem.

Eu posso ter meus problemas ocasionais – um dia a desassociação foi tão forte que fiquei catatônico por seis horas – mas sou considerado confiável – e útil – o suficiente para ser recrutado pelo governo. E não há muita escolha para nós de poder intermediário. Ser classificado como um patrulheiro em potencial, e recusar, ou ser considerado inútil por razões de confiança (alguns chamariam de razões de moralidade, mas não sou tão otimista: que moralidade convencional imporia assassinato?), significa quase sempre preso por alguma razão pretextuosa. Quase sempre.

E aí está, acabei voltando para a razão da minha ansiedade quanto ao maldito relatório. O diário que serviria para relaxar acaba me deixando mais nervoso. Quando um recruta em potencial se recusa, e foge do treinamento pela patrulha, alguém deve apresentar um relatório sobre o caso. Esse alguém era eu. As omissões no relatório eram deliberadas, visando proteger a futura recruta. E eu sei que a Coronel Diegues desconfiaria. Era inevitável. Mas por enquanto não poderia provar nada, só me pressionar. E ela teria seus meios de reforçar a pressão ...



Mudança no Ar?


IMAGEM MERAMENTE ILUSTRATIVA?
Pelo que estou lendo, algumas cenas de http://insanemission.blogspot.com/2010/10/misterios-do-horizonte.html vão ser com esta música tocando na própria cena.





http://www.youtube.com/watch?v=WPpDyIJdasg&feature=share

terça-feira, 26 de outubro de 2010

MISTÉRIOS DO HORIZONTE

Por The Grey Knight e Neith War

Houve um momento em que o desejo superou o medo, mas esse momento foi embora. E ali, paralisado no meio da auto-estrada, Dionísio se perguntava o que fazer.



...


E eu também me perguntei o que fazer !
Quando este conto for terminado por Neith e eu, ele será postado neste mesmo bat-canal.


sábado, 23 de outubro de 2010

Ode Pseudo-Emo a Azathoth


Um som de flautas a emanar da câmara oculta
Sombras dançam suavemente a seguir o ritmo hipnótico
Uma opressiva consciência guia os passos dessa procissão.


Um paradoxo reinante sobre a estrutura do universo,
A leveza e a elegância de um fluxo de energia livre
Entrelaçadas ao peso esmagador desta consciência opressiva.


O presságio do futuro inevitável
O desespero de quem antevê a própria morte
É este o fado da matéria, esmagada contra si mesma.
A consciência opressiva bloqueia a tudo e a todos e a si mesma.


Uma insensibilidade cinzenta toma conta da mente cósmica.
Uma zona de possibilidades estranhas antes remotas
Lentamente se instala sobre a prisão da carne onde vivemos.
Uma opressiva consciência finalmente nos enreda e imobiliza.


Oh, extremo anseio de liberdade!
Oh, extremo desejo de um dia esta presença sufocante desfazer-se!
Quem sou, quem é você, estamos todos esmagados na existência!
Todos juntos num mesmo barco a viajar num mar de sombras,
Sombras da nossa própria cegueira que impele um tumulto insano:
Um turbilhão de violências desferidas contra nós mesmos.
Os sobreviventes terão perguntado se terá valido a pena sobreviver.


E mesmo após todo um éon que se desenrolou nesta luta medonha
Um macabro amanhecer se desenha em nossas mentes a cada dia
A esperança da fuga, a fé num sangue derramado que nos redimirá
Das atrocidades que contra nós mesmos cometemos.
Nosso crime será nossa própria salvação, devoramos nossa própria carne,
Bebemos nosso próprio sangue, como uroboros o tempo é infinito para nós.
Será que perceberemos um dia que o ciclo deve ser quebrado?


Vida, existência, opressiva consciência!

A Luz Escarlate


poema em honra de uma amiga desaparecida

Um flash, um insight
Uma sombra, uma incerteza, uma radiância sutil
Um vislumbre do que é e do que jamais será
Uma face encoberta pelo que há de mais ilusório: a sinceridade.

Será essa máscara o real rosto da menina
Que se esconde sob a luz escarlate?
Será o redemoinho ao seu redor
A sua vida, carnal – ah, tão carnal como pode ser um coração vermelho
A sua vida exposta em tão curto e complicado painel?

Os raios escarlates da luz avassaladora, porém sutil
Lentos, se espalham por todo o corpo da menina.
Cruel e gentilmente,
Revelam os detalhes e as formas do seu corpo
Um corpo que é, há um só tempo, miragem intangível e solidez erótica
Nas mentes, nos corações e nos sexos daqueles que a contemplam.

Os seios, descobertos, merecem mais do que a admiração
O ventre, nu, merece mais do que só a imaginação
Os quadris, à mostra, merecem mais do que uma só mão
A acariciá-los – mesmo que as mãos passem para
O destino final de todos os adoradores dessa deusa,
Mesmo que à distância - que é o refúgio secreto entre suas pernas,
A prisão que bane todos os desejos e segredos para um mar de esquecimento divino!

desabafo





sobre os abortos sincrônicos da sensibilidade plástica,
de Domenico


Às vezes sinto como se estivesse dentro da curva entre o que mergulha
E o que não consegue emergir
e os instintos naufragassem ao menor grito de alarma
tempestades chorando por não serem derramadas
relâmpagos inutilmente esperando por serem consumidos


Às vezes sinto como se estivesse fora do ninho
e os sorrisos fugissem ao menor sinal meu
ventos correndo em direção oposta ao tempo
entrepostos vigiando cada passo que dou


Às vezes sinto como se estivesse vertendo espinhos
e a malícia, tantas vezes experimentada,
escorregasse em pânico ante os mais tolos desejos reprimidos


Às vezes sinto como se estivesse resistindo demais
e a massa crítica, pronta para explodir,
submergisse num sub-reino de idéias que não foram realizadas


Atormenta mais, Ereshkigal, necrófaga insaciável de sensações descartadas!
Dilacera mais, Inanna, voraz incitadora dos prazeres humanos e desumanos!
Porque eis, não mais me importo
E contra as irmãs, praga ou maldição não lançarei,
Posto contra deusas inutilidade seria,
Mas contudo fiquem amordaçadas no esquecimento,
Enquanto ejaculo o mais sagrado desprezo na face de vós duas.













ps. como eram uma merda esses poemas da década passada!!!

Estaca de Amor



por Desdêmona


O Amor é uma estaca da madeira da Árvore do Conhecimento
Do Bem e do Mal, que me empala o coração de maçã,
Abrindo-me os olhos para as ilusões do desejo.
Faz-me sangrar de dor e prazer, faz-me chorar de ciúme e saudade,
Com o coração a chorar e os olhos a sangrar.


Retirar a fatídica estaca do coração aflito somente
O faz ficar vazio, sequioso da plenitude que apenas
O Amor pode oferecer. Valeria mesmo a pena rechear
A ferida com o fluido empestado do Ódio,
Que me invariavelmente domina após a partida do Amor?


Assaz imperiosa a transposição das barreiras entre o Amor
E o Ódio; assaz necessária a alquímica fusão dos opostos.
A gangrena hedionda do ódio me infecciona o peito,
Escandalizando-me; como o Cristo assim recomendou,
Corto-o fora! E no monte de esterco ficará o coração abandonado.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Senhora da Dor e do Prazer - 2a. Estrofe

Um mantra secreto de dor, prazer e blasfêmias transformadas em bênçãos inesperadas ...
O corpo dela brilha ao luar escarlate
Uma sombra acaricia as curvas insanas do corpo desta mulher misteriosa
É a Senhora da Dor e do Prazer
Que faz a própria escuridão se curvar e lamber-lhe os pés altivos.
Eu estou dentro das sombras, eu sou a sombra!
Eu sou Pai Escuridão e Cavaleiro Cinzento, zombando da aurora que teima surgir.
E nos últimos momentos da madrugada febril
Eu sinto o cheiro embriagador da minha Senhora ... ela me chama e já estou em seu corpo.
A dor e o prazer percorrem nossos corpos sedentos:
Os frêmitos da alucinação nos dominam, e o corpo da Senhora me cavalga,
Revelando a visão de sua carne de ninfa da floresta infestada de demônios.
Uivo ao sentir seu escorrer sobre meu corpo,
Sou dilacerado, mas sendo sombra,
Sempre volto a existir dentro dela -- sentindo a dor e o prazer eternos
Que são essa carne e alma num só turbilhão de seios, curvas, esse eclipse eterno!


terça-feira, 28 de setembro de 2010

O FAROL NA ESCURIDÃO




por Arthur Ferreira Jr .'.



As sombras da noite sem dúvida despertam a imaginação humana, e existem aqueles que, mesmo afirmando serem crescidos, ainda sentem calafrios diante do escuro da noite. E se há uma noite que todos tememos, pois ela é ainda mais inescapável que o ciclo alternante da noite mundana, é a noite da mente – o desconhecido, o inconsciente, os sonhos rapidamente esquecidos durante o café da manhã, mas que não deixam de distorcer o ânimo dos sonhadores, bem de leve, durante o resto do não tão abençoado dia.

        Dessa noite da mente, fugimos toda vez que adormecemos, ficando às margens de seu abismo estranhamente familiar. Nossos sonhos se dão nessa zona liminar, nessa região de obscuridade psíquica. Às vezes sonhos iluminados reluzem em nossa mente, trazendo ideias, epifanias, alívios – e são esses sonhos, essas tochas solitárias em meio à zona uivante que cerca o abismo da noite da mente, que nos impelem a cada período de vinte e quatro horas a buscar o sono, quando um atordoamento insidioso teima – e consegue – nos dominar.

        Somos como mariposas atraídas por esses fachos de luz na zona limítrofe – centelhas que nos revigoram para o dia seguinte, mas que, infelizmente, também acabam nos expondo aos perigos do abismo além do sonhar. Existem sendas e caminhos, nessa zona pouco compreendida, que desembocam como rios do além, no caos oceânico desse abismo.

        E muito embora o medo desse abismo esteja sempre presente e oculto em nossa espécie humana, existem aqueles que sentem um fascínio quase mórbido pela obscuridade que se move dentro de nós … da mesma forma que o restante da humanidade é atraída pelos fogos-fátuos de inspiração que brilham nas zonas oníricas mais próximas da consciência.

        Eu sou um desses fascinados, e o preço que pago por isso é grande.





Meu nome, antes que perguntem, é Virgílio de Almeida. Nome vulgar, admito, mas acredito que eu mesmo esteja pouco perto de ser vulgar, dadas as coisas que instintivamente sei e que outros se esforçam anos para descobrir.

        Nasci numa cidade-satélite de uma metrópole bem maior. Embora oficialmente pertencente ao município da grande cidade, quase um subúrbio, um parasita urbano inchado, de casinhas coladas umas às outras, *** era de caráter bastante distinto da urbe maior a qual estava agarrada. Soturna, de ruas e casas manchadas pela poluição de uma refinaria próxima, cheia de jardins malcuidados, árvores tomadas de trepadeiras, chácaras em mau estado e muros cobertos de hera – a região era uma verdadeira erva daninha, se comparada à vivacidade da quase capital.

        Irônico que me refira assim nesses termos à minha terra natal, quando na verdade me sinto esquisitamente confortável dentro dela. Na verdade, uma fobia mal explicada me assola quando saio de ***, sendo que um semestre de estudos fora de seus limites, há cerca de um ano e pouco, me custou uma rotina quase insuportável de pesadelos, nervosismo e ansiedade beirando a paranoia.

        Pode-se dizer então que, da mesma forma que *** drena a vida da cidade maior a que é pegada, eu dependo da estranha vidinha de ***, especialmente sua vida noturna – em mais de um sentido.

        Carente de bares e botequins onde jogar conversa fora, os habitantes de *** desenvolveram o hábito e costume de fazer serões nos jardins de suas casas, muitas vezes jogando cartas e bebericando vinhos. Nesses serões escutei muitas histórias estranhas, e com o passar do tempo, concatenando fatos a epifanias internas, observações a reflexões, pude notar um grande padrão que se impõe nas conversas noturnas de *** – padrão feito de sonhos. Era costume comentar que sonhos haviam tido na noite anterior, ou mesmo durante a sesta (parece que o número de pessoas que podiam se dar ao luxo da sesta, especialmente as que trabalham em casa, é desproporcionalmente alto em ***). Ora, passar a adolescência ouvindo relatos dos sonhos alheios me chamou imensamente a atenção – apesar dos meus conterrâneos, chega a ser estranho, na verdade darem pouquíssima importância aos sonhos. Para eles, sonhos eram moeda banal de troca, de conversação quase fática, que trocavam tão inconscientemente quanto todos nós pomos num reflexo a mão no bolso quando compramos algo.

        Essa atenção era fruto de uma sensibilidade aguçada a padrões e conceitos. Meu pai, homem de idade já avançada quando nasci, era um matemático dedicado e, embora não tivesse exercido profissionalmente, também um linguista – imagino que se ele próprio tivesse nascido algumas décadas depois, com certeza teria se dado muito bem no campo da linguagem de computadores. Tendo me criado praticamente sozinho após a prematura morte de minha mãe, vinte e três anos mais nova que ele, essa figura paterna que há cerca de seis meses foi voluntariamente morar num asilo geriátrico exerceu grande influência sobre mim, com certeza bem mais que minha mãe morta, ou minha tia solteirona que morava conosco e mal conseguia conversar direito.

        Meu velho pai tinha, como vários de sua rua, o costume de frequentar os serões de ***, especialmente quando me tornei adolescente e ele passou a me levar junto. Daí desenvolvi o hábito de desenhar os diagramas oníricos: anotava os fragmentos de sonhos contados nas reuniões, marcava-os com uma notação numérica, e usava os números como referenciais em grandes esquemas que esboçava em cartolina. Os números eram ligados por setas e vetores e esses diagramas eram expostos nas paredes de um quarto vago da casa de meu pai, onde moro até hoje. Posso dizer que praticamente substituíram a necessidade de papel de parede ali – é provável que haja mofo debaixo dos esquemas presos à parede – às vezes em dias quentes um estranho odor domina o aposento, e *** é um lugar muito úmido – mas não consigo reunir disposição suficiente para retirar tudo e fazer uma limpeza.

        E de onde vinham as setas e vetores que ligavam os sonhos de tantos moradores do subúrbio de *** ? A princípio, a intuição e uma análise talvez grosseira me guiavam. Pequenos detalhes recebiam às vezes um peso maior do que similaridades óbvias. Com o tempo tornou-se complicado representar a diferença nos relacionamentos entre os diferentes sonhos, e passei a usar números para representar esse peso das flechas que ligavam os sonhos anotados nos cadernos guardados no mesmo aposento de cheiro mofado. Logo depois de ter experimentado isso, uma sensação de inadequação estética, de erro, me assaltou e removi toda a notação numérica dos próprios sonhos, substituindo-a por símbolos. Cada sonho agora recebia um sigilo desenhado tanto no diagrama quanto na anotação de caderno. Era aí que minha estranha intuição, que minha tia dizia ter sido herdada de minha mãe, agia com mais força: a escolha dos sigilos mal tocava minha mente consciente, era quase escrita automática – uma única relida na anotação, e o sigilo era imediatamente desenhado em seu cabeçalho e logo depois, com uma rapidez frenética, no diagrama onírico a ser exposto na parede.

        Os poucos de fora da família que chegaram a contemplar as paredes cheias de esquemas e símbolos geralmente deixavam-se arrastar por um longo fascínio e murmuravam curtos comentários às vezes sem nexo. Nenhum desses – quase todos colegas de escola – fazia parte dos grupos que organizavam os serões, embora eu tenha quase certeza de que notícia dos diagramas fora cair nos ouvidos de alguns participantes, que pararam de descrever sonhos em minha presença. Em geral, contudo, a rotina da troca de relatos continuava inalterada, fornecendo dados e dados que geravam mapas e mais mapas de sonhos e visões noturnas.

        Essas mandalas me tomavam mais tempo do que era conveniente, e embora meu pai de início enxergasse tudo com uma certa curiosidade e assombro, começou depois a fazer comentários sobre a inutilidade daquilo, sobre o caráter fantasioso da notação numérica e simbólica, culminando com sua ideia de me fazer morar fora, na cidade grande, para estudar em uma de suas universidades com mais facilidade (às vezes a viagem entre *** e sua cidade-hospedeira levava quase três horas, de ônibus). Essa mudança de atitude coincidiu com o gradual diminuição da frequência no comparecimento às reuniões de jardim. Cheguei a argumentar que um carro resolveria todos os problemas de transporte, e que eu era disciplinado o suficiente para acordar cedo todo dia, mas meu pai não quis nem ouvir falar disso. Ao contrário de vários de meus colegas, que receberam de presente um automóvel ao entrar na faculdade, eu tinha um pai que dificilmente cogitaria em gastar parte de suas economias que ele guardava para meu futuro (e sim, para numa casa na cidade) com um carro. E agora, minha mania, dependente dos serões de nossos vizinhos, no fim das contas dependente da própria ***, com certeza seria interrompida se ele não me desse mesmo carro nenhum – pronto, estava decidido.

        O pai pagaria as custas do aluguel de um apartamento enquanto fosse preciso. Bom, já devo ter mencionado que a coisa toda não durou mais de seis meses, não foi? Mas é preciso tanto agradecer quanto me arrepender desses seis meses e da teimosia do velho.





O que deveriam ter sido quatro anos, no mínimo, de permanência na cidade grande, me esperavam. Um pequeno apartamento quarto-e-sala no antigo centro da cidade, conseguido por intermédio de um dos raros amigos de minha tia, seria minha base sólida durante esses anos. Todos os meses meu pai me mandaria um dinheiro para pagamento do aluguel e demais despesas – eu não precisava, por enquanto, me preocupar em fazer bicos ou ter um emprego de meio período, porque meu pai fazia questão de assegurar que eu não usasse a eventual fadiga como argumento para fazê-lo voltar atrás.

        Tinha completado dezessete anos há poucos dias quando me instalei no dito apartamento, e a primeira noite que lá passei me deu a impressão de ser a pior noite da minha vida – embora eu não soubesse que era apenas o começo. Por uma fortuita combinação de proteção excessiva de minha tia e de um certo desinteresse inato pelas coisas fora de minha vizinhança, eu nunca havia dormido fora de ***. Já havia visitado a cidade grande, e já havia dormido na casa de amigos e até de uma ex-namorada, mas nunca de fato dormido fora do estranho subúrbio. E naquelas noites em meu novo lar conheci uma terrível mescla de liberdade e pavor.

        Custei a dormir.  Ou na verdade, custei a me dispor a dormir – a arrumação das coisas e mobílias demorou mais que eu imaginava, e depois de tudo eu ia e vinha pela casa, a cada instante notando pequenos detalhes que me passaram despercebidos durante o dia (teias de aranhas ocultas em cantos escuros, farelo de pão acumulado debaixo de uma das janelas, pregos nas paredes que talvez antes segurassem quadros, uma pilha de papéis amarelados aparentemente largada pelo inquilino anterior no fundo de uma gaveta, um esquisito e inédito cadáver de uma barata branca debaixo da cama). Por volta das duas da manhã finalmente me coloquei na cama, mas acho que só consegui dormir lá pelas três horas, já que antes fiquei me virando e revirando sozinho pela cama de casal.

        Ao contrário do que sempre acontecera até então nos meus períodos de sono em ***, consegui perceber o instante preciso em que adormeci – e só não cheguei a registrar a hora e minutos exatos, porque não deixo relógios nem celular ligados perto da cama. Meus olhos se fecharam e a escuridão resultante começou a tremular diante de mim.

        Comecei a andar no meio daquela massa informe de trevas, e o mais estranho é que ela parecia curiosamente gélida ao toque, e não fugaz e imaterial como todo aglomerado de escuridão. Era uma coisa entre gás denso e líquido viscoso.  Era possível não só sentir, mas ouvir bem alto, um ritmo de batidas regulares, que não vinham de nenhum ponto obscuro à distância, mas sim de mim mesmo – o ambiente tenebroso parecia responder a essas batidas, como um dedo constante e repetidamente perfurando a superfície de um lago, provocando ondas concêntricas.

        A diferença estava em que as emanações centradas em mim afetavam não uma superfície bidimensional, mas uma medonha zona de no mínimo três dimensões – algo me fazia desconfiar que o tempo se distorcia mais além, e só aquele ritmo constante que saía de mim fazia a escuridão se estabilizar num espaço em que eu pudesse me mover direito. E apesar de poder me movimentar, não tinha pista alguma de onde estava indo.

        Um vago e crescente horror começou lentamente a me assaltar – era de se estranhar que aquela sensação aterrorizante houvesse demorado tanto tempo naquele espaço onírico para se manifestar, pois pelo menos três minutos percebidos haviam transcorrido desde que meus olhos haviam se fechado, mas era como se minhas reações emocionais estivesse mais lentas, embora inevitáveis – e percebi, o que fez o horror aumentar exponencialmente, que me deixar levar por aquele surto gerava consequências … físicas, ou pelo menos físicas de acordo com a perspectiva do sonho.

        Meu medo se espalhava junto com as emanações que meu corpo emitia, provocando uma espécie de … não posso dizer terremoto,  já que não estava na terra … uma espécie de distúrbio espacial, um tremor psíquico que se expandia. E com o tremor minhas percepções iam junto, me fazendo conseguir sentir toda a escuridão que me envolvia. E a escuridão reagia. Ela se tornava mais densa, mais viscosa, mais enredante, e eu me sentia como se imerso num cipoal – tentáculos feitos de distorção e colapso se erguiam numa única onda que tentava rechaçar o meu próprio ser.

        Conforme minha percepção se espalhava pelo abismo ao meu redor, eu enxergava, ouvia – e pior, sentia o gosto e o odor – dos tentáculos que se agitavam à minha volta. Numa revolta rápida, a viscosidade sombria que originalmente me cercava foi despedaçada pelos tentáculos de espaço distorcido (eram como feridas no cosmos, ferimentos, rachaduras e fendas que se moviam num turbilhão intenso, pulsando de modo tão bizarro que revelavam uma estranha e anômala consciência). A escuridão foi assim rasgada, e eu caí num túnel de paredes circulares e espelhadas por uma longa eternidade, até ser despejado, gotejante como se coberto por um líquido amniótico, numa planície extensa que se espalhava até onde meus olhos conseguiam enxergar, onde atingia um horizonte malva.

        Quando tempo andei por essa planície vazia e esbranquiçada, meus pés pisando um chão indefinido e brumoso que cedia devagar se eu parasse muito tempo num só lugar? Não quis descobrir o que me aconteceria, ou onde cairia, se parasse para descansar, e errei pela planície de Thangar-Baru por vários e vários milênios … até que um inesperado meteoro cruzou o céu malva, uma estrela cadente que incendiava aquela atmosfera mórbida, e num estrondo atingiu Thangar-Baru, estilhaçando aquele domínio onírico e me fazendo acordar com um salto e correr sem pensar até a janela semiaberta.

        Depois de acalmar minha respiração, levei alguns minutos para perceber duas coisas: o relógio digital encimado num poste da rua indicava 01:01 – duas horas antes do horário em que adormeci – e, de onde havia tirado o nome Thangar-Baru?



O dia seguinte foi marcado por extremo cansaço. Eu conseguira adormecer normalmente, caindo num sono sem sonhos, depois daquilo, mas só por volta das cinco horas da manhã. Ou do que acho que seria as cinco da manhã. A princípio pensei que alguma coisa me fizera dormir mais de 24 horas seguidas, e ter acordado à uma hora significava ter dormido durante todo o dia – mas não era o caso. A data era a mesma (a madrugada de 23 de março), assim mostrava o relógio digital exposto lá fora. Estranhamente, meu celular estava desligado e assim não pude fazer uma noção muito clara se ele havia misteriosamente se atrasado e na realidade eu me atrapalhara e só havia achado que adormecera por volta das três da manhã. Ao ser religado, o celular havia perdido o registro de hora e data.

        Parecia que o celular não estava sozinho em seu problema, porque o único outro aparelho eletrônico que estava ligado na casa também estava desligado – um microsystem que estava em stand-by na sala. Esse não quis funcionar durante três dias, e como não tive tempo de levá-lo num técnico, por três dias ficou mudo até que ao voltar para casa na noite do dia 26 o aparelho estava ligado, e não houve explicação nenhuma de como isso havia acontecido.

        De qualquer forma, durante esses três dias, eu, que nunca sofri de pesadelos em toda minha vida, foi obrigado a uma alternância noturna de sonhos ruins e insônia. Aliás, não só noturna, já que qualquer cochilo que tentava durante o dia também invariavelmente terminava em frustração ou em viagens oníricas medonhas. O trajeto era mais ou menos o mesmo: a ondulação que se espalhava de mim mesmo, a batalha dos tentáculos contra a escuridão, o eventual fragor das trevas entrando em colapso e a queda quase eterna até ser expelido numa planície que eu tinha a certeza total e absoluta que se chamava – se chamava, não, como ela se chama, já que ainda está lá – Thangar-Baru.

        A perambulação naquele ermo branco e malva levava muito tempo dentro do sonho, até que algum incidente estranho a interrompia. Se da primeira vez houve a queda de um meteoro, da segunda vez encontrei um estranho poço que se erguia das brumas baixas e, ao observar suas profundezas, um jorro de chamas verdes se ergueu dele formando uma coluna que ia até o céu malva, e o clarão doentio me cegou de imediato, me obrigando a despertar. Da terceira vez, um enxame de pequenas coisas ia se aproximando bem lentamente, as minúsculas pernas articuladas frenéticas quase invisíveis na bruma branca. Tentei me afastar deles mas era inútil, acabei sendo alcançado e – é difícil descrever exatamente a sensação da coisa toda – devorado vivo por aquele enxame que não tinha fim, minha consciência se dispersando pelos corpos dos ínfimos e aberrantes seres. A horda de entidades híbridas entre crustáceo e aracnídeo, cada um deles com onze patas articuladas e assimétricas ao redor de um corpo revestido de uma quitina oleosa, marchou indiferente até a as bordas de Thangar-Baru e atravessou uma bizarra cortina intangível de cor malva … me fazendo acordar.

        Pois bem, se todo meu costume de pesadelos se restringia a relatos alheios, devem imaginar então o sofrimento dessas três noites de pesadelos bem fora do comum e além de qualquer estranhamento presente nos sonhos de ***. Essas três noites foram acompanhadas de três dias em que articulei as coisas de modo a me preparar para a universidade. Em nenhum deles almocei dentro de casa. Era compreensível: a casa estava me dando medo por causa dos pesadelos, e eu a evitava a não ser para dormir. Como consequência, a maioria das minhas coisas ficou bagunçada, o que ainda piorava a sensação de alheamento que sentia dentro daquele lugar. E naqueles três dias, só uma coisa me aliviou o cansaço provocado pelas providências a tomar e pelos estranhos e inesperados pesadelos.

        Essa coisa foi Anna.




Não vão achar ruim que chame uma mulher de “coisa.” Também não tem nada a ver com o conceito de mulher-objeto. Longe disso. Na verdade, como os leitores perceberão mais adiante, essa palavra faz total jus à moça que almoçava no mesmo restaurante que eu.

        Eu passava mais tempo naquele restaurante que somente tomando café e almoçando: antes e depois das refeições, fazia anotações em meu caderno, pondo no papel minhas impressões a respeito dos misteriosos pesadelos que estavam me acometendo. Pela primeira vez, eu tinha o ânimo de fazer a crônica dos meus próprios sonhos, e não os da vizinhança. Às vezes fazia tentativas de desenhar a planície branca e nebulosa onde sempre vagava, mas quase sempre esses garranchos e esboços eram inconclusivos. Thangar-Baru parecia altamente elusiva, indescritível.

        Também fazia esboços das coisas que experimentava nos sonhos, e delas extraía um sigilo correspondente. No segundo dia de almoço notei que uma moça que estava sentada numa das mesas próximas, no dia anterior, estava me observando com um mal-disfarçado interesse. Era uma ruiva de cabelos longos e levemente ondulados, olhos castanho-esverdeados, não muito alta. Sua expressão de sobrancelhas erguidas me exercia um certo fascínio, era como se ela emanasse uma aura que atraísse e ao mesmo tempo deixasse o atraído naquela zona liminar, próximo mas sem a coragem de se aproximar.

        E é claro, não tive a coragem de falar com ela. Nem teria exatamente o que falar. Provavelmente ela teria alguma razão, como eu tinha, de almoçar ali todos os dias (era tão prático e aconchegante), quem sabe mais tarde com a convivência visual eu chegasse a conseguir conversar com ela; e de qualquer forma eu me sentia exausto. Mas não foi preciso que um ritmo habitual se estabelecesse, porque no terceiro dia, quando eu desenhava as figuras daquela terrível e paciente horda de animais híbridos, Anna veio falar comigo.

        “Está na __________?” Falou ela por trás de meu ombro esquerdo, referindo-se à divisão de artes e design de uma das mais conceituadas academias da cidade. Interrompi o esboço e me virei para responder; de onde ela estava podia enxergar vários outros desenhos e sigilos e símbolos e até mesmo a leve tentativa de um novo diagrama onírico.

        Seu rosto era franco, mas o olhar era insidioso, com uma certa malícia. Mas não cheguei a hesitar. “Não, não, estou para entrar no curso de psicologia. Por quê?  Acha que isso aqui tem algum valor?”

        “Sem dúvida. Você parece não ter muita técnica, muita experiência, mas esses seus desenhos transmitem algo … melhor dizer que revelam alguma coisa. Não estou certa?”

        Agora sim eu hesitei. Dava até a impressão de que ela sabia alguma coisa, mas isso era impossível. Ou pelo menos eu achei que era impossível – o tempo provou que eu estava mais do que errado. Mas estou me adiantando. Antes que eu pudesse responder qualquer coisa (nem me lembro o que ia dizer), um tamborilar frenético de chuva sobre o toldo se fez ouvir, e um vento varreu a parte da frente do restaurante, derrubando vários dos meus papéis e nos obrigando a correr para catá-los com urgência.

        Depois que tudo foi salvo (ou o que achei que era tudo; depois, em casa, fiquei com a impressão de ter sumido um dos esboços), e nos movemos para a parte coberta por telhado do estabelecimento, a ruiva sorriu e fez um comentário: “Parece que vamos passar um bom tempo aqui.  Qual o seu nome?”




Ela não podia estar mais certa, porque a tempestade que se seguiu durou mais de três horas e soube depois que houve inundações em certas partes mais pobres da cidade. E daquelas horas de conversa surgiu o hábito de nos encontrarmos ali e palestrarmos durante mais tempo que era necessário para almoçar. Descobri que era mesmo uma artista plástica, estudando na mesma faculdade que eu (a mesma que ela mencionou para quebrar o gelo), e era seu primeiro semestre ali, mas não o primeiro semestre no curso.

        Parece que havia sido estudante de intercâmbio nos EUA, numa cidade de nome estranho em Massachusetts, chamada Arkham (o que tinha a ver com o fictício Asilo Arkham das histórias do Batman, não sei) e que estava atrasada, talvez por ter pego diversas matérias que à primeira vista nada tinham a ver com seu curso – de música, matemática e até de arqueologia. Dizia ser muito curiosa e dispersa: e na primeira vez em que fui em sua casa, cheguei a ver largada num canto a caixa de um remédio que sei que servia para um transtorno, distúrbio ou síndrome que mudou de nome várias vezes nos últimos anos. Num momento em que ela fora no banheiro, notei que a caixa estava cheia.

        Enquanto isso a rotina de encontros com Anna se somou à rotina da faculdade, que muito me interessou, até o máximo que permitia meu cansaço perene, porque havia uma terceira rotina, a dos pesadelos. Toda noite um episódio estranho acontecia em Thangar-Baru. Alguns deles se repetiam, mas não de modo idêntico. E Anna tinha um interesse ardente nesses meus sonhos – pedia detalhes, apreciava os esboços (embora eu escondesse dela alguns dos mais extravagantes ou que tivessem alguma semelhança com os diagramas que fazia na casa de meu pai). Um dia, não havia completado um mês de aulas, ela comentou que se eu só tinha esses sonhos no apartamento, então era porque o apartamento devia ser o culpado – e me chamou para dormir em sua casa.


Eu só havia estado nessa casa dela uma vez, antes. E ela nunca fora na minha própria casa. O convite parecia estranho, porque não estávamos namorando – tudo o que fazíamos era conversar, e fora o tom muitas vezes malicioso da voz de Anna, sua malícia se resumia à voz, aos olhos brilhantes e às vezes a maneira de caminhar, e nunca se expressava como sugestões verbais. Alguém poderia me dizer que isto já seria suficiente para determinar que ela estava emitindo sinais, mas é que ao mesmo tempo, durante aquele mês, é como se ela erguesse uma barreira invisível que desencorajasse qualquer aproximação maior. E de fato invisível e indefinível era essa barreira, porque ela estava longe de ser feia, desinteressante ou pouco inteligente. Pelo contrário, me dava a impressão de ser a mulher mais astuta que eu já conhecera. Até aí, a minha própria idade reduzida, de um calouro do lado de uma recém-chegada de aparentes 23 anos, podia ser a razão do fascínio misturado com aversão que sentia por ela.

        Não vi como recusar o convite. Na primeira vez em que estivera na casa onde ela morava sozinha, eu não passara da sala; só havíamos passado lá para ela pegar uns livros e ir ao toalete. Foi quando eu notara a caixinha de remédios. Alguma coisa me fez não mencionar que reparara na caixa, nem mesmo que mexera nela e a achara com todos os comprimidos no lugar. Agora as coisas eram diferentes: eu ia dormir na casa de Anna.

        O que chamava mais a atenção naquela sala não era a caixa de remédios que provavelmente não estaria mais lá, mas uma profusão de quadros de aparência bizarra. A maior parte deles era cubista ou medievalista, e não sei quais deles eram reproduções e quais eram genuínos. Um dos quadros chamava a atenção não por ser psicodélico ou arcaico, mas pelo realismo – se é que posso chamar de realismo uma representação de um ser tão grotesco, semi-humano com traços caninos. Naquele dia, quando perguntei quem era o autor daquilo – não deixava de ser uma obra de arte, embora das mais perturbadoras – ela disse que trouxera o quadro da sua temporada de intercâmbio, que o autor chamava-se Richard Pickman, que haviam pouquíssimas obras dele disponíveis, e que ela havia gasto quase todo o dinheiro sobressalente da viagem com essa e outras obras obscuras. Quem sabe depois ela me mostrasse as outras, acrescentou.

        Quem sabe o meu convívio com Anna me distraísse de alguma forma dos meus sonhos, porque embora eles não houvessem cessado, eu me sentia menos exausto nos dias em que a encontrava. Levando isso em conta, por estranhas que fossem essas e outras obras, não se comparavam com os horrores de meus sonhos; então, se a opinião dela fosse correta, não me custaria nada passar a noite perto das tais obras de arte – que, segundo ela, não se restringiam a quadros, havia também esculturas, fotografias, gravações musicais e livros raros. Ela se definia como uma apreciadora do exótico; mas eu, depois de ver apenas os quadros da sala, enxergava pouca coisa de exótico e mais de macabro.

        O que eu poderia definir talvez como no mínimo exótico era a escolha de lugar para morar. A casa, onde ela morava sozinha, havia sido anteriormente um prédio de apartamentos de três andares. Por alguma razão que ninguém comentava, o ex-dono do prédio mandara derrubar os dois andares superiores e toda a estrutura havia sido convertida numa casa de dois pisos. Quem prestasse atenção ao entrar na casa, como eu iria fazer, notava a simetria provocada pela antiga disposição dos quatro apartamentos por andar. No meio deles havia um poço, para o qual davam quatro janelas no primeiro piso e apenas três no segundo – a oitava janela havia sido emparedada, sabe-se lá por que motivo. Para quem morava num apartamento pequeno de bizarras discrepâncias no pé-direito, meio torto e mal estruturado, a casa deveria me confortar, mas não foi o caso: aquela simetria agia sobre mim como se as paredes da casa servissem como os muros de uma prisão, uma sensação vagamente claustrofóbica que nunca havia sentido antes num ambiente tão espaçoso.



Foi essa sensação que me arrebatou naquele fim de tarde em que Anna abriu a porta para que eu entrasse, com um sorriso mais malicioso do que o normal. Eu teria demorado mais um pouco observando melhor a fachada da casa – ela não estaria mal-colocada em ***, me causava uma certa nostalgia – mas sobreveio um temporal tão logo a dona da casa abriu a porta. Essas pancadas de chuva inesperadas estavam ficando cada vez mais comuns na cidade.

        Deu para perceber, logo de cara, que alguns dos quadros haviam sido trocados. Havia também uma novidade – umas caixas de papelão abertas no chão perto da mesa de mogno, e em cima da tal mesa, duas esculturas que não pareciam muito normais. Uma delas era uma coisa deformada em baixo-relevo, feita de argila; provocava arrepios ao ser contemplada, e o ser monstruoso cercado por uma escrita desconhecida parecia um cefaloide alado, tendo como pano de fundo uma cidade ancestral. Não chegou a me alterar muito o humor, contudo, porque havia a segunda escultura: uma tartaruga de marfim, finamente esculpida, de olhos quase vivos e casco detalhado. Peguei a tartaruguinha na mão e era tão linda e pitoresca, que o baixo-relevo perturbador deixava de ter qualquer importância.

        “Não se anime muito,” Anna interrompeu o meu devaneio com a escultura, “não é original. Ambas cópias muito bem-feitas, senão você não estaria aí com essa cara.  Quem as fez era um artista inspirado … tão inspirado quanto você, eu acho.”

        “Continua achando mesmo que sou um artista, não é?” Pus a tartaruga de volta à mesa e dei uma boa olhada ao redor: alguém havia feito uma bela faxina, os móveis estavam brilhando e não havia uma grama de poeira no chão. Mesmo assim, o jeito antisséptico do ambiente me incomodava. Se as paredes me lembravam, de leve, muros de prisão, o chão e próprio ar ao meu redor me davam a impressão de estar num hospital – dava quase para cheirar o éter. Devia ser algum produto de limpeza que eu não conhecia.

        “Pelo menos eu acho que vocês bebem das mesmas fontes.” O sorriso de Anna dessa vez foi até predatório, mas ela logo colocou-se numa postura relaxada e até sedutora, me fazendo cair a guarda de novo. “Foi um rapaz que conheci numa enevoada colônia de artistas durante o ano de intercâmbio. Para o seu conselho, dizia que artista não escolhe ser artista, só aceita o fardo. Quando fui embora, ele ficou me devendo e pagou com estas esculturas. Não foi a única coisa que trouxe de lá, mas depois lhe mostro. Minha casa não é um museu, pode ficar mais calmo, não precisa ficar assim, com essa cara. Sente aí que eu vou buscar alguma coisa para bebermos.”

        Enquanto ela sumia nos fundões da casa (Por que não tinha um bar na sala?  Do jeito que devia ter dinheiro, nada custava instalar um móvel assim … ou será que tinha uma adega em algum lugar?) pus a mochila com minhas coisas de lado, e tentei relaxar num dos sofás, mas não consegui. O arranjo das pinturas na parede, como mencionei, havia mudado; e a nova disposição parecia diabolicamente hipnótica, simetricamente sugestiva. Acabei levantando, e examinei boa parte dos quadros. Havia alguma coisa que me chamava a atenção naquilo tudo, e como era de meu costume, peguei o meu caderno de anotações na mochila, e copiei a disposição dos quadros nas três paredes em que eles estavam expostos.

        Parecia estar demorando demais, então eu cheguei a referenciar quais quadros estavam em cada posição … e como dos onze quadros exibidos, apenas dois tivessem o nome na parte inferior da moldura, desenhei sigilos abstratos e sintéticos para representar os outros nove; e acabou me dando na cabeça, depois que vi que ela estava demorando mesmo, de elaborar sigilos até mesmo para aqueles quadros que tinham nome.

        Era como se eu estivesse de volta a ***, só que em vez de relatos oníricos, eram imagens. Valeria a pena descrever esses quadros, ou citar seus nomes? Mas se estou dizendo que aquela simetria macabra me chamava mais a atenção que as próprias imagens?

        A única parede sem quadros estava tomada por uma enorme estante com alguns aparelhos eletrônicos, televisão e som, pela porta para o interior da casa e pelo sofá onde eu deveria estar sentado. Daquele sofá você teria uma visão abrangente dos quadros … e também de certas coisas na sala, que pareciam fazer parte da disposição simétrica em questão, a saber, dois candelabros antigos pendendo do teto, a porta da rua, dois tapetes de cor verde-musgo no chão e … o próprio sofá onde eu acabei finalmente me sentando.

        Não pude respirar nem três segundos naquele sofá, porque de dentro da casa veio o estardalhaço de uma garrafa quebrando.



Saí correndo, quase em pânico (todo o processo de observação do diagrama havia me deixado sensível naquele momento), na direção do som estilhaçante. Passei por um corredor com três portas e uma delas, a segunda, estava aberta. Era a cozinha. Ou na verdade uma das cozinhas da casa. Corri até ela, e o pânico deu lugar ao choque.

        Os fragmentos de vidro se espalhavam por todo o chão ladrilhado. Os maiores cacos concentravam-se ao redor e sobre uma enorme poça de líquido rubro. Levemente curvada na direção da poça, Anna segurava o pulso ferido, escorrendo um filete de sangue – e naquele instante tive a mórbida impressão de que todo aquele sangue derramado no chão viera daquele filete que pingava sobre a poça.

        Ela ergueu os olhos e esboçou um sorriso sem graça, ou quase. Parecia estar se divertindo e ao mesmo tempo resignada. E, junto com o sorriso, veio o cheiro inebriante do vinho derramado no chão.

        Era vinho tinto.

        Como eu não tinha sentido aquele cheiro tão forte ao chegar na soleira da porta, eu não sei, mas posso atribuir ao meu estado de nervos um tanto alterado, pressionado pelo cansaço e pela antecipação.

        Rapidamente eu a ajudei a se recompor e ela pediu ajuda para lavar o ferimento. Segundo ela, ao manusear a garrafa quebrada, a derrubou e um dos estilhaços, ao pular do chão, atingiu o seu pulso, quase na artéria. Por isso estava rindo, ela disse – era um riso nervoso, porque poderia ter sido muito pior.

        Lavamos o seu pulso num lavabo no fim do corredor, bastante perfumado, mas que não conseguia disfarçar de todo aquele odor de produto químico que havia sentido ao entrar na casa. Esse cheiro era indefinível: se você conseguir imaginar uma mistura de éter e água sanitária, terá conseguido chegar perto do onipresente cheiro daquela noite na casa de Anna.

        Depois de ter enfaixado com uma gaze o seu pulso, Anna voltou comigo à sala. Quando passamos pela porta da cozinha, vi aquela mancha vermelha no chão – o vinho derramado, que formava um padrão esquisito, não muito normal para uma poça de líquido derramado. Parecia mesmo que a poça havia se deslocado um pouco durante aqueles minutos em que estivemos no lavabo. “Não vamos limpar esse chão?” perguntei à dona da casa, antes de tomar qualquer iniciativa.

        “Não.  Estou cansada depois disso, deixa aí, usamos a outra cozinha se for preciso, perdi até a vontade de beber. Vamos para a sala.” Com um suspiro de alívio, ela pôs um braço em volta dos meus ombros, seu perfume cítrico enfim vencendo o cheiro esquisito da casa, e discretamente me guiou até o sofá da sala onde …

        … Onde eu havia deixado o diagrama recém-desenhado.



O olhar de Anna desceu até o papel mal-dobrado, parou por cerca de dez segundos, analisando com um certo cuidado, seguindo com um longo e profundo suspiro. Era como se ela estivesse só checando e confirmando. Permaneci calado, e minha anfitriã voltou aqueles olhos que antes eram quase verdes, mas que ali, sob a estranha iluminação de sua casa incomum, me davam quase a certeza de serem amarelados. Ela estendeu a mão que antes envolvia meus ombros e segurou meu rosto, dizendo:

        “Por quê você faz isso?  Que está procurando com isso?”

        A palma de sua mão estava levemente suada, e do lado esquerdo de sua testa eu podia ver uma pequena gota de suor, descendo vagarosamente. Até três minutos antes, mesmo com a agitação do acidente com a garrafa, ela não parecia estar suando assim – pelo contrário, sua pele sempre mostrou uma suavidade e impecabilidade fascinantes, que me davam a vontade de tocá-la. Pois bem, aquele toque era completamente diferente do que eu imaginava que seria. Úmido. Palpitante. Forçoso, invasivo.

        Tentei controlar meu próprio nervosismo – nunca mulher alguma me deixara tão agitado, tão perturbado; e se não fui exemplo de conquistador até então, namoros curtos e pequenos casos não me faltaram na juventude em ***.
        
        “Procurando? Que quer dizer?” Tentei erguer minha mão para segurar a cintura dela, de certa forma reagir àquela intimidade nova, mas não consegui. Era como se ela segurasse minhas rédeas, enquanto provocava com suas esporas maldosas – como aquela mão morna e suada, a postura firme e altiva de seu corpo, e seu olhar ao mesmo tempo sonolento e transfixo.

        A outra mão de Anna segurou o outro lado do meu rosto, ela se aproximou um ou dois centímetros, e exalou estas palavras: “O mapa. Você desenhou um mapa. Quem usa um mapa, quer encontrar algo, procura alguma coisa, tenta se localizar, achar uma razão para a existência, quer definir algo, trazer esse algo à realidade, não estar mais perdido – você estava perdido, meu querido?”

        Não consegui responder, mas dessa vez consegui pôr as mãos em volta da cintura dela. Era como se aquilo fosse uma confrontação: e confesso que estava perdendo. Os olhos da garota pareciam cada vez mais amarelados, quase dourados, sua boca carnuda abria e fechava durante suas falas, de um jeito que parecia estar mastigando algo invisível. Os dentes eram tão alvos, notei; sua cintura, tão gostosa de segurar, era como explorar um território ao mesmo tempo proibido e extremamente familiar … o que era aquela sensação?

        Ela continuou, e empurrou os quadris para a frente, “Quer se perder de novo, meu querido? Quer me penetrar de novo?” De novo? Eu podia não saber direito do que ela estava falando, mas a situação toda me fazia não querer maiores explicações, pelo menos não as verbais.




A boca de Anna era levemente salgada, um alvoroço tomou conta de mim enquanto a beijava. Era uma fome sendo saciada, e uma sensação martelante de estar caindo num precipício sem volta.

        Rapidamente estávamos sem roupa sobre o chão duro entre os dois tapetes. O pensamento paradoxal de familiaridade e proibição aumentava a cada carícia que trocávamos, a cada movimento de minha língua sobre os seios de Anna, a cada movimento de seus quadris sobre mim, quando subimos no sofá, fazendo sexo sobre o próprio diagrama que havia provocado aquele diálogo absurdo. Enquanto ela se contorcia sobre meu tronco, seu pescoço se esticava para trás num gesto de prazer, e a língua saía da boca, serpenteando malva … malva, pouco a pouco sua pele branca se tornou mais e mais da cor das brumas daquela planície que todas as noites eu visitava; num movimento violento ela se jogou no chão comigo por cima, atordoado, ainda a penetrando, e a realidade ao meu redor se desfez, eu caía de novo naqueles túneis de paredes espelhadas, só que dessa vez sentia estar absurdamente caindo para cima; a explosão de tentáculos apareceu ao redor de mim, e voltou ao meu corpo, sendo absorvida num espasmo involuntário.